A apresentação de Steve Angello tinha me afetado em vários sentidos, testemunhei e participei das afetações corporais que aconteceram e posso afirmar que o que movimentou, aumentou a potência e fez ressoar aquele corpo vibrátil coletivo foi a música. As ondas sonoras emitidas pelas caixas de som faziam a carne vibrar, e deixava o corpo expressivo, ativo. A partir da música surgiam as afetações corporais. A música funcionava como mola propulsora para a efetivação das afetações corporais. “Mas que tipo de afetação era provocada no meu corpo e no corpo das outras pessoas? ”; “Qual a função da música eletrônica naquele ambiente? ”; “Qual a relação dos afetos com a música? ”.
Em uma reflexão mais aprofundada, que tipo de ontologia a música estaria formando na cultura contemporânea? E a música eletrônica especificamente? Qual o ser afetado das festas de música eletrônica? Deleuze (2009), a partir das reflexões de Spinoza (1677/2010), explica a relação dos afetos com a música.
A experiência da alegria tal como Spinoza a apresenta, por exemplo eu encontro alguma coisa que convém, que convém com minhas relações. Por exemplo, a música. Há os sons pungentes. Há os sons pungentes que me inspiram uma enorme tristeza. O que complica tudo é que há sempre pessoas para achar que esses sons pungentes, ao contrário, são deliciosos e harmoniosos. Mas é isso que faz a alegria da vida, isto é, as relações de amor e de ódio. Porque meu ódio contra o som pungente, ele vai se estender a todos os que amam esse som pungente. Então eu volto a minha casa, eu entendo esses sons pungentes que me parecem desafios, que verdadeiramente decompõem todas as minhas relações, eles penetram em minha cabeça, eles me penetram o íntimo, tudo isto. Toda uma parte de minha potência se endurece para manter à distância esses sons que me penetram. Eu obtenho o silêncio e eu ponho a música que eu amo; tudo muda. A música que eu amo, isto quer dizer o quê? Isto quer dizer as relações sonoras que se compõem com minhas relações. E suponhamos que neste momento minha máquina quebra. Minha máquina quebra: eu experimento o ódio! [Richard: ah não! ] Uma objeção? [Risos de Gilles Deleuze]. Enfim eu experimento uma tristeza, uma grande tristeza. Bom, eu ponho a música que eu amo, aqui, todo meu corpo, e minha alma – isto vai por si – compõe suas relações com as relações sonoras. É isto que significa a música que eu amo: minha potência é aumentada. (DELEUZE, 2009, pp. 169-170).
Nesse sentido, exposto por Deleuze (2009), vão se compondo as relações entre o indivíduo e o som ou entre os afetos e a música. Em uma abordagem filosófica a música é considerada como revelação de uma realidade privilegiada e divina ao homem. Essa revelação assume forma de conhecimento e sentimento. Música é afeto, é harmonia; característica divina do universo; ciência suprema; principio cósmico, que tende a privilegiar a música acima de todas as outras artes ou ciências. Na perspectiva antropológica a música é utilizada no desenvolvimento cultural das crianças. A música serve para assinalar importantes mudanças no ciclo vital, curar doenças, comunicar-se com o sobrenatural, organizar atividades de subsistência, apoiar ou criticar o poder político e proporcionar prazer sexual e estímulo intelectual. É também expressão da identidade individual e comunitária. A música é uma força social e comunicacional, serve de elo, ponte para agregar pessoas. É o afeto expresso, em ato.
Charles Darwin (1872/2009) afirmou que o homem antes de ser linguístico era musical, o hábito de produzir sons musicais foi primeiro desenvolvido com objetivo de se fazer a corte entre os antigos ancestrais do homem, e dessa forma, se associou as mais intensas emoções que eram capazes de sentir. Partindo dessa hipótese, Darwin defendeu que os ancestrais do homem provavelmente emitiam sons musicados antes de terem adquirido a capacidade de articular a fala e que quando a voz é empregada sob qualquer emoção forte, ela tende a assumir, por associação, caráter musical. (DARWIN, 1872/2009). Georg Simmel (1882/2003) vai em direção contrária ao defender que a música tem sua base na linguagem verbal e esta é uma manifestação das relações sociais. Darwin (1872/2009) dizia que o homem desenvolveu o canto antes da fala, já Simmel (1882/2003) acreditava que a música vocal surge a partir da linguagem falada. E os afetos? Para Simmel (1882/2003), a música surge naturalmente da elevação que os afetos produzem sobre os atos de fala e dos movimentos do homem. São os afetos que originam a música, que é uma expressão das mais variadas sensações anímicas – fúrias, alegrias, sensações místicas – sempre que estas são intensas, são apaixonadas. (SIMMEL, 1882/2003). O homo neanderthalensis desenvolveu o sistema de comunicação denominado “Hummmmm” – Holistic, manipulative, multi-modal, musical and memetic communication, cujo objetivo era expressar os afetos mais complexos, não apenas alegria ou tristeza, mas também ansiedade, vergonha ou culpa. O “Hummmmm” é considerado um sistema de comunicação que envolve gestos icônicos, dança, música, onomatopeias e imitação vocal e talvez seja de fato o precursor da música e da linguagem tal qual se conhece hoje. (MITHEN, 2006). Para Mithen (2006), a música e a linguagem tiveram uma origem comum, o “Hummmmm” seria uma espécie de combinação entre protomúsica e protolinguagem.
A música afeta o corpo de muitas maneiras e em diferentes momentos, além de ser uma força da vida social e da própria estrutura da sociedade. Ao afetar o corpo humano, a música ou qualquer estímulo sonoro pode provocar no indivíduo diversas reações, sentimentos e emoções, a esse processo chamamos de afetação sonora. As afetações sonoras podem aumentar ou diminuir a potência do nosso corpo, provocando afetos ativos como a alegria e reativos como a tristeza e podem despertar uma variedade de afetos que derivam desses outros. A paisagem sonora76 que nos cerca tem poder de afetação sobre o nosso corpo, desde o canto do pássaro, ao som das águas do mar, do vento, do trânsito ou das batidas eletrônicas de uma festa rave. A música tem o poder de acalmar, animar, consolar, irritar, emocionar e até de curar.
A música tem papel ativo na definição de situações, porque como todos os dispositivos e tecnologias é ligada, por meio de convenção, aos cenários sociais; em outros momentos vai de acordo com os usos sociais para a qual foi inicialmente produzida – música para dançar bolero, música para marchar e assim por diante. A música não é apenas meio significativo ou comunicativo, ela vai além da transmissão de significado através de meios não-verbais. A música tem poder e está implicada em todas as dimensões dos órgãos sociais, pode influenciar a forma como as pessoas compõem seus corpos, como se comportam, como vivenciam a passagem do tempo, como se sentem – em termos de energia e emoção – sobre si mesmo, sobre os outros e sobre as situações. (DENORA, 2004). A música tem conexão direta com os agenciamentos da vida social.
Em todas as sociedades a música tem uma função coletiva e comunitária essencial: reunir as pessoas e criar laços entre elas. As pessoas cantam e dançam juntas em todas as culturas, e podemos imaginar os humanos, há 100 mil anos, fazendo isso ao redor das primeiras fogueiras. Esse papel primordial da música hoje se perdeu, em certa medida, pois temos uma classe especial, a dos compositores e intérpretes, enquanto o resto de nós quase sempre se vê reduzido à audição passiva. Temos de ir a um concerto, igreja ou festival de música para voltar a experimentar a música como atividade social, para recapturar a emoção coletiva e a ligação proporcionada pela música. Em situações assim, a música e uma experiência coletiva, e parece haver, em certo sentido, uma verdadeira ligação, ou “casamento”, de sistemas nervosos, uma “neurogamia”. (SACKS, 2007, p. 237).
Durante o set de Steve Angello parecia existir essa ligação de sistemas nervosos entre o público e o dj. Ao final do seu set, fui com MD1 pegar água, MD2 tinha sumido, não sabíamos onde estava. Aproveitamos para dar uma volta pelo festival. Durante nosso passeio pelo festival,
76 Na formulação de Schafer (1991), a paisagem sonora corresponde aos ambientes sonoros que se alastram pela
vida cotidiana. Soundscape é a dimensão acústica do meio ambiente, diz respeito aos sons dos lugares, dos bairros, da cidade, de um microambiente, como também à música.
percebemos que assim que Steve Angello terminou sua apresentação quem entrou foi Infected Mushroom, banda de Psytrance israelense que fez muito sucesso entre os anos de 2005 e 2007. Lembrei de uma festa que fui com MD1 em 2005 em Recife também, chamada Liquid Sky e Infected era a atração principal, era antevéspera de Natal e já fazia 8 anos. Olhei para MD1 e disse:
– Já temos bastante coisa para contar das baladas da vida. A música eletrônica é uma constante em nossa história.