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Approche de pré-dimensionnement d’un prototype de MRVDS [5]

Nombre des publications et des thèses relatives à la MRV

II. Théorie de la MRV Elémentaire et Méthodologie de Conception

II.4 Méthodologie de conception [3]

II.4.2. Approche de pré-dimensionnement d’un prototype de MRVDS [5]

A base que fundamenta esta tese é de cunho funcionalista, uma proposta que analisa a língua não como uma parametrização rígida e estável, mas como um conjunto sistêmico- funcional de alternativas que estão à disposição dos interlocutores no processo interativo (HALLIDAY, MATTHIESSEN, 2004). Nessa concepção teórica, levam-se em consideração não apenas os papéis ocupados pelas classes de palavras na estrutura da organização linguística maior, mas também o papel que a linguagem desempenha na vida dos indivíduos no processo interativo, seja ele oral seja escrito (HALLIDAY, 1973).

Trata-se de uma perspectiva que considera o processo interativo como uma atividade cooperativa e estruturada que necessita de, no mínimo, dois participantes que expressam propósitos e intenções, de forma a serem compreendidos pelo interlocutor (DIK, 1997). Segundo o autor, essa atividade é governada pelas regras que regem a constituição das expressões linguísticas, bem como pelas regras que regem os padrões de interação verbal.

Em geral, a interação se dá de forma direta (face a face), processo no qual, normalmente, falante e ouvinte “são tipicamente distintos um do outro, podendo, certamente, haver mais de um ouvinte, e estão, além disso, na mesma situação espaço-temporal” (Lyons, 1979, p. 290). Ela também pode ocorrer de forma indireta (por exemplo, entre autor e leitor, por meio do enunciado) e, nesse caso, além de os interlocutores não estarem na mesma situação espaço-temporal, as manifestações do ouvinte/leitor não terão resposta imediata como na interação face a face (EGGINS, 2010).

Seja dessa ou daquela forma, o uso funcional da linguagem está atrelado a três metafunções da linguagem, na visão funcionalista de Halliday (1973, 1978, 2004): (i) função ideacional, por meio da qual os interlocutores, para alcançar seus propósitos no ato interativo, incorporam na construção do enunciado suas experiências e seus conhecimentos de mundo; (ii) função interpessoal, por meio da qual o falante organiza suas expressões internas e pessoais, bem como as formas de interação social com outros participantes do discurso; (iii) função textual, por meio da qual a linguagem é organizada de forma tal a fazer sentido dentro do contexto de uso.

As postulações de Halliday (1973, 1978, 2004) encontram correspondência na proposta de Dik (1997), segundo a qual o usuário da língua, ao construir um enunciado, põe

em ação, naturalmente, as capacidades epistêmica, lógica, perceptual e social, e, dessa forma, consegue: a) produzir a partir de seus conhecimentos; b) buscar conhecimentos novos; c) usar a linguagem de forma adequada a cada situação discursiva.

Tudo isso é posto em prática na interação verbal (seja ela direta ou indireta), e é nela que se estabelece a referenciação textual (objeto de estudo deste trabalho), processo no qual um elemento linguístico (referente ou objeto de discurso) é introduzido e posteriormente retomado no texto, constituindo-se a cadeia referencial. Tanto as metafunções propostas por Halliday (1973, 1978, 2004), quanto as capacidades propostas por Dik (1997) ficam evidentes na configuração dessa teia, que, como lembra Jubran (2005, p. 219), é elaborada “pelos sujeitos, em um processo dinâmico e intersubjetivo, ancorado em práticas discursivas e cognitivas situadas social e culturalmente, bem como em negociações que se estabelecem no âmbito das relações interacionais”. A partir disso, entende-se que a referenciação é “um fenômeno que concerne simultaneamente à cognição e aos usos da linguagem em contexto e em sociedade” (MONDADA, 2005, p. 12).

Essa não é, entretanto, a única concepção do processo de referenciação. Segundo Mondada (2005, p. 11), alguns estudiosos o concebem “no interior de um modelo de correspondência entre as palavras do discurso e os objetos do mundo”, enquanto para outros, incluindo-se aí os de orientação funcionalista, a referenciação é um processo dinâmico, que se estabelece na interação entre os interlocutores, suscetível de se transformar no percurso dos desenvolvimentos discursivos.

