Após ter sido preso e submetido a interrogatório, Ideal Peres acabou entregando às forças de repressão o endereço do local de trabalho de Edgar Rodrigues, que trabalhava na construção civil. Não tendo encontrado nada de subversivo em seu escritório, os militares decidem levá-lo
para depor. A princípio, Rodrigues conseguiu convencer o tenente Lobo e o sargento Durval de que “era uma boa pessoa” e, a partir de então, uma série de negócios viríam a ser travados entre o militante anarquista e as forças repressoras do Estado - negócios que mais à frente auxiliariam a absolvição dos anarquistas. Para que o tenente Lobo o deixasse dormir em casa e ir depor no outro dia, Rodrigues se comprometeu a visitar sua casa durante a noite, para “resolver” um problema em seu banheiro social: revesti-lo com azulejo decorado. A noite, na residência do tenente, Rodrigues recebeu um papel com seis perguntas, que lhe seriam feitas no dia seguinte pelo chefe do inquérito, major Veloso.
A maioria dos membros do CEPJO já havia prestado depoimento, quando Rodrigues foi cordialmente apresentado ao coronel Amâncio, como um “construtor competente e sério”. Tudo ocorrera bem durante o depoimento de Edgar, de forma que, ao término do mesmo, o major Veloso o acompanhou até o carro - os militares estavam interessados na realização de mais algumas trocas. Dias depois, os anarquistas Pietro Ferrua, Edgar Rodrigues