A Marcopolo é uma empresa brasileira fabricante de carrocerias de ônibus, que na África, possui plantas de produção na África do Sul e no Egito, além de representantes comerciais terceirizados em vários países. Ademais da África, a Marcopolo atua na América Latina, Ásia, Oceania e já atuou na Europa. De acordo com Patrícia Rodrigues da Rosa (2012), seu processo de internacionalização iniciou-se há mais de 50 anos e de maneira não planejada102, com a profissionalização da internacionalização ocorrendo à medida que a atividade crescia e a empresa ganhava experiência internacional. Nos anos 1990, a partir do planejamento estratégico da empresa, os negócios internacionais tornaram-se o principal alvo da estratégia de crescimento da empresa e o processo de internacionalização foi formalmente estruturado, avançando no sentido dos investimentos externos diretos (ROSA, 2012). Rosa sintetiza o processo de internacionalização da Marcopolo como tendo se desenvolvido “gradualmente, evoluindo de operações de menor comprometimento e em países mais próximos do Brasil, até a criação de subsidiárias em mercados mais distantes”.
Nesse sentido, as primeiras exportações da empresa ocorreram em 1961, com a venda de ônibus prontos para o Uruguai e consequente exportação para outros países da América do Sul ao longo da década. O primeiro contato da empresa com o continente africano se deu a partir de 1974, com a exportação para Gana de carroceria completamente desmontada, em forma de kit, que permite a montagem local. No ano seguinte, a empresa passou a exportar ônibus completamente montado para a Nigéria (ROSA, 2012).
De acordo com Rosa, a escolha da África como destino das exportações da empresa se deu por ser uma região de países em desenvolvimento e com alta densidade demográfica, o que é importante para o mercado de ônibus. A autora completa ainda que o potencial de demanda da região estimulou a empresa a romper o distanciamento psíquico que poderia
102De acordo com Rosa, nas primeiras décadas, as exportações tinham a função de compensar as flutuações de demanda no Brasil.
existir à época. Atualmente, no âmbito comercial, a maior parte dos países do continente africano é atendida por representantes comerciais terceirizados, além de cada planta de produção possuir uma equipe de vendas. A planta de produção do Egito, por exemplo, é um hub de distribuição para todo o Oriente Médio e Norte da África, além do atendimento especificamente ao mercado egípcio.
Em relação ao IED, a primeira fábrica da Marcopolo no exterior foi instalada em Portugal, atraída pela expertise europeia em tecnologia de ônibus, além de ser uma porta de entrada para o mercado da Comunidade Europeia à época. Entre os países europeus, a escolha de Portugal, de acordo com Rosa, foi influenciada fortemente pela questão linguística, na medida em que foram identificados o desconhecimento do mercado e a barreira do idioma como sendo importantes obstáculos nas fases iniciais de internacionalização da empresa103 (ROSA, 2012).
Depois disso, foram instaladas fábricas na Argentina, no México – o seu principal mercado estrangeiro -, na Colômbia, na África do Sul, na China, na Rússia, na Índia, no Egito e na Austrália. De acordo com Rosa, a escolha dos mercados teve como critério a proximidade psíquica e a experiência prévia no mercado. No caso de Portugal, apesar da distância geográfica, a língua foi um fator de aproximação. Já Argentina e Colômbia, além da proximidade cultural, tinham a proximidade geográfica. Em quase todos os casos, antes de instalar uma fábrica própria, a empresa já havia exportado ou realizado alguma parceria de produção. Rússia, Índia e Austrália foram exceções a esse perfil de inserção internacional da empresa, possivelmente, em função da maior maturidade internacional da empresa no momento da internacionalização em direção a esses países.
Na África, a atividade de fabricação de ônibus é um misto de manufatura com montagem104, o que inclui a compra de partes de peças e algumas matérias primas, tanto no
mercado local, quanto importadas do Brasil e de outras partes do mundo, e a junção dessas peças e montagem da carroceria, assim como a fabricação pela própria empresa de peças a serem utilizadas na carroceria do ônibus. As matérias primas, como aço, alumínio e tintas, entre outras, são compradas localmente.
