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À la fin du contrat de travail

CHAPITRE 12 LES DOCUMENTS SOCIAUX

6. À la fin du contrat de travail

A dissertação de mestrado desenvolvida por Mara Guerrero (Pós-Graduação em PPGDança- UFBA, 2008 [52]) intitulada “Sobre as restrições compositivas implicadas na improvisação em dança”,

tem à improvisação em dança como objeto de estudo num primeiro plano; nela são citados os referentes do movimento, colocados em perspectiva histórico/geracional, e registradas as diversas vozes que refletem sobre este campo teórico. O centro das preocupações que motivam a pesquisa _______________

da autora gira em torno das chances que o improviso tem de ocorrer como tal. A autora observa que as restrições impostas pela permanência (quase onipresente) de hábitos adquiridos mascaram ou iludem ao improvisador à hora de produzir um material “sem rastros” (aparentes). Este tom inaugural, referido às limitadas possibilidades do improviso autenticamente acontecer, instaura uma advertência: encontrar-nos frente a um objeto de estudo hermético, cuja emergência depende de se encaixar no interstício de uma fenda.

O maior risco (parece nos dizer M. Guerrero) é “pecar de ingênuos”. A motivação que alimenta a continuidade do treinamento, na crença dele ser a garantia da espontaneidade, estaria na raiz do equivoco. As noções de “frescor”, se movimentar “sem resíduos”, “prontidão”, ou mesmo essa confiança da improvisação no “espontâneo”, são denunciadas uma a uma (desde uma banca ocupada por alguém que também participa deste ofício). Para abordar as questões que estabelecem as restrições em jogo, precisamos levar em conta que para M. Guerrero “improviso” é um ato que se define por oposição ao habituado: improvisar com repertórios de materiais conhecidos não seria exatamente improviso, apenas uma repetição.

Atuando como porta-voz das motivações comuns a grande parte dos improvisadores, Guerrero desconstrói o processo de chegada a um estado que consiga evoluir sem pré- condicionamentos: um território concebido como atmosfera de escolhas que renasçam limpidamente. Esta concepção tende a propor a improvisação como sinônimo de “des- habituação”, “des-aprendizado”.

Ir jogando fora os hábitos, contudo, não seria o âmago da questão: desde a perspectiva da autora, improvisar seria atualizar a experiência de se movimentar sem-hábitos condicionantes. A construção deste tipo de imaginário concebe o trânsito pelo imanente como espaço radical de libertação, como tempo radical para exercer as escolhas livres de “culturações”: um tempo/práxis onde não há lugar para marcas de hábitos (ou bem, onde estas marcas podem ser deletadas progressivamente).

O desafio lançado pelo habituado/restritivo se converte em trampolim para as múltiplas advertências de M. Guerrero: o improviso se opõe ao habituado, mas não pode sair da esfera dos hábitos; improvisa-se com eles, junto a eles, dentro deles, entre eles. Sair de um hábito, quebrá-lo,

é começar a formatar outro (e assim por diante). Esse seria o desafio, a armadilha. Para adentrarmos na dissertação (PPGDança-UFBA, 2008), citamos um segmento do Abstract:

O propósito desta dissertação é discutir algumas terminologias que indicam questões relativas às restrições implicadas em processos de improvisação. (...) há restrições inevitáveis incidindo sobre a improvisação, pois, não há como suprimir os hábitos. A experiência consolida hábitos, que são reorganizados constantemente, consciente e inconscientemente, de acordo com cada situação que nos é apresentada. (...) há um campo de possibilidades para a ocorrência da improvisação, que restringe as condições para sua composição, sob a incidência inevitável de hábitos. Podemos então dizer que a improvisação ocorre entre regularidades e divergências de regularidades, numa relação entre hábitos e contexto que se auto-organiza em tempo real. (GUERRERO, 2008, abstract da dissertação)

O paradoxo que levanta M. Guerrero (2008) pode se expressar da seguinte forma: quanto mais estabilizados os hábitos, menos espontaneidade emerge do processo evolutivo; contrariamente, quanto maior a diferença, mais instável torna-se o processo (o que favorece a mudança de hábito). Por causa disso, Mara Guerrero entende que existe um campo de possibilidades para a ocorrência da improvisação. Assim concebida, a questão do treino fica encostada entre a espada e a parede, pois aumentar o repertório de registros (entendidos pela autora como padronização de hábitos que se fixam) só consegue piorar as chances da “ocorrência” acontecer. Então: o que treinar? Segundo a nossa perspectiva, esta é a instigação mais interessante que M. Guerrero levanta para a discussão (essa seria a sua maior contribuição).