Nessa direção, Cavalcante (2015, p. 371) – de certo modo retomando Mondada (2005) – diz que a análise da referência foi vista, por muitos anos, “como um processo de articulação entre segmentos textuais por via de retomada anafórica direta ou indireta”, mas que, atualmente, a tendência é abrigar cada vez mais a pragmática, mostrando que a recuperação dos referentes se dá muito mais por via inferencial do que por regras fixas e convencionais (KLEIBER, 1994). Essa proposta interessa especialmente para este estudo, que visa a verificar a organização dos elementos referenciais em textos destinados ao público infantil, um tipo textual dinâmico que, em geral, tem interlocutores hierarquicamente distintos: o falante/autor é um adulto e o ouvinte/leitor é uma criança20.

Sabe-se que, como aponta Koch (2005, p. 35), na interlocução, o falante “opera sobre o material linguístico que tem à sua disposição, realizando escolhas significativas para representar estados de coisas, com vista à concretização de sua proposta de sentido”, ou seja,

20 Para não multiplicar nomeações, neste trabalho o falante e o ouvinte, tratados no referencial teórico, serão

“as formas de referenciação, bem como os processos de remissão textual que se realizam por meio delas, constituem escolhas do sujeito em função de um querer-dizer”. Para que o processo de interação seja bem sucedido, o falante necessita construir a cadeia referencial com expressões linguísticas que reflitam as propriedades do referente e, consequentemente, o tornem acessível e identificável. Nesse sentido, Mondada (2005) mostra que o referente passa a ser visto não como um objeto do mundo, mas como um objeto de discurso, ou seja, um referente não é avaliado em termos de verdade ou de correspondência com o mundo real, mas é construído a partir das formulações discursivas dos interlocutores: “é no e pelo discurso que são postos, delimitados, desenvolvidos e transformados objetos de discurso que não preexistem a ele e que não têm uma estrutura fixa, mas que, ao contrário, emergem e se elaboram progressivamente na dinâmica discursiva” (MONDADA, 2001, p. 9)21. Isso quer

dizer que os objetos de discurso instaurados no enunciado não se esgotam, “mas se desenvolvem discursivamente categorizando ou recategorizando os objetos” (MARCUSCHI, 2001, p. 218).

Segundo Apothéloz e Reicher-Béguelin (1995, pp. 228-229), quando um referente, relacionado a qualquer prática social, é instaurado como objeto de discurso, a identidade dele torna-se produto de uma interação entre os interlocutores. Argumentando em favor de uma concepção construtivista da referência, os autores mostram que “os chamados objetos de discurso não preexistem naturalmente à atividade cognitiva e interativa dos interlocutores, mas devem ser concebidos como produtos – fundamentalmente culturais – desta atividade”22.

Isso significa que a escolha dos referentes que compõem o enunciado é condicionada tanto pelo contexto cultural quanto pelo contexto social, pois texto e contexto são indissociáveis, ou seja, o texto cria o contexto, bem como o contexto cria o texto, como sugere Halliday (1989).

Compreende-se, afinal, que os referentes são gerados, levando-se em consideração o contexto de produção. Uma vez postos no interior do discurso, os referentes são “conduzidos, retomados, identificados no texto, modificando-se à medida que o discurso se desenrola, por meio de estratégias específicas de referenciação” (JUBRAN, 2005, p. 220).

21 Texto original: [...] “c’est dans et par le discours que sont posés, délimités, développés et transformés des

objets de discours qui ne lui préexistent pas et qui n’ont pas une structure fixe, mais qui au contraire émergent et s’élaborent progressivement dans la dynamique discursive”.*

* As traduções desta tese são de responsabilidade da doutoranda.

22 Texto original: [...] “les dits objets-de-discours ne préexistent pas “naturellement” à l’activité cognitive et

interactive des sujets parlants, mais doivent être conçus comme les produits – fondamentalement culturels – de cette activité”.