As chamadas “ações diretas” são realizadas no espaço público e ganham destaque nos veículos de comunicação. Estas ações são que, inicialmente, despertaram o interesse para o desenvolvimento desta tese, pois, por serem marcadas pela irreverência e criatividade, anunciavam uma possibilidade de
enlaçarmos, teórica e empiricamente, a estética e a política para discutirmos as ações do Greenpeace.
Conforme Campos (2006), as ações diretas do Greenpeace possuem um caráter de irreverência e dramaticidade que buscam chamar a atenção do sistema midiático para enviar suas mensagens à população. As ações diretas são estratégias elaboradas com o intuito de provocar, denunciar, pressionar e visibilizar alguma questão relacionada ao meio ambiente. São ações de caráter performático que, por meio do uso de fantasias e objetos lúdicos, fazem emergir uma cena estética que, algumas vezes, se aproxima das características de um espetáculo. A irreverência e a criatividade são norteadores deste tipo de ação, já que buscam “fazer algo que não se faz todos os dias, tem que fazer sair da rotina, sair da bolha, é o inesperado, é o fator surpresa” (Paulo). Luana destaca que no início da história do Greenpeace:
“não tinha muita criatividade, não tinha gente fantasiada....o que já tinha era esta coisa da identidade da organização que é de você ir até o local e ser testemunha ocular, você ir ali e barrar aquilo que estava acontecendo. Mas, passado alguns anos, pra você barrar aquilo ali você precisava usar a criatividade. Uma coisa é você tentar interceptar os baleeiros e você vai e se coloca na frente de um arpão. Isso sempre foi feito e sempre vai ser feito. Agora, precisou de uma certa criatividade para você ver como você ia conseguir parar certas coisas. Hoje isso faz parte do DNA do Green, tem essa identidade de realizar protestos criativos, é algo intencional, uma maneira de contagiar as pessoas que não sabem ou não ligam para a causa em questão...”
Na pesquisa de Lycarião (2008) sobre o Greenpeace, o autor entende que as ações diretas são marcadas pela criatividade e irreverência, sendo denominadas de “ações espetaculares” na teoria da comunicação, caracterizadas pelo forte apelo visual e dramático e que buscam ganhar visibilidade e gerar notícia na mídia.
Além de se orientarem pelo princípio da “desobediência civil não violenta”, as ações diretas se norteiam por meio do “efeito surpresa”, ou seja, elas são elaboradas em caráter sigiloso para que consigam montar a cena de forma inusitada e inesperada. Como nos
relata Martin, Luana e Paulo, esta é uma estratégia fundamental para conseguirem atingir grandes incorporações que possuem um sistema de vigilância bastante rigoroso.
“O fator surpresa é fundamental, ninguém imaginava que, por exemplo, ir em uma audiência pública e levar na mala o cabeção da Dilma, aí você tá de terno, todo arrumado, mas, do nada, no meio da audiência, você tira o cabeção da Dilma, bota aquele cabeção e faz uma ilustração... é o efeito surpresa, né? Quando você tem o efeito surpresa você neutraliza o poder de ação, você acaba com a possibilidade da pré-ação. Com este efeito surpresa nós estamos 5 passos na frente da segurança, e é o tempo que precisamos para fazer nossa ação. Pois nossa ação não precisa, necessariamente, ser feita a longo prazo, as vezes uma ação é só uma intervenção. Aí o cara nem sabe o que fazer... os seguranças ficam se olhando, tipo, o que a gente faz? Eu espanco? Não pode espancar... eu atiro? Mas aí vai parecer que a gente é truculento... eles não tem ordem para agir, até chegar a tal ordem, já acabou a ação”... (Paulo)
Na entrevista, Luana e Jairo contam que o Greenpeace aciona uma rede de jornalistas que possui contato, uma espécie de “banco de dados” com os contatos de diversos jornalistas, enviam uma mensagem contendo um horário, local e o escrito: “garantia de boa imagem”:
“O cara não sabe do que se trata, não tem ideia do que vai rolar na acaso... se você vai acorrentar, bloquear ou só entregar um panfletinho. Num protesto, você não pode avisar uma Monsanto, Eike Batista, Shell avisando que você tá indo lá, se não, eles vão chamar mais seguranças e você não vai conseguir realizar o seu protesto. Porque um protesto ele invade, ele tem que causar o efeito surpresa..”. (Luana)
Para explicar a importância do “elemento surpresa”, Paulo conta a ação realizada no escritório da empresa OGX apontando que conseguiram algo que
“não é fácil, você conseguir ocupar o prédio de um cara tão importante como Eike? Mas conseguimos graças ao fator surpresa. Porque logicamente, você entrar com 12 baleias, se acorrentar nas catracas, sendo que tem uma super equipe de
seguranças preparadíssima... se fosse um bando de bandidos, o cara ia resolver na hora, mas o que fazer com um monte de baleias? Ele não entende o que são estas baleias.. não sabem o que as baleias vão fazer... é sex shop? Alguma propaganda? Entendeu? Pode ser qualquer coisa. Até o cara ver que você tá com algema, na catraca, impedindo a barreira e sujando tudo... já foi”. (Paulo)
A organização dos protestos é um trabalho longo e árduo. Ela é elaborada por um time de funcionários do Greenpeace: o Coordenador de Campanha que “é o cara que mais manda no protesto, que tem conteúdo técnico, científico e político” (Luana), logo, somente ele é quem fornece entrevistas aos meios de comunicação); o Coordenador da Comunicação que acompanhará todo o processo de retratação e divulgação de um protesto, por exemplo, “acionar os meios de comunicação, ver de que maneira uma foto fica melhor para o jornal, ver a cor e mensagem do bunner, ver de que maneira a mídia vai se interessar mais pela ação” (Luana)...; o Coordenador de Logística é responsável por selecionar os voluntários, preparar as fantasias e outros materiais; O Coordenador da Captação de recursos é quem vai avaliar a forma que o protesto deve ser realizado de tal maneira que eles consigam atrair mais colaboradores para “a gente continuar fazendo o trabalho que a gente faz” (Luana). Na entrevista, Luana ressalta que o cuidado maior é com o voluntário, pois, “ele saiu de casa para realizar uma ação coordenada por você”.
Paulo relata que uma ação demanda muito tempo de trabalho da equipe que, “só vai para a rua se tudo estiver muito bem planejado... pois não podemos colocar os nossos ativistas em risco”. Além disso, pontua que uma ação “é caríssima, uma ação custa 100 mil, 200 mil, você não consegue fazer uma ação com menos de 30 mil, uma ação pequena é 30 mil, uma ação grande é 150, 200 mil. É uma bica!”. Ou seja, as ações diretas envolvem um árduo engajamento da equipe, tanto em termos de trabalho, de planejamento, quanto econômico, o que faz com que, conforme Paulo, em um ano você pode fazer “seis ações ou não fazer nenhuma”.
Pâmela aponta que o Greenpeace tem uma maneira de fazer política que “es más creativo”, e que pode dar a impressão que estas ações não dão trabalho e que o Greenpeace só faz este tipo de ação, pontuando que “nosotros también estamos en espacios de lunes a viernes trabajando mucho…”, ressaltando o caráter político e empresarial do Greenpeace, pois, além de ser uma ator coletivo na luta ambiental, é, também, uma organização do terceiro setor (isso será melhor discutido no próximo item).