ANNEXE AUX COMPTES SOCIAUX
FAITS POSTERIEURS A LA CLOTURE DE L’EXERCICE
Os pequenos empreendimentos geralmente são administrados pela própria família - o casal e também os filhos. As filhas costumam ajudar nos serviços de limpeza. A maioria dos casais entrevistados trabalham em conjunto, como relata Alberto: “Eu, a minha mulher e agora a minha filha dá uma força, mas eu e a Marina é que pegamos firme. Trabalhamos assim: se a Marina sai, eu fico em casa, se eu saio ela fica, quando desocupa um apartamento, uma casa, aí não sai nenhum dos dois porque nós pegamos juntos”.
O preço do aluguel também é combinado entre o casal, considerando que, embora não haja uma tabela oficial de preços nas localidades ou como explica um dos informantes, “não tem unidade entre si em relação aos preços e alugam de acordo com cada um”, há uma média de preços conforme o tamanho e a qualidade da casa176. O “mercado de aluguéis
familiares é muito fechado”, segundo os informantes, no sentido de que as famílias têm o
175 Numa das pousadas em que este procedimento é feito, o apartamento com dois quartos, banheiro, cozinha e
sala conjugadas sai por R$450,00 de março a novembro. Em dezembro o preço sobe para R$550,00 e nos meses de janeiro e fevereiro o aluguel fica entre R$600,00 a R$650,00.
176 Um apartamento com um quarto ou casa tem o preço médio de R$50,00 para um casal, mas na “baixa
meio próprio de controlar os preços utilizando-se de algumas estratégias que incluem “camaradagem”, ou seja, “não tirar o aluguel do outro” fazendo um preço mais baixo. As famílias trabalham cooperativamente quando possuem várias casas próximas uma das outras e aquele que estiver em casa recebe os “turistas”, mostra as casas ou apartamentos e acerta o preço. Assim, o proprietário que estiver recebendo o provável “inquilino” deve mostrar todos os imóveis, sem tentar priorizar o aluguel de sua casa. No caso de grande demanda de aluguéis, como na “alta temporada”, estar responsável por mostrar os imóveis permite escolher o inquilino e fazer um “bom aluguel”.
A dona da casa tem um papel muito importante nessa negociação porque em muitas famílias o marido saía para trabalhar na pesca e ela ficava em casa, tomando a frente do negócio. Por isso, geralmente é a mulher quem organiza a limpeza e arrumação das casas/apartamentos, além de ficar responsável pelo aluguel, pela comunicação com os turistas:
Quem trata mais do aluguel é ela. Todo mundo que liga para cá pede para falar com a Dona Irene porque antes eu trabalhava em barco de pesca então quem cuidava era ela. Então todo mundo se acostumou com ela. É ela quem dá o voto ‘de minerva’. Quem aluga sempre é ela. Às vezes, quando eu me meto, dá rolo, então deixei isso por conta dela. (“Seu” José, proprietário de casas)
No aluguel de casas, apartamentos ou kitinetes dificilmente é feito um controle dos hóspedes que realizam o mesmo, pois os serviços são acertados informalmente, sem a existência de qualquer contrato por escrito ou ficha com os dados dos “inquilinos”. Já no caso das pousadas, os proprietários preenchem fichas cadastrais ou podem fazer o controle por meio de mensagens recebidas pela internet177.
Em relação à conservação da casa, o proprietário a entrega limpa para o “turista” e costuma limpá-la somente após sua saída. Eventualmente realizam uma limpeza, mas não estaria incluída no valor do aluguel, constituindo-se num pagamento extra:
Eles saem e deixam tudo conforme [...], a casa suja. A gente também não vai reclamar. Eles saem e se não quiserem limpar não tem problema. Realmente acontece isso. Tem família que quando a gente vai lá – puxa, deixaram a casa limpinha, mas não foram obrigados a deixar, eles deixaram porque, como eles pegaram limpa, tem mulher que gosta de arranjar tudo limpinho, mas a maioria não
177 O Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Florianópolis fornece para os estabelecimentos
deixa limpo. (Alberto, proprietário de pousada)
Em alguns casos, é feita uma limpeza durante o período da estadia do “turista”:
Eles me respeitam muito bem porque eu não vou todo dia fazer faxina na casa deles. Eu arrumo as casas a cada 15 dias. Se quiserem que eu vá lá, eu vou e faço a limpeza para eles, quem não quiser que faça. Mas tem pessoas maravilhosas. Tive uma moça durante uma semana na minha casa e não acredito que ela ficou porque parece que não morou ninguém no apartamento. Era um amor de pessoa, mas ela deixou a casa igualmente limpa [...]. (“Dona” Áurea, proprietário de casas)
Contudo, há casos em que os donos de pousada contratam uma pessoa para trabalhar na limpeza, principalmente no período da “temporada”. Entretanto, por alegarem que seu lucro é pouco, as despesas com empregados são altas e pelo fato de terem um empreendimento pequeno recorrem ao serviço de toda a família e, em vários casos, os homens participam no serviço de limpeza das casas, como é o caso de Alberto e do marido de “Dona” Áurea que falam que costumam fazer tudo o que é necessário em casa – lavar louça, limpar chão, etc., não havendo serviço só de homem ou de mulher.
