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A profissão de treinador esportivo, ao início do terceiro milênio, alcançou níveis de valorização sem precedentes na história do esporte. O treinador está no centro de um conjunto de grupos sociais que exercem, cada um, uma pressão sobre ele em sentidos, por vezes contrários, de forma que os treinadores de alto nível têm que saber lidar com as pressões políticas, esportivas e da mídia (SAMULSKI, 2002). Diante disso, o treinador depara-se com uma vaga de obrigações, tarefas e funções que lhe são imputadas, aumentando, ainda mais, as suas responsabilidades, sendo unânime a opinião quanto à necessidade de levar o treinador para a melhoria do controle de todo processo de gestão de uma equipe.

Para Marques (2003), o treinador é um dos principais alicerces do esporte, um gênio que, através das suas fórmulas e técnicas, consegue transformar adolescentes em atletas e pessoas de caráter. Dentre os diversos estudiosos que preocupam-se com estas questões, Bento et. al. (1999) referem que o treinador exerce influência muito pronunciada sobre as atitudes e comportamentos, sobre valores, orientação e sentidos de vida dos atletas. Importa, por isso, relevar os princípios éticos que um treinador deve possuir, a par de qualidades como sejam integridade, responsabilidade, dignidade, respeito pelos outros, competência, treinamento responsável e preocupação pelo bem-estar dos outros.

Em muitos casos, e especialmente para os jovens, o treinador é um modelo e, por isso, tem facilidade de influenciá-los em posturas dentro e fora do ambiente esportivo (BOMPA, 2005). A influência que o treinador exerce sobre as atitudes e comportamentos, sobre os princípios, valores, orientações

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e sentidos de vida dos atletas é inegável (BENTO, 1999). Os treinadores são elementos transmissores de princípios, regras, conhecimentos desportivos, educativos, pessoais, sociais, culturais e, por vezes, também políticos e religiosos. O treinador recebe, em cada momento da atividade que desenvolve, influências de âmbito político movidas pelos interesses em jogo na sociedade em que desenvolve a sua ação (ARAÚJO, 1994).

Autores como Bota e Colibaba (2001, citados por MAIA, 2003) descrevem que, além da vocação para a atividade de treinador, algumas características da personalidade são fundamentais, como sejam a capacidade de incentivar, as aptidões de educador, de psicólogo, de dirigente e organizador, a capacidade de criação e decidir rapidamente e de exercer a autoridade. Estas características aliadas a capacidade intelectual e aos conhecimentos necessários para a função serão ferramentas importantes do treinador. Mas quais os requisitos que ele deve possuir?

Bento et al. ,(1999), destacam as dificuldades de afirmação das vantagens da qualificação pedagógica e científica dos treinadores, ao interrogar se “têm mais sucesso no desporto os treinadores pedagogicamente qualificados? Ou, pelo contrário, a qualificação pedagógica não desempenha qualquer papel no desporto”. Os autores reconhecem que a investigação em ensino e formação de professores tem muita dificuldade em lidar com o conhecimento prático e o considera secundário quando comparado com o conhecimento acadêmico. Em contrapartida, muitos treinadores atribuem pouco valor ao conhecimento derivado de investigações de ensino.

Uma das funções fundamentais do treinador é buscar extrair o que cada atleta possui de melhor (HANSEN, ET AL., 2003), tanto em questões específicas do desporto, como também em questões relacionadas com a sua personalidade e com a construção de valores e a formação do caráter. Em concordância com as funções, responsabilidades e características pessoais que o treinador deve assumir perante todo o processo em que está envolvido, Maia (2003) destaca que ele não precisa ser um experto nem um teórico ou generalista, nem abstrato ou ignorante da prática; ele precisa ser capaz de afixar a sua especialidade e profissionalismo em horizontes alargados, capaz

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de compreender-se como formador fiel e dedicado ao sentido de formar, isto é, aperfeiçoar o homem, torná-lo melhor e aumentá-lo em humanidade.

Oliveira (1994) refere que ser treinador significa ser agente de um processo de transformação que, no contexto do exercício da cidadania, conduz a responsabilidades e direitos. O treinador é simultaneamente um agente interativo de desenvolvimento do contexto social, cultural e político em que se move como perito e como cidadão (ARAÚJO, 1994), pelo que ser treinador é uma vocação que não se esgota no domínio das habilidades específicas da organização, planejamento e condução do treino e/ou das competições.

As funções do treinador definem-se com base num conjunto de competências resultantes da mobilização, produção e uso de diversos saberes pertinentes (científicos, pedagógicos, organizacionais, técnico-práticos, etc.), organizados e integrados adequadamente em função da complexidade da ação concreta a desenvolver em cada situação da prática profissional (MESQUITA, 2008).