103 A maior dificuldade da empresa em relação ao aspecto cultural e linguístico, na verdade, não era a expatriação dos funcionários, mas na adaptação profissional e social dos cônjuges.
De acordo com o Diretor Geral da empresa, Dr. Rubens De La Rosa (2013), no seu processo decisório, o aspecto fundamental levado em conta pela Marcopolo é o mercado local do país para os ônibus da empresa, sintetizado nos critérios geografia e densidade demográfica. No caso da África, a posição geográfica de Egito e África do Sul, nos dois extremos do continente, parece demonstrar a intensão de “cercar” os mercados consumidores do continente, além de serem países que catalisam regiões de influência ao seu redor. A capacidade de o país se tornar plataforma de exportação para a região também é um fator do critério geográfico, na medida em que a localização do país pode facilitar o acesso a mercados próximos. Observa-se, no que diz respeito à densidade demográfica, o mercado consumidor, tanto no perfil quanto na quantidade de consumidores. Nesse sentido, segundo Rosa, o maior mercado para carrocerias brasileiras no exterior, depois da América Latina, é a África. Além disso, a existência de infraestrutura compatível com a rodagem de ônibus é levada em consideração no processo decisório da empresa.
No caso do Egito, cuja planta foi instalada em 2008, foi levado em consideração o fato de o país ter uma grande população, com mais de 80 milhões de pessoas, e catalisar uma grande região de influência, no norte da África e Oriente Médio, para onde a produção é exportada. Como em outros casos, a empresa já havia ganhado mercado no país previamente mediante exportações. Já em 2009, no contexto da crise internacional, a fábrica do Egito ganha importância105, passando a abastecer o mercado europeu, diante da desativação da fábrica de Portugal, em função dos altos custos deste país, da competitividade dos fabricantes do mercado europeu e do pequeno mercado local para a empresa (ROSA, 2012).
O caso da África do Sul foi mais complexo, na medida em que foi o primeiro país em que a Marcopolo instalou planta de produção no continente africano. O início das atividades da empresa na África do Sul deu-se por meio da exportação de produtos e da representação comercial instalada no país. Nos anos 2000, surgiu a oportunidade de participar de uma licitação pública em associação com a Scania, a qual venceram. Ao fim da operação, a Marcopolo manteve-se na África do Sul, comprando a fábrica da Volvo em Johanesburgo (IGLESIAS; COSTA, 2011).
O processo de internacionalização em direção à África do Sul estava inserido em um ciclo mais amplo de internacionalização da empresa para diversos países, como México e
105Pouco depois, mas já fora do período em análise, a Primavera Árabe, no Egito, fez a empresa questionar a continuidade da fábrica no país e fez reduzir a produção a níveis bem abaixo da normalidade (Rosa, 2012).
Colômbia. Depois que a parceria com a Scania encerrou-se, era confortável manter-se na África do Sul, pois já tinha conhecimento do mercado e knowhow. Além disso, a exposição à concorrência estrangeira seria um fator importante. De acordo com de la Rosa, a África do Sul não é um mercado tão grande quando comparado a outros países do mundo, mas é competitivo e essa exposição seria importante para a empresa. A presença de empresas indianas, chinesas e europeias como competidoras no mercado foi um fator que também motivou a permanência da empresa no país. Além disso, a partir da África do Sul, a empresa exporta para os países do Cone Sul da África, como Zâmbia e Moçambique.
Quanto aos incentivos governamentais, o diretor da Marcopolo avalia que, apesar de ainda serem inferiores ao que se deseja, melhoraram nos últimos tempos. No caso da África, o incentivo governamental que ele destaca no período em análise é o financiamento ao capital de giro para exportação e, principalmente, ao cliente da exportação da empresa, porque, quando o produto é exportado, ele abre o mercado para que futuramente haja produção do mesmo no país ou na região. Segundo De La Rosa, financiamento ao cliente abre portas para a marca.
Apesar de afirmar que o IED da Marcopolo para a África é financiado com recursos próprios, de la Rosa considera que o governo Lula ajudou bastante com o acesso ao financiamento à exportação para vários países africanos e, com isso, a empresa exporta do Brasil e cria um mercado para seus produtos no país de destino. Por consequência, fica mais fácil o investimento direto.
Da perspectiva teórica, Rosa analisou o processo de internacionalização da Marcopolo a partir da perspectiva do Paradigma Eclético de Dunnig, cujas vantagens da empresa foram sintetizadas no quadro baixo.
Quadro 9 –Vantagens da Marcopolo em instalar unidades produtivas em mercados externos, de acordo com o Paradigma Eclético de Dunning.
Tipo de Vantagem Característica da Marcopolo
Vantagem de Propriedade Tecnologia de produção, capacidade de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, a marca ser internacionalmente conhecida.
instalar fábrica própria, a empresa protege mais sua tecnologia de produção do que se fornecer licenciamento da sua tecnologia).
Vantagem de Localização Facilidades logísticas (redução do custo de frete e agilidade nas operações), contorno de barreiras protecionistas e acesso a insumos. Fonte: Elaborada pela autora, a partir de Rosa (2012)
No que diz respeito às fábricas da África, as três vantagens de localização foram direta ou indiretamente mencionadas nas respostas à entrevista com o diretor geral da empresa. A facilidade de logística foi a mais enfatizada, tanto na África do Sul, quanto no Egito, principalmente no que diz respeito aos atrativos do tamanho do mercado consumidor. No primeiro caso, para que a África do Sul servisse de plataforma de exportação para os países do cone sul da África, e no segundo caso, a fábrica do Egito atender preferencialmente os mercados do Norte da África e Oriente Médio. Além disso, o custo do frete pode ser inviável para a exportação do Brasil de determinadas categorias de ônibus. Ao instalar-se em países em que esse custo de frete seja reduzido, seja por encurtar as distâncias, seja pela logística de transporte que necessite de menos meios de transporte, a empresa passa a ter uma vantagem de localização.
Ademais, foi mencionada a vantagem de se ter acesso ao mercado comum do MENA – Middle East and North Africa, o que não se enquadra exatamente em um contorno a barreira protecionista, mas é uma vantagem de acesso preferencial a mercado em função da localização106.O foco dessa vantagem de acesso a mercado, assim como no caso da facilidade
de logística, é ter acesso a mercados com alta densidade populacional com menores custos tarifários. No caso da África do Sul, não foram mencionadas a SADC e a SACU, mas também é uma vantagem de acesso a mercados que pode ser levada em consideração. Por fim, o acesso a insumos foi mencionado apenas indiretamente, quando de la Rosa afirmou que, em geral, as matérias primas, como aço e alumínio, são compradaslocalmente, além de tintas e outros materiais. Não foi feita, porém, nenhuma relação com as condições de aquisição desses materiais e matérias primas e os atrativos locais para a escolha da localização das plantas na
106 Driblar uma barreira protecionista consiste em ter acesso a um mercado em melhores condições em relação aos seus concorrentes externos. De maneira semelhante, estar localizada em um país que é parte de um acordo de comércio preferencial, também coloca a empresa em melhores condições, comparada a seus concorrentes externos.
África, mas é de se destacar que a África do Sul é um dos principais fornecedores de alumínio ao Brasil (5º maior fornecedor, com 4% das importações brasileiras) (MDIC, 2012).
Finalmente, a escolha da localização das plantas de produção da Marcopolo na África foi determinada pelo tamanho do mercado, tanto pela geografia, que permite acesso a mercados regionais, quanto pela densidade populacional. Os incentivos governamentais não foram determinantes na escolha desses destinos, mas deram a contribuição de viabilizar o investimento.