II. L ES CARACTERES , ΗΘΗ [ ETHE ] : DU COTE DU SUJET
1. N EVROSE DE TRANSFERT ET LIEN SOCIAL
A oportunidade de interferir na formulação de políticas pode ocorrer por meio de entrega de documentos em nome da classe empresarial e da promoção de reuniões específicas com os chefes de Estado e parlamentares. Manifestações e protestos também podem ser considerados. As mais variadas associações e grupos de empresários fazem uso desse meio, embora espera-se que associações com maiores possibilidades de agrupamento se organizem com maior frequência, tais como as confederações.
Essa é uma prática bastante comum e já utilizada também no processo constituinte quando a FIESP encaminhou à Ulysses Guimarães documentos contendo interesses empresariais que deveriam estar na nova carta constitucional.
Com esse intuito, a CNI também passou a disponibilizar um projeto econômico aos presidenciáveis. Em 1994, o documento foi intitulado como “Rumo ao crescimento: a visão da indústria” e foi entregue em uma cerimônia aos candidatos à presidência: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PPS), José Serra (PSDB) e Anthony Garotinho (PSB). O documento, com o passar dos anos, foi incorporando novas temáticas e se institucionalizando como prática da associação.
Além de algumas pontuais diferenças entre os documentos analisados, todos foram apresentados como uma iniciativa de negociação entre representantes do empresariado e governo, ao mesmo tempo em que descrevem com riqueza de detalhes a aplicação das mudanças e estratégias sugeridas.
O quadro a seguir resume as principais propostas dos seis documentos analisados na íntegra.
Quadro 13: Características de documentos organizados pelos empresários para o governo
1994 1998 2002 2006 2010 2014
Autoria Albano Franco José de Freitas
Mascarenhas Conselhos componentes da CNI
CNI CNI62 CNI63
Tema Crescimento econômico Competitivida de e internacionaliz ação da indústria
Uma agenda para o crescimento do Brasil Crescimento como visão da indústria Para crescer mais e melhor Propostas da indústria para as eleições Subtemas Política industrial, tecnológica, comércio exterior Políticas externas, industrial e tecnológica, bem como educação e meio ambiente voltados em ampliar a competitividad e da indústria nacional Política industrial – desenvolvimento, comércio exterior e inovação, agenda de competitividade Nova governança macroeconômi ca e ambiente institucional Estratégias para crescer com ênfase no aproveitam ento do tamanho do mercado brasileiro Tributário, fiscal, desburocratiza ção e comércio exterior Diferenciais - Reforma do sistema político e do Judiciário Inclusão Social e instituições políticas e judiciais Descrição de dez prioridades do empresariado Micro e pequena empresa e burocracia no Brasil Terceirização, uso do setor elétrico e previdência social Fonte: Condeferação Nacional da Indústria (CNI).
Há também a publicação dos chamados Mapas Estratégicos da Indústria entre os períodos de 2007-2015 e de 2013-2022. Apresentado em abril de 2005, o Mapa Estratégico da Indústria de 2007-2015 foi resultado do Fórum Nacional da Indústria que se estendeu por mais de seis meses e mobilizou cerca de 300 representantes empresariais de 60 entidades. O documento foi construído com base no modelo de gestão Balanced Scorecard da Harvard University, nos Estados Unidos, que permite o acompanhamento sistemático e periódico dos indicadores e metas traçadas pela indústria (CNI, 2014). Outras publicações que seguem os trabalhos legislativos – como o LegisData – têm como objetivo mostrar os interesses da classe aos dirigentes do governo.
62 Os resultados do Encontro Nacional da Indústria (ENAI), realizado em 17 e18 de novembro de 2009, e o Mapa Estratégico da Indústria 2007-2015 forneceram o roteiro para a elaboração deste documento. O aprofundamento do diagnóstico e das recomendações foi realizado a partir de discussões dos Conselhos Temáticos da CNI, Fórum Nacional da Indústria (FNI) e diretoria da CNI; a validação das propostas e recomendações à versão preliminar ocorreu em reunião de diretoria da CNI.
