energy X ray beams
10. EXPERIMENTAL COMPARISON: HEAVY-ION BEAMS
A política de substituição das importações implantada no Brasil a partir da década de 1930 tinha como objetivo central, dentro dos moldes capitalistas da época, promover a industrialização do país, e especificadamente, a região Centro- sul. A inserção desse perfil industrial estimulou e possibilitou que muitos espaços urbanos brasileiros redefinissem as suas estruturas econômicas e produtivas.
Com a finalidade de reestruturar a sua economia e de se incorporar a esse “novo perfil industrial” do Brasil, a cidade de Mossoró começou a se “industrializar” com a inserção das agroindústrias em seu ambiente urbano. As agroindústrias eram constituídas principalmente por usinas de beneficiamento do algodão, da cera de carnaúba, de óleo de oiticica e do agave, além das indústrias salineiras e do processamento do gesso e da fibra de algodão 35; espaços que beneficiavam os produtos agrícolas e extrativistas cultivados (encontrados) em terras mossoroenses, transformando-os em produtos semiprocessados, aptos a serem exportados e utilizados nas indústrias do Centro-Sul do Brasil (PINHEIRO, 2007; ROCHA, 2009; OLIVEIRA, 2014).
Sobre tal contexto histórico e produtivo, Rocha (2009) destaca:
Mossoró passou a beneficiar produtos extrativos, como a carnaúba, a oiticica, e os produtos agrícolas, como o algodão e agave – matérias- primas das agroindústrias de Mossoró para as indústrias de óleo, derivados, onde seriam ‘semibeneficiados’ e comercializados para as indústrias do Centro-Sul do País, particularmente São Paulo, que passa a requisitar matéria-prima para as suas indústrias. Assim, a industrialização que se vinha processando desde o inicio do século se firma e passa a comandar o processo de acumulação (p. 46-47).
A configuração dessa nova fase econômica de Mossoró, marcada por essa “feição” agroindustrial, fez como que esse espaço urbano assumisse dentro de uma nova divisão interregional do trabalho, a função de centro produtor e exportador de matérias-primas. Essas mudanças deram, conforme assinala Felipe (1982), um “ar” de espaço industrial e novas feições urbanas a Mossoró; fez com que esse centro urbano passasse a exercer atração sobre a mão-de-obra das populações vizinhas (PINHEIRO, 2007); e possibilitou, a partir da combinação dos seus precedentes
35
Exemplo do processo de beneficiamento: a semente do algodão era utilizada na produção de óleos comestíveis; a partir do pó da palha de carnaúba era fabricada a cera de carnaúba (MENDES, 2009).
sociais, históricos e econômicos, a reafirmação dessa cidade como centralidade urbanorregional.
Reforçando tais ideias, Rocha (2009) enfatiza que Mossoró “[...] se fortalecia consideravelmente em detrimento do campo, pois acumulava as funções de centro repassador da produção regional e sede da indústria” (p. 46). A autora citada ainda assinala que tal dinamicidade fortaleceu e fez surgir cidades polos, tais como, Caicó, João Câmara, Santa Cruz e Mossoró (reafirmando o seu “destaque” regional)36
. De acordo com Felipe (1982), a fase agroindustrial de Mossoró se estende do final da década de 1920 e vai até inicio dos anos 1970. O autor citado ainda enfatiza que esse o período agroindustrial de Mossoro pode ser dividido em dois momentos distintos: um que “[...] abrange o período de 1920 a 1954, quando a cidade ganha cerca de 30 unidades industriais [...] outra que abrange o período de 1955 a 1968, quando são instaladas 132 unidades produtivas nos mais diversos ramos industriais” (FELIPE, 1982, p. 67).
Na primeira fase das agroindústrias mossoroenses, predominavam indústrias ligadas ao aproveitamento das matérias-primas regionais, tais como, o sal, o agave, o algodão, a cera de carnaúba e a oiticica. Nessa fase, os espaços industriais do Rio Grande do Norte eram fornecedores de matéria-prima para as indústrias do Brasil. É importante reforçar que nesse período, o parque industrial de Mossoró era o maior do território norte-rio-grandense (PINHEIRO, 2007).
