Inicia-se a discussão entre estes dados explicitando que, na formação do tetraedro com o cruzamento dos dados entre currículo, ensino, aprendizagem e ser bom professor, a aresta mais significativa é a que se analisará, uma vez esta não traz nenhuma repetição de concepção por questão. A correlação B1.1{B1, C5, A4, F6}, B1 Currículo (Habilidades); C5 Aprendizagem (Capacidade de reflexão); A4 Ensino (Transmitir conhecimento) e F6 Ser bom professor (Mediador no processo de conhecimento) reúne participantes que apresentam uma concepção de currículo mais conciso como habilidades - palavra que reúne características sobre o currículo que o define em termos de agilidade ou mesmo de destreza. Antes de analisar a expressão B1.1, traz-se o grafo que demonstra todas as ligações que desvela as arestas mais intensas, ou seja, com o maior número de coocorrências (9.33333). Conforme se pode perceber, nesta Figura 24, as arestas mais densas se concentram entre (B1 correlacionada com C5 = 15 ocorrências); (B1 correlacionada com A5 = 12 ocorrências) e (B1 correlacionada com F6 = 11 ocorrências).
Figura 24 - Grafo total de ocorrências em transição
Fonte: A autora (2018).
Em McNeil (2016d), a concepção de currículo como habilidades se aproxima do modelo de currículo denominado tecnologia e o currículo, o que nesta pesquisa se chamou de currículo tecnológico. As considerações se dão porque, entre algumas características apontadas pelo autor sobre o currículo tecnológico, está o ensino prescrito individualmente (EPI). McNeil (2016d) aponta três características encontradas a partir da educação tecnológica na educação básica. A primeira fase do EPI é fazer uma triagem sobre o que o sujeito aprendiz já sabe sobre uma disciplina, por exemplo. Para fazer esse levantamento, se aplicam testes que medem tanto o desempenho quanto as deficiências de aprendizagem. A segunda fase do currículo tecnológico, aqui representado pela concepção habilidades, é o momento em que se elaboram atividades auto-instrucionais com a intenção de suprir as carências detectadas anteriormente e, por fim, aplicam-se novas avaliações que definem o que o sujeito aprendiz adquiriu de habilidades para ser adiantado ou não para outra tarefa.
Assim, o modelo de currículo tecnológico se apresenta de forma genérica com objetivos que reforçam a necessidade da divisão entre as disciplinas. Para McNeil (2016b, p. 03), “Na verdade, alguns sistemas tecnológicos realmente apresentam objetivos. Os objetivos, no
entanto, são tipicamente detalhados, específicos e orientados para habilidades”. Isso ocorre porque, com o modelo tecnológico de currículo, o ensino e a aprendizagem devem decorrer de respostas a estímulos proporcionados aos sujeitos aprendizes individualmente.
Enquanto a concepção de currículo aparece como sinônimo de destrezas, habilidades, o tetraedro B1.1 tem a aresta sobre aprendizagem como a capacidade de reflexão em uma proporção de 48.38% e apresenta algumas respostas que se sobressaem conforme o exemplo a seguir:
• QL153 - O processo de ensino e aprendizagem é concebido para formar sujeitos autônomos, e
que atuem na sociedade de forma crítica e reflexiva.
O posicionamento do participante L153 sobre a aprendizagem demonstra um entendimento de aprendizagem divergente - definição esta observada a partir da teoria de García (2014), em que divergir significa produzir ideias e analisar fatos a partir de contextos diferentes entre os sujeitos. Em Davini (2010), a questão da aprendizagem é compreendida como um processo em que o sujeito é levado a relacionar o conhecimento em diferentes âmbitos.
Assim, a concepção sobre aprendizagem como a capacidade de reflexão demonstra convergência entre o que foi observado nos questionários e o que dizem os autores García (2014) e Davini (2010). Outra observação diz respeito ao sujeito aprendiz, porque em García (2014) há uma divisão entre os aprendizes. A questão se dá principalmente para explicitar quem são os sujeitos que aprendem, no caso desta pesquisa, os sujeitos são adultos e todos cursam uma licenciatura. Segundo o autor, essa definição sobre quem é o sujeito aprendiz está relacionada ao nível de compreensão sobre o que se aprende e para que se aprende, ou seja, é importante na aprendizagem ter clareza de que esta é parte de um todo que deverá resultar na formação.
A aresta seguinte que foi formada nesta correlação é A4 Ensino (Transmitir conhecimento) e os mesmos sujeitos que disseram que B1 Currículo (Habilidades); C5 Aprendizagem (Capacidade de reflexão) também deram essa resposta como concepção sobre ensino. Conforme pontuado em 5.6.2, o ensino como transmissão do conhecimento está inserido no modelo de currículo acadêmico e ainda pode ser acrescentado ao currículo tecnológico, pois, ao se conceber ensino como a transmissão de conhecimento, se considera que um sujeito seja o detentor do saber, o qual, ao ser solicitado, vai transmitir seus conhecimentos para o outro.
De acordo com Freire (2005), esse formato ou modelo de educação pode ser nomeado de tradicional, pois ocorre de forma passiva e não provoca a curiosidade no sujeito aprendiz. O autor faz críticas a esse formato de ensino que também pode ser chamado de educação bancária,
a comparação ocorre em função de o sujeito aprendiz ser considerado um banco em que o sujeito professor - detentor do saber - vai depositando o conhecimento.
Quanto ao ser bom professor, a concepção F6 (Mediador no processo de conhecimento) fora citada e comentada anteriormente em 5.6.1 e sua carga semântica pode ser aproximada ao modelo de currículo humanista e a teoria educacional ainda ser associada à teoria crítica, pois, nesta concepção, o professor atua como um moderador entre o sujeito aprendiz e o conhecimento. O professor não é percebido como o dono exclusivo da sabedoria, atuando mais como alguém que possibilita os meios de acesso ao conhecimento.
Nestes termos, as concepções para esta expressão B1.1{B1, C5, A4, F6} vêm nominadas de transição por entender-se que nesta combinação há uma transição entre as concepções de currículo acadêmico e tecnológico e ensino como transmissão de conhecimento, mas também aparecem as concepções sobre aprendizagem como a capacidade de reflexão e ser bom professor como um sujeito que faz a mediação do conhecimento até o sujeito aprendiz.