Physical Principles of RFID Systems
4.1 Magnetic Field
4.1.6 Faraday’s Law
Os ingleses foram atraídos para a Amazônia ao findar o Século XIX e durante o boom da borracha, no auge de seu prestígio imperial, nela realizando a mais importante tarefa cultural de transferência de tecnologia de serviços públicos e inversão no campo da infra-estrutura econômica. Desempenhando o papel de inovadores e transmissores de tecnologia, gerada no bojo da Revolução Industrial, os investimentos ingleses se dirigiram para a formação de empresas concessionárias de serviços públicos e, assim, permitiram criar as pré-condições estruturais para todo o processo de desenvolvimento ulterior. Foi durante essa época que se formaram, com a ajuda do capital e de empresários britânicos, as economias externas nos setores de navegação, portos, energia, transporte público, telefonia, telegrafia, distribuição de água, rede de esgotos e outras facilidades construídas nos pólos dominantes de Belém e Manaus.
É numerosa a relação dos empreendimentos ingleses na Amazônia durante esse período. Dentre eles, destacamos a Port of Pará, Pará Electric Co., Pará Telephone Co., Amazon River Steam Navigation Co. Ltd. Amazon Engineering Co., Manaus Harbour Ltd., Manaus Tramways & Light Co. Ltd., Manaus Improvements Ltd., Manaus Market Co., Booth Line Co., Bank of London & South America Ltd.
Ao lado das companhias inglesas estabeleceram-se, também, nessa época, na Amazônia, durante o período áureo da borracha, empresas privadas de capitais franceses, alemães e outros, sobretudo, no setor de aviamentos, comercialização e exportação de produtos regionais, que migraram ou pereceram durante a depressão causada pela tecnologia inglesa da heveicultura desenvolvida nos seringais da Malásia.
A contribuição cultural européia não se limitou, no entanto, aos aspectos materiais e às relações de troca mercantis, porém se desenvolveu, paralelamente, no campo da ciência, através de expedições botânicas, etnográficas, geográficas e geológicas que, desde longa data, percorreram e trabalharam na região. Tais expedições portuguesas, inglesas, francesas, alemães, americanas, muito contribuíram, juntamente com cientistas brasileiros, para melhorar o conhecimento científico da região, dentro das limitações do seu tempo, bem como serviram para revelar a natureza, os segredos e as potencialidades dos recursos naturais, lançando assim as bases de uma futura tropicologia amazônica, que deverá definir, através da pesquisa e experimentação, a tecnologia e o saber para armar o homem com os instrumentos, o conhecimento e os recursos para o seu desenvolvimento.
Entre esses cientistas e expedições destacamos entre outros: Charles Marie de la Condamine, Alexandre Rodrigues Ferreira, Von Martius, Alcide D'Orbigny, Louis Agassis, Alfred Russel Wallace, Charles Hartt, Orville Derby, Jules Crevaux, Henry Coudreau, Koch Grunberg, Humboldt, e em épocas menos recuadas e mais recentes: Lévi-Strauss, Curt Nimuendajú, Paul Le Conte, A. Metraux, Pierre Gourou, Pierre Deffontaines, Harold Sioli e tantos outros cientistas que ajudaram a revelar ao mundo a
7 nossa herança patrimonial genética, representada pelos recursos naturais da Floresta Equatorial Chuvosa, dos seus rios e do nosso-homem.
Contribuição "cearense" – nordestina
A partir de 1827 a borracha amazônica começa a aparecer na pauta da exportação amazônica com um embarque de 30 toneladas. Com a descoberta do processo de vulcanização em 1839 e o aumento de uso dessa matéria-prima, os registros subiram para 1.445 t. no quadriênio 1840-1844; no período de 1875-1879 figurava com 30.360 t.; em 1901 iria alcançar, nesse ano, 30.241 t. e no auge do boom, em 1912, atingia 42.286 t., índice jamais atingido ulteriormente, até decair para 6.224 t. no final da depressão em 1932. No auge do preço, em 1910, a borracha gerou £25.254.371 de exportação, equivalente a 40% do total da exportação brasileira, enquanto o café de São Paulo atingia nesse mesmo ano £25.825.283 de exportação. No ano mais negro da depressão, em 1932, com uma receita de exportação de £217.012, correspondente a 6.224 toneladas, a borracha amazônica havia perdido, se comparados os anos de 1910 com 1932, cerca de 99% do seu produto bruto, em valor, e 85% em peso. Para se compreender a importância desse produto para a economia regional basta citar o fato de que durante o período de 1870 a 1947 a Amazônia produziu cerca de 1.500.000 t. de borracha, com um valor total de aproximadamente £347.000.000.
No decorrer desse longo período acima, de quase 80 anos, a Amazônia recebeu uma considerável massa humana de imigrantes nordestinos, aqui genericamente conhecidos como "cearenses". Procediam geralmente das zonas do agreste e do sertão, sendo tangidos pela seca - imigração por fome - ora simplesmente atraídos pelo "apetite" de seringa - imigração por cobiça, fortuna e aventura, ou simultaneamente por ambos. Geograficamente nascia, assim, uma nova Amazônia baseada na seca e na hevea, e na conjunção de duas linhas: a de maior flagelo e sofrimento - o sertão - e a de mais resistência e atração - a floresta. Tudo isso culminou no Acre - o right em razão do rush - a Economia na Geografia do Direito.
As secas de 1877 e 1883 deslocaram 19.910 retirantes. Em 1892 as entradas registraram uma imigração de 13.593 nordestinos. No triênio 1898/1900, nos portos de Belém e Manaus entraram 88.709 migrantes, no auge desse movimento povoador. Contados os números teríamos um afluxo de 158.125 nordestinos que vieram fazer a Amazônia, cerca de 20% da população amazônica da época. De 1900 até a depressão estimamos que a Amazônia recebeu mais 150.000 e no período da II Batalha da Borracha, de 1941 a 1945, calculo que o "exército dos soldados da borracha" tinha incorporado cerca de 150.000 "cearenses, paraibanos, pernambucanos, riograndenses do norte e baianos. A grosso modo, podemos estimar que aproximadamente 500.000 nordestinos vieram para a Amazônia, representando assim o maior movimento humano das migrações internas da história brasileira, superado somente por São Paulo, e nos dias atuais pela expansão da fronteira humana do sul e do centro-oeste, em direção a Mato Grosso, Rondônia, norte de Goiás e sul do Pará.
Essa formidável corrente imigrantista e cultural se inscreve dentro do quadro da extraordinária expansão e mobilidade da população brasileira, facilmente seduzida e arrastada no passado pela mística da fortuna, da lenda e da riqueza fácil, na pista do boi, na rota das bandeiras, no garimpo do ouro, diamante, na onda verde do café, no rush da seringa e, no presente, pela euforia da zona franca, no
fascínio da Serra Pelada, na cata da cassiterita em Rondônia e Pitinga, na corrida às terras e às madeiras ao longo dos eixos rodoviários da Belém-Brasília, Cuiabá-Porto Velho e Cuiabá-Santarém.
O ciclo da borracha apenas repetiu outros movimentos históricos da população brasileira, sendo que tal movimento vinha garantir a ocupação da Amazônia Meridional e Ocidental, deslocando o eixo demográfico histórico do rio Negro para os rios Madeira, Purus e Juruá. Foi ele que propiciou a recuperação, reconquista e incorporação do Acre, sob a liderança do gaúcho Plácido de Castro, comandando um exército de seringueiros cearenses-nordestinos-amazônicos, ao final ratificado pelo Tratado de Petrópolis de 1903.
A Amazônia começou, assim, a abrasileirar-se mais, com a chegada desse novo tipo de imigrante que trouxe consigo uma outra cultura de valentia e cobiça, bem distante da Amazônia tradicional dos caboclos do beiradão da calha central, das marombas e dos currais do baixo Amazonas, dos oleiros e vaqueiros de Marajó, dos castanhais de Tocantins, dos cacauais de Cametá, Ôbidos e Parintins, dos guaranazais de Maués, dos piaçabeiros do rio Negro, dos mariscadores e "viradores" de tartaruga nos tabuleiros dos rios Trombetas e Solimões e, mais recentemente, dos juteiros do médio Amazonas. Em contraste com esse panorama econômico tradicional que também fez história e não foi tão morto como se pensa, iríamos viver com os nordestinos uma nova aventura na outra Amazônia precipitada, inquieta, excitante. Dos seringueiros do Acre, dos balateiros do Juruá, dos caucheiros do Abunã, dos comboieiros e mateiros do Xapuri, que passaram a atuar marcando a fisionomia econômica regional com o complexo do barracão e do tapiri, com a grande propriedade florestal-latifundiária, com os seus coronéis de barranco e os seus instrumentos de trabalho: o terçado, o machado, o rifle, a faca, a tijelinha e o burro. Este animal, introduzido pelos nordestinos, iria desempenhar um notável papel no transporte pelos varadouros e estradas de seringa, servindo de elo de ligação entre o tapiri do seringueiro e o barracão do seringalista e patrão. Na ausência de animais nativos de grande porte, como o elefante, existente em outras florestas tropicais chuvosas da África, Índia e sudeste asiático, ao jegue nordestino coube a função de aliviar o peso das costas do seringueiro, transportando as mercadorias e as peles de borracha, estabelecendo um sistema de circulação e contacto entre a sede do seringal, a beira-rio, com os distantes centros e "colocações" dos seringueiros na selva da terra-firme.
O imigrante nordestino percorreu na Amazônia um longo caminho de sofrimento e resistência para, ao final, chegar à ascensão e classificação econômica, social e política. Flagelado, retirante, brabo, seringueiro e extrator na sua primeira fase. A seguir, regatão, seringalista, coronel de barranco, chefe político até atingir a governança dos diversos Estados e Territórios amazônicos. Senão na primeira geração, com certeza na Segunda e terceira geração de seus filhos e netos amazônicos.
Com o colapso da borracha, muitos dos sobreviventes dessa fronteira humana regressaram ao Nordeste, quando podiam, criando a figura típica do Paroara no sertão, ou se deixaram ficar, estabelecendo-se na calha principal do rio Solimões, médio e baixo Amazonas, abandonando a "economia de bugre manso" para o estágio da economia agropastoril de onde partiram. Nesta fase, como agricultores e criadores, já inteiramente assimilados à vivência amazônica, iriam suprir e impor à sociedade cabocla a sua liderança política pelo seu espírito de agressividade e dinamismo.
Posteriormente, já na fase do êxodo rural, seriam atraídos para os grandes centros urbanos de Rio Branco, Porto Velho, Cuiabá, Manaus, Santarém, Belém. Muitos deles transformaram-se em arigós, aves de arribação, "santo-desordeiro-milagroso-e-valentão", apelidos e caricaturas que figuravam e foram registrados nas crônicas policiais dos jornais das décadas dos anos 40 e 50. Outros que não conseguiram se classificar seriam absorvidos no seio da massa popular das classes de baixa renda, morando na periferia das baixadas e favelas e trabalhando como feirantes e camelôs no centro da cidade. A minoria, promovida pela sorte e pelo êxito econômico, iria participar, na liderança regional, como comerciantes, industriais, políticos, profissionais e intelectuais.
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