A satisfação do relacionamento entre os empresários e o Estado também é uma preocupação dos próprios empresários brasileiros e é controlada pelo chamado Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI). Essa medida foi iniciada com a Sondagem Industrial, em 1998, para aferir a opinião dos empresários dos estados brasileiros e é controlada pela CNI. Entretanto, o índice começou a ser divulgado apenas a partir de 199964. A ideia inicial passou por diversas e consecutivas
revisões e atualizações durante os anos de 2002, 2006, 2007, 2009, 2010 e 2012, assumindo em janeiro de 2015 o mais atual formato no qual os indicadores são agregados segundo o segmento industrial – indústria da construção, indústria extrativa e indústria de transformação – e são ponderados de acordo com o porte da empresa – pequena, média e grande. O índice é avaliado mensalmente por meio de questionário com base em quatro perguntas sobre: a) as condições atuais da economia brasileira; b) as condições atuais da empresa; c) a expectativa sobre a economia brasileira, d) a expectativa sobre a empresa. Pode-se assumir os valores de 0 a 100 de acordo com o quadro a seguir:
Quadro 14: Medidas da expectativa dos empresários sobre a economia do país
Tipo de resposta Expectativa Condições atuais Peso
1 Muito pessimista Pioraram muito 0,00
2 Pessimista Pioraram 0,25
3 Deve permanecer a
mesma situação Não se alteraram 0,50
4 Otimista Melhoraram 0,75
5 Muito otimista Melhoraram muito 1,00
Fonte: CNI (2015).
A média histórica do índice é de 56,2 e esse tem passado por uma acelerada queda nos últimos anos.
64 CNI. Índice de Confiança do Empresário Industrial. Disponível em:
<http://arquivos.portaldaindustria.com.br/app/cni_estatistica_2/2015/05/19/18/ICEI_IndicedeConfia ncadoEmpresarioIndustrial_Metodologia_Versao3.3.pdf>. Acesso em: 24 set. 2016.
Gráfico 11: Médias do índice de confiança empresarial
Fonte: CNI (2015).
Nota-se uma atuação preponderante dos empresários por parte dos representantes de grandes associações, seja para se posicionarem perante os partidos, candidaturas ou decisões do governo, seja para se lançarem como candidatos, como fez Paulo Skaf, então presidente da CNI, candidato pelo PMDB nas eleições de 2010. De tal modo, a exposição midiática tende tanto afirmar relações existentes quanto promovê-las. É perceptível um interesse desse tipo de relação não só por parte dos empresários como também dos próprios governantes.
Cinco exemplos dessa relação foram selecionados por serem considerados os mais emblemáticos dessa relação entre empresários e Estado. O primeiro é o depoimento de Mário Amato, na época presidente da FIESP, condicionando a possível vitória do candidato Lula nas eleições de 1989 com a retirada de 800 mil empresários do país. A segunda elucidação refere-se a uma aproximação do candidato e depois presidente Lula com o empresário Oded Grajew via temática da responsabilidade social. Oded além de ser um grande nome do empresariado brasileiro, é também coordenador geral da Rede Nossa São Paulo, presidente do Instituto Ethos e Fundação Abrinq, bem como um dos idealizadores do Fórum Mundial Social, tornando-se assessor de Lula, a posteriori. O terceiro exemplo de relação entre empresário e políticos que foi publicizado pela mídia foi a candidatura de Marina Silva, pelo PSB, e a aproximação aos grandes nomes do empresariado brasileiro envolvendo empresas como Caloi e Natura, além de uma das coordenadoras do programa político da então candidata ter sido Neca Setúbal, uma das acionistas e herdeiras do Banco Itaú.
Contudo, não são só os empresários que se posicionam perante o governo, a chamada Carta aos Brasileiros apresentada por Lula em 2002 é um exemplo de que existe um diálogo entre esses atores e, principalmente, uma preocupação dos governantes em atendê-los65.
Por fim, talvez o exemplo mais atual levantado para este artigo é o acontecimento do voto sobre a Reforma Política em junho de 2015 (embora esteja fora do período estudado por esta tese), quando o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha do PMDB/RJ, coordenou duas votações polêmicas sobre o financiamento de campanha: em um dia envolvendo empresas privadas e no dia seguinte incluindo os partidos políticos. A divisão da temática em dias diferentes pode ser interpretada como uma manobra regimental de mudança nos votos sobre o financiamento de campanha.
A apresentação desses exemplos revela que o assunto não é excepcional, pelo contrário, a interferência e o diálogo entre empresários e representantes do Executivo e Legislativo demonstram ser bastante corriqueiros. Em uma análise do banco de artigos de jornais da Biblioteca Digital do Senado foi possível verificar 2.147 artigos que evidenciam a relação entre empresários e políticos, sejam eles de oposição, sejam eles de situação. Embora os empresários atuem na mídia, os próprios empresários consideram que a grande maioria das suas ações tende a ser de bastidores e o apoio aos políticos realizado com discrição.
Conclui-se que existe uma relação de maior proximidade com os governos de direita, bem como uma crença de que as divisões são importantes para os resultados eleitorais, embora os empresários dialoguem com os governos indistintamente de seus partidos políticos. Por outro lado, os empresários admitem que não temem governos de esquerda, como o governo do PT, principalmente no que se refere a uma possível retração da economia.
65 FOLHA de S.Paulo. Disponível em: