About survival and termination:
7.2 Examples of Best Practice
O Greenpeace possui um “setor” em seu quadro que é de fundamental importância para sua existência, como diz Paulo, a “alma da organização”: os voluntários. Estas pessoas representam a “a alma militante” (Paulo) da organização, “são pessoas que no seu dia a dia reciclam lixo, evitam usar o carro, eles acreditam naquilo com todo o coração” (Luana). Ou seja, são pessoas que, de alguma maneira, compartilham um determinado modo de vida, ainda que marcado por uma profunda heterogeneidade, mas que revela o caráter não apenas político, mas também cultural dos movimentos ambientalistas (Carvalho, 2001; Krischke, 2000). Na entrevista com o ativista Jairo, ele diz que um dos aspetos que o faz se interessar pelo Greenpeace é que “ você conhece muita gente legal, porque você tá numa galera que compartilha uma ideologia, que pensa de forma parecida. Então você faz amizades com pessoas que tem tudo a ver com você” (Jairo), revelando, dessa forma, alguns pontos de identificação entre seus membros.
Os voluntários, sejam ativistas ou não, não recebem salário ou outro retorno objetivo para participar das ações do Greenpeace. Por outros motivos, eles se engajam nestas que vão desde uma simples coleta de assinatura, posto de informação e divulgação de determinado problema ambiental, até se arriscarem para barrarem uma petroleira ou um baleeiro, colocando sua própria vida em risco. No olhar de Verônica, os voluntários:
“Creo que son personas más conscientes de este problema, de como el medio ambiente afecta nuestra vida cotidiana y quieren
cambiar, quieren hacer algo para este cambio. Los voluntarios dedican tiempo libre para la organización, y el tempo en nuestra época de tanto trabajo, el tiempo posee un valor muy importante en las personas. Y no solo el tiempo, también, muchas veces, cuando estás como activista, está jugando, pues te pongas en consecuencias legales que afectan a tu vida. En este sentido, para mí los activistas del Greenpeace tienen mucho mérito porque no solo el tiempo que les dedican a la organización, también algo que afecta su vida personal”. (Verônica)
Ser ativista do Greenpeace implica em riscos de diversas ordens, seja na esfera da legalidade ou na esfera da própria vida. Luana, ao relatar sua experiência na Antártica, conta que, em geral, os navios japoneses reagem com um esguicho de água (como demonstra a foto anterior) com intuito de contra-atacar os ativistas e que, se um dos mesmos caírem na água (como ocorreu nesta expedição na qual Luana estava presente), a pessoa tem que ser retirada em 3 minutos sob o risco de morte.
Outro risco presente está no âmbito da criminalização destas ações. Recorrentemente os ativistas são presos, mas, em geral, por meio da fiança e da atuação do advogado, conseguem ser liberados. Como aponta Luana, “tem ativista que é tão militante, que tem orgulho de falar que foi preso pela causa”. A diferença entre ser um voluntário e um ativista é que este último, além de atuar de forma voluntária para o Greenpeace, ele se dispõe a participar das ações diretas que são aquelas que, em geral, apresentam mais riscos:
“Ele é voluntário mas é um ativista, ele não tá ali sozinho e não tá à toa. Neste momento ele faz parte do time do Greenpeace, está ali por uma causa e sabe que também tá correndo riscos. Ele pode eventualmente ser preso, apanhar... então o cara não pode ser passivo nisso, ele tem que saber porque tá ali...” (Paulo)
Na entrevista com Paulo, o mesmo destaca que, após o ataque terrorista ocorrido em Nova Iorque, o chamado “11 de setembro”- episódio em que fundamentalistas da rede Al Qaeda atacaram 2 aviões nos edifícios do World Trade Center em Nova
Iorque, em 2001- e, ainda, por conta do acirramento da violência que vem ocorrendo na atualidade, o sistema de controle e de vigilância das instituições de segurança pública está, cada vez mais, rigoroso. Paulo exemplifica contando uma ação que os ativistas invadiram o aeroporto de Londres (Vide ANEXO H), mostrando que, atualmente, isso seria inviável. Complementa afirmando que hoje, o Greenpeace dos Estados Unidos, após o “11 de setembro”, possui muito receio de realizar ações diretas.
Interessante que Paulo anuncia em sua entrevista uma preocupação com o “DNA do Greenpeace”, afirmando que “nós teremos que rever este modelo de atuação, pois tá cada vez mais difícil e perigoso este nosso estilo de ação direta...”, e, após, aproximadamente, um ano (setembro de 2013), ocorreu um episódio em que 30 ativistas do Greenpeace foram presos e acusados de pirataria e vandalismo pelo Governo Russo (Vide ANEXO I).
Dois ativistas escalavam um navio petroleiro da empresa Gazprom que, segundo o Greenpeace, possui um longo histórico de vazamentos na Rússia, para estender um bunner em defesa ao Polo Ártico. No dia seguinte, a guarda costeira invadiu o navio Artic Sunrise e prendeu toda a tripulação. Após este episódio, inúmeros protestos foram realizados pelo Greenpeace em prol da libertação dos ativistas, bem como a intervenção de Órgãos Internacionais (ONU, Tribunal Internacional de Direito do Mar, Anistia Internacional...) para mediar o debate com o Governo Russo. Se acusados pelo crime de pirataria, poderiam pegar até 15 anos de prisão. Contudo, sob pressão do Tribunal Internacional do Direito do Mar, conseguiram ser anistiados pelo Governo Russo mediante o pagamento de fiança, após quase quatro meses de detenção.
