Tou d’ho izo des connaissances
II. Contexte géologique du bassin de Tim Mersoï
II.3. Evolution tectonique et structurale
Canclini (2008), no que diz respeito à apropriação da cultura, afirma que está ocorrendo uma reparação cultural pelas mãos de usuários e receptores dos meios. Para ele, o consumo descontrolado serve, em especial, para que possamos refletir. O consumo é, para Canlini (2008), um conjunto de processos socioculturais, no qual acontece a apropriação e o uso de artigos materiais e espirituais. Através do consumo é manifestado uma racionalidade, ou seja, uma visão de mundo. Podemos dizer que o consumo tem como função, acima de tudo, diferenciar as pessoas, os educandários e as classes sociais, por exemplo.
O conhecimento produzido nas oficinas, principalmente na de jornal mural, foi impulsionado pela fragilidade dos espaços acessíveis para todos na cidade, à prática livre de convivência e de atividades culturais que promovam a sociabilidade e consciência coletiva. A realidade da pessoa surda, historicamente marcada pela dificuldade de acesso a informação em diferentes contextos, não afirma aqui que tal realidade se encaixa da mesma maneira em todos os lugares do mundo, tampouco que a solução para tais problemas sejam apenas facilitar as condições de direito a informação ou locais para práticas de convivência, contudo há a intenção de aprofundar as contribuições teóricas que refletem esses processos.
O mundo capitalista faz com que a economia monetária racionalize e imponha formas de vida ao ponto de repulsar elementos subjetivos da condição humana (SIMMEL, 1967). De acordo com Simmel (1967), “a autopreservação de certas personalidades é comprada ao preço da desvalorização de todo o mundo objetivo, uma desvalorização que, no final, arrasta inevitavelmente a personalidade da própria pessoa para uma sensação de igual inutilidade” (SIMMEL, 1967, p. 16). Já não se pode contar com a atitude indiferente, utilizada por este autor, para tratar do desinteresse das pessoas diante das distinções entre as coisas. Entretanto, os meios sociais, as cidades contemporâneas, revelam lutas além das visadas pelo mercado financeiro.
Existem lutas de classes por reconhecimento de suas práticas e modos de usar o espaço em que vivem, consoantes em outras dinâmicas, como as representadas em Consumidores e
Cidadãos (CANCLINI, 2008), quando o autor afirma que “faz-se necessário que nós,
pesquisadores, realizemos análises cuidadosas da remodelação dos espaços públicos e dos dispositivos que se perdem ou se recriam para o reconhecimento ou a proscrição das múltiplas vozes presentes em cada sociedade” (CANCLINI, 2008, p. 18 e 19). Prosseguindo o pensamento, Canclini (2008) relaciona os movimentos globalizados com os modos de conceber a multiculturalidade em cada região.
O multiculturalismo liberal postula a igualdade natural e a equivalência cognitiva entre raças, enquanto o de esquerda explica as violações desta igualdade pelo acesso desigual aos bens. Mas apenas poucos autores, como McLaren, sustentam a necessidade de "legitimar as múltiplas tradições de conhecimento" simultaneamente, e de fazer predominarem as construções solidárias sobre as reivindicações de cada grupo (CANCLINI, 2008, p. 20).
Em vista disso, o ofício de observação crítica das teorias que concebem os espaços de sociabilidade, sejam eles públicos, privados e/ou abandonados, requer a necessidade de uma
análise engajada, através de manifestações de um retrocesso da cidadania ou do emuralhamento da vida social – internet e televisão, ou seja, aparelhamento tecnológico (GOMES, 2002) – ou ainda identificando os modos de subjetividades que foram construídos na relação entre indivíduos e sociedades (FORTUNA, 1997). "O discurso que funda a identidade comunitária é o da diferença" (GOMES, 2002, p. 60) e esta diferenciação é formada com traços marcantes, que podem diferenciar determinado grupo.
Desse modo, por meio das atividades desenvolvidas no Ices, foi elaborado um caminho – a partir de algumas contribuições entre teorias e práticas – que fazem alusão a diferentes narrativas vinculadas aos modos de uso da comunicação. É considerado ainda a sua relação com as lutas e as formas de resistência do indivíduo surdo à uniformização da linguagem e à submissão (SIMMEL, 1967), em face às engrenagens da vida contemporânea.
Os desafios aqui expostos, que colocam-se à sociedade, são discutidos principalmente entre os profissionais das áreas de Educação e Comunicação, enfim, uma gama de profissões que utilizam o espaço público como palco de suas intervenções. Para esse exercício, foi necessário a utilização de diferentes contribuições. Algumas dessas, vieram da dedicação travada pelos indivíduos atingidos diretamente ou coletivos que reivindicam o uso de outras formas de comunicação para além da que monopoliza a sociedade, a do ouvinte, que prioriza a fala.
Os autores evidenciados deixam claro que já existem atividades voltadas à relação entre a comunicação e a educação, por meio de instrumentais tecnológicos e ação política de pesquisadores que almejam o exercício da cidadania. Nesse sentido, o pensamento proposto por Canclini (2008), Fortuna (1997), Gomes (2002) e Simmel (1967) – anteriormente sugerido por Paulo Freire (1983) –, retrata uma intenção político-pedagógica que traz à reflexão da correlação de Comunicação somada à Educação.
A sociedade estipulou técnicas e modos de comunicação entre pessoas, através de diferentes recursos. A educação é validada na esfera oficial, da precisão ínfima que seja de construção da cidadania, ao passo que a comunicação é vista como algo intrínseco ao sistema. Esse discurso faz a Educação e a Comunicação distanciarem-se, porque a fala do educacional é enquadrada e considerada oficial, logo, não é questionada; ela é imposta em formato curricular, “presa” ao Estado, ou seja, é burocrática. Já no discurso comunicacional acontece o inverso, pois ele é aberto, aceita novas e diferentes formas e modelos de interação. A comunicação está associada ao mercado, por isso, aprimora-se e possui liberdade para modelar a forma atual.
Desse modo, a Educação e a Comunicação não poderiam integrar-se, pois estariam desviando-se de sua razão de ser. O reconhecimento da existência e necessidade de haver um campo integrador é válido, através da interdiscursividade e aprofundamento teórico e prático, levando em consideração a incorporação de ferramentas e modos de comunicação e a informação no processo educativo. O que implicaria em ganhos substanciais no conceito de cidadania, modificando as práticas do discurso, como afirma Canclini (2008):
A cidadania e os direitos não falam unicamente da estrutura formal de uma sociedade; indicam, além disso, o estado da luta pelo reconhecimento dos outros como sujeitos de “interesses válidos, valores pertinentes e demandas legítimas”. Os direitos são reconceitualizados como “princípios reguladores das práticas sociais, definindo as regras das reciprocidades esperadas na vida em sociedade através da atribuição mutuamente consentida (e negociada) das obrigações e responsabilidades, garantias e prerrogativas de cada um”. Os direitos são concebidos como expressão de uma ordem estatal e como “uma gramática civil” (CANCLINI, 2008, p. 36).
Buscamos, assim, alcançar o equilíbrio entre Estado e sociedade, por meio da recusa à dominação estatal sobre a Educação e em favor da autonomia e força transformadora dos movimentos sociais, fazendo uso da Comunicação, como um conjunto. É importante repensar a cidadania, a fim de visualizarmos diferentes formas de interação entre a conversação oral e gestual, sendo aceitas não somente pelo Estado, ambas legítimas.