Na segunda fase, sobre o imperativo dos ideais intervencionistas, no qual o planejamento estatal assume papel de destaque no desenvolvimento econômico do Brasil, as agroindústrias mossoroense se especializaram, objetivando com isso, a prestação de serviços dentro do próprio espaço urbano e regional. Nesse contexto, surgiram cerâmicas, fábricas de mosaicos, oficinas mecânicas, metalúrgicas, de recondicionamento de câmaras de ar e pneus, marcenarias, oficinas de vestuário, calçados, gráficas, fábricas de sabão, velas, bebidas e de produtos alimentares, tais como café, produtos de padaria, sorvetes, gelo, macarrão, sal, vinagre e tempero (PINHEIRO, 2007).
36“[...] algumas cidades nordestinas são herdeiras de uma tradição econômica surgida em períodos
anteriores, mas cuja especialização se perfaz em décadas recentes. Cidades sertanejas como Campina Grande (PB), Mossoró (RN), Sobral (CE) e Caruaru (PE), em um primeiro momento se conformam em empório comercial, ou seja, como centros repassadores da produção do seu espaço regional e também como sede de fábricas, indústrias e prestação de serviços. De acordo com Felipe (1982), num segundo momento esse capital acumulado, através das atividades comerciais, passaria a comandar o desenvolvimento dessas cidades” (SANTOS, 2009, p. 101).
O gráfico 08 demonstra a evolução e a concentração dos estabelecimentos industriais em Mossoró nas duas fases citadas anteriormente. Fazendo uma leitura dessa representação gráfica, percebe-se que ocorreu um crescimento exponencial das agroindústrias em Mossoró a partir de 1945, e que entre 1960 e 1964, foram instalados mais de 70 estabelecimentos industriais em Mossoró.
Esse crescimento agroindustrial foi um reflexo da implantação estratégica de políticas intervencionistas preconizadas pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, cujo objetivo era promover e coordenar o desenvolvimento da região Nordeste do Brasil (ROCHA, 2009), “[...] estimular a industrialização como forma de superar as dificuldades econômicas dessa região” (SANTOS, 2009, p. 99).
Gráfico 08: Fases das agroindústrias em Mossoró
Fonte: Cadastro Industrial da COFERN (1968) – Disponibilizado em FELIPE (1982, p. 68). A tabela 07 mostra a distribuição temporal, e por tipologia, das agroindústrias nesse centro urbano entre os anos de 1870 e 1968. Por meio dos dados dispostos nessa representação, percebe-se que até 1944, o número de agroindustriais em Mossoró era bastante reduzido, existindo apenas empresas ligadas a extração de produtos minerais, de produtos químicos e alimentares, metalurgia e gráfica.
Tabela 07: Distribuição temporal das agroindústrias em Mossoró GÊNEROS INDUSTRIAIS DATA DE FUNCIONAMENTO 1870 1874 1875 1879 1880 1884 1885 1889 1900 1904 1905 1909 1910 1914 1915 1919 1920 1924 1925 1929 1930 1934 1935 1939 1940 1944 1945 1949 1950 1954 1955 1959 1960 1964 1965 1968 TOTAL
Extrativa de Produtos Minerais 01 01
Minerais não metálicos 01 01 01 03
Metalurgia 01 01 02 04 Mecânica 01 01 02 04 Transporte 01 01 02 Madeira 03 02 11 03 19 Mobiliário 01 02 04 03 10 Borracha 01 01 02 Química 01 01 01 02 01 01 01 08 Sabões 02 08 03 13 Têxtil 02 01 01 01 05 Vestuário e calçados 08 08 Produtos alimentares 01 01 01 02 07 12 28 19 71 Bebidas 01 01 Editorial e gráfica 01 02 02 02 07 Material de construção 02 04 01 07 TOTAL 01 01 01 03 01 01 01 08 16 23 73 36 165
Entre 1945 e 1954, ampliou-se quantitativamente e qualitativamente o número de espaços agroindustriais em Mossoró, sendo implantadas 24 agroindústrias e 06 novas tipologias (gêneros industriais), inexistentes anteriormente, a saber: Minerais não metálicos, mecânica, madeira, mobiliário, têxtil e materiais de construção.
