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Evolution de la conjoncture économique internationale au premier trimestre

Flávia tem quatro irmãos menores de idade. Há quatro anos, eles foram encaminhados para uma das instituições de acolhimento da cidade e desde então vivem em abrigos. A mãe, consumidora dos mais variados tipos de drogas, inclusive o crack, não pode cuidar de seus filhos, segundo nos relatou Flávia. Enquanto sua mãe faz uso de várias substâncias entorpecentes, Flávia somente fuma maconha, esporadicamente. Hugo, um dos irmãos de Flávia, é um garoto quieto, comportado, estudioso e todos na instituição gostam bastante dele.

Flávia completou dezoito anos recentemente, todavia a conhecemos aos dezessete, fato que garantia sua permanência na instituição. No entanto, ela e todo o corpo de funcionários da instituição já se preparavam emocionalmente para sua saída; de fato, estes últimos fizeram o possível para ajudá-la nesta fase transição e na sua partida da instituição.

Dentro daquele ambiente, Flávia conheceu Douglas, recém-ingresso no abrigo. Douglas é vaidoso, veste-se bem, tem sempre o cabelo bem aparado, apresentando um corte típico dos adolescentes da sua faixa etária. Ele é educado e bem aberto ao diálogo. Segundo seu relato, o adolescente se dirigiu para o abrigo devido à impossibilidade de sua mãe em mantê-lo em casa, bem como em custeá-lo. Acrescido a isso, havia ainda o fato do local de sua moradia, que poderia conduzi-lo ao envolvimento com o tráfico. Douglas foi morar com um tio, e, depois de uma discussão seguida de agressões físicas, foi encaminhado para o abrigo em medida protetiva de acolhimento institucional.

Ali, Douglas conheceu Flávia e logo começaram a namorar. Todavia, Douglas também se interessou por Lúcia e, às vezes, eles “ficavam”. Quando Flávia descobriu fez um verdadeiro escândalo na instituição, chegando a fugir e passar dois meses na casa da mãe. Neste período, descobriu que estava grávida. Douglas começou a procurá-la e pedir que retomassem seu relacionamento. Eventualmente, reataram, e Flávia se encarregou de “dar uma lição” em Lúcia, agredindo-a fisicamente.

Quando Douglas soube da gravidez, ficou simultaneamente feliz e assustado, da mesma maneira Flávia. E a partir daí, aos poucos começaram a se organizar para a despedida desta da instituição. Por um esforço conjunto de todos da instituição e da AMAC, logo antes de o bebê de Flávia nascer, a instituição se encarregou de alugar um imóvel de um cômodo para Flávia e seu filho. Assim que chegou a sua nova casa, Douglas fugiu da instituição. Ele tem apenas dezesseis anos de idade, e, segundo a lei, poderia permanecer sobre abrigo até os

dezessete anos e onze meses. Contudo, o adolescente evadiu e mora com Flávia no cômodo alugado pela AMAC, para atender a ela e ao bebê.

O imóvel onde moram é bem pequeno, com um quarto grande, uma sala pequena que é ao mesmo tempo: sala, copa e cozinha. Nas férias escolares, eles recebem os irmãos de Flávia que passam um tempo com ela; atualmente, eles estão acolhendo Hugo, irmão de Flávia. A maior preocupação do casal é a alimentação, pois, afinal, agora eles têm onde residir, o que inclusive permite, conforme visto, o encontro entre irmãos. Entretanto, não há renda na nova casa e a qualquer momento eles podem ficar sem ter com que se alimentar.

Flávia nos contou sobre sua rotina de assistir televisão, um presente de sua sogra, fazer as refeições com alimentos doados por entidades filantrópicas da cidade, enquanto aguarda o nascimento de seu filho. Ela tem feito todo o pré-natal, mas ainda não sabe o sexo do bebê, o que lhe impede de escolher o nome da criança. É interessante ressaltar que, ao encontrarmos Flávia, o assunto principal não era seu filho, mas suas preocupações. Segundo seu relato, possuía um aluguel por apenas seis meses, mas havia pactuado com o responsável pelo aluguel social que se se comportasse bem na nova residência, a AMAC se responsabilizaria por mais seis meses de aluguel. Então, segundo ela, mantinha a vida com Douglas e a visita dos irmãos com um rígido controle: do silêncio e das bagunças, esperançosa do seu aluguel perdurar por um ano.

Relatou-nos ainda sua preocupação com a alimentação, garantiu-nos que teria comida por apenas mais uma semana. Ela se tornara especialista em aproveitar a comida que recebia de instituições filantrópicas. Contou-nos que as pessoas diziam a ela onde buscar, quando buscar, mas tudo era difícil, inclusive o deslocamento.

Uma vida de incertezas e de ausências, uma menina mãe, sem saber ao certo o que isso representava, nem como seria cuidar da nova vida que estava por chegar. Ao mesmo tempo em que as ausências (dinheiro, família, fraudas, comida, móveis, etc.) apresentavam-se em seu discurso, não se observava arrependimentos em sua fala, isto é, a criança que ela gerava era muito desejada e não se constituía em um problema, apesar da preocupação, mas representava uma nova responsabilidade a ser vivida. Disse-nos que voltaria a estudar e a trabalhar como manicure, assim que houvesse condições para o trabalho, após o nascimento do bebê.

Contou-nos que sua mãe poderia contribuir em muito pouco e que sua sogra tentava ajudar, mas as duas moravam longe e não tinham como se deslocar até onde ela estava, por isso as visitas eram esparsas. A sogra sempre enviava presentes a eles, como uma

televisão e um vídeo game, mas precisavam de muito mais. Sobre as visitas dos irmãos, ela adorava, mas a angustiava muito, afinal, segundo ela: “eles vem nos visitar, mas eles vêm pensando que vão poder comer o que quiserem e não é assim, eu não tenho como oferecer nada a eles. Nos últimos dias estamos fazendo tudo o que tenho, mas estou muito preocupada, pois a comida vai acabar. Somos três aqui hoje, não terei comida na semana que vem e não tenho dinheiro para dar a ele, quando ele me pede”.

Questionada sobre o que sentia falta no abrigo, ela nos confidenciou que a alimentação na instituição é muito regrada. Durante todo o dia são organizadas as refeições: “lá tem fruta, tem café, tem lanche, tem comida, tem faxina, as coisas não faltam”. Ao mesmo tempo, reconheceu as faltas que a instituição proporcionava: “todos mexem em tudo, minhas coisas ficavam mexidas por todos, minhas roupas, tinha que brigar o tempo inteiro, tudo some”. Reclamou de uma das meninas: “Lembra da Lúcia, ela ficou com o Douglas, nem fiz nada, sumi de lá por uns dois meses, fui para a casa da minha mãe, ele é que veio me procurar, ficou pedindo pra voltar. Vi que tava grávida, comecei a passar mal, voltei pra ele, dei uma surra nela, mas não quero nem saber, ele é quem me procura”.

Douglas por sua vez, durante todo o tempo em que convivemos ele no abrigo, estava sempre muito bem apresentado. Na nova situação, contudo, morando com Flávia, estava sempre sem camisa pela rua onde moravam. Em vários momentos, o vimos descendo o morro perto de sua casa com uma turma de outros jovens da sua idade. Disse-nos que “fazia bicos e que estava sempre correndo atrás”. Parecia preferir a vida como estava, apesar de nos parecer mais preocupado. Em nenhum momento expressou descontentamento em sua nova condição, a de pai.

Em meio às muitas ausências, esses dois jovens tentam reorganizar juntos uma nova vida, uma nova dinâmica familiar. Lutam contra o imediato, vivem o imediato: a comida, o aluguel, a nova vida, o bebê que está por vir, sem uma estrutura ou uma perspectiva de emprego para nenhum dos dois, iniciam o projeto de sobreviver o máximo de tempo possível juntos, com um bebê recém-nascido prestes a chegar.

Na perspectiva foucaultiana, a vida através da biopolítica torna-se uma questão para se otimizar, ou seja, um poder destinado a produzir forças para fazer crescer e organizar. A vida se torna uma realidade que tem de ser trabalhada de forma positiva: administrá-la, otimizá-la, classificando-a. Foucault apresenta a biopolítica como um tipo particular de gestão da população. Nesta perspectiva, a posição de um cidadão que vivência apenas o imediato,

numa vida que se estabelece pela ausência, a sua situação em relação ao Estado estabelece-se a partir da sua inclusão, que o exclui.

Segundo Agamben (2003), o homem atual vive sob o estado de exceção. Para ele, a violência originária não se cessou com a lei, mas, ao contrário, continua com ela, toda a lei é expressão de uma violência que a instituiu.

A vida no estado de exceção não está mais sob a jurisdição normal do Estado, ela foi retirada e exposta fora da vigência dos direitos. É nesse estado de abandono da ordem jurídica que transparece mais claramente a prerrogativa soberana de fazer qualquer coisa em relação a qualquer um. É nesse estado que a vida de qualquer pessoa pode ser disposta, marcada, supliciada, violentada, até mesmo morta, por um poder que a captura e que a inclui em seus mecanismos após tê-la abandonado, usufruindo dela na forma em que determinar e em seu próprio benefício.

O importante é destacar que vivemos numa época em que as noções de contrato social, de estabilidade das leis, de justiça e de equidade passam a ser meros referenciais sem vigência concreta. Todas essas noções são substituídas por outras de pragmatismo, de eficiência, de qualidade e de emergência. Essas últimas categorias transparecem nos discursos que procuram em diferentes áreas capturar, após um estado primordial de abandono do espaço público, as vidas dos cidadãos.

Douglas e Flávia esforçam-se para sobreviver sem perspectivas de estudo e emprego, que lhes garantiria a subsistência. Para Douglas, o tráfico parece-lhe a melhor opção e Flávia contará com o auxílio de instituições filantrópicas e ou de conhecidos para a manutenção desta família. O sofrimento é recorrente, a preocupação e a ausência de uma rede de apoio instauram ali uma luta contra o tempo, contra a vontade de desistir e abandonar a criança. Eles travam uma luta contra a repetição da trajetória de suas próprias famílias.

Esses jovens vivenciam o limite, sem perspectivas de inclusão ou de uma colocação no mercado de trabalho, vivenciam o dia-a-dia sem certezas. Desvalorizados pela sociedade e discriminados por sua condição econômica, constroem sua cultura e organizam o seu ritmo de vida mergulhados na incerteza, a realidade, contudo, pressiona e angustia o jovem que se sente limitado frente à impossibilidade de adquirir aquilo que deseja. Esse desejo pode ser traduzido em bens de consumo, ou no caso de Douglas e Flávia, na manutenção da família que obstinam em iniciar.

SEXTO CAPÍTULO – Violência, Drogas e Desesperança: meninos de abrigos

Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas, Eu sinto, então, sondando-me a consciência, A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente, eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto… Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto!

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