O conceito de competência pode ser definido num sentido lato, como a capacidade que um indivíduo possui para resolver um determinado assunto, nomeadamente, um assunto profissional, onde a competência será o conjunto estruturado de conhecimentos, aptidões e atitudes necessárias para a sua resolução (ROSADO, 2000; SARMENTO ET AL., 2000). Deste modo, a competência não é um dom ou uma disposição, nem mesmo um conjunto de comportamentos particulares de domínio, mas antes algo que depende do contexto (ROSADO, 2000). Algo complexo, relacional, holístico e integrativo (BATISTA ET AL, 2007). A competência é situacional, ocorre na ação, não sendo diretamente observável. Relaciona-se com o êxito, mas não se confunde com o desempenho concreto.

A definição de competência deve atender a dois atributos: conhecimento e habilidade (BATISTA ET AL., 2007). Atributos estes que um indivíduo tem à disposição e consegue utilizar de maneira eficaz. Sendo a habilidade para acender ao conhecimento de uma forma eficiente, um atributo de um indivíduo competente). Kirschner et al. (1997) diferenciam o conhecimento, o conhecimento situacional e a competência. O conhecimento é

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referenciado a um campo mais teórico, na gama de informações sobre determinado assunto. O conhecimento situacional é a capacidade de desfragmentar o conhecimento bruto para o utilizar em determinada situação. A competência é definida como a capacidade de aceder ao conhecimento de maneira eficaz.

No campo profissional, tem-se por determinação legal a Lei 9.696/98, que no seu Art. 3º discorre sobre as competências específicas do profissional de Educação Física:

“... coordenar, planejar, programar, supervisionar, dinamizar, dirigir, organizar, avaliar e executar trabalhos, programas, planos e projetos, bem como prestar serviços de auditoria, consultoria e assessoria, realizar treinamentos especializados, participar de equipes multidisciplinares e interdisciplinares e elaborar informes técnicos, científicos e pedagógicos, todos nas áreas de atividades físicas e do desporto” (Lei 9696/98).

Sobre as competências do treinador Borges (2007) elege como característica a condição do treinador atuar na sociedade como perito e como cidadão no âmbito social e cultural. As funções do treinador, e por conseqüência ele deve estar capacitado para desenvolvê-las, apresentando uma amplitude extensa. Mesquita (1997) e Lemos (2003) sublinham as responsabilidades do treinador em criar, através do estímulo, um ambiente propício para a autonomia e desenvolver a auto-estima e a responsabilidade de cada atleta. Já Janssen e Dale (2002) classificam as características do treinador em: ter caráter, ser competente, ser compromissado, ser cuidadoso, ser construtor de confiança, ser comunicador e, por último, mas não menos importante, ser consciente.

Para Araújo (citado em MAIA, 2003), o treinador deve ser um preparador da equipe para que esta apresente capacidade de respostas para resistir aos reveses; um promotor de condições para que todos os elementos da equipe participem da plenitude das suas possibilidades; um gestor de indicadores e critérios que obedeçam a uma ordem como a organização do treino; a liderança; as formas de comunicação; as opções estratégicas e

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táticas; a gestão das pressões; o controle da capacidade de concentração; o controle das emoções; a planificação e avaliação, e ainda desempenha funções de professor; organizador, motivador, conselheiro e disciplinador. Antonelli e Salvini enumeram seis principais funções que um bom treinador deve ter: (1) centro agregador de todo grupo; (2) modelo do grupo pelo ascendente emocional e orientador que deverá ter; (3) decisor que liberta o grupo da responsabilidade de tomar decisões; (4) programador e gestor do grupo; (5) imagem externa e defensor dos interesses do grupo; (6) controlador das relações interpessoais do grupo. Como podemos observar o treinador é de extrema relevância no desenvolvimento e no futuro do jovem como atleta e como pessoa.

Outro aspecto citado por Carron, Brawley e Widmeyer (1997) e Janssen (1999) refere-se à necessidade de o treinador possuir a competência em promover a coesão do grupo e a capacidade do grupo se manter unido e sustentar o bem-estar de todos os integrantes visando atingir um objetivo determinado.

Podemos ver que é exigida uma gama ampla de competências e conhecimentos, assim como são inúmeras e variadas as características e responsabilidades imputadas. O treinador do século XXI não é mais aquele que possui unicamente um grande domínio da modalidade, da metodologia e dos aspectos organizativos. O treinador do presente com horizontes no futuro necessita de uma formação sólida, multilateral e especifica que adote uma atitude perspicaz face aos atletas, quer no domínio motivacional como no domínio emotivo e afetivo (ROSADO, 2000).

Gould et. al (2002) apresentaram uma relação de competências que incluía habilidades esportivas específicas, conhecimento nas áreas da preparação tática, da psicologia, da fisiologia do exercício, da medicina, da biomecânica e da legislação esportiva. Esta relação de competências foi avaliada pelos treinadores de alto nível entrevistados para o seu estudo e apresentou como a mais importante, a habilidade em seu esporte, e a menos importante, o conhecimento da legislação esportiva. Neste sentido, a identificação das concepções dos treinadores acerca dos conhecimentos e

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competências profissionais valorizadas para o exercício da função constitui um instrumento fundamental de apoio à avaliação dos modelos de formação vigentes, lançando pistas para a implementação de novas estratégias de formação.

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