Matthew Lipman concilia o pensar filosófico com as novelas filosóficas – histórias ficcionais, narrativas e dialógicas. O autor escreve sua primeira novela em 1969-1970, intitulado por Harry Stottleimeier’ Discovery; que em português recebe o nome de A descoberta de Ari dos Telles, essa novela foi destinada a crianças de 11 a 12 anos: “essa novela supõe noções como classes, relação e regra.” (LIPMAN, 1990, p. 169)
A partir de então Lipman começa seus estudos, exclusivamente relativo ao programa de filosofia para crianças, aplicação da novela nas escolas, testes, redação de outras novelas filosóficas determinadas a outras idades. Em 1973, na Universidade de Montclair, Lipman recebe seus primeiros colaboradores: a professora Ann Margaret Sharp, professora do Departamento de Fundamentos da Educação, e Frederick S. Oscanyan, especialista em lógica, os quais ajudaram Lipman na elaboração dos textos das novelas. “O material didático do Programa foi elaborado como forma de sistematização da metodologia e auxílio aos professores e estudantes para uma melhor investigação filosófica em sala de aula.” (BROCANELLI, 2010, p. 25)
Segundo, Matthew Lipman, as novelas é uma metodologia que ajuda na direção da discussão filosófica, conforme relata o próprio autor:
A metodologia por meio da qual o questionamento e a discussão são melhor ensinados, baseia-se na verdadeira natureza da filosofia. A metodologia de incentivar as crianças a pensarem filosoficamente aparece claramente na ênfase dada à descoberta nas novelas do programa de Filosofia para Crianças. (LIPMAN, 2014, 158)
Outras novelas são escritas por Matthew Lipman a partir de 1974, bem como manuais para professores. Esses manuais serviam para acompanhar e orientar os professores nas discussões com os alunos na sala de aula, e acompanhava cada novela, neles contêm também exercícios e planos de discussões. Dentre as novelas aos quais iremos comentar a seguir, temos: Rebeca “Elfie”, Issao e Guga, Pimpa, A descoberta de Ari e Telles, Luísa e por fim Satie.
NOVELA 1 – Rebeca “Elfie”(Pré-escola)
Esta novela foi escrita por Ronald Reed, colaborador de Mattew Lipman. Ela é utilizada para iniciação filosófica com crianças da Educação Infantil. Conta a história de uma menina intrigada com as questões que cercam a realidade e a fantasia, e isso é o ponto de partida para o desenvolvimento de habilidades como: detectar semelhanças e diferenças, raciocínio hipotético, critérios de classificação, relação de causa e efeito, relação parte e todo, esclarecimento de conceitos. Ao longo da narrativa ilustrada, as crianças são convidadas a pensar sobre o próprio pensar, se envolvendo com problemas presentes na filosofia, tais como a percepção, a identidade, a imaginação, a verdade, as relações entre realidade e aparência, conhecimento, probabilidade e possibilidade, perguntas e pensamento. O manual do professor que acompanha essa novela é de autoria de Mandel e Reed, tendo por título
Manual de instruções. (BROCANELLI, 2010, p. 25-26)
Sobre a análise da novela Rebeca “Elfie”(Pré-escola) podemos inferir que a mesma possibilita a formação do pensamento autônomo e crítico, quanto ao ponto de vista frankfurtiano. Esta novela oportuniza uma educação emancipatória na medida em que as crianças adquirem habilidades de pensarem sobre a verdade e as relações de realidade e aparência, porém cabe ao professor levantar questões do cotidiano da criança que toquem as questões relativas a mídia e ao consumismo que atinge as crianças como a publicidade infantil que vende brinquedos, entretenimento, e alimentos de acordo com a necessidade mercadológica do consumo de massa.
NOVELA 2 – Issao e Guga (Ensino Fundamental I - 1º, 2º e 3º anos)
Essa narrativa foi escrita por Mattew Lipman, para alunos do Ensino Fundamental. As personagens Issao e Guga nos contam sobre umas férias inesquecíveis que viveram juntos. Issao visita a fazenda de seus avós e torna- se amigo de Guga, que mora com sua família ali perto. O avô de Issao, que já foi marinheiro, conta sobre um encontro que teve com uma baleia e diz que gostaria de visitar um lugar onde pudesse, novamente, observar as baleias. Issao o convence a fazer esta viagem e levar a família de Guga. A maneira como Issao e Guga demonstram interesse por animais, pela noção de espaço e tempo e por muitos outros aspectos da natureza, faz deste texto uma introdução ideial à investigação sobre as relações entre a linguagem, o
mundo e as diferentes formas de percepção. As questões sobre o conhecimento humano, as preocupações com a ecologia, a reflexão sobre o belo, o real e a verdade são temáticas que permitem às crianças o contato com o espanto que dá origem ao filosofar, como o “maravilhar-se com o mundo”, como afirma Lipman. Há, nesta novela, uma ênfase nas questões da fenomenologia da percepção. Como percebemos o mundo? Será que o mundo é tal qual vemos? Essas questões tomam relevância no texto porque Guga, a amiga de Issao, é cega. O Manual que acompanha essa novela foi escrita por Lipman e tem por título Maravilhando-se com o mundo. (BROCANELLI, 2010, p. 25-26)
Sobre a análise da novela Issao e Guga (Ensino Fundamental I - 1º, 2º e 3º anos), podemos destacar que a novela possibilita, em certa medida, a formação do pensamento autônomo e crítico, quanto ao ponto de vista frankfurtiano. Esta novela oportuniza uma educação emancipatória na medida em que as crianças adquirem habilidades de pensarem as diferentes percepções de mundo, à volta ao campo e suas experiências no ambiente rural, como as questões relativas à ecologia e à natureza, a própria humanidade que se depara e se relaciona respeitosamente compreendendo os pontos de vista daquele que possui uma necessidade especial. Todo esse contexto pode proporcionar ao professor e estudantes levantarem questões sobre a sociedade rural e a sociedade urbana, sobre como a indústria cultural, de como o capitalismo pode promover um (urbano), em detrimento do outro (campo- rural), como o capital e as tecnologias podem degradar o meio ambiente ecológico e sua biodiversidade. Esta novela pode promover discussões relativas à busca de soluções ao problema ecológico. O enfrentamento e a resistência referente à questão podem surgir através de uma nova consciência de sustentabilidade ecológica, econômica e social. A referida novela também pode propor uma nova consciência sobre a diversidade de necessidades especiais, o respeito pelo ponto de vista daqueles que não conseguem ver o mundo com os olhos, mas que o percebe com os olhos da consciência crítica social. De acordo com Matthew Lipman, nas novelas de Rebeca “Elfie” e na Issao e Guga:
A ênfase está na aquisição da linguagem, com especial atenção nas formas de raciocínio implícitas na conversação cotidiana das crianças. Também existia a preocupação de intensificar a consciência perceptiva, compartilhar as perspectivas através do diálogo, fazer classificações e distinções e raciocinar sobre os sentimentos. (LIPMAN, 2014, p. 86)
NOVELA 3 – Pimpa (Fundamental – 4º e 5º anos)
Também escrita por Lipman, é uma novela indicada para crianças de 9 a 11 anos. Narra as aventuras de uma garota questionadora, preocupada em descobrir os significados das coisas e suas possíveis relações. Apresenta às crianças a possibilidade de investigação sobre diversos temas que têm sido
objeto de preocupação da Filosofia: a verdade, o que é urgente, o que é justiça, direito, dever, necessidades, regras de conduta, etc. Pimpa questiona se “espaço”, “tempo”, “família”, “mamíferos” e até mesmo o seu próprio nome são relações reais ou se elas só existem em nosso pensamento. Ou, dito de outra forma: qual a relação entre linguagem e as coisas? Temas da metafísica, da fenomenologia e da teoria da linguagem estão presentes na novela, desdobrando-se em questões sobre a relação entre corpos e mentes; partes e todo; ideias e coisas. O manual do professor recebeu o título Em
busca de significados. (BROCANELLI, 2010, p. 26-27)
Sobre a análise da novela Pimpa (Fundamental – 4º e 5º anos) inferimos também que a mesma possibilita a formação do pensamento autônomo e crítico, quanto ao ponto de vista frankfurtiano. Segundo, Matthew Lipman, sobre esta novela, Pimpa é:
[...] mantida a ênfase anterior, pretendendo preparar as crianças para a introdução do raciocínio formal da etapa seguinte. É dada maior atenção a estruturas semânticas e sintáticas tais como: ambiguidade, conceitos que estabelecem relações e noções filosóficas abstratas (causalidade, tempo, espaço, número, pessoa, classe e grupo. (LIPMAN, 2014, p. 86)
A novela Pimpa oportuniza uma educação emancipatória na medida em que as crianças adquirem habilidades de pensarem sobre a verdade, a justiça e quando põe em cheque se as relações são de fato reais ou se existem apenas em nosso pensamento. A fenomenologia e a teoria da linguagem podem se tornar ponto de partida para o questionamento de argumentos de autoridade vinculados na mídia, o professor levantar questões referentes a falas de artistas, sobre o que se fala (conteúdo), em nome de quem se fala (do capital), para quem se fala (para a massa) e por que se fala (a intencionalidade), estas questões se estão no âmbito da comunicabilidade e linguagem midiática que visa consumismo sem criticidade. Pimpa torna-se um modelo de criança em pré-adolescência questiona sobre a existência das coisas e como elas se dão de verdade, aqui o professor e os estudantes buscam os significados sobre os assuntos que podem nortear seu cotidiano, como as modas, ou até mesmo suas próprias condutas, o que aparece como entretenimento, assim os estudantes podem formar-se mediante ao pensamento crítico e reflexivo perante a sociedade mercadológica do consumo de massa.