A autora pinta um “quadro diagnóstico” pouco promissor ao avaliar as tentativas que acompanham regularmente a prática do improviso (intensificar o treino, aumentar repertórios, disponibilizar os reflexos, desenhar dispositivos). Todas elas são, apesar do otimismo que as impulsiona, estratégias encaminhadas à perda de espontaneidade:

As mudanças ocorrem por inexperiências ou por acidentes factuais. A improvisação apenas se abre para essa possibilidade, visto que enfatiza a condição processual da dança. (...) Durante sua existência, todo sistema diminui a potencialidade e espontaneidade, minimizando a incidência do desejado frescor sobre a improvisação. Ou seja, quanto maior a experiência de um improvisador, maior a incidência de hábitos e menor a possibilidade de reação espontânea. A experiência pode auxiliar na ampliação do repertório de movimentos e atenção para a composição, e isso pode dar a impressão de uma maior espontaneidade, mas geralmente o que se nota, para quem conhece tal improvisador, é uma maior recorrência das mesmas lógicas compositivas, seja na organização do movimento, seja na organização da cena. (...) Os treinamentos evidenciam o inevitável fracasso de seus objetivos, pois partem da repetição, da inserção de regularidades e se valem da ampliação de repertório e não de reações espontâneas. (...) Mesmo onde não há prática de repetição de movimentos, há repetição de procedimentos que direcionam opções compositivas na relação entre ação e contexto. (GUERRERO, 2008, pag. 57 e 58)

Teríamos então, como panorama inicial: que a experiência em matéria de improviso joga em contra, que só por inexperiência ou colapso se acede ao desabituado, que a improvisação segue a lógica da entropia (em relação às potencialidades para uma mudança vital), que ser espontâneos não passa de uma ilusão (uma “brincadeira de mau gosto” jogada pelas aparências da linguagem), que os treinos só regularizam o seu antecipado fracasso.

O assunto “fantasma”, segundo entende M. Guerrero, gira em torno do erro estratégico de treinar repetições (repertoriar, estabilizar padrões, construir arcabouços de materiais pré- conhecidos). Além desse diagnóstico, outro dado que M. Guerrero introduz na citação (de suma importância) é que se os padrões de movimento são um conjunto de fixações que acabam em redundâncias, também os procedimentos operacionais (dispositivos) entram na lista do óbvio, do conhecido por frequentação durante os treinos. Resumindo: nem repertório de registros, nem dispositivos para dinamizar esses registros estão salvos discursivamente; todos se anulam sistematicamente por se repetir na ausência de genuína mudança de hábito.

Logo de apresentado esse panorama-base, a dissertação de Mara Guerrero experimenta uma curiosa mudança de perspectiva:

Mesmo o impulso inicial, gerador de instabilidade sobre os hábitos, pode ser reconhecido e regularizado em seu instante desestabilizador. Este reconhecimento de instabilidades se consolida em ‘hábitos de mudança de hábitos’ como prontidões adaptativas. (...) Desse modo, é necessário que as instabilidades sejam maximamente reconhecidas, para identificar momentos potenciais à mudança de hábitos, e consolidar um ‘repertório’ de hábitos de mudança de hábitos. Isso só é possível, neste grau de percepção, com treinos recorrentes. (...) Se a escolha está na busca pela variação de modos do corpo se mover é preciso ter amplo repertório de ações e sempre revisitar diversas possibilidades para que algumas de suas tendências não caiam no esmaecimento. Caso não haja essa prática acaba-se por incidir sempre nas mesmas tendências, deixando que os arranjos compositivos se organizem de forma regular, sem mudanças de hábitos: as supostas novidades. (...) As potenciais modificações de hábitos ocorrem em tempo-real, seja pelas: 1. associações por semelhança, 2. por contiguidade ou, 3. ação bruta. (GUERRERO, 2008, pag. 60 a 62).

A escrita de M. Guerrero se desloca entre extremos que operam provocações conceituais e metodológicas: agora repetir, repertoriar e assegurar regularmente o treino voltam a ser valores positivos. Então, qual seria a diferença com os tópicos antes denunciados? No fundo, a pesquisa consiste num “viés”, numa dobra direcionada sobre aquilo que deve ser treinado: a autora utiliza os velhos pressupostos para desviá-los em direção às possibilidades não-ingênuas de mudança de hábitos.

O que merece ser atendido, segundo M. Guerrero, são os instantes de desestabilização, das “prontidões adaptativas” que potenciem as mudanças de hábitos. Elas sim podem (e devem) ser estabilizadas logo após serem reconhecidas para construir outro tipo de repertório: um repertório de mudança-de-hábitos. Partindo de que as mudanças se tornam mais tarde novos hábitos estabilizados (evidentemente mais complexos e ambíguos), o que M. Guerrero propõe é um paradoxo procedimental: habituar-nos a mudar de hábitos (padrões de mudança de padrões; “repatterning”, em inglês). Estaríamos na “outra face da mesma moeda”; agora o que se repete são os padrões de “contra-repetição” (um paradoxo captado e adotado por M. Guerrero).

Um sistema que não fosse capaz de absorver situações de instabilidade acabaria ameaçando a própria estabilidade. Consequentemente, a lógica é a “tradicional”: trata-se de repassar e ampliar o repertório (agora de hábitos de mudança) por meio do treino regular e sistêmico. M. Guerrero descarta a postura que se opõe ao treinamento, pois com ela só se consegue que as aparentes novidades não sejam mais que uma recorrência de tendências não reconhecidas (uma “ideia emprestada” de Lisa Nelson).