Os resultados obtidos para as concentrações dos metais Cd e Cr em T. recurvata ficaram abaixo do limite de quantificação (LQ) do equipamento. Para os demais metais, foram considerados apenas os valores obtidos acima do limite de detecção (LD) calculado, apresentado no Apêndice B. No Apêndice C estão as concentrações obtidas para cada leitura de cada amostra.
Na Tabela 16, estão resumidos os resultados das concentrações dos metais Fe, Cu, Zn e Pb em T. recurvata coletados nos cinco pontos de amostragem, nas três campanhas realizadas.
Na análise da concentração de Fe, observou-se que o ponto P1, classificado com alto tráfego de veículos, apresentou a maior média, diferente da média de todos os outros pontos de amostragem (Figura 12A). Os pontos de amostragem P2 e P3 apresentaram média igual, assim como os pontos P4 e P5. O mesmo resultado estatístico foi observado para o Zn (Figura 13A): a média obtida no ponto P1 foi a maior, a qual difere da média obtida nos demais pontos. A média do ponto P2 não difere da média obtida no ponto P3 e a média do ponto P4 não difere da média obtida no ponto P5.
Para os metais Cu (Figura 12B) e Pb (Figura 13B), observou-se a mesma tendência: os pontos P1, P4 e P5 apresentam média diferente de todos os pontos de amostragem e os pontos P2 e P3 não diferiram entre si.
Tabela 16 – Média (µg.g-1
PS) e desvio padrão (DP) das concentrações de metais quantificados em T. recurvata nos cinco pontos de amostragem, classificados de acordo com o tráfego de veículos em P1 e P2 com alto tráfego, P3 com moderado tráfego e P4 e P5 com baixo tráfego
Parâmetro N P1 P2 P3 P4 P5 Kruskal- Wallis (H) p-valor para α = 0,05
Média ± DP Média ± DP Média ± DP Média ± DP Média ± DP
1 Fe 81 7.650,19 ± 2.708,01a 3.640,25 ± 1.374,54b 3.820,30 ± 891,83b 2.119,79 ± 507,36c, d 2.299,32 ± 901,36c, d 266,38 0,000 1 Cu 81 219,43 ± 65,82a 133,99 ± 56,47b 132,71 ± 20,45b 101,98 ± 25,90c 84,19 ± 21,55d 225,01 0,000 1 Zn 81 364,22 ± 107,80a 291,16 ± 215,80b 194,75 ± 48,62b 118,26 ± 108,34c, d 117,53 ± 67,63c, d 238,91 0,000 1 Pb 81 43,99 ± 12,83a 25,33 ± 9,37b 23,12 ± 6,85b 14,20 ± 3,27c 19,12 ± 5,45d 241,02 0,000
Valores seguidos de letras diferentes na mesma linha indicam diferença significativa pelo teste não paramétrico de Kruskal-Wallis (H)
1
A média e o desvio-padrão foram calculados considerando os resultados obtidos nas três campanhas de coleta N = número de amostras avaliadas em cada ponto de amostragem em todo o estudo
Figura 12 - Gráfico tipo “box-plot” relacionando valor médio (mean), desvio-padrão (SD) e erro padrão (SE) para os dados da concentração de Fe (A) e concentração de Cu (B) obtidos nos cinco pontos de amostragem, classificados de acordo com o tráfego de veículos em P1 e P2 com alto tráfego, P3 com moderado tráfego e P4 e P5 com baixo tráfego
Figura 13 - Gráfico tipo “box-plot” relacionando valor médio (mean), desvio-padrão (SD) e erro padrão (SE) para os dados da concentração de Zn (A) e concentração de Pb (B) obtidos nos cinco pontos de amostragem, classificados de acordo com o tráfego de veículos em P1 e P2 com alto tráfego, P3 com moderado tráfego e P4 e P5 com baixo tráfego
Analisando os resultados obtidos para as análises de metal por coleta (coleta 1 = C1, coleta 2 = C2 e coleta 3 = C3) observa-se que: o ponto P1, nas três coletas realizadas, não se agrupa a nenhum outro ponto de amostragem. O P2 se agrupa ao P3 e o P4 se agrupa ao P5 (Figura 14). Desta forma, os resultados obtidos permitem ordenar os pontos de amostragem relacionando o tráfego de veículos e a bioacumulação de metais em: P1 > P2 = P3 > P4 = P5.
A B
Figura 14 - Análise multivariada de conglomerados relacionando as similaridades e diferenças entre as campanhas de coleta para os resultados obtidos nas análises de metais quantificados em T. recurvata nos cinco pontos de amostragem, classificados de acordo com o tráfego de veículos em P1 e P2 com alto tráfego, P3 com moderado tráfego e P4 e P5 com baixo tráfego. Diagrama para 15 variáveis – ligação única – menor distância Euclidiana. P = ponto de amostragem e C = campanha de coleta
Na Tabela 17 estão relacionados os coeficientes de correlação de Spearman considerando os parâmetros morfofisiológicos e as concentrações de metais analisados nos cinco pontos de amostragem. Os valores destacados em vermelho apresentam correlação significativa para p < 0,05. A escala de referência considerada foi: 0 ≤ r < |0,3| correlação fraca, |0,3| ≤ r < |0,6| correlação moderada e r ≥ |0,6| correlação forte. As correlações fortes estão destacadas em cinza.
Tabela 17 – Coeficiente de correlação de Spearman (p < 0,05) entre os parâmetros morfofisiológicos e as concentrações de metais analisados em T. recurvata nos cinco pontos de amostragem, classificados de acordo com o tráfego de veículos em P1 e P2 com alto tráfego, P3 com moderado tráfego e P4 e P5 com baixo tráfego
Análise de correlação entre os parâmetros morfofisiológicos e as concentrações de metais – Ponto P1
EEE AEF IE AF PS/PF Clorofila (a+b)
Fe -0,02 -0,02 0,02 -0,02 0,10 0,02
Cu 0,11 -0,22 0,22 0,05 0,35 0,07
Zn 0,02 -0,09 0,09 -0,03 0,16 0,04
Pb 0,09 0,01 -0,01 0,15 0,21 -0,27
Análise de correlação entre os parâmetros morfofisiológicos e as concentrações de metais – Ponto P2
EEE AEF IE AF PS/PF Clorofila (a+b)
Fe -0,16 0,06 -0,06 -0,06 -0,03 0,09
Cu 0,04 -0,22 0,22 -0,18 0,31 -0,39
Zn 0,08 -0,11 0,11 0,01 0,14 -0,12
Pb 0,14 0,02 -0,02 -0,13 0,15 -0,30
Análise de correlação entre os parâmetros morfofisiológicos e as concentrações de metais – Ponto P3
EEE AEF IE AF PS/PF Clorofila (a+b)
Fe 0,09 0,13 -0,13 -0,11 -0,11 -0,46
Cu -0,00 0,07 -0,07 0,00 -0,03 -0,34
Zn 0,11 0,00 -0,00 -0,19 0,03 -0,40
Pb 0,10 0,02 -0,02 -0,20 -0,04 -0,60
Análise de correlação entre os parâmetros morfofisiológicos e as concentrações de metais – Ponto P4
EEE AEF IE AF PS/PF Clorofila (a+b)
Fe -0,04 0,03 -0,03 0,10 0,08 -0,38
Cu -0,35 -0,37 0,37 0,08 0,34 0,11
Zn -0,06 -0,29 0,29 0,09 0,23 -0,13
Pb 0,01 -0,21 0,21 -0,06 0,30 -0,28
Análise de correlação entre os parâmetros morfofisiológicos e as concentrações de metais – Ponto P5
EEE AEF IE AF PS/PF Clorofila (a+b)
Fe 0,01 -0,27 0,27 0,10 0,31 -0,29
Cu -0,01 0,17 -0,17 0,03 -0,12 0,52
Zn 0,14 0,14 -0,14 0,18 -0,18 -0,14
Pb 0,10 -0,14 0,14 0,11 0,16 -0,03
EEE = espessura epiderme externa; AEF = área específica foliar; IE = índice de esclerofilia; AF = área foliar; PS/PF = proporção peso seco/peso fresco.
Com base no resultado obtido pelo teste estatístico de correlação de Spearman, não se observa uma correlação forte e positiva entre as concentrações dos metais estudados (Cu, Fe, Zn e Pb) e os parâmetros morfofisiológicos analisados nos cinco pontos de amostragem. O cobre (Cu) apresentou correlação moderada e positiva com a variável morfofisiológica PS/PF em três pontos de amostragem (P1, P2 e P4). No ponto P4, Pb demonstrou correlação forte e negativa com a variável Clorofila (a+b).
6 DISCUSSÃO
Tillandsia recurvata demonstrou ser uma espécie bem distribuída ao longo das áreas estudadas e de fácil amostragem, indicando que a população é estável para monitoramentos de longa duração. Tal estabilidade se deve às características morfofisiológicas adquiridas ao longo de sua evolução. Importante destacar ainda, a sua propagação, que ocorre por brotamento ou pela disseminação de suas sementes, as quais, de acordo com Claver; Alaniz; Caldiz (1983), Bartoli et al. (1993) e Caldiz et al. (1993), ocorrem em numerosa quantidade e, por apresentarem plumas que se desenvolvem externamente, podem ser dispersas pelo vento, permitindo a colonização de novas áreas.
A estrutura interna da folha de T. recurvata apresenta uma organização simples: possui numerosas células de parênquima aquífero, responsáveis pelo acúmulo e armazenamento de água, distribuídas por todo o mesofilo, assim como as células do parênquima clorofiliano, responsáveis pela fotossíntese, e os feixes vasculares. Seus estômatos, posicionados levemente abaixo das demais células epidérmicas, encontram-se recobertos pelas escamas, que os protegem da incidência direta dos raios solares, o que evita a perda excessiva de água. Além disso, T. recurvata possui o metabolismo ácido das crassuláceas (CAM), o que auxilia a manter um estado hídrico favorável, uma vez que através desta via fotossintética especializada, a planta consegue minimizar a evaporação de água pelo fechamento dos estômatos durante o dia e abertura durante a noite, permitindo assim, a entrada de gás carbônico e uma reduzida perda de água.
A análise da organização estrutural da folha de T. recurvata evidenciou que não há alteração da estrutura interna entre os indivíduos coletados nos cinco pontos de amostragem, caracterizados por diferenças no tráfego veicular, indicando que a planta consegue sobreviver às condições diversas de um ambiente urbano e que as características da sua morfologia externa contribuem para isso.
A camada de células epidérmicas das folhas de T. recurvata é compacta e possui em média 1,98 µm, o que, de acordo com Vasconcelos (2013), pode ser visto como uma estratégia para evitar a transpiração excessiva, assim como um suporte mecânico contra a ação dos ventos. A camada epidémica impede a variação da temperatura interna, o que reduz a evaporação de água dos tecidos e evita o
colapso das células pelo murchamento. De acordo com Segecin e Scatena (2004), esta característica é observada em espécies de Tillandsia em regiões onde a ação dos ventos e a insolação estão presentes.
Outro parâmetro que tem relação com a minimização da perda de água por evapotranspiração é o índice de esclerofilia. Os resultados obtidos não demonstraram diferença significativa entre as médias obtidas nos diferentes pontos de coleta: em todos os pontos os indivíduos de T. recurvata apresentaram índice de esclerofilia inferior a 0,6 g.cm-2. Segundo Rizzini (1976), folhas cujo índice de esclerofilia é menor do que 0,6 g.cm-2 são consideradas mesófilas, o que indica que T. recurvata é capaz de sobreviver em ambientes com múltiplos estresses atuantes.
Para a área foliar, apesar de haver diferença significativa na média entre os pontos de coleta, não foi possível observar uma tendência de associação dos resultados com o tráfego de veículos e concentrações de metais. Tanto a maior área foliar (0,37 cm²) quanto a menor (0,28 cm²) foram registradas nos pontos classificados com alto tráfego de veículos, os quais registraram as maiores concentrações de metais. Esses resultados indicam que T. recurvata não exibiu alteração na área foliar em decorrência da poluição veicular. Ainda, as médias de área específica foliar não demonstraram diferença significativa entre os pontos de coleta, o que indica que também não foram influenciadas por diferenças no tráfego de veículos entre os pontos de coleta. Segundo Boeger e Wisniewski (2003), plantas com folhas espessas e área foliar reduzida conseguem reter água, diminuindo assim a transpiração, o que pode ser uma adaptação a ambientes com múltiplos estresses atuantes.
O teor de clorofila (a+b) foi maior nos pontos de coleta com alto tráfego de
veículos, 1,12 mmol.mg-1 e 1,27 mmol.mg-1, no ponto P1 e ponto P2, respectivamente, porém não houve correlação entre o teor de clorofila e demais parâmetros mensurados nessa pesquisa. Este resultado difere do relatado por Godoi et al. (2010) ao constarem que, quanto maior a concentração de BTEX, menor foi o teor de clorofila total nas folhas de Tillandsia stricta quando exposta à poluição veicular em diferentes regiões da cidade de Curitiba.
Balasooriya et al. (2009) citam que os resultados obtidos para clorofila podem ser influenciados por vários fatores, dentre eles, disponibilidade de água, nutrientes, temperatura do ar e luminosidade. Os resultados obtidos por esses autores são similares aos da presente pesquisa, uma vez que o teor de clorofila na folha de
Tillandsia officinalis apresentou baixo potencial bioindicador entre as diferentes classes de uso da terra na cidade de Gent, na Bélgica.
As raízes de T. recurvata possuem apenas a função de fixá-la aos mais diversos substratos, como forófitos, cabos da rede de energia elétrica, antenas parabólicas, grades de canchas de esportes, entre outros, sendo desprovida da capacidade de absorção de água e nutrientes (CLAVER; ALANIZ; CALDIZ, 1983; MANETTI; DELAPORTE; LAVERDE-JÚNIOR, 2009; WESTER; ZOTZ, 2010; RECINAS; GUZMAN, 2012). Para a absorção de água e nutrientes, T. recurvata apresenta ambas as faces da epiderme de suas folhas recoberta por escamas absorventes, obtendo-os diretamente da atmosfera, sem manter dependência do solo. Dessa forma, T. recurvata é influenciada pela alteração da qualidade do ar, uma vez que, o acréscimo de substâncias na atmosfera significa maior quantidade de compostos disponíveis à planta, os quais se depositam na superfície das escamas e assim, são assimilados.
A Figura 15 apresenta, de forma hipotética, as características morfofisiológicas de T. recurvata que permitem o seu crescimento e desenvolvimento em ambientes urbanos e em diferentes substratos, as quais possibilitam a sua sobrevivência em áreas com algum grau de alteração da qualidade do ar.
Dos vários parâmetros mensurados nessa pesquisa, a relação entre o nível de metais pesados, a intensidade de tráfego de veículos e a abundância de indivíduos evidenciam o potencial bioindicador de T. recurvata, uma vez que esta epífita apresentou maior quantidade de metais e esteve presente em maior abundância nos pontos com alto tráfego de veículos. A análise de Cluster evidencia esta tendência, pois possibilitou ordenar os pontos de amostragem, considerando as concentrações de metais obtidas, em: P1 > P2 = P3 > P4 = P5 (P1 e P2 caracterizados pelo alto tráfego de veículos, P3 com moderado tráfego e P4 e P5 com baixo tráfego de veículos), indicando que todos os pontos de amostragem apresentaram algum grau de contaminação por metais pesados e que, quanto mais intenso o tráfego de veículos, maiores são as concentrações de metais disponíveis para a planta. Além disso, observou-se que nos pontos com maior intensidade de tráfego de veículos, P1 e P2, os indivíduos eram maiores e estavam presentes em maior abundância (o score obtido para a abundância no P1 foi de 78 e no P2 foi de
57), indicando que nestes pontos, a planta encontrou condições favoráveis ao seu crescimento e desenvolvimento.
O uso de plantas presentes na área de estudo, técnica conhecida como biomonitoramento passivo, é indicado quando o objetivo é acompanhar a influência ocasionada pela poluição atmosférica, direta ou indiretamente (via solo), durante um tempo relativamente longo. Já o biomonitoramento ativo, quando a planta utilizada no estudo é cultivada em condições controladas e normalizadas e, posteriormente, exposta na área de estudo, permite verificar os efeitos ocasionados em decorrência da exposição à poluição atmosférica. Assim, o biomonitoramento passivo é mais adequado para o estabelecimento das redes de biomonitoramento, pois possibilita acompanhar o comportamento da planta durante o seu ciclo de vida, prolongando o tempo de exposição à poluição do ar.
Pelo exposto, no presente estudo, optou-se pelo biomonitoramento passivo, estudando os exemplares de T. recurvata já existentes nos pontos de amostragem. Na literatura consultada (Tabela 18), as espécies de Tillandsia utilizadas como bioindicadoras foram transplantadas de áreas consideradas menos poluídas para as áreas de estudo, técnica conhecida como biomonitoramento ativo. Essa diferença na metodologia pode ser evidenciada pela diferença de valores encontrados para os metais estudados (Tabela 18). Os trabalhos relatados utilizaram outras espécies de Tillandsia como T. capillaris e T. usneoides, o que pode também, justificar as diferenças de valores encontrados.
As espécies de Tillandsia são amplamente utilizadas para o biomonitoramento, para diferenciar a poluição por metais entre áreas industriais, agrícolas e centros urbanos e para identificar as potenciais fontes desses metais. Em Curitiba, na presente pesquisa, o enfoque foi a poluição veicular em áreas urbanas de acordo com o tráfego de veículos.
Figura 15 - Figura esquemática ilustrando as características de T. recurvata que evidenciam seu potencial bioindicador da poluição atmosférica em ambientes urbanos com algum grau de alteração da qualidade do ar.
Tabela 18 – Comparação dos valores mínimo e máximo para as concentrações dos metais estudados com valores da literatura (média ± desvio padrão)
Valores da Literatura Fe (µg.g
-1PS) Cu (µg.g-1PS) Zn (µg.g-1PS) Pb (µg.g-1PS)
Mínimo Máximo Mínimo Máximo Mínimo Máximo Mínimo Máximo
Este trabalho Curitiba – Brasil
Tillandsia recurvata
2.119,79 ± 507,36 7.650,19 ± 2.708,01 84,19 ± 21,55 219,43 ± 65,82 117,53 ± 67,63 364,22 ± 107,80 14,20 ± 3,27 43,99 ± 12,83
Figueiredo et al. (2007) São Paulo – Brasil
Tillandsia usneoides
612 ± 20 1.227 ± 30 4,3 ± 0,5 56 ± 7 41 ± 1 189 ± 12 NA NA
Bermudez; Rodriguez; Pignata (2009) Córdoba – Argentina
Tillandsia recurvata
1.683 ± 290,7 2.861 ± 218,8 NA NA 31,85 ± 0,141 51,16 ± 2,495 NA NA
Bermudez; Rodriguez; Pignata (2009) Córdoba – Argentina
Tillandsia capillaris
1.674 ± 187,8 2.519 ± 181,2 NA NA 28,23 ± 14,97 35,38 ± 5,998 NA NA
Carreras; Wannaz; Pignata (2009) Córdoba – Argentina
Tillandsia capillaris
1.193 ± 66 3.790 ± 281 4,86 ± 0,43 64,08 ± 4,75 15,51 ± 1,41 92,60 ± 8,72 3,33 ± 1,12 27,33 ± 0,45
Vianna et al. (2011) Rio de Janeiro – Brasil
Tillandsia usneoides NA NA 6,3 ± 1,1 13,6 ± 2,1 27,6 ± 2,9 385 ± 42,3 4,2 ± 0,3 8,6 ± 1,1 Vianna et al. (2011) Salvador – Brasil Tillandsia usneoides NA NA 4,1 ± 0,2 10,8 ± 1,5 20,2 ± 5,1 53,1 ± 3,5 5,1 ± 1,1 11,2 ± 1,6 Rodriguez et al. (2011) Córdoba – Argentina Tillandsia capillaris 4.247 ± 503,6 9.036 ± 1166 1,173 ± 1,340 17,85 ± 15,09 20,50 ± 3,31 71,81 ± 9,02 2,347 ± 0,421 7,841 ± 0,825 NA = não analisado
Considerando os metais estudados, Figueiredo et al. (2007) afirmam que o Zn é um elemento relacionado ao tráfego de veículos, uma vez que esse metal é utilizado em óleos lubrificantes. Vianna et al. (2011) consideram que o Zn é um elemento chave para indicar áreas urbanas contaminadas por atividades antrópicas. De fato, no presente estudo, as maiores concentrações de Zn foram obtidas nos pontos P1 e P2, ambos caracterizados com alto tráfego de veículos por estarem muito próximos de avenidas com tráfego intenso de carros, ônibus e caminhões. Wannaz et al. (2012) também encontraram associação do Zn com o tráfego veicular em Córdoba, Argentina, utilizando Tillandsia capillaris como biomonitor.
Em Curitiba, no presente estudo, a maior concentração de Fe foi obtida no ponto P1, caracterizado com alto tráfego veicular, o qual também obteve a maior abundância de T. recurvata dentre os cinco pontos de amostragem. Suhogusoff et al. (2008) citam que o teor de Fe, por seu um fator limitante, quando em abundância, favorece a presença de Tillandsia. Figueiredo et al. (2007) também registraram maior média de Fe em um ponto com tráfego de veículos na região central de São Paulo (Tabela 18). Wannaz et al. (2012) encontraram relação das concentrações de Fe com fontes de emissão veicular na Argentina.