Ainda em relação à tabela anterior, constata-se que entre os anos de 1955 e 1964, Mossoró contava com aproximadamente 100 espaços agroindustriais, com destaque para as empresas vinculadas a exploração de madeira (13), a fabricação de sabões (10) e a de produtos alimentares (40).
A expansão do sistema produtivo industrial de Mossoró (gráfico 08) e a sua inserção na divisão territorial e interregional do trabalho nacional, fizeram com que essa cidade mantivesse a sua condição de centro regional; esse perfil agroindustrial permitiu que Mossoró se integrasse em um novo sistema de produção e circulação regionais, ampliando seus fluxos e sua região de influência (OLIVEIRA, 2014) 37.
O destino dos produtos agroindustriais beneficiados em Mossoró pode ser observado no quadro 07 e na figura 13. A partir dessas representações, percebe-se a extensa área de influência (abrangência) dos produtos agroindustriais cultivados e processados na cidade de Mossoró.
Quadro 07: Destino dos produtos agroindustriais de Mossoró Produtos
(exportação)
Destino nacional
(especificação) Exterior
Sal marinho e sal moído ou refinado Para todo o Brasil ---
Peles e couros Natal (RN) X
Cera de carnaúba Fortaleza (CE) X
Óleos vegetais PE, SP e RJ ---
Algodão em pluma RJ, SP e MG ---
Madeira desdobrada, móveis de madeira, tacos Natal (RN) e Fortaleza (CE) ---
Gesso Calcinado PE e SP ---
Redes de dormir PA e AM ---
Fonte: FELIPE, 1982, p. 70.38
37 “[...] A política territorial das grandes empresas, que antes buscavam as benesses das localizações
metropolitanas, sobretudo na região Sudeste, descentraliza suas indústrias e direcionam seus investimentos para outras porções do território brasileiro. [...] A partir das diretrizes impostas pela SUDENE, estabeleceu-se uma nova divisão territorial do trabalho que impôs ao Nordeste a função de produtor de matérias-primas para as regiões Sul e Sudeste” (SANTOS, 2009, p. 99).
38 FIBGE – IBGE. Subsídios ao Planejamento da área Nordestina – Mossoró – Um centro Regional do
Figura 13: Distribuição espacial dos produtos agroindustriais de Mossoró
Além disso, constata-se também que o espaço de abrangência (de alcance) desses produtos não se restringia somente ao território nacional, a exemplo das peles, dos couros e da cera de carnaúba que eram exportadas para o exterior; os estados da região Centro-Sul do Brasil eram os principais receptores (compradores) desses produtos, devido o perfil industrial da região, especialmente de São Paulo; e que o sal produzido em Mossoró atingia todo o território nacional (era utilizado nas indústrias químicas do centro-sul do país naquele momento).
Essa nova dinâmica econômica impôs uma reorganização do espaço urbano de Mossoró (FELIPE, 1981; 1982). A estrada de ferro, por exemplo, foi fundamental no delineamento urbano dessa cidade, isso porque, ela “atraiu” as agroindústrias para próximo de si a fim de facilitar o escoamento da produção agroindustrial, assumindo “[...] uma conotação de diretriz, para a qual a morfologia urbana rendeu uma obediência e muitas conversões” (OLIVEIRA, 2014, p. 53). Felipe (1982, p. 71) exemplifica essa realidade quando aponta que, algumas agroindústrias de Mossoró, tais como a Brasil Oiticica, CICOSA, Alfredo Fernandes e Cia, a Tertuliano Aires e Cia, e a Tertulino Fernandes e Cia levaram “[...] os trilhos da linha férrea para as calçadas ou pátio interno da sua unidade industrial”.
Essa dinâmica agroindustrial impôs outras mudanças urbanas a Mossoró, tais como: a pavimentação das ruas, a ampliação e distribuição da energia elétrica, a construção de praças (jardins) públicas e canalização de cursos d’água (PINHEIRO, 2007); a construção de barragens submersíveis no rio Mossoró, com a finalidade de garantir o abastecimento da população (que crescia em ritmo acelerado) (OLIVEIRA, 2014); surgimento de bairros operários, tais como Bom Jardim, Paredões, Baixinha (ocupados principalmente pelos trabalhadores das salinas), Alto da Conceição, São Manoel, Pereiros (ocupados pelos operários das algodoeiras, das fábricas de óleo, de sabão, de beneficiamento da cera de carnaúba, cordoaria, fiação e tecelagem), e Doze anos (ocupados pelos trabalhadores das moageiras e ensacadores do sal, e também pelos ferroviários, que povoavam também os bairros do Alto da Conceição e Lagoa do Mato) (Anexo B) (FELIPE, 1982).