NOVELA 4 – A descoberta de Ari dos Telles (Fundamental II – 6º e 7º anos) Foi a primeira novela a ser escrita por Lipman e é indicada para adolescentes de 11 a 13 anos. Narra a aventura de um garoto que, surpreso com uma questão formulada por um professor em um momento de distração em sala de aula, busca com seus amigos os caminhos para compreender as regras de um bom raciocínio. Um dos principais objetivos dessa novela é que os
alunos aprendam a pensar e a pensar sobre o pensar. Por isso, Ari propõe princípios e práticas que propiciem o raciocínio estruturado e busca oferecer aos alunos familiaridade com a sequência de ideias lógicas. Sua ênfase está na lógica formal, Na lógica das boas razões e na lógica do agir. Esta novela nos apresenta uma introdução à investigação filosófica, problematizando temas de Ontologia, Antropologia, Teoria do Conhecimento, Estética, Fenomenologia, Política, Linguagem e Educação. O Manual chama-se
Investigação filosófica. (BROCANELLI, 2010, p. 27)
Sobre a análise da novela A descoberta de Ari Telles (Fundamental II – 6º e 7º anos), destacamos também, que a mesma possibilita a formação do pensamento autônomo e crítico, quanto ao ponto de vista frankfurtiano. A novela oportuniza uma educação emancipatória na medida em que os adolescentes aprendem a pensar sobre o próprio pensar, ou seja, quando se percebe que existe uma maneira rígida de pensar com raciocínio lógico, estruturado, cuidadoso, analítico. Partindo deste ponto os adolescentes podem adentrar conscientes em investigações filosóficas, problematizando diversos temas. Assim, expõe Matthew Lipman sobre a novela:
A novela oferece um modelo de diálogo tanto entre as próprias crianças como entre as crianças e os adultos...A história é um modelo de educação não autoritária e antidoutrinadora. Respeita o valor do questionamento e do raciocínio, estimula o desenvolvimento de métodos alternativos de pensar e imaginar e mostra como as crianças são capazes de aprender umas com as outras. Além disso, esboça o que poderia ser a vida como participante de uma pequena comunidade onde as crianças tivessem seus próprios interesses, não deixando, porém, de se respeitarem mutuamente como pessoas e fossem capazes, de vez em quando, de se envolverem numa investigação cooperativa. (LIPMAN, 2014, p. 86 -87)
Assim, como observamos, podemos analisar que a novela A descoberta de Ari Telles os adolescentes estudantes descobrem também que o raciocínio lógico permite um olhar crítico sobre qualquer assunto que é posto, inclusive sobre política, ética, educação, dentre outros. Cabe aqui a mediação do professor a fim de tocar em assuntos como a consciência crítica em relação à educação, ao lançar questões, por exemplo: que tipo de educação permite a emancipação do sujeito em sociedade? Esse tipo de questão permite, em certa medida, pôr em cheque até mesmo o método de aprendizado filosófico lipminiano que os adolescentes estão experimentando, além e qualquer outro tipo de educação formal. Dessa forma, a Novela A descoberta de Ari Telles torna-se propícia para levantarmos questionamento do tipo autoconsciente frankfurtiano, e em conseguinte a formação da autoconsciência, a qual pensa a realidade a partir da própria realidade humana, social, em detrimento da percepção da
realidade individualista e consumista, da racionalidade técnica.
