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Chapitre VII : Organisation de chantier

VII.1 Exécution des travaux

A Presença estava de longa data habituada a inimigos e detratores. O ataque representou a clara evidência de uma realidade viva e combativa.

(Monteiro, 1977: 29)

Em 1930 surge a primeira discussão ideológica interna. Adolfo Rocha, Branquinho da Fonseca e Edmundo Bettencourt consideravam que existiam sinais de “prematuro envelhecimento” e de “exclusividade imperativa” por parte de Régio. Como aponta Eunice Ribeiro (2000: 6), Régio não é o “mestre da Presença”, nem o mentor programático ou diretor; ele é a própria Presença. Este magistério regiano apenas provou que a defesa de uma política de equilíbrios e da individualidade superior do artista apenas faria “hibernar” o natural individualismo e a afirmação pública. Podemos considerar normal que num grupo com um número vasto de colaboradores, das mais diversas origens e com personalidades distintas, se crie algum tipo de descoordenação. Conforme observa Casais Monteiro (1972: 42), não se tratou de uma dissidência literária, mas de uma crise de ordem afetiva. Da mesma visão partilha Eugénio Lisboa (1984: 56), e acrescenta que o sucesso teve o seu preço, nomeadamente o “cortejo compósito de malícias, invejas e calúnias”. Termina, assim, o primeiro ciclo da atividade da Presença.

O percurso da Presença foi contraditório e, de certo modo, incoerente. Para além das dissidências internas, comummente explicadas pelo extenso número de

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colaboradores, pelo choque de personalidades, pelos combates exteriores e pela escassez de recursos materiais, os presencistas são acusados de se alienaram da realidade político-social que assombrava o país. São, deste modo, julgados por um deletério

apoliticismo. Todos os colaboradores acabaram por ser fustigados, tanto pelo

movimento anterior como pelo movimento posterior. O legado da Presença foi julgado por ser alegadamente contrário à verdadeira angústia do homem. Assim, ao lado do problema político, colocou--se a questão do psicologismo.

Segundo aponta Casais Monteiro (1995: 30), a obra literária não tem capacidade de refletir a totalidade da vida, e, mesmo que o autor esteja angustiado pelo momento social, a realidade social pode não estar presente. Não é uma caraterística obrigatória à criação literária. Régio sempre destacou a sua posição sobre este tema; não se tratou de um alheamento obrigatório ou forçoso, mas sim de uma vontade coletiva.

(…) a própria alienação torna-se um meio estético para o romance. Pois quanto mais se alienam uns dos outros os homens, os indivíduos e as coletividades, tanto mais enigmáticos eles se tornam uns para os outros. O impulso característico do romance, a tentativa de decifrar o enigma da vida exterior, converte-se no esforço de captar a essência, que por sua vez aparece como algo assustador e duplamente estranho no contexto do estranhamento quotidiano imposto pelas convenções sociais. O momento anti realista do romance moderno, sua dimensão metafísica, amadurece em si mesmo pelo seu objeto real, uma sociedade em que os homens estão apartados uns dos outros e de si mesmos. (Adorno, 2003: 58)

Em 1939, dá-se uma nova polémica. Mais uma vez, o apoliticismo da Presença é colocado em causa, desta vez por Álvaro Cunhal, colaborador da Seara Nova. Esta revista, fundada em 1921, caraterizava-se pela defesa da República, pela condenação dos atos gravosos dos governantes e por uma literatura realista na luta pela democracia. Os colaboradores desta publicação insurgem-se contra o esteticismo e psicologismo presencistas, na busca por uma arte próxima dos problemas económico-sociais. A polémica instaura-se quando Álvaro Cunhal condena, no nº 615 da Seara Nova, o “umbilicalismo” dos presencistas.

É transparente como água que literatura não é política nem sociologia e que arte literária não é propaganda. Mas não é menos transparente que toda a obra literária - voluntária ou involuntariamente - exprime uma posição política e social e que toda ela faz

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propaganda seja do que for (inclusivamente do próprio umbigo). Simplesmente, há quem prefira, pelas razões atrás expostas, as obras literárias que exprimem determinada posição política e social. E uma posição política e social não existe só quando se afirma claramente a preferência por um ou outro dos caminhos que saem da encruzilhada, mas existe ainda quando há um afastamento da encruzilhada. Creio - digo-o quase sem ironia - que a “adoração do próprio umbigo” exprime também uma posição (e até atitude) política e social (…). (Cunhal apud Reis, 2005: 37)

A causa do conflito centra-se no modo como a arte podia, ou não, conciliar aspetos sociais: uma dicotomia entre arte pela arte e arte ao serviço das questões político-sociais. Segundo indica Fernando Guimarães (1982: 89), entre presencistas e neorrealistas registava-se uma identidade comum relativamente à representação expressiva da realidade, nomeadamente na relação do homem com a memória e a consciência. O ponto de discordância residia na relação da arte com a sociedade. Conforme observa Régio (1978: 11), a “arte pela arte” não tem forçosamente de banir todas as preocupações de ordem política ou social.

Pode o artista num certo sentido mais especialista deixar de acudir ao incêndio da casa vizinha, deixar de descer às barricadas em que lutam seus irmãos (…) Quererá isto dizer, porém, que ele seja indiferentemente à desgraça da vizinha, à derrota ou vitória dos camaradas, à agonia do seu semelhante? Se lhes fora indiferente, como pudera ser artista? Todo o artista é tanto mais e maior artista quanto menos indiferente. O que aquilo quer dizer é que o amor, a realização e o gozo da obra se podem sobrepor, às vezes, a males pessoais tanto alheios como próprios. (Régio, 1978: 21)

O pensamento de Régio é perentório: se o artista é homem, é na sua humanidade que a obra se deve basear. As questões socioeconómicas estão presentes na medida em que poderão, ou não, fazer parte da humanidade do artista. É preciso esclarecer que os neorrealistas não pretendiam desenvolver uma nova escola literária, aliás, as questões socias sobrepunham-se em grande medida às técnicas literárias. Trata-se de maneiras distintas de entender a arte. Para os presencistas, a arte era humana e individual, enquanto para os neorrealistas era uma capacidade de denúncia das injustiças sociais. Conforme afirma Bragança (s/d: 418), enquanto a Presença acreditava na autonomia da literatura e dos seus temas, o neorrealismo acreditava que a arte teria de estar única e

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exclusivamente direcionada para a existência política e social. Deste modo, não eram as caraterísticas artísticas que estavam em causa, mas o produto final.

A segunda discussão ideológica acompanha o último número da revista, em 1940, com um artigo de Gaspar Simões. Se a primeira dissidência alterou a estrutura da

Presença, esta última desagregou-a. O texto Diálogos Inúteis trata o individualismo e o

espiritualismo intrínseco, refletindo a relação entre a felicidade e o dinheiro, o espírito e matéria, temas polémicos por natureza:

A importância que o dinheiro tem na felicidade do homem é idêntica à importância que nela tem a existência material do próprio homem. Se o homem não existisse, não se punha sequer o problema da felicidade. Se o dinheiro não existisse, não se punha sequer o problema do homem. (…) o erro da humanidade presente quando se lhe põe o problema da felicidade é sempre o mesmo: confunde o espírito com a matéria. A felicidade é um fator moral, não uma exigência da carne. (Simões apud Pimentel, 1987: 65)

O texto fora recebido com desagrado e hostilidade pelos membros da Seara

Nova que, como já referimos, defendiam o primado social e económico. Desagrado

também partilhado por Casais Monteiro, colaborador recente da nova revista, que se aproximava das posições defendidas pelos recentes neorrealistas. Gerou-se, assim, uma luta interna, que abalou a estrutura já frágil da Presença. A polémica entre Simões e Casais entre conceções espiritualistas e materialistas ditou a sentença da revista.

A Presença terminou, segundo alguns, no tempo exato. Por exemplo, para Casais Monteiro (1972: 48), tudo o que se passou após o ano de 1940 só poderia ter agravado a posição da revista, já que a censura a consideraria mais “subversiva” e os adeptos do realismo socialista mais “reacionária”. No entanto, valores como a independência da obra perante a máquina opressiva da vida política e religiosa permanecerão inamovíveis. Não se tratou de menosprezar aspetos mais concretos da vida espiritual, mas de uma escolha literária.

Não foram os conflitos pessoais ou particulares os únicos motivos da desagregação desta geração. A história da Presença foi marcada por críticas, ameaças e batalhas, causando, naturalmente, cansaço. No entanto, a sua influência não cessou após o término da revista. Alguns dos colaboradores, como Régio, Gaspar Simões ou Bacelar, continuaram na esfera crítico-literária, mas agora independentes e sem a força

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de um grupo. Deixaram, também, obras que marcaram profundamente a esfera literária em Portugal, a que mais à frente nos referiremos.

Do surto presencista resultou uma nova visão e compreensão dos valores estéticos da literatura, decisiva para a viragem a novos rumos da ficção portuguesa. Foi um veículo de divulgação e consagração de inúmeros autores e o motor de aberturas para as mais diversas formas artísticas.

Ela [a revista presença] promoveu e revelou os homens de 1915; ela atacou a literatice ou literatura livresca como Régio lhe chamou, ela exigiu penetração e inteligência críticas, aonde só havia superficialidades ou boas vontades jornalísticas; ela chamou a atenção para toda uma renovação das artes e defendeu-a; ela tentou recolocar a cultura portuguesa ao nível da informação internacional (…). (Sena, 1977: 29)

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