6.5 Commentaire du BIOS : ISR de l’interruption 9
6.5.6 Cas des combinaisons de touches avec ‘Alt’
Questionar por que é que do universo de contactos que estabelecemos, quer com TS quer com profissionais de outreach, apenas 28 sujeitos participaram formalmente com a investigação parece-nos uma pergunta legítima. Para além das explicações que já apresentamos relacionadas com a mobilidade/perda de contacto, encontrámos diversos constrangimentos a nível da participação das TS e dos profissionais de outreach.
As TS, que exercem prostituição de exterior em Coimbra, usualmente não expressam as suas necessidades e vontades. Algumas acreditam que a sua opinião não tem valor, principalmente por causa do estigma do trabalho sexual. Depois, a existência de relações tensas e conflituosas, fomentadas pela prática de diferentes preços, não uso do preservativo, questões territoriais e rivalidades pessoais, constituem um obstáculo à ação coletiva. Acresce a disputa antiga entre as consumidoras de drogas e as que não consomem (como verificado por Mckeganey e Barnard (1996); Oliveira (2011); Porter e Bonilla (2010)). Estas disputas/conflitos impediram que algumas TS trabalhassem em conjunto nas sessões de grupo. A falta de coesão interna já havia sido apontada como obstáculo à ação coletiva (Mathieu, 2003), bem como a rivalidade e a falta de solidariedade (Kongelf, Bandewar, Bharat, & Collumbien, 2015). Estudos (Busza, 2004; Kongelf et al., 2015) indicam que o estigma, identidade, mobilidade e heterogeneidade conduzem a uma falta de coesão e suporte entre TS, inibindo a mobilização para a ação.
O retrato dominante das relações entre colegas é sintomático do escasso nível de organização das mulheres no quadro da defesa dos seus direitos laborais como trabalhadoras do sexo. Mesmo quando elas, maioritariamente, se manifestam favoravelmente à necessidade de organização através da existência de uma associação ou sindicato para defesa dos seus interesses, a constatação dos sentimentos e atitudes acima expressos [incompatibilidades, conflitos, brigas] não é propícia à emergência de processos e esquemas organizativos. A pressão social e a força dos preconceitos funcionam como inibidores de manifestação no espaço público […] (Ribeiro et al., 2008, pp. 296–297).
Contudo, encontrámos também algumas potencialidades, como solidariedade, preocupação e generosidade entre TS. Verificámos uma contradição entre o que verbalizam e a forma como se comportam, visto que afirmam com frequência não existir amigas nesta atividade, mas rapidamente assumem atitudes de cooperação e companheirismo (Oliveira, 2011; Ribeiro et al., 2008).
Independentemente do tipo de relação estabelecida, as TS fazem parte da rede de suporte umas das outras. As relações são pautadas pela instabilidade, no sentido em que num dado momento podem descrever a relação entre si como de convívio e interajuda, e noutro momento de conflito. Como convívio e interajuda incluímos as referências sobre o cumprimento de funções da rede social, como o prestar apoio instrumental (cedem preservativos umas às outras; pedem material à equipa para outras TS ou indicam outras pessoas que podem precisam de material); fazem companhia; protegem-se através de medidas de segurança ou simplesmente por estarem mais mulheres na rua sentem-se mais seguras. Por exemplo, em algumas situações as mulheres trabalham aos pares e zelam pela segurança mútua, informam-se sobre clientes potencialmente perigosos e contactam-se quando verificam longos períodos de ausência. Ou seja, recorrem a muitas das estratégias de redução de riscos identificadas por Bletzer (2003). Mostram em diversos momentos preocupação e generosidade quer para com as colegas, quer para com os profissionais de outreach e até mesmo com outras pessoas, como é caso de pessoas sem-abrigo ou outras mulheres em situação de dificuldade.
Porém esta situação pode assumir contornos frágeis, porque rapidamente se zangam conduzindo a situações de conflito. Essas situações podem estar associadas a questões pessoais (trocas de companheiro) ou relacionadas com a atividade, como a delimitação territorial, isto é, quando aparece alguém novo para trabalhar na mesma zona; ou a aplicação de preços mais baixos e o não uso de preservativo, comportamentos associados usualmente às toxicodependentes, por estas se encontrarem numa situação mais vulnerável, com pouca capacidade de negociação de sexo seguro (Pyett & Warr, 1997). Assim como Oliveira (2011), verificámos ainda a existência de liderança na rua, com as mulheres mais experientes a ensinar as novas a negociar o serviço, a delimitar zonas de trabalho, a estabelecer preços e normas a cumprir sob ameaça de expulsão. As toxicodependentes não entram neste jogo, uma vez que não cumprem com o acordado. O excerto seguinte ilustra a visão de cooperação e solidariedade, bem como o surgimento do conflito, e as lideranças:
Liliana contou que antigamente, nos dias frios, costumavam fazer uma fogueira. A Susana trazia café e quando abria a padaria iam comprar pão quente. Havia mais união entre as mulheres que trabalhavam na rua. Eram muitas, mas davam-se bem. Agora isso não acontece porque praticam preços diferentes, dá o exemplo da Mónica que leva 5 euros e faz sem preservativo "ela já não tem nada a perder". Antigamente, as novas que chegavam iam falar com a Liliana e com a Susana, e normalmente, era a Susana que lhes dizia para que zonas ir e quanto deviam cobrar. Ameaçava que se cobrassem menos eram expulsas, e as
coisas funcionavam bem. As toxicodependentes começaram a aplicar outros preços e as coisas começaram a correr mal (Liliana, DC n. 14 | 11.12.2012).
A ausência de uma identidade profissional coletiva ou a falta de sentimento de pertença a um grupo faz com as/os TS tenham pouca capacidade organizativa para reivindicar a sua posição. A falta de uma identidade profissional encontra-se também associada com a falta de reconhecimento de vantagens. Normalmente, as/os TS consideram a prostituição uma situação temporária e não identificam benefícios em assumi-la enquanto profissão (Agustín, 2007a; Kongelf et al., 2015). A ideia preconcebida de uma existência de coesão prévia numa comunidade de mulheres marginalizadas que apenas precisa de ser estimular para ser mobilizada é falsa (Kongelf et al., 2015).
As consumidoras de drogas são a população mais difícil de alcançar, evitando o contacto com as equipas de rua. Mesmo assim, conseguimos envolver uma toxicodependente que teve um papel importante no ciclo 2. Este envolvimento apenas foi possível porque esta TS tinha uma relação muito próxima com uma outra participante e porque, na altura das iniciativas do ciclo 2, encontrava-se em programa de tratamento. As consumidoras afastam-se ainda mais da identidade de TS, uma vez que o que organiza as trocas de serviços sexuais por dinheiro é o consumo de drogas. Nas palavras de Oliveira (2011) a carreira das toxicodependentes, se existir, é do consumo de drogas, sendo a prostituição um meio instrumental para o consumo, sobre o qual não importa refletir enquanto profissão.
Outros obstáculos que encontrámos foram os proxenetas. Apesar de serem figuras escassas e os elementos da equipa de outreach terem relações cordiais com estes, alguns bloquearam o contacto com as TS. A mobilidade das TS, como já tivemos oportunidade de referir, foi também uma dificuldade. Perdemos contacto com muitas TS porque frequentemente mudam de cidade ou encontram-se ausentes por períodos indefinidos de tempo, possivelmente como estratégia de marketing, dado que os clientes de sexo pago tendem a procurar as TS novas.
Quanto à participação dos elementos da equipa de outreach, nem todos tiveram um papel ativo. No Ciclo 1, mostraram-se sobretudo mais persuadidos a participar, e em algumas situações forneceram suporte. Nos encontros de negociação, mostraram interesse no projeto, mas não tomaram iniciativa, e tivemos de agendar diversas vezes reuniões conjuntas. É possível que, dada a complexidade da IAP, o seu papel não estivesse
totalmente clarificado, estando também pouco habituados a fazer parte das investigações de forma ativa. Normalmente, os contributos passam por fornecer informações através de entrevistas ou questionários, sendo os participantes pouco envolvidos na interpretação dos resultados, planificação, intervenção e reflexão – etapas e tarefas próprias da investigação- ação. Por outro lado, existe ainda um afastamento entre conhecimento académico e prático. Impera uma visão positivista, em que os académicos são percebidos pelos demais de forma paradoxal, isto é, ora como “especialistas” que oferecem soluções fabricadas, ora como desconhecedores profundos da prática e, portanto, incapazes de compreender os desafios quotidianos dos profissionais. Esta crença é de difícil desconstrução, quando o conhecimento científico continua centralizado em algumas esferas e pouca aproximação existe com a sociedade. A investigação-ação é exatamente a ponte entre as universidades e as sociedades, o instrumento e filosofia de excelência para operar mudanças nas premissas académicas (Greenwood & Levin, 2006), tendencialmente positivistas. Adicionalmente, a falta de sustentabilidade financeira dos serviços parece interferir com a motivação da equipa e com uma postura de abordagem igualitária. A IAP é bastante exigente em termos de disponibilidade individual e coletiva, e ao início a equipa parecia não se encontrar totalmente motivada para ser envolvida, talvez porque os seus membros pudessem sentir-se questionados, isto é, avaliados no seu trabalho. No final do ciclo 1, mostraram-se mais pro ativos e uma das profissionais assumiu, desde o início, uma postura mais igualitária.
Estes assuntos foram sendo discutidos com os/as participantes – TS e membros da equipa de outreach. Retomaremos este tópico, incluindo as perspetivas dos/as participantes relativamente à fraca adesão à participação, designadamente nas atividades coletivas.