NOVELA 5 – Luísa (Fundamental II – 8º e 9º anos)
Escrita por Lipman, é indicada para adolescentes de 13 a 15 anos. Trabalha com questões como: o que é certo e errado? O que é liberdade? O que é Justo? Estas e outras questões instigam os personagens da novela e levam os alunos a percorrerem os caminhos da investigação ética. Luísa retoma algumas das questões lógicas que já aparece em Ari e introduz as questões éticas que são o tema dominante de toda a novela. Em Luíza, o diálogo entre os personagens é referência para o diálogo na sala de aula entre os estudantes, na busca dos critérios para construção dos juízos morais, do entendimento e avaliação das ações morais que cercam o cotidiano. O Manual chama-se Investigação ética. (BROCANELLI, 2010, p. 28-29) Sobre a análise da novela Luísa (Fundamental II – 8º e 9º anos), inferimos que a mesma possibilita a formação do pensamento autônomo e crítico, quanto ao ponto de vista frankfurtiano. A novela oportuniza uma educação emancipatória na medida em que os adolescentes que já passaram pela novela A descoberta de Ari Telles, já conseguem pensar com raciocínio lógico, estruturado, cuidadoso, analítico. De tal maneira expõe Matthew Lipman sobre a novela Luísa:
[...] se concentra em temas éticos e sociais como justiça, mentira, verdade, natureza das regras e padrões. Outros temas explorados são os direitos das crianças, as discriminações de trabalho e de sexo, os direitos dos animais. Luisa se preocupa com a inter-relação da lógica e da moral. Esse currículo ajuda aos estudantes a oferecerem boas razões na justificação de suas crenças e de certos desvios dos padrões normais de conduta. (LIPMAN, 2014, p.87)
Deste modo, os adolescentes podem adentrar conscientes em investigações filosóficas éticas, problematizando diversos temas e aprofundando questionamentos sobre a realidade humana, social. Nesta novela os adolescentes mais maduros (13 a 15 anos), trazem consigo indagações com maior propriedade referente a questões referentes que os toca em seu cotidiano, como o futuro profissional, namoro, família, filhos, drogas, festas, modas. Aqui as relações de investigações éticas são significantes para o universo do adolescente porque é uma fase que eles devem tomar decisões importantes para suas vidas, é um tempo que se efetiva a emancipação do sujeito na sociedade. O pensamento autoconsciente permite ampliar os horizontes de visões sobre a realidade do mercado de trabalho, a questões sócio-ecológicas, e ao pensamento sobre o bem comum. Todas essas questões e outras podem vir à tona numa
determinada discussão em sala de aula (Comunidade de Investigação).
NOVELA 6 – Satie (Fundamental II – 8º e 9º anos)
“Satie” é uma história em que aparecem os mesmos personagens já um pouco mais velhos e cursando o Ensino Médio. Ari, tendo que fazer um trabalho de redação em poesia e em prosa, protesta dizendo que não consegue escrever nada. A história explora a maneira de lidar e superar os bloqueios de escrever. E, ao mesmo tempo, trata de temas subjacentes ao ato de escrever tais como a experiência e o significado, os critérios de avaliação do trabalho escrito, a relação entre o pensar e o escrever, a natureza da definição e a distinção entre arte e artesanato. O manual “Escrever: como e porquê” se concentra na escrita de poesias e sugere vários exercícios e atividades. (LIPMAN, 2014, p.87)
Sobre a análise da novela Satiê (Fundamental II – 8º e 9º anos), inferimos também que a mesma possibilita a formação do pensamento autônomo e crítico, quanto ao ponto de vista frankfurtiano. A experiência e o significado são o ponto de partida para as investigações filosóficas, no campo da investigação ética, da linguagem e dos estudos da sociedade. A escrita reforça o pensamento crítico e consciente, além de difundir ideias que criticam os modelos vigentes da Indústria Cultural. À exemplo dos frankfurtianos, e de quaisquer outros filósofos e teóricos que escreveram ensaios para difundir suas ideias, os estudantes devem aprender a comunicarem suas ideias pelo registro da escrita, assim tornam-se autônomos, críticos e autoconscientes frente à realidade social.
