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2.2.1/ Une très faible variabilité inter-média

A Teoria da Reflexividade surge para tentar dar conta de algumas das falhas apontadas à Teoria da Ligação. Reinhart (1983; cf. 2000) e, posteriormente, Reinhart e Reuland (1993) e Grodzinsky e Reinhart (1993) propõem a existência de diferentes tipos de anáforas (de curta e de longa distância) e também de diferentes tipos de relações entre os pronomes e os seus potenciais antecedentes. Defendem, distanciando-se da Teoria da Ligação, que a interpretação das expressões anafóricas se baseia na informação dos predicados e que é essa informação que diferencia a possibilidade de ocorrência de um reflexivo e de um pronome em construções paralelas, como as apresentadas de (43) a (45).

(43) Max1 saw a gun near himself1/him1/2.

(44) Lucie1 saw a picture of herself1/her1/2.

(45) Max1 likes jokes about himself1/him1/2.

De acordo com a Teoria da Reflexividade a reflexividade e a marcação da reflexividade são estabelecidas do seguinte modo (veja-se (46)):

(46)

(a) Um predicado é reflexivo se e somente se pelo menos dois dos seus argumentos estão co-indexados.

(b) Um predicado é marcado reflexivamente se e somente se é marcado lexicalmente como reflexivo ou se um dos seus argumentos internos é um reflexivo.

Não substituindo os princípios A e B da Teoria da Ligação, que permanecem exatamente como formulados inicialmente por Chomsky (1981), mas aplicando-se agora apenas às anáforas (ou seja, aos reflexivos), os autores da Teoria da Reflexividade assumem dois princípios, apresentados em (47), que dão conta da gramaticalidade e agramaticalidade dos exemplos (48), (49) e (50).

(47) Reflexividade: Princípios de Ligação

Princípio A: um predicado sintático marcado reflexivamente é reflexivo. Princípio B: um predicado semântico reflexivo é marcado reflexivamente.

De acordo com os princípios acima, (48) é gramatical porque ‘injure’ é um predicado reflexivo marcado reflexivamente por ‘himself’ e os seus argumentos estão co-indexados.

(48) Gonzo1 injured himself1.

A frase (49) é agramatical porque, estando os seus argumentos co-indexados, o predicado é reflexivo, mas não é reflexivamente marcado pelo seu argumento interno, uma vez que ‘him’ não é reflexivo.

(49) *Gonzo1 likes him1.

A frase (50) é agramatical porque a forma reflexiva não é co-indexada a um argumento do mesmo predicado.

(50) *Gonzo1 said Kate injured himself1.

Como referem Harris, Wexler e Holcomb (2000) os princípios acima só se aplicam a argumentos dos verbos (mas não a não-argumentos), o que explica a gramaticalidade de (51) e a agramaticalidade de (52).

(51) John1 kept the gun near him1/himself1 at all times.

(52) Lucie1 explained *her1/herself1 to Max.

Um outro ponto distintivo entre a Teoria da Ligação e a Teoria da Reflexividade prende-se com a interpretação de pronomes. Na Teoria da Reflexividade (veja-se, por exemplo, Reinhart (2000)) é apresentada uma proposta alternativa para a interpretação de pronomes, considerando que os pronomes podem ter uma leitura ligada ou uma leitura correferencial. Por exemplo, o pronome da frase (53)(b) pode ser interpretado como retomando ‘Lili’ ou como correferente com ‘Lucie’.

(53) (a) Lucie didn't show up today. (b) Lili thinks she's got the flu.

A proposta de Reinhart prevê que aos reflexivos sejam sempre aplicadas restrições de ligação enquanto aos pronomes podem ser aplicados dois mecanismos: ligação ou correferência9. Assume que diferentes módulos atuam para anáforas locais, anáforas de longa distância e pronomes e que outras fontes de informação, para além da sintática, estão presentes na resolução de pronomes. Quando a sintaxe é suficiente, a boa formação da frase é satisfeita e a ligação estabelecida, o que acontece, geralmente com as anáforas locais. Contudo, com os pronomes, geralmente, mais do que uma interpretação é possível e por isso é necessário recorrer ao universo discursivo que vai sendo estabelecido para selecionar o antecedente do pronome.

There are two distinct procedures for pronoun resolution: binding and (what I will label) covaluation. In the first, we close the property: A common technical implementation is that the variable gets bound by the l-operator, as in (2b). Here, the predicate denotes the set of individuals who think that they have got the flu, and the sentence asserts that Lili is in this set.

(1) (a) Lucie didn't show up today.

9 Reinhart utiliza o termo co-valuação, mas uma vez que não vamos entrar com grande detalhe na teoria da Reflexividade, referiremos de correferência o que Reinhart distingue como co-valuação.

(b) Lili thinks she's got the flu. (2) (a) Lili (lx (x thinks z has got the flu))

(b) Binding: Lili (lx (x thinks x has got the flu))

(c) Covaluation: Lili (lx (x thinks z has got the flu) & z =Lucie))

In the second, the free variable is assigned a value, say, from the discourse storage. Suppose (1b) is uttered in the context of (1a). We have stored an entry for Lucie, and when the pronoun she is encountered, it can be assigned this value. In theory neutral terms, I will represent this assignment as in (2c), where Lucie is a discourse entry, and the pronoun is covalued with this entry. (The pronoun can also be covalued with the entry Lili, yielding an interpretation equivalent to (2b).)