Identifico nesse trabalho realizado em conjunto entre homem e mulher uma divisão de tarefas mais solidária que outros autores já tem observado em Florianópolis mais recentemente. Motta (2002) assinala a possibilidade dos casais desenvolverem “relações menos hierárquicas e mais igualitárias”, embora haja o reconhecimento da autoridade de homem que continua sendo visto como provedor e responsável por decisões importantes, sem com isso deixar de prescindir da mediação da mulher. A autora ainda afirma que “os limites entre os chamados papéis femininos e masculinos não são tão rígidos assim como aquela ‘incorporação da dominação’” (Ib., p.110) e utiliza a expressão proposta por Lacerda (1994) “circularidade complementar” para caracterizar a relação homem/mulher que também é marcada pela reciprocidade (MOTTA, 2002). Nessa relação considerada pelos autores citados como “fluida”, há uma centralidade do casal que distribui, entre si, poderes e atribuições:
A figura do casal é central na vida familiar e traz a marca da reciprocidade e da complementariedade (o que não significa ausência de conflito). Se há uma relativa circularidade nas atribuições e tarefas masculinas e femininas, ocorre também uma certa circularidade do poder do homem e da mulher na relação conjugal e com os
filhos. [...] Em geral, assim como há distribuição de tarefas e papéis femininos e masculinos, há também instâncias de poder diferenciadas de acordo com o sexo do cônjuge” (Ib., p.112)
Também não podemos deixar de considerar nesse trabalho em conjunto o interesse de conseguir manter o negócio já que não possuem condições econômicas de contratar empregados, mas também porque o “nativo” mantém seu negócio de “aluguéis familiares bem fechado”, como ressaltei anteriormente, na tentativa de não dispersar capital, mantendo-o entre os seus. Outra situação que pode ser associada a isso é o fato de muitas mulheres dessas famílias serem donas de casa e poderem dedicar-se ao serviço dos aluguéis.
Não há uma organização formal entre os donos de casas e pousadas no sentido de participarem de uma associação ou algo que tenha como principal objetivo reivindicações a respeito da atividade turística. Essa falta de organização causaria, segundo os donos de pousada, oscilação nos preços, que chega a ser gritante. Segundo o relato de Alberto, muitas vezes casas de mesmo tamanho e condição são alugadas por preços muito diferentes e acontecem casos em que, por exemplo, um apartamento que vale R$ 50,00 tem seu preço diminuído para R$ 30,00 porque o movimento está fraco: “Enquanto nós alugamos um apartamento de um quarto, outras pessoas alugam um apartamento de dois quartos pelo mesmo preço e isso é prejuízo porque nós investimos muito e a margem de lucro é muito pequena.”. Alberto acredita que se houvesse uma organização dos proprietários os preços não baixariam tanto. A maioria das pousadas também não pagam o imposto de “temporada”, mas tem todos os gastos de gás, energia elétrica, água, IPTU que tem seu preço e consumo aumentados durante o verão, segundo os informantes.
Antônio, que tem pousada e participa também do centro comunitário da Barra da Lagoa, relata que algumas iniciativas individuais têm sido feitas. Na sua pousada, por exemplo, quando está lotada, eles passam os “turistas” para pousadas ou “casas” em volta já que no verão geralmente tem excesso de demanda. Essa tarefa é realizada por sua filha com o intuito de segurar o pessoal na “Barra”. Nos relatos de pessoas que trabalham em outras regiões da cidade, como em Ingleses, isso também acontece – hotéis que lotam indicam outros locais do mesmo tipo ou até mesmo “casas”. Outra situação relatada por Antônio é a “troca de cortesias internas” na qual pousadas e hotéis trocam estadias entre si para hospedarem os próprios familiares ou alguma pessoa indicada.