Começando com o segundo verso do Magnificat de Duarte Lobo, identificamos o tom salmódico citado quase na sua totalidade no cantus (ver Figura 7). No quinto compasso há alguma ornamenta- ção, mas logo de seguida surge dó, nota de recitação. A partir daí a fórmula segue-se, até ao final, ininterrompida por ornamentações melódicas. A pausa a meio do tom, no compasso 8, trata-se da meia cadência da melodia. Através desta lógica, tentamos verificar se o mesmo ocorre noutras vozes. A entoação inicial é claramente identificável quer no Cantus quer no Tenor e no Altus, mas em diferentes transposições.
Simmons refere: “Various ways in which the reciting tones can be quoted are listed. The best arrangement is for all the voices to share an imitative point based on the appropriate intonation at the beginning of each verse (although it is recommended that there should be a certain amount of melodic variation of the point)”.38 O Tenor apresenta a entoação, mas, até à finalis, não apresenta reiteração em dó, que seria a nota de recitação, nem noutra nota (ver figura 7). Concluímos que nesta voz só é usado o levantamento do segundo tom salmódico.
Figura 6: Segundo tom salmódico no Cantus, cc. 1-13, 2º verso, Magnificat de Duarte Lobo
Figura 7: Entoação do segundo tom salmódico no Tenor, cc. 1-3, 2º verso, Magnificat de Duarte Lobo
Quanto ao Altus, a entoação está transposta uma quinta acima. Sendo assim, a nota de recitação que procuramos é sol. Apesar de alguma escrita mais livre no interior do tom salmódico, a nota de recitação é reiterada e a cadência é igual à do segundo tom salmódico, embora transposta.
Figura 8: Entoação do segundo tom salmódico no Altus, cc. 1-5, 2º verso, Magnificat de Duarte Lobo
Quanto ao Bassus, embora haja reiteração em dó, tal pode dever-se mais ao centro tonal/modal ser a nota de recitação do que propriamente parte da fórmula melódica do tom salmódico.
Tal como na obra de Duarte Lobo, o cantus do segundo verso do Magnificat de Tomás Luis de Victoria é bem reconhecível visualmente. Também este apresenta uma ornamentação pelo meio (Fig. 9). Esta aparição do tom salmódico como cantus firmus é explicada por Simmons da seguinte ma- neira: “The canticle tone can also appear as a cantus firmus in one voice, with the remaining voices singing other material, whilst "preserving always the gravity and artifice belonging to the canticles." This is described as a "very good order, often observed by good composers".”39
39 Ibid., 14.
Figura 9: Segundo tom salmódico no Cantus, cc. 1-19, 2º verso, Magnificat de Tomás Luis de Victoria
Nas outras vozes, o tom salmódico aparece de forma mais fragmentada. No Bassus, o tom salmó- dico surge uma quarta acima; no Tenor, surge não transposto (não considerando a oitava como uma transposição melódica, mas uma mudança de registo). (Fig. 10)
Figura 10: Segundo tom salmódico no Bassus, cc. 1-19, 2º verso, Magnificat de Tomás Luís de Victoria40
40 Tomás Luis de Victoria, Magnificat Secundi Toni, ed. Felipe Pedrell (Breitkopf und Härtel, 1904), 16, http://imslp.org/wiki/16_Magnificats_(Victoria%2C_Tomás_Luis_de).
No 4º verso do Magnificat de Duarte Lobo, identificamos facilmente o tom salmódico no Altus a meio do verso. Sem ornamentação, apresenta, tal como anteriormente, uma pausa que indica a meia cadência (Fig. 11).
Figura 11: Segundo tom salmódico no Altus, cc. 15-29, 4º verso, Magnificat de Duarte Lobo
Excetuando o Altus, apenas podemos verificar que o início do Bassus, imitado pelas restantes vozes, é semelhante à parte cadencial do tom salmódico.
Figura 12: Terminações nas 4 vozes, imitação, cc. 15-18, 4º verso, Magnificat de Duarte Lobo
No 4º verso do Magnificat de Tomás Luis de Victoria, a escrita mais livre e ornamentada revela mais dificuldades em encontrar o tom salmódico. A entoação, ou levantamento, parece não existir, encontrando-se o tom salmódico no Cantus e Tenor.
Figura 13: Tons salmódicos no Cantus e Tenor, cc. 26-39, 4º verso, Magnificat de Tomás Luís de Victoria41
No Magnificat de Duarte Lobo, outras citações ou paráfrases do segundo tom salmódico surgem nos seguintes momentos:
• 6º verso: Altus, cc. 53-57; Bassus, cc. 40-42, que é, por sua vez, uma imitação transposta do que ocorreu nos compassos 34 e 35. Posteriormente a estes compassos, há uma imitação no Altus.
• 8º verso: Cantus, cc. 65-75 e cc. 77-79; Altus, cc. 64-66.
• 10º verso: Cantus, cc. 81-83; Bassus, cc. 87-88; Altus, cc. 84-94, encontrando-se noutra transposição, uma quinta acima.
• 12º verso: Cantus 1, cc. 101-117; Cantus 2, cc. 105-106; Altus 1, do início ao fim, uma quinta acima.
No caso do Magnificat de Tomás Luís de Victoria, o segundo tom salmódico surge nos seguintes versos.
• No 6º verso, ocorrem as entoações nas melodias iniciais do Tenor (1-3) e Bassus (4-6). Esta última está transposta uma quinta abaixo. No Altus, não surge a entoação, mas a nota de recitação é reiterada com alguma variação ornamental a partir do nono compasso. A finali- zação está presente nos compassos 16 e 17, imitada mais uma vez nos compassos seguintes. • No 8º verso, desde a sua entrada no 16º compasso, a voz Cantus I expõe o tom salmódico sem ornamentação. Seis compassos antes do fim, a finalização do tom ocorre no Cantus II.
• No 10º verso, a entoação apresenta-se no Altus uma quarta acima ao tom salmódico original. Nos últimos compassos, o Cantus, na transposição original, cita o tom salmódico de forma não ornamentada.
• No 12º verso, o Altus II, do início ao fim e com repetição da finalização, apresenta o tom salmódico uma quinta acima. De maneira semelhante, mas na transposição original, o Tenor apresenta o tom salmódico também sem ornamentação. Com estas duas citações inalteradas, o compositor cria vários silêncios e diferentes entradas nas duas vozes de forma a conjuga- rem com as harmonias das restantes vozes.
A anterior análise propiciou a verificação de imitações recorrentes como é o caso da entoação do tom salmódico. Uma das imitações mais recorrentes é a da entoação do tom salmódico. Simmons refere “In the context of melodic structure, one of the most common is for the Magnificat intonation to generate the initial imitative arrangement”.42 É o caso do início do Magnificat de Duarte Lobo, como anteriormente verificamos.
Os versos seguintes de Duarte Lobo iniciam-se com várias imitações sucessivas das vozes. Algu- mas das transposições são adaptadas à harmonia presente. Após as entradas, cada voz desenvolve livremente.