As agroindústrias de Mossoró também foram responsáveis pela revalorização da atividade comercial nessa cidade e implantação de alguns serviços/equipamentos urbanos, tais como estabelecimentos de ensino, agências bancárias, igrejas, clubes, residências, entre outros (PINHEIRO, 2007).
Durante a sua primeira fase agroindustrial, por exemplo, a cidade de Mossoró “adquiriu” quatro estabelecimentos de crédito, a saber: o Banco do Brasil (1918), Banco de Mossoró (1937), a Casa Bancária S. Gurgel (1942) e a Cooperativa de Crédito de Mossoroense Ltda. (1951); ampliando esse cenário em sua segunda fase, com a chegada de outros estabelecimentos, tais como: o Banco do Povo S.A. (1956), o Banco do Nordeste do Brasil S.A. (1958), a Cooperativa de Crédito Agro- Industrial Ltda. (1965) e o Banco do Rio Grande do Norte S.A. (1965) (FELIPE, 1982). Esses espaços bancários representavam, conforme assinala Oliveira (2012), a circulação de capital que se reproduzia em Mossoró com as atividades industriais.
De acordo com Felipe (1982), as agroindústrias revitalizaram o comércio de Mossoró “[...] com forças suficientes para manter, juntamente com os serviços de saúde, educação, transporte e crédito bancário, a força regionalizadora [...]” (p. 80) dessa cidade. Além disso, essa realidade comercial começava a configurar “[...] o papel que essa atividade manteria ao longo dos anos, qual seja, a de tornar o comércio de Mossoró como ‘complementar’ ao comércio de Fortaleza e Natal em termos regionais [...]” (FELIPE, 1982, p. 80).
Em outras palavras, o que aconteceu na cidade de Mossoró durante a sua fase agroindustrial foi, conforme assinala Rocha (2009), uma reorganização do seu espaço urbano, que a preparou “[...] para participar de uma nova divisão territorial do trabalho; daí a construção de novas formas e a incorporação de outros territórios, que cumpriram funções diferentes das atuais” (p. 53).
É importante destacar que as agroindústrias e as salinas de Mossoró também criaram um mercado de trabalho sazonal, atraindo diversas pessoas da região para esse centro urbano em busca de oportunidades de emprego, constituindo-se como um lugar de destaque, de atração na região.
Essa “sazonalidade produtiva” gerou e intensificou alguns problemas sociais e econômicos nessa cidade, tais como a instabilidade econômica dos trabalhadores agroindustriais, por causa da sazonalidade na produção, e segregação espacial dos mesmos, isso porque muitos deles tinham que ocupar as piores áreas urbanas de Mossoró.
Essa não mobilidade do trabalhador salineiro [não retornavam aos lugares de origem] gerou problemas sociais e econômicos para Mossoró. As populações construíam as suas moradas na periferia da cidade ou me locais onde o solo urbano fosse de fácil acesso, como áreas ribeirinhas. Esse contigente populacional de mais de dois mil trabalhadores salineiros, com seus dependentes chega a ultrapassar os dez mil habitantes. Em 1969 representa 18,2% da população do município de Mossoró, passa a construir suas casinhas de taipa, originando bairros como a Baixinha, Barrocas e parte dos Paredões.
Entre 1960 e 1970, o crescimento econômico, urbano e social de Mossoró e o seu papel de evidência no espaço nacional e regional começava a ser rompido - as agroindústrias mossoroenses entravam em crise. A “desestabilidade” desse sistema produtivo foi impulsionada pela combinação de fatores internos e externos, sociais, naturais e econômicos, dentre eles (FELIPE, 1980; 1982; 1981; 1988): a dificuldade de aquisição de matéria-prima para as agroindústrias nos anos de seca, reduzindo significativamente sua capacidade produtiva e industrial; concorrência e substituição dos produtos agroindustriais fabricados em Mossoró por mercadorias tecnicamente mais industrializadas e estrangeiras 39, causando certa instabilidade e desequilíbrio de mercado, ou seja, a atividade agroindustrial de Mossoró; e a Política de Crédito imposta no Brasil depois de 1964.