(Reinhart, 2000: (manuscrito)) Heim (1998:205) sintetiza as propostas de Reinhart do seguinte modo: apenas um caso de relação correferencial é representado sintaticamente e diretamente restringido por princípios da gramática, a ligação de variáveis (variable bound). Outras relações semânticas, em particular as que podem ser obtidas entre dois SNs, não estão nem sequer representadas em qualquer nível sintático e podem por isso não ser licenciados por condições sintáticas. São, em vez disso, reguladas por um princípio extragramatical que define que a correferência está indisponível sempre que a mesma interpretação pode ser obtida pela ligação de variáveis. Este princípio extragramatical10, que Heim (1998) refere, é designado de Rule I e é enunciado por Grodzinsky e Reinhart (1993) do seguinte modo:

(54) Rule I: Intrasentential Coreference

NP A cannot corefer with NP B if replacing A with C, C a variable A-bound by B, yields an indistinguishable interpretation.

De acordo com Koornneef, Wijnen e Reuland (2006), os pronomes podem ser resolvidos por uma operação gramatical na sintaxe (logical syntax), tendo uma interpretação ligada, ou tendo o seu valor atribuído no discurso, obtendo assim uma leitura correferencial, e o que regula se o pronome deve ter uma leitura ligada ou correferencial é a aplicação da Rule I.

Grodzinsky e Reinhart (1993) preveem, no enanto, que a opção por uma ou outra interpretação, ligada ou correferencial, acarrete diferentes custos e que a segunda será sempre mais custosa do que a primeira, por envolver mais processos (ou mais níveis).

Thus, Rule I uses an economy principle, reflecting a division of labor within the linguistic system: the process of encoding a dependency in the semantic structure by variable binding is, then, more readily accessible, or “less costly”, than establishing coreference by using the discourse storage.

(Reuland, 2001:448)

10 Na verdade, Grodzinsky e Reinhart (1993:82) deixam em aberto a questão se a Rule I é um princípio independente do módulo da correferência da Gramática Universal ou se esta pode ser reduzida a outros princípios gerais.

Reuland (2001), aprofundando esta hipótese, defende que há preferências por uma ou outra opção de interpretação e que diferentes interpretações acarretam diferentes custos, uma vez que se assume que as diferentes interpretações são realizadas em diferentes níveis de processamento. Estabelece três níveis de interpretação e, consequentemente, diferentes custos de processamento, para as regras estabelecidas: interpretação como variáveis ligadas (Rule BV: Bound variable representation), interpretação como expressão logofórica (Rule L: Logophoric interpretation) e interpretação correferencial intra-frásica (Rule I: Intrasentential coreference). Cada uma destas regras é computada a um diferente nível: a Rule BV é computada ao nível da narrow syntax (CHL), a Rule L é realizada na componente

interpretativa ou broad syntax/semantics, e, por fim, a Rule I é já do domínio do discurso, mais precisamente do discourse storage. A automaticidade dos mecanismos vai diminuindo do primeiro para o último nível de computação (narrow syntax < broad syntax/semantics < discourse storage) e por isso as operações realizadas nos componentes mais tardios terão mais custos de processamento.

It appears to be uncontroversial that the operations of CH L (narrow syntax) are subliminal. They

are automatic, hence, plausibly, cheap. Computations within the interpretive component (broad syntax/semantics) may well be generally more costly. They appear to be automatized to a considerably lesser extent, witness the problems speakers encounter processing and interpreting complex quantificational structures. The same has been argued for processes involving the discourse storage.

(Reuland, 2001:472) Esta ideia é novamente retomada em Reuland (2003), num artigo em que tenta relacionar as propostas da gramática com os estudos de processamento na área da correferência, em que defende que a computação de dependências anafóricas envolve diversos mecanismos do sistema da linguagem, tais como:

So far we have found that the computation of anaphoric dependencies involves a variety of mechanisms within the language system: lexical properties such as argument structure and operations on it, strictly syntactic properties such as Case, and conditions on chains, variable binding as a property of logical syntax, value assignment as a property of the interpretive system, discourse factors such as source of the speech act or center of consciousness, and perhaps factors such as informativeness or user’s expectations. Broadly speaking these mechanisms belong to the lexicon, narrow syntax, broad syntax/ the C-I interface and the interpretive system.

(Reuland, 2003:17) Considera que as diferentes propostas linguísticas se distinguem exatamente pela consideração ou integração dos diferentes níveis possíveis. De um lado estão as propostas que preveem que todo o processo ocorre apenas num dos níveis, por exemplo, no módulo da sintaxe, de outro as que preveem o envolvimento de diferentes níveis, sendo o ‘trabalho’ dividido de forma equitativa por todos eles.

Clearly, the two approaches embody a different view of cutting the pie of anaphoric dependencies. In a Fiengo & May type approach the bulk of the work is done in the syntax, and only a marginal part of it is left to an interpretive component. In a Reinhart type of approach the work is rather equally divided over the interpretive component and the computational system (syntax and logical form, governing binding relations), leading up to a modular approach to binding.

(Reuland, 2003:12)

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