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Das duas obras podemos observar como a questão do gênero pode colocar em movimento uma imagem da feição do poder escolar e seu objetivo de redenção da sociedade. De imediato, a prática redentora da educação aparece no texto como eminentemente masculina mesmo quando o seu objeto é a mulher. No entanto, o arranjo das palavras nas obras deixa entrever as fraturas desse poder do homem ao longo das respectivas narrativas.

Em O Ateneu percebemos essa contraposição bem no início do texto. Em oposição às senhoras inglesas que conduzia o externato, surgia “[...] O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, [que] enchia o império com o seu nome de pedagogo” (POMPEIA, 1981). Na contramão da irregularidade em que se apresentava os meninos do externato, alguns sorridentes e marotos, outros concentrados e aplicados, aparecia o Ateneu de Aristarco com “[...] a bela farda negra dos alunos, de botões dourados [...] de um militarismo brilhante, aparelhado para as campanhas da ciência e do bem” (POMPEIA, 1981). A postura viril de Aristarco proporcionava a visibilidade a esta orquestra de corpos muito bem afinada.

Da ritualização para a conclusão do personagem: a forma de o Ateneu gerir o corpo, a fala, os gestos faziam com que Sérgio recebesse “[...] tudo convictamente, como o texto da bíblia do dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sábias máximas do ensino redentor” (POMPEIA, 1981). Essa forma se alinhava à maneira pela qual Aristarco se apresentava para o novo aluno: “[...] Aristarco todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei [...] (POMPEIA, 1981).

A Normalista também traz essa feição masculina da instrução na imagem de um professor responsável por cuidar de suas discípulas. A única feição possível, na perspectiva apresentada, para produzir o progresso e a civilização: “Ao entrar o Berredo, houve um arrastar de pés, todas simularam levantar-se, e o ilustre preceptor sentou-se, na forma do louvável costume, passando a olhar na sala, vagarosamente, com bonomia paternal – tal um pastor d’ovelhas a velar o casto rebanho” (CAMINHA, 1982).

O Ateneu indica a redenção de uma infância amorfa e de inocência improdutiva que falava Aristarco, diretor do Ateneu.

- Pois, meu caro Sr. Sérgio, o amigo há de ter a bondade de ir ao cabelereiro deitar fora estes cachinhos... [...] o conselho era visivelmente salgado de censura. O diretor explicando a meu pai acrescentou com o risinho nasal que sabia fazer: ‘Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem no meu colégio...’ [...] – Corte e ofereça à mamãe, aconselhou com uma carícia [a esposa do diretor]; é a infância que ali fica, nos cabelos louros...” (POMPEIA, 1981).

João da Mata, em A Normalista, por sua vez, diz de uma infância feminina que somente a instrução escolar assentada nos princípios de racionalidade europeia poderia redimir de sua fraqueza original. As supostas fraquezas do mundo feminino também são colocadas como um dado na medida em que sugerem que mães e donas de casa perfeitas poderiam se fazer sem a intervenção autoritária de uma religiosa. Depreendemos que a instrução adequada atuaria no sentido de naturalizar certa condição social.

Queria a educação como nos colégios da Europa, segundo vira em certo pedagogista, onde as meninas desenvolvem-se física e moralmente como a rapaziada de calças, com uma rapidez admirável, tornando-se por fim excelentes mães de família, perfeitas donas de casa, sem a intervenção inquisitorial da Irmã de Caridade (CAMINHA, 1982).

A tematização da infância não é estranha aos enredos do romantismo que nasce na busca pela inocência natural da qual a criança parecia estar mais próxima, a partir da liberdade, sensibilidade e criatividade próprias dessa fase (ROSENFELD & GINSBURG, 1985).

No entanto, a redenção deveria ser complacente ou parecer ser sedutora,

- Mas o Sérgio é dos fortes, disse Aristarco, apoderando-se da palavra. Demais, o meu colégio é apenas maior que o lar doméstico. O amor não é precisamente o mesmo, mas os cuidados de vigilância são mais ativos. São as crianças os meus prediletos. Os meus esforços mais desvelados são para os pequenos. Se adoecem e a família está fora, não os confio a um correspondente... Trato-os aqui, em minha casa. Minha senhora é a enfermeira (POMPEIA, 1981).

Em A Normalista podemos ver:

Maria, muito séria, sem mover-se, ouvia com atenção, o olhar fixo nos olhos do Berredo, bebendo-lhe (sic) as palavras, admirando-o, adorando- o quase, como se visse nele um doutor em ciências, um sábio consumado, um grande espírito. [...] Decididamente era um talento, o Berredo! Gostava imenso de o ouvir falar, achava-o eloquente, claro, explícito,

capaz de prender um auditório ilustrado. Era a sua aula predileta, a de geografia, O Berredo tornava-a mais interessante ainda (CAMINHA, 1982).

O poder convence, seduz, atravessa o indivíduo e atribui a ele e apenas a ele, os motivos do seu fracasso. Produz o erro e a culpa. Colada nesse processo aparecem duas instituições encarnadas no diretor do Ateneu, segundo o narrador “Soldavam-se nele o educador e o empresário com uma perfeição rigorosa de acordo, dois lados da mesma medalha: opostos, mas justapostos” (POMPEIA, 1981). Em A Normalista, porém, percebemos um deslocamento da sedução para o indivíduo. Um empoderamento que não sabemos ter sido a intenção do narrador imprimir em seu texto. Mas, certamente acaba por fazê-lo quando constrói um cenário material completamente alinhado com o que a pedagogia moderna tinha de mais avançado ao descrever a sala de aula e que ganha força apenas quando o discurso do professor Berredo, como um pai, atravessa aqueles instrumentos.

Não se via um só mapa, uma só carta geográfica nas paredes, onde punham sombras escuras peles de animais selvagens colocadas por cima de vidraças que guardavam, intactos, aparelhos de química e física, redomas de vidro bojudas e reluzentes, velhas maquinas pneumáticas nunca servidas, pilhas elétricas de Bunsen, incompletas, sem amálgamas de zinco, os condutores pendentes num abandono glacial; coleções de minerais, numerados, em caixinhas, no fundo da sala, em prateleiras volantes... nenhum indício, porém, de esfera terrestre. [...] O Berredo [porém] tinha um excelente método de ensino, sabia atrair a atenção de suas alunas com descrições pitorescas e pilhérias encaixadas a jeito no fio do discurso (CAMINHA, 1982).

É no discurso bem colocado que está toda a força de atração da aula de Berredo. Ao aconselhar suas alunas a se exercitarem na leitura de obras de cunho científico volta a sua atenção para a prática da leitura e da narrativa:

Eu estou certo, - dizia o Berredo, convicto, - de que as senhoras não leem livros obscenos, mas refiro-me a esses romances sentimentais que as moças geralmente gostam de ler, umas historiazinhas fúteis de amores galantes, que não significam absolutamente cousa alguma. [...] – Nada! As moças devem ler somente o grande Júlio Verne, o propagandista das ciências. Comprem a Viagem ao centro da terra, Os filhos do capitão

Grant e tantos outros romances úteis, e encontrarão neles alta soma de

ensinamentos valiosos, de conhecimentos práticos [...] (CAMINHA, 1982).

Práticas, cujas habilidades, muito próprias daquilo que se considerava como mundo masculino naquele momento, seriam eficazes na redenção de certas infâncias. Entre elas, a

capacidade de ler romances que ensejariam certos conhecimentos práticos em seu discurso e que se aproveitariam na cotidianidade da vida.

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