Assim como os demais metais estudados, a maior concentração de Cu, em Curitiba, foi registrada no ponto de coleta P1, corroborando com os resultados relatados na literatura. Wannaz et al. (2012) citam que o Cu é um elemento relacionado ao tráfego de veículos, pois é originado da abrasão dos freios, e a correlação encontrada em seus trabalhos confirma essa origem.
Para o metal Pb, Vianna et al. (2011) encontraram maior concentração em T. usneoides, em uma área residencial de Salvador (11,2 ± 1,6 µg.g-1 PS), concentração esta, quatro vezes menor do que a máxima registrada em Curitiba: 43,99 ± 12,83 µg.g-1 PS no ponto P1, com alto tráfego de veículos, mesmo não sendo mais utilizada no Brasil, desde 1992, gasolina contendo chumbo como aditivo (chumbo tetraetila) (VIANNA et al., 2011). Wannaz et al. (2006) encontraram uma correlação positiva para o Pb bioacumulado em Tillandsia sugerindo que a origem deste metal está associada às emissões veiculares do passado, porque a utilização de gasolina com chumbo na Argentina também não é mais permitida. Assim, os resultados indicam a existência de concentrações de Pb associadas ao solo próximo às vias de tráfego de veículos.
Vanz; Mirlean e Baisch (2003) relatam que, no Brasil, não existem parâmetros que limitem a concentração do chumbo no ar, assim como não existem normas específicas para o seu controle na atmosfera. Segundo os autores, a principal origem da contaminação do ambiente por chumbo são as emissões atmosféricas provenientes do tráfego rodoviário e de fundições de metais, fábricas de baterias e indústrias químicas, principalmente quando não utilizam filtros de ar durante o processo industrial. Outra potencial fonte de emissão para a atmosfera de Pb pode estar relacionada à tinta, contendo óxido de chumbo, das construções mais antigas, em que as partículas seriam produzidas pela abrasão eólica nas construções.
Em decorrência de suas características, como células epidérmicas espessadas, baixa densidade estomática, metabolismo ácido das crassuláceas, escamas absorvedoras, dentre outras, T. recurvata demonstra ser uma planta altamente competitiva, capaz de sobreviver em ambientes urbanos com múltiplos estresses atuantes, evidenciando seu potencial para ser utilizada como bioindicadora de poluição atmosférica em áreas urbanas. Além disso, o lançamento à atmosfera de substâncias, como os metais estudados, fornece condições que permitem o desenvolvimento e a colonização de novos substratos por indivíduos de T. recurvata.
Assim, T. recurvata demonstra potencial para ser utilizada como indicadora de alterações decorrentes da poluição atmosférica em áreas urbanas, viabilizando a implantação de programas de biomonitoramento, os quais podem ser utilizados como uma ferramenta de apoio aos gestores nas decisões relacionadas às políticas de saúde pública e de proteção do meio ambiente. Além disso, os programas de biomonitoramento da qualidade do ar podem ser praticados nas grandes cidades como uma alternativa viável economicamente e rápida para a análise dos efeitos da poluição urbana.
7 CONCLUSÃO
Tillandsia recurvata demonstrou potencial para ser utilizada como bioindicadora da poluição atmosférica em áreas urbanas da cidade de Curitiba. Os resultados obtidos nas análises de metais (Cu, Fe, Pb e Zn) permitiram ordenar os pontos de coleta relacionando o tráfego de veículos e a bioacumulação de metais em: P1 > P2 = P3 > P4 = P5 (P1 e P2 caracterizados pelo alto tráfego de veículos, P3 com moderado tráfego e P4 e P5 com baixo tráfego de veículos), o que indica que T. recurvata absorve e acumula os metais analisados, demonstrando eficiência para ser empregada no biomonitoramento da poluição atmosférica urbana em áreas impactadas pelo tráfego veicular.
A análise de abundância demonstrou correlação com a intensidade do tráfego de veículos em P1 > P2 = P3 > P4 = P5 (P1 e P2 caracterizados pelo alto tráfego de veículos, P3 com moderado tráfego e P4 e P5 com baixo tráfego de veículos), evidenciando que a abundância de T. recurvata é maior em áreas impactadas pela poluição atmosférica urbana.
Tillandsia recurvata encontra-se bem distribuída por toda a cidade e em locais de fácil coleta. Durante todo o período de estudo, T. recurvata manteve uma população estável, garantindo a abundância de indivíduos necessários para o