O elemento de maior participação (influência) no processo de decadência das agroindústrias mossoroense foi a Política Creditícia imposta durante o regime militar (1964) (FELIPE, 1982), isso porque, ela criou dificuldades de acesso ao crédito (ao capital), atingindo inicialmente os pequenos e médios estabelecimentos industriais, com bases financeiras mais fracas; e criando também uma seleção das empresas mais fortes economicamente (BRITO, 1987).
Como resultado dessa política estatal, inúmeras empresas agroindústrias, a exemplo do Parque Salineiro mossoroense, foram “coagidas” a fecharem e/ou venderem suas unidades produtivas para empresas de capital estrangeiro. Dava-se início ao processo de internacionalização da atividade salineira (FELIPE, 1982; PINHEIRO, 2007; ROCHA, 2009).
39 “[...] o algodão beneficiado em Mossoró foi substituído pelos fios sintéticos; o óleo de algodão e de
oiticica teve seu mercado diminuído com a chegada de outras oleaginosas (como a soja) no sudeste; a cera de carnaúba foi substituída pelas fibras sintéticas; [...] o sal, insumo básico da indústria química que se instala na região Sul/Sudeste, na década de 1950, com base em capitais estrangeiros, é absorvido por esse mesmo capital, que tem interesse em controlar a sua matéria- prima mais significativa” (FELIPE, 1982, p. 82).
Sobre esse processo, Felipe (1982) assinala que até o início da década de 1960, Mossoró e sua região de influência se configuravam como uma “região fechada”, restrito apenas a ação do capital local e nacional. Esse quadro só foi modificado no momento em que a região Nordeste começou a receber capitais estrangeiros, ou seja, quando empresas internacionais começaram a comprar as salinas locais.
O referido autor ainda destaca que nesta fase do capitalismo brasileiro, “[...] a classe dominante local perdeu o controle do seu espaço social, político e econômico, [isso porque] o espaço agora que é organizado, apropriado e manipulado por outros capitais nacionais e internacionais [...]” (FELIPE, 1982, p. 18).
É importante ressaltar que o processo de internacionalização da atividade salineira também abriu as “portas” para novas relações de trabalho nesse setor, a exemplo do processo de mecanização da salinas. Com esse processo, o trabalho humano, manual e lento, realizado nas salinas foi substituído por maquinários, mais eficiente e rápido, encurtando-se o tempo de produção e maximizando-se o volume produtivo, consequentemente, o lucro final (SILVA; COSTA, 2015).
Esse processo reestruturou tanto o parque industrial salinicultor de Mossoró, aumentando a sua produtividade e a sua rentabilidade; como também estimulou mudanças socioespaciais nessa cidade, principalmente quando gerou desemprego estrutural, reduziu a renda monetária regional, originou “espaços periféricos” e intensificou o processo de marginalização social e espacial (FELIPE, 1980; BRITO, 1987).
Nesse sentido, a tecnificação da salinicultura intensificou problemas sociais na cidade de Mossoró, contudo, também dinamizou sua economia, transformou estruturalmente seu espaço e proporcionou, conforme frisam Silva e Costa (2015, p. 25), “[...] complexas relações econômicas, espaciais, sociais, políticas e estruturais, dando a este espaço, uma nova dinamicidade urbana [...]”.
Assim como aconteceu no “momento comercial” (Empório) de Mossoró, a fase agroindustrial dessa cidade também deixou “heranças” - rugosidades na forma urbana, capital e experiências acumuladas. Esses legados potencializaram o campo das possibilidades em Mossoró e permitiram que essa cidade redefinisse sua base econômica e suas funções urbanas, não perdendo o seu papel de destaque no espaço regional. (FELIPE, 1982; ROCHA, 2009).
Para pensar e compreender essa nova fase na dinâmica econômica, urbana e regional de Mossoró, é preciso considerar que existem dois elementos centrais que vem atuando diretamente (historicamente) na conformação dessa cidade como uma centralidade regional, a saber: os agentes socioeconômicos presentes nessa cidade e a situação locacional (condições ou fatores locais).