Há um processo seletivo para a entrada deste voluntário que, tanto no Brasil como na Espanha, se caracteriza, inicialmente, por um cadastramento e uma entrevista. Em seguida, conforme nos conta Jairo e Verônica, o voluntário participa de uma formação básica (conhecer a história e princípios da organização, as campanhas em andamento, questões jurídicas, técnicas para realizar as ações públicas...) e realiza observações junto aos voluntários mais antigos.
O Coordenador de Voluntários, ao longo deste processo, avalia o perfil do mesmo e qual seria o(s) tipo(s) de ação(ões) mais indicadas para ele. Conforme Verônica, para se tornar um vountário “solo hay que tener ganas, un poco de compromiso y creer en lo que haces”. Conforme Jairo, o Coordenador avalia tanto o perfil do voluntário, como seu engajamento (se é assíduo, se aceita realizar os diferentes tipos de ações...).
Este voluntário participa periodicamente de treinamentos técnicos, esportivos, científicos e tecnológicos, dependendo dos tipos de atividades que irá realizar. Quando vão elaborar uma ação, o Coordenador de Voluntários busca um determinado perfil: por exemplo, o perfil para ficarem acorrentado durante horas; ou para se atirar em frente a um arpão de caça às baleias; ou para mergulhar; ou
para dar entrevistas nos meios de comunicação; ou para escalar; ou para ficar meses morando em alto-mar; ou para realizar trabalho de conscientização ambiental; etc.
Os voluntários são caracterizados por alguns participantes de maneira paradoxal: se, por um lado eles são detentores de um amplo conhecimento empírico sobre a ONG (“quando estamos passando por uma crise eu pergunto para o cara que é voluntário há dez anos, eu estou há 5 anos, ele sabe bem mais do que eu. Ele diz ‘relaxa, já vi crises bem piores no Green”- Paulo); por outro, torna-se bastante difícil lidar com suas demandas, pois eles se engajaram no Greenpeace por uma determinada causa e, se por questões políticas, econômicas e institucionais o Greenpeace decide encerrar uma campanha, os funcionários, mesmo que discordando, acabam aceitando, pois ali também é o espaço de seu trabalho. Para os voluntários isso ocorre de maneira diferente, afinal, não estão ali por conta de um cargo ou salário.
Esta mistura de ativismo e profissão, denominada por Carvalho (2001) de ‘militância profissional’, é um elemento presente na luta ambiental em recorrência da necessidade da especialização e formação por parte de seus militantes, imprimindo novos aspectos que nos convocam a repensar o que seria militância nestes contextos, já que a mesma passa a ser interpelada por outros elementos oriundos do universo empresarial e institucional.
Em síntese, os participantes apontam uma relação de “muita dependência, proximidade e conflitos com a rede de voluntariados” (Paulo). Um exemplo trazido por Luana foi quando o Brasil encerrou a campanha contra os transgênicos e, de forma irônica, remetendo ao pensamento dos voluntários, diz: “ah, legal, então agora podemos comer transgênicos que não há problemas...”.
A partir destes discursos, podemos apreender que a relação estabelecida com os voluntários é paradoxal, já que, se por um lado eles são elementos que alimentam a ONG, por outro, possuem pouca participação nas deliberações desta organização. O Greenpeace se, por um lado, busca atrair e cuidar ao máximo dos voluntários (como
Paulo, Saulo e Luana nos relatam na entrevista), por outro, para garantir um certo nível de objetividade e resolutividades em suas ações, exclui uma participação mais efetiva de sua rede de voluntários.
Este aspecto foi destacado nas pesquisas de Campos (2006) e Lycarião (2010), ressaltando que, se por um lado, há um ganho na eficiência organizacional, por outro, há um enfraquecimento de uma gestão mais horizontal e mais democrática. Contudo, Lycrarião (2010) destaca que isso não faz do Greenpeace um ator cívico desimportante para a esfera pública, ao contrário, aponta que justamente por esta eficiência organizacional, consegue atingir sua meta que é provocar visibilidade e discutibilidades de temas ambientais na esfera pública:
Isso significa, portanto, de que não é da capacidade de operar em plena horizontalidade que se constitui o primado da vocação da entidade em sustentar debates públicos. Tal evocação se estabelece, de modo mais adequado, em sua capacidade da fazer com que suas contribuições alimentem a esfera pública no sentido de fazer com que as demandas políticas aí decorrentes sejam munidas de visibilidade e discutibilidade. (p. 58)
Na entrevista, Jairo diz que o voluntário participa na discussão das decisões sobre a maneira com que a atividade irá ser elaborada e executada na rua. Porém, as decisões relativas às campanhas, ficam no âmbito institucional (coordenadores e diretores).
2.3 A organização dos protestos: o planejamento das ações