• Aucun résultat trouvé

Evolution de l’ensemble des sous-joints avec la hauteur IV.1.2.

Nas discussões que permeiam o conceito de biblioteca comunitária, percebe-se que um dos diferenciais desse tipo de biblioteca encontra-se na gestão guiada pelos princípios

participativos, os quais podem ser traduzidos pelos seguintes pontos: no desenvolvimento de alianças com outros projetos comunitários, associações, e lideranças comunitárias; autonomia da biblioteca em relação as esferas públicas e privadas, podendo, no entanto, estabelecer parcerias formais com as mesmas; e pelo trabalho colaborativo dos moradores na gestão e manutenção da biblioteca comunitária (PRADO; MACHADO, 2008).

Em razão do vínculo com projetos comunitários desde suas raízes, a BCSC e a BCCF aderiram a muitos dos aspectos presentes na missão e objetivos deles, os quais buscam, através da promoção dos valores comunitários, gerar o desenvolvimento social e cultural local. Assim, oriundas de inciativas coletivas internas à comunidade, nas quais a gestão participativa é uma de suas premissas, a BCSC e a BCCF revelam uma atuação que ocorre de forma intrínseca a comunidade em que se inserem.

O movimento de articulação com outros projetos, pôde ser identificado através da participação das referidas bibliotecas na Rede de Leitura Jangada Literária, que por sua vez, promove mensalmente reuniões e formações com os inseridos na rede. Nesses encontros, as bibliotecas planejam ações tanto individuais como conjuntas, compartilham suas experiências e discutem formas inovadoras de promoção da leitura, do livro e da cultura em suas comunidades.

De acordo com os gestores das bibliotecas, a BCSC e a BCCF não estão ligadas diretamente a uma instituição governamental ou privada. Não obstante, eles informam que as bibliotecas possuem parcerias formais na esfera pública, através da Secretária de Cultura do Estado do Ceará (SECULT); e na esfera privada, mediante a parceria estabelecida entre a Rede de Leitura Jangada Literária e o Instituto C&A de Desenvolvimento Social.

Com relação às equipes responsáveis diretamente pela gestão das bibliotecas, na BCSC há a diretora do Projeto Sorriso da Criança e duas mediadoras de leitura. O quadro de colaboradores da BCCF é composto por uma bibliotecária, uma mediadora de leitura, assim como pela diretora do PROCIF.

No tocante ao envolvimento dos moradores nos aspectos ligados à gestão e manutenção das bibliotecas comunitárias pesquisadas, pôde-se identificar que os movimentos de participação ocorrem de diversas maneiras. Na BCSC, por exemplo, o envolvimento comunitário ocorre principalmente por meio da participação voluntária na organização de atividades, bem como, na avaliação e fiscalização das ações da biblioteca.

Uma das mediadoras de leitura da BCSC, informa que os líderes comunitários (compostos em sua maioria por adultos e idosos) são a principal força participativa e

voluntária da biblioteca e do Projeto Comunitário Sorriso da Criança. De acordo com a entrevistada, a participação ocorre do seguinte modo:

Tem as pessoas que participam das reuniões de lideranças, e cada um fica responsável por tantas ruas, que faz o contato com as famílias. Tem o conselho, que é tipo a diretoria, e tem as lideranças que vai mais além, tipo a gente faz as atividades, e elas mandam os convites, e elas opinam, elas dizem ó isso não tá certo não. [...]E se você maltratar uma pessoa que mora na comunidade, você pode ter certeza que no outro dia a diretora já sabe. Então elas ficam com a parte de fiscalizar, monitorar. (Mediadora de Leitura, E2)

Outro movimento de colaboração e participação comunitária identificado na BCSC, no decorrer da pesquisa de campo, foi a frequente doação de livros realizada principalmente pelos moradores do bairro. Sobre este aspecto, a gestora do projeto esclarece que no início, as doações eram na maioria de livros didáticos e, que a biblioteca era vista muitas vezes como lugar de descarte desses livros no final do ano letivo. Segundo ela, para que essa realidade mudasse, foi preciso iniciar a reestruturação do acervo da biblioteca, mediante a seleção dos livros que deveriam ou não continuar na biblioteca, dando-se prioridade as obras de cunho cultural e de valor informacional para a comunidade.

Assim, o próximo passo foi conscientizar os moradores acerca dos tipos de livros e obras necessárias ao acervo. Atualmente, os frutos dessa conscientização se tornam perceptíveis nas doações de livros realizadas, as quais correspondem, precipuamente, à obras de cunho literário.

Na BCCF, a gestão participativa manifesta-se, também, de variadas formas, contemplando a doação de tempo dos moradores na realização de trabalho voluntário, bem como a participação dos mesmos nos processos de tomada de decisões. Com relação à abertura e articulação entre a biblioteca e comunidade, a bibliotecária da BCCF elucida que:

Sim, nós somos muito abertos a comunidade, todas as sugestões, críticas nós ouvimos, tentando melhorar. Por exemplo, horário de mediação da leitura, de atendimento, eles dizem, pode ser assim nesse horário? A mediação pode mudar? E a gente sempre ouve eles, e de acordo com o que

a gente pode a gente acata né. (Bibliotecária da BCCF, E6)

Não obstante, a bibliotecária também revela que as lideranças e voluntários envolvidos com a BCCF formam os elos de comunicação entre a biblioteca e a comunidade e, de acordo com ela, “os voluntários, as lideranças das ruas, elas moram na comunidade, e aí

fazem o trabalho de entregar convite e de passar algumas informações das atividades do projeto e da biblioteca pra comunidade.” (Bibliotecária da BCCF, E6)

Durante a pesquisa participante na BCCF, foi possível acompanhar uma reunião, na qual os gestores da biblioteca e do PROCIF, junto aos voluntários e liderança locais, apresentaram relatórios das atividades realizadas nos últimos meses e discutiram propostas com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável da biblioteca e do projeto.

O conjunto de experiências vividas no transcurso das observações realizadas nas bibliotecas, demostraram a existência de vínculos participativos entre os contextos comunitários e suas respectivas bibliotecas. Contudo, em ambos os projetos, os gestores entrevistados relataram a necessidade de maior envolvimento da comunidade, especialmente no que se refere aos processos de tomada de decisão. Segundo eles, aqueles cujo comprometimento é mais evidente, são os adultos e idosos cujos filhos ou netos são atendidos por alguma atividade social desenvolvida pelos projetos e os jovens que possuem histórico de participação nas ações do projeto e da biblioteca.

Em suma, é importante considerar que o movimento participativo no desenvolvimento da biblioteca comunitária influencia diretamente na autonomia comunitária e no compartilhamento de ideias e saberes de seus participantes (CAVALCANTE, 2014). As bibliotecas comunitárias, objetos deste estudo, demonstram abertura e empenho para realização de gestão participativa. No entanto, observa-se nas comunidades pesquisadas que, assim como em outras, as dificuldades quanto ao desenvolvimento de práticas participativas, podem estar relacionadas a um passado de opressão, advindo especialmente dos processos educacionais, políticos e culturais, dificultando a percepção que os indivíduos devem ter como sujeitos protagonistas de sua história (FREIRE, 1984). Dessa forma, torna-se necessário que esses espaços busquem fomentar a pedagogia participativa de modo a ressaltar a percepção acerca da importância da biblioteca e, que a sustentabilidade desta depende primeiramente de sua comunidade.