claro que me caberia a responsabilidade pelos aspetos plásticos, formais, materiais e construtivos e que toda a conceção tecnológica, eletrónica, computacional e informática caberia ao Rui Gaspar.
Decisões Iniciais
Era importante, nesta fase inicial em que o conceito está estabelecido e os traços gerais de funcionamento do artefacto quase definidos, conceber, ainda que em esboço, a gama de materiais a usar, pois, da integração desses elementos com a tecnologia dependia a exequibilidade da obra. Começámos por efetuar diligências nesse sentido. A ambição era construir uma árvore com alguma fidelidade a uma árvore real, como representamos na imagem inicial (Figura 50); para iniciar a pesquisa de materiais e orçamentos era necessário dar, definitivamente, resposta a estas questões prioritárias como estas:
• Tronco – deveria assemelhar-se a um tronco real, ser fiel na textura e na cor.
• Frutos — deveria manter-se a configuração esférica e imaginamos pequenas folhas verdes
que facilitassem a associação ao fruto real.• Altura – devia situar-se num limite de altura semelhante a uma média de alturas de
crianças em idade escolar, até ao 3º ano do 1º ciclo (cerca de um metro de altura) altura que permitia igualmente ao adulto utilizar o artefacto com naturalidade.Conforme fomos avançando no projeto e como adiante mostrarei, algumas destas hipóteses não se concretizaram, tendo havido, após o primeiro momento de reflexão e reverberação, uma reformulação da questão estética.
2.3.2. Metodologia de trabalho
Os momentos de reflexão e discussão abertos e transparentes entre os dois autores foram cruciais no desenvolvimento do trabalho e no sucesso das várias etapas. O material que serviria de invólucro a toda esta tecnologia condicionava o seu próprio desenvolvimento e conceção de cada um dos componentes por isso era fundamental haver uma perfeita sincronização para obtermos os melhores resultados. Enquanto desenvolvíamos uma fase, estávamos a antecipar a seguinte, que
estava, obviamente, implícita na anterior, numa sequenciação que conseguimos realizar do melhor modo que nos era possível, apesar das distâncias e prazo apertado.
Ao longo do processo houve alguns momentos em que foi necessário reduzir a velocidade de trabalho para ser possível progredir em conjunto. Nem todas as etapas eram autónomas, algumas dependiam do trabalho do outro para serem desenvolvidas. Damos como exemplo o momento de testagem do módulo infravermelhos e da luz de cada fruto – não era possível testar a tecnologia sem estar concluída uma esfera do protótipo, um fruto, realizado com todos os materiais finais. No momento em que realizamos estas experiências e testagens, sabíamos que o caminho estava trilhado e que, ainda que algo não corresse tão bem, dificilmente deixaríamos o projeto inacabado. Aconteceu precisamente o invés, os testes revelaram-se um sucesso e continuamos em frente, descobrindo aquilo que o próprio artefacto nos podia oferecer.
Não é possível estabelecer com precisão a quem se deve cada uma das pequenas ideias que, em conjunto, resultaram neste artefacto. Cada dia que passou, desde o advento da primeira conversa, até ao momento em que decidimos fazer um intervalo na exposição/intervenção da Arbor, foi fértil a troca de impressões que, invariavelmente, se organizavam e que é possível categorizar deste modo:
deteção de problemas, procura de soluções, hipóteses, concretizações, implementações, testagens, reverberação re-avaliação do problema
procura de nova solução
re-testagem
Retomando o esquema já referido na Introdução, (Marcos, 2017: 155), que instancia o processo criativo em Média-Arte Digital, construí um modelo específico, adaptado à experiência Arbor (Figura 53). Este modelo reflete todos os instantes, desde a ideia ao momento de conclusão da obra, aqui refenciado como o momento em que, após todos os testes efetuados, a obra adquire a forma final e é exposta. A tridimensionalidade deste modelo justifica-se, para além da correlação com a própria tridimensionalidade do artefacto, na dimensão temporal que subjaz a todo o
processo; de facto, embora cada uma das etapas não seja estanque, pelo contrário, sã o fases abertas e dinâmicas, existe um caminho percorrido ao longo de um determinado período, sequencialmente, ainda que com avanços e recuos. Justificam-se ainda as camadas sobrepostas cada vez mais pequenas, já que em cada uma, alguma coisa vai ficando pelo caminho, estreitando, no sentido vertical, em direção ao foco, que é o artefacto.
Figura 53 - O processo criativo em Arbor (adaptação do modelo The creative cycle in digital (computer) art (Marcos, 2017:155)
O modelo recriado parte da assunção de uma ideia pré-existente que foi ponto de partida. Esta ideia foi trabalhada na sua fase mais remota, inicial, particularmente com a realização de testes, de modo a obter respostas para a manutenção da ideia e eventual afinação do conceito. Na realidade, aconteceu que a ideia inicial em termos de forma e materiais foi alterada em consequência do primeiro momento de análise e reverberação.
O diagrama seguinte (Figura 54) mostra que poderão existir divergências entre o conceito inicial e a obra acabada por força dos momentos de reverberação decorridos ao longo do processo. No caso da Arbor não houve alteração do conceito germinal.
Figura 54 - Modelo divergente partindo do anterior
Desenho da mensagem:
O primeiro momento foi o surgimento da ideia, baseada numa obra existente. Foi necessário testar a tecnologia desde o primeiro momento para confirmar as hipóteses colocadas e que se referiam ao funcionamento de sensores de proximidade e a sua relação com o poliestireno – a confirmar-se a relação, o conceito poderia definir-se. Em termos formais, havia já uma aproximação àquilo que seria a forma final, indefinida, carecendo ainda de representações e testes.
Desenho da Narrativa:
Confirmado o conceito, a materialização inicial foi realizada em desenhos e esboços, executados em etapas de síntese até atingir uma correta representação da mensagem e intencionalidade da obra. Como modo de aprofundar e perspetivar a forma e ainda estimar materiais, foram construídas maquetes, da escultura e dos componentes eletrónicos. Uma vez confirmada a tecnologia a aplicar, era possível concluir o desenho da narrativa.
Desenho da Experiência:
As duas fases anteriores foram determinantes para este momento, pois foi com base nelas se definiu a experiência humana que efetivamente era pretendida proporcionar ao utilizador.
Foi avaliada a importância do ambiente em termos de iluminação e todos os aspetos relacionados com a forma final do artefacto. Altura, largura, posição relativa dos diversos elementos; os materiais de revestimento e que estão mais expostos à ação humana; a sensibilidade dos sensores, a perceção; a relação com o corpo humano num todo, altura da mão, mobilidade. Todos estes aspetos contribuíram para definir os meios disponíveis para proporcionar a experiência. Depois de analisados, teve lugar a reformulação ligeira da forma inicial e de maior monta em termos de tecnologia, no que toca à fixação do sensor nos frutos, não visível do exterior.
Meditação Estética:
Ao longo deste percurso foi discutida a questão estética da obra, com algumas pausas para refletir. Como referi, o primeiro momento de pausa teve consequências a nível do aspeto material de revestimento.
A imprevisibilidade foi uma constante, essencialmente devida à conjugação do material escultórico com os componentes eletrónicos e computacionais. Por outro lado, a dimensão e a originalidade da obra eram fatores de peso nessa imprevisibilidade, embora a maquete e a obra seminal trouxessem já alguma garantia. Para resolver os imponderáveis, foi necessária flexibilidade e destreza. Uma vez que a fase de testes decorre até tarde na construção do objeto, é notório ainda um momento de reverberação e reformulação já posteriormente ao último teste/1ª experiência.
De acordo com o autor do modelo que serviu de base a este, a meditação estética é constituída por dois vetores, a apreensão estética e a inovação tecnológica (Marcos, 2012: 140).
Apreensão estética:
São de enorme importância os materiais utilizados na construção do artefacto; na verdade, o latão e a malha branca com letras pretas que forra o poliestireno eram os dois elementos responsáveis pela primeira leitura que o utilizador/fruidor faz da obra, a configuração do display 1. As caraterísticas mais destacadas seriam as das esferas, tais como cor, textura, dimensão, forma, repetição, ritmo. “The aesthetic
dimension here is exclusively related to the perceptual nature of the various components of the artefact.” (Marcos, 2017: 156). A figura seguinte apresenta uma
Os materiais que tínhamos equacionado inicialmente, não resolviam as questões de ordem estética (Figura 55).
Figura 55 - Alteração estética condicionada pelos materiais
Inovação Tecnológica:
O processo de integração da tecnologia no artefacto foi aquele que obrigou a mais momentos de meditação uma vez que todos os componentes teriam de ser dissimulados de modo a obter o efeito estético pretendido. Por outro lado, a inovação que estava patente a nível de sensores, obrigou a um esforço maior para obter os resultados lumínicos desejados, a camuflagem, uma correta integração (Figura 56).
Figura 56 - Experiência condicionadora da funcionalidade do artefacto (primeira experiência com sens or, poliestireno e revestimento)
Depois das primeiras experiências pelo público140, dá-se a revisitação ao conceito da obra com a finalidade de estudar e eventualmente alterar alguns pormenores de ordem tecnológica,
140 As primeiras experiências decorreram com amigos, de diversas idades e alturas, que acompanharam o evoluir do trabalho, e a quem solicitámos a colaboração.
estética e funcional. Felizmente, na maior parte do percurso, os pressupostos dos autores efetivaram-se.
Aquela que tinha sido a ideia germinal com que descrevemos o conceito para a sua primeira apresentação, veio a sofrer, essencialmente na forma, algumas alterações, que se revelaram terem sido as melhores soluções (Figura 57). Existe uma diferença substancial em termos da dimensão do ecrã de projeção (não exequível por questões orçamentais) e da base; esta ideia inicial foi subsituída por outra, mais consistente e harmoniosa em termos de forma.
Figura 57 - Ideia seminal e a instalação Arbor
Findos os testes com sucesso, passámos à fase de produção, não descurando continua e persistentemente os processos de reflexão, de análise crítica, de correção.
Apresento, de seguida, cada uma das fases pelas quais passou a construção da Arbor.