Em relação ao Ensino Médio, Matthew Lipman, não escreve novelas, mas sugere que deveria ser formado por diversas Novelas que permitisse a abordagem de uma série de abordagens filosóficas de acordo com vários campos da filosofia. Como relata a seguir:
O currículo para o Ensino Médio deveria ser formado por uma série de abordagens que representasse uma área de especialização filosófica mais avançada. Novelas distintas, cada qual com seu próprio manual, deveriam ser criadas nas áreas de ética, epistemologia, metafísica, estética e lógica. Cada uma delas contribuiria para reforçar e dar continuidade às habilidades de pensamento e às técnicas para aplicá-las. Tais habilidades foram desenvolvidas nos níveis anteriores do Programa de Filosofia para Crianças. (LIPMAN, 2014, p. 87-88)
Numa perspectiva mais avançada do Programa de filosofia de Matthew Lipman, a proposta para o Ensino Médio permitiria um aprofundamento na condição da investigação filosófica para os jovens que já vem fazendo esta experiência desde a primeira infância. Entretanto, no Brasil, o ensino de filosofia é ministrado nas escolas públicas, apenas no
Ensino Médio, o que dificultaria sua implantação diretamente para estes jovens, onde muitos já estão fadados à descrença da educação e de seu significado.
Por fim, depreendemos que o método Lipminiano como prática pedagógica, em certa medida, possibilita alcançar o objetivo do ideal frankfurtiano de uma educação emancipatória e da formação de sujeitos autônomos, no entanto, salientamos a importância do professor na mediação das discussões, pois ele pode fomentar discussões relevantes e preterir outras que são insignificantes para a questão.
6. AS CONTRIBUIÇÕES DO ENSINO DE FILOSOFIA PARA CRIANÇAS NA PERSPECTIVA DE UMA PEDAGOGIA QUE FAVOREÇA A FORMAÇÃO DO SUJEITO AUTÔNOMO E CRÍTICO, CAPAZ DE RESISTIR À INDÚSTRIA
CULTURAL E SUPERARANDO AS FORMAS DE ASSUJEITAMENTO NA
CONTEMPORANEIDADE
Neste capítulo interessa-nos tecer sobre as contribuições do ensino de filosofia para crianças proposto por Matthew Lipman na perspectiva de uma pedagogia que favoreça a formação do sujeito autônomo e crítico, capaz de resistir à indústria cultural e superar as formas de assujeitamento na contemporaneidade.
Em primeiro lugar ratificamos que muitos séculos de tradição filosófica se passaram, porém em todo o tempo elas defendem as vantagens de cultivar a razão, o pensamento crítico, o pensamento reflexivo, o pensamento cognitivo rigoroso e lógico, o filosofar com propriedade e fundamento, próprio de quem pensa com autonomia (pensar por si mesmo) e autoconsciência. Com Matthew Lipman não fora diferente, ao pensar sobre o tipo de educação que deve formar os jovens do sec. XXI, pois percebe que o ensinamento da filosofia deveria assumir importância de primeira ordem na pauta das preocupações pedagógicas, assim, Lipman elucida sobre o objetivo da educação:
Uma meta da educação é livrar os estudantes dos hábitos mentais que não são críticos, que não são questionadores, para que assim possam desenvolver melhor a habilidade de pensar por si mesmos, descobrir sua própria orientação perante o mundo e, quando estiverem prontos para isso, desenvolver o seu próprio conjunto de crenças a cerca do mundo. Não podemos esperar que as crianças se respeitem a si mesmas como pessoas a menos que tenham aprendido a utilizar plenamente os poderes criativos e intelectuais com as quais estão equipadas. (LIPMAN, 2014, p.131)
É interessante notar que o Relatório para a Unesco, Delors, sobre a educação para o século XXI incorpora de uma maneira peculiar o pensamento reflexivo, crítico e autônomo, aberto à convivência do outro. Diz o relatório, em seu capítulo 4:
[...] a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais que, ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares do conhecimento: aprender a conhecer, isto é adquirir
os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra as três precedentes. (DELORS, 1998, p.89-90)
Matthew Lipman em seu programa de filosofia para crianças consegue abarcar estes quatro pilares da educação: no aprender a conhecer e aprender a viver juntos, o programa lipminiano traz a metodologia da Comunidade de Investigação, tomando como base o diálogo e a discussão a partir da investigação filosófica, no aprender a fazer e aprender a ser, Matthew Lipman propõe em seu programa de ensino, como ponto de partida, suas Novelas Filosóficas com a proposta de que as crianças descubram a partir das histórias fictícias, problemas e