Longe de promover uma valorização do determinismo geográfico (condições naturais determinam e condicionam a organização social e espacial), é necessário reconhecer que os fatores (elementos) locacionais e naturais presentes em Mossoró foram primordiais para a construção de sua centralidade regional. No momento de consolidação de Mossoró como Empório Comercial, por exemplo, a proximidade de um porto fluvial e a sua localização (posição) geográfica estratégica, entre o sertão e o litoral, foram elementos importantes para a consolidação desse centro urbano como espaço de destaque regional. Além disso, quando essa cidade se configurou como um “espaço das agroindústrias”, exportador de materiais-primas para a região centro-sul do Brasil, essa posição só foi conseguida em virtude da disponibilidade de matéria bruta, natural, presente nesse lugar.
Sobre essa relação entre as condições locais de Mossoró e os seus agentes econômicos, Felipe (1982, p. 96), citando Andrade (1981, p. 17 40), aponta:
[...] Embora não se admitindo a existência de um determinismo geográfico em que as condições naturais condicionem e determinem maior ou menor concentração demográfica, é forçoso reconhecer que, em sociedade com baixo nivel de utilização de capital e tecnologia, as condições naturais ao lado da posição geográfica e da maior capacidade de iniciativa dos grupos sociais dominantes contribuem para uma utilização mais eficiente dos solos e para uma exploração mais intensa dos recursos naturais.
Os agentes econômicos (burguesia agrária e comercial local), reconhecendo as potencialidades locais, vêm organizando o espaço urbano de Mossoró de modo a promovê-lo tanto no âmbito intra como interurbano (regional).
Sobre esse contexto e a importância dessa elite local, Felipe (1982, p. 92) assinala que “[...] para essa burguesia, acostumada a grandes ambições, organizar o espaço urbano [de Mossoró] e regional para exercerem em plenitude o comércio e posteriormente as atividades agroindústrias, estava dentro do seu cotidiano”.
40
ANDRADE, Manoel Correia de. Trópico Semiárido: As Alternativas de uma Região Incompreendida. “In Revista Brasileira de Tecnologia”, pág. 17 – CNPq – Brasília, março de 1981.
O referido autor ainda frisa que as mudanças na geografia de Mossoró e da região sempre foram manipuladas por esses grupos econômicos (elite, burguesia local); e salienta que, mesmo quando as transformações nesse espaço urbano e regional emanavam de um poder longínquo, os grupos locais eram responsáveis por sua operacionalização (FELIPE, 1982).
Sendo assim, Mossoró foi mais que um lugar de troca (empório), de produção agroindustrial, ela se conformou como uma obra dos agentes históricos e sociais, que pela sua atuação, “[...] projetaram sobre um espaço sua visão de vida, suas ideologias, suas relações de classe [...]”; em outras palavras, Mossoró é o reflexo, a projeção de uma sociedade, “[...] em primeira instância a nível local, em segunda instância em níveis regional, nacional e internacional [...]” (FELIPE, 1980, p. 14-15).
Discutindo sobre a economia e o desenvolvimento regional do Brasil, Diniz e Gonçalves (2005) destacam que o desenvolvimento de determinado espaço está enraizado nas condições locais e na força dos agentes atuantes; e ainda reforçam a importância dos grupos sociais (econômicos) nesse processo, ressaltando que em “[...] uma sociedade do conhecimento e do aprendizado, a capacidade de gerar novo conhecimento constitui o elemento central no processo de produção, competição e crescimento, isto é, o mais importante fator locacional” (DINIZ; GONÇALVES, 2005, p. 139).
Sendo assim, percebe-se que o desenvolvimento da cidade de Mossoró como um espaço central na região está diretamente ligado as condições locais e a força dos agentes que atuam sobre esse espaço, que operacionalizam e potencializam as oportunidades diante dos cenários de crises, de dificuldade. A crise, ou a “queda” das agrodindústrias em Mossoró e a ascensão de uma nova fase econômica nessa cidade – a ser elucidada na subseção a seguir – foi (é) um exemplo expressivo da importância e do poder de atuação dos agentes econômicos (elite local) na dinâmica espacial e econômica dessa cidade.