• Aucun résultat trouvé

Na pesquisa, por meio das entrevistas e da observação direta verifica-se a intensificação do trabalho dos profissionais na escola. Aumenta o número de provas que precisam aplicar, o número de formulários a preencher, por exemplo. No entanto, esses mesmos profissionais não veem correspondência entre essa intensificação e melhor educação. Começa a surgir a ideia de que essa intensificação serve à burocratização do trabalho educativo. Nesta tese, o conceito de burocratização se refere à limitação do processo reflexivo e criativo de uma atividade, que possibilitaria a quem a realiza adequá-la aos fins pretendidos.

Pergunto ao professor João, que leciona História, se todas as atividades que decorrem da busca de elevação do desempenho desembocam numa intensificação do trabalho. Dou, inclusive, alguns exemplos de atividades que poderiam se caracterizar como intensificação do trabalho, retirados de sua própria fala. O professor confirma a ocorrência da intensificação do trabalho educativo, possibilitando entender que essa intensificação se dá de fato numa perspectiva burocratizada, em que não se tem uma correspondência entre mais trabalho e mais e melhor educação:

Com certeza absoluta, porque, por exemplo, os resultados nossos de prova, às vezes, a gente tem que separar tempo nos nossos módulos, nos nossos horários de reunião, para fazer lançamento desses dados no sistema, né? Para quem são os professores da área [Português e Matemática], eles têm que... tem toda uma documentação que eles têm que preencher. Na minha área, como não tem uma prova específica, isso não acontece, mas isso acaba incidindo pra nós também, porque a gente colabora com aquele esforço que eles têm, né? Minimamente que seja, por exemplo, que seja, lançando os dados no sistema. Então, com certeza teve uma intensificação do trabalho e além de ter que dar conta daqueles descritores que vão estar na prova, o professor acaba tendo que dar conta de uma tabulação daqueles dados também, em algum sentido, né? Então, com certeza, teve um processo de intensificação do trabalho.

A professora Verônica, que leciona Língua Portuguesa, logo após afirmar a necessidade de um mecanismo que informe à sociedade sobre o que é feito na escola, aponta as contradições do sistema de avaliação e responsabilização, no sentido da intensificação do trabalho e da ausência de recursos: “Agora com essa alteração, que eu achei um pouco pesada para a gente porque a gente já tem tanta coisa.” A professora se refere à notícia de que os professores das séries finais do ensino fundamental teriam de acessar o site, cadastrar-se, para montar as avaliações do PAAE. O aviso estava sobre a mesa da sala dos professores, num cartaz com data de 17 de junho de 2015. A professora destaca o único ponto positivo que vê na mudança:

Por um lado é bom, porque a gente que conhece o perfil dos meninos. Mas o tempo... Acho que o tempo é que é o problema, que quem trabalha o dia todo na escola... Nós não temos um computador que fica disponível para isso... Ah, que sacrifício. Então, ou você trabalha em casa, e é o que eu tô mais fazendo é trabalhar em casa... Porque, assim, no tempo que a gente tem de módulo, a gente não tem [recurso] assim, disponível.

[...]

É, intensificou. Eu me sinto sobrecarregada. O plano de aula já tem que ser direcionado, porque nosso público é muito diferenciado e de uns anos para cá eu estou percebendo que está ficando ruim. Está piorando, porque eles não estão interessados, a família também não tá.

Verônica se vê dividida entre realizar em sala de aula algo que tenha a ver com a vida dos alunos, que interesse a eles, ou “seguir o programa”. Em sua fala, percebe-se como os currículos oficiais se descolam da realidade, descontextualizam-se, na medida em que se exigem das escolas que essas ensinem “habilidades mínimas”. No centro da dicotomia entre o que os alunos vivem e o conhecimento descontextualizado, estão os professores e a falta de tempo e de recursos. Sobre esse tema, as palavras da professora Verônica são as seguintes:

Uma cobrança que eu tenho comigo é assim: o que que eu vou ensinar? Como professora de Português, o que que eu tenho que... privilegiar com os meus alunos. Porque, assim, se for pelo que se vê analisando o contexto social dos meninos, mais da metade das coisas eu deixo de ensinar. Porque seriam os conteúdos que, se eles forem prestar uma prova em qualquer órgão, escola, instituição, eles vão ter que saber. Então... Mas a minha preocupação é: se eu vou trazer um plano de aula já mais voltado para o conteúdo que eles têm que ter, né, adquirir no ano de curso em que eles estão, eles não querem. Eles não se veem motivados nem interessados em aprender aquilo. Então, às vezes eu não sei.

O currículo descontextualizado e exigido dos professores como “o que ensinar” falha porque não permite que, ao modo como ensinou Paulo Freire (1987), se tome como ponto de partida o contexto, considerando cultura e valores, para tornar possível o acesso também ao

conhecimento e à cultura que se defendem tanto como os necessários. Obrigados que estão a ensinar um conhecimento cobrado em avaliações externas, etc., os professores se detêm no que deveria ser o ponto de chegada, sem poder sequer identificar e atuar num ponto de partida coerente. As consequências são a negação do direito à educação como direito ao “desenvolvimento do potencial humano”, como diz a Resolução CNE/MEC nº 7/2010, que estabelece as diretrizes curriculares nacionais para o ensino fundamental de nove anos.

Na fala da professora Verônica, verifica-se ainda o lado positivo de se prever tempo para preparação de aula e para estudo, mas, ao mesmo tempo, a burocratização do chamado horário de módulo, a ser cumprido na escola. Diante da alegação de alguns professores de que, ao cumprir o horário de módulo na escola, sem recursos para realizar os trabalhos que necessitam (por exemplo, montar as provas do PAAE na Internet), a existência do horário de módulo mais atrapalha do que ajuda. Na fala de Verônica, por exemplo, depois de cumprir o horário de módulo II, ela tem de dedicar mais algumas horas em casa, para concluir aquilo que na escola não é possível realizar, pela ausência de recursos. A coordenadora pedagógica Jussara discorda. Jussara diz que a escola dispõe de computadores suficientes e que é necessário considerar que existe certo desinteresse da parte dos professores por aprender a usar o sistema operacional disponibilizado pelo governo (Linux).

Para se compreender essa questão, é necessário esclarecer que os computadores ficam na biblioteca, espaço que é continuamente utilizado por algum grupo de alunos e professores, inclusive porque também funciona como sala de projeção e de vídeo. É necessário dizer, também, que os horários de módulo são cumpridos individualmente, nas “janelas” de horários dos professores. Talvez aí estejam alguns fatores que incompatibilizem a utilização dos computadores pelos professores, pois nesses horários a biblioteca é utilizada pelos alunos.

A professora de Matemática, Luciana, completa as palavras de Verônica:

Além de a gente ter as provas mensais, a gente vai ter que fazer mais uma prova para a gente provar... Por um lado, não é ruim, porque seria o que a gente tá trabalhando. Só que mais trabalho. [...] Claro. Intensifica mais o trabalho. Até agora eu não consegui pegar a prova do Proeb.

A professora se refere ao PAAE, que abriu inscrições para os professores se cadastrarem e criarem suas avaliações on-line com o banco de itens disponível – conforme aviso que estava sobre a mesa da sala dos professores no dia 17 de junho de 2015 e conforme informações do site dos Programas de Avaliação que compõem o Simave. Ainda a fala de Luciana:

Porque se eu pegar a prova eu não acabo de fazer o meu trabalho, que é fechar esse bimestre. E já foi dado, já tem umas duas semanas que eu tô sabendo que já abriu, já para a gente fazer a prova. Mas eu não consegui pegar. Então... Ou a gente dá prioridade para uma coisa ou para outra.

A professora do segundo ano, Maria, completa: “Não tem tempo para discutir. Como você vai discutir uma coisa que você precisa intervir, sendo que nosso dia a dia é muito atribulado com uma porção de outras coisas, de outras demandas. Não dá muito certo não. Infelizmente, ainda temos muito para caminhar nesse sentido.”

Por essas falas, pode-se dizer que a intensificação do trabalho educativo no contexto do monitoramento da qualidade da educação não resulta no aumento da produtividade da escola, se entendida a produtividade como a realização do produto que essa instituição se propõe a realizar. Produzem-se mais baterias de testes, mais tabulações, classificações de dados, mas não se aumenta a produção de sujeitos e sequer vai na direção da garantia dos direitos desses de se formarem como tais.

Documents relatifs