Titulo Como la cigarra Vai levando
Composição Maria Elena Walsh Chico Buarque/ Caetano Veloso Intérpretes Pedro Aznar Chico Buarque
Tantas veces me mataron, tantas veces me morí,
sin embargo estoy aquí resucitando
Gracias doy a la desgracia y a la mano con puñal
porque me mató tan mal y seguí cantando Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra
Mesmo com toda a fama, com toda a brahma
Com toda a cama, com toda a lama
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa chama Mesmo com todo o emblema, todo o problema
Todo o sistema, todo Ipanema
igual que sobreviviente que vuelve de la guerra
Tantas veces me borraron, tantas desaparecí a mi propio entierro fui solo y llorando Hice un nudo en el pañuelo pero me olvidé después
que no era la única vez y seguí cantando Cantando al sol...
Tantas veces te mataron, tantas resucitarás cuántas noches pasarás desesperando Y a la hora del naufragio y la de la oscuridad
alguien te rescatará para ir cantando Cantando al sol...
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa gema
Mesmo com o nada feito, com a sala escura Com um nó no peito, com a cara dura Não tem mais jeito, a gente não tem cura Mesmo com o todavia, com todo dia Com todo ia, todo não ia
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa guia
Mesmo com todo rock, com todo pop Com todo estoque, com todo Ibope
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando esse toque Mesmo com toda sanha, toda façanha Toda picanha, toda campanha
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa manha
Mesmo com toda estima, com toda esgrima Com todo clima, com tudo em cima
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando
A gente vai levando essa rima
Mesmo com toda cédula, com toda célula Com toda súmula, com toda sílaba
A gente vai levando, a gente vai tocando, a gente vai tomando, a gente vai dourando essa pílula !
Por pertencerem ao mesmo movimento histórico das canções analisadas anteriormente, época da ditadura militar, muito do que seria exposto aqui já foi tratado.
Como la cigarra foi composta em 1959 por Maria Helena Walsh e interpretada por Pedro Aznar no álbum A Roar of Southern Clouds e posteriormente foi sucesso também na voz de Mercedes Sosa. Começaremos observando os aspectos referentes à diferença entre as discursividades argentina e brasileira. Como já citamos, de acordo com Fanjul (2002) o discurso argentino, centrado mais na pessoa que na coletividade, foi muitas vezes concebido com um discurso orgulhoso. A afirmação pode ser comprovada nas canções quando observamos a recorrência do pronome pessoal de primeira pessoa do singular eu (me mataron,
me morí, estoy aquí, me borraron, desaparecí, a mí proprio entierro fui) que marca a construção textual em Como la cigarra, contrapondo-se à marca de plural nós, representada pela expressão de uso mais corrente na linguagem coloquial, a gente, presente em todo o texto de Vai levando, gravada por Chico Buarque em 1975. Podemos pressupor que a representatividade do brasileiro se confirma pela sociabilidade.
Quando um sujeito tem sua voz, sua história e sua identidade apagadas, têm-se os silenciamentos discursivos: os sentidos existem, porém não podem ou não devem ser manifestados. Podemos, então, fazer uma analogia da palavra cigarra que remete-nos a um canto forte, estridente, capaz de incomodar e ser ouvido a uma longa distância, com o próprio canto da intérprete. Se pensamos no ciclo de vida do próprio inseto, ele canta quando sai da terra para reproduzir, na letra desta canção percebemos a necessidade do cantar como forma de recuperar a história para que a mesma não se apague.
Ricas na construção textual, ambas canções apoiam-se no jogo metafórico para referir- se à opressão da época. A prisão, por exemplo, é representada pela escuridão (cantando al sol como la cigarra después de un año bajo la tierra/ mesmo com nada feito, com a sala escura). Ainda assim, as metáforas empregadas em Como la cigarra são bem mais explícitas (a la mano con puñal que me mató tan mal/ tantas veces me borraron, tanta desaparecí), confirmando novamente que a repressão política foi mais explicitada na Argentina que no Brasil.
Diferente do eu lírico presente, na canção argentina, que se sente vitorioso por vencer e superar as dificuldades, o eu lírico na canção brasileira aqui citada é representado por um grupo de pessoas que apesar de todos acontecimentos, continua a vida normalmente. A gente vai levando é uma expressão bastante popular para referir-se a vida e aos afazeres cotidianos, uma resposta comum no Brasil quando alguém diz: “_ Oi, tudo bem? Como vai? / _ A gente vai levando”. Conforme afirma Barbosa (2007), o “jeitinho brasileiro” de conseguir contornar as situações de injustiça e violência social ultrapassa o estereótipo e adquire nesta canção uma nova conotação, a da resistência.
Vai levando se constrói também por um texto poético, rico em rimas internas e externas (fama, brahma, cama, lama, chama/ emblema, problema, Ipanema/ feito, peito, jeito/ etc) que contribuem para a construção melódica da canção.
Outro aspecto cultural observado nas letras remete, a teoria de carga cultural compartilhada de Galisson que pode ser observada na expressão hice un nudo en el pañuelo
pero me olvidé después (fiz um nó no lenço) que corresponde na cultura brasileira a amarrar uma fitinha no dedo para não esquecer algo importante. Outra ocorrência dessa carga cultural compartilhada pode ser observada na marca do produto Brahma (mesmo com toda brahma, com toda fama) que deixa de cumprir sua função inicial, vender uma cerveja brasileira, e pode simbolizar, neste texto, o encontro de amigos, o bar. O mesmo acontece com a palavra IBOPE -Instituto Brasileiro de Opinião Púbica e Estatística - que existe desde 1942 e que muitas vezes exerceu influência na opinião pública, principalmente em relação às eleições, e que pode ser utilizado também como sinônimo de fama, de algo que está em destaque (com todo estoque, com todo Ibope).
Pensando nas atividades a serem desenvolvidas em aulas, além das que já propomos em relação ao estudo lexical, discursivo e poético, a expressão cantando al sol como la cigarra, después de un año bajo la tierra, se tomada em seu sentido literal, também pode remeter a um estudo interdisciplinar onde é possível estudar o ciclo de vida dos insetos, no caso a cigarra, para entender que durante um ciclo da sua vida ela se aloja embaixo da terra e se alimenta da seiva presente nas raízes das plantas, sai à superfície na época do verão e o canto do macho é que atrai a fêmea para o acasalamento, as larvas voltam a terra e se inicia um novo processo.
4.4.4. Proposta 4: Gracias a la vida/ O que é o que é