• Aucun résultat trouvé

FACTEURS DE RISQUE

59

envolve emocionalmente, apresenta-se como prostituta que, outrora, de sua terra natal, a Irlanda, fugira para Londres para não se submeter a um futuro marido agressivo. Após uma dessas agressões, durante a relação sexual, ela procura a mãe para contar o que aconteceu; acaba não recebendo o apoio que esperava, já que ela é ordenada a casar-se com ele mesmo assim. Sendo uma mulher pobre, explica que “é isso que se faz, ou se casa, ou se prostitui” (T1E4). Ela opta, portanto, pela segunda possibilidade. Já doente, é ainda na primeira temporada que ela se submete a ser fotografada com Dorian Gray89, que considera como “nova experiência” manter relações com uma mulher que está prestes a morrer de tuberculose. Ethan leva-a ao teatro e, durante a interação com Dorian e Vanessa (conhecidos do rapaz), magoa-se ao dar-se conta de sua condição e de seu comportamento mais humilde, já que o outro casal pertence à aristocracia, enquanto ela é pobre e pertencente ao submundo de Londres.

Eventualmente, já definhando, Ethan chama seu amigo médico, Victor Frankenstein, para apaziguar as dores finais da jovem (T1E8). A essa altura, Victor já está enfrentando as demandas de sua primeira criatura desfigurada, que depois se autodenomina John Clare, para que tenha uma companheira mulher, sob ameaça de morte. Sofrendo com a rejeição social devido ao seu rosto, ele requer: “Minha esposa deve ser bonita”90 (T1E4). Como vimos, esse é

o percurso traçado pela criatura na obra de Mary Shelley. Na série, entretanto, Victor acaba por sensibilizar-se com sua criatura, quando, tendo a oportunidade de atirar nela e acabar com seu tormento (“Meu coração não é grande o suficiente para perdoá-lo [...] por essa criatura monstruosa que demandas de mim”), escuta a seguinte reflexão91: “Oh, meu Criador, por que

não me fizeste de aço e pedra, por que me permitiste sentir? Eu preferia ser o cadáver que eu era do que o homem que eu sou. Vá em frente. Puxe o gatilho. Seria uma bênção”92 (T1E6).

Com isso, Victor desiste de atirar, colocando uma mão no ombro de John. Seria possível interpretar que a sensibilização de Victor ocorre por, diferentemente de seu homônimo literário, constituir-se de um antigo amante da literatura romântica - ele mesmo reconhece que a poesia o levou a expectativas “fora da realidade” em relação ao amor (T1E6) – tendo, portanto, emoções afloradas (ele também pede perdão por ter submetido sua criatura ao abandono,

89 O livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, foi publicado em 1890. A personagem-título vive todas as

experiências com intensidade e devassidão, e seu retrato sofre as alterações de aparência decorrentes disso. O jovem permanece sempre belo, não importa o que faça, representando, assim, o universo de aparências das classes mais abastadas.

90 No inglês original: “My wife must be beautiful”.

91 Na qual ele também argumenta, nos conformes da Criatura apresentada por Shelley, que é fútil de sua parte

demandar uma companheira que olhe em seus olhos sem rejeitá-lo, já que o ‘monstro’ não está em seu rosto, mas sim em sua ‘alma’, já que ele tem se tornado cruel.

92 No inglês original: “Oh, my creator, why did you not make me of steel and stone? Why did you allow me to

60

revelando-se, em diversos momentos, de uma sensibilidade mais profunda)93. Em seguida, é

chamado por Ethan para tratar dos momentos finais de Brona. Victor chega a interagir com ela, que está com medo de morrer, propondo-lhe um lugar “entre o céu e o inferno”, um lugar de “eterno renascimento”. Dando-se conta de que o cadáver dela pode ser usado para satisfazer a demanda de seu primogênito, Victor a sufoca com o travesseiro e responsabiliza-se pelo corpo. A primeira temporada da série encerra com Victor trazendo o cadáver de Brona de volta à vida de forma bem-sucedida, para a alegria de John Clare. É nesse momento, como já apontamos, que a trama se desprende da narrativa criada por Mary Shelley para dar seus próprios passos, divergindo também das outras adaptações para o cinema e a televisão que exploraram a hipótese de essa criatura feminina ser criada. O desfecho, em adaptações anteriores, é sempre o mesmo: essa mulher não consegue “atingir” seu propósito de ser criada (servir como amante da primeira Criatura). Conforme observa Esther Schor (2003, p. 71), não importa o quanto os criadores homens desenhem seu corpo e coração de mulher, “a capacidade dela para o amor e a amizade jaz muito além de seu controle”94. Nas adaptações em questão, essa mulher acaba sempre morrendo, por não poder lidar com a vida de submissão que lhe é imposta. Em Bride of Frankenstein, a “noiva” rejeita a criatura e morre em seguida em uma explosão. Já em Mary Shelley’s Frankenstein, de 1994, o médico ressuscita a namorada Elizabeth, morta pela Criatura, e ela deve “escolher” um dos dois. Barbara Braid (2017) aponta que a “rebelião” feminina acontece no último filme através do autossacrifício, já que a personagem comete suicídio por ser incapaz de “decidir” entre os dois ou viver como uma não- morta. De qualquer modo, a problemática de “criar” uma mulher para satisfazer as vontades masculinas é solucionada através da morte, em ambos os casos, como já vimos.

Penny Dreadful parece ser a primeira adaptação a promover um desfecho diferente, mais

elaborado – e menos passivo – para essa personagem. Conforme as adaptações anteriores, Victor Frankenstein dá nova vida a uma mulher, a prostituta Brona Croft, para satisfazer os anseios de sua Criatura. Entretanto, solteiro e solitário, tendo em “mãos” uma mulher esteticamente agradável, ele se apaixona (percurso que acontece a partir da segunda temporada da série), enquanto lhe ensina como comportar-se, dando-lhe o nome de Lily e apresentando-a à sociedade como sua prima do interior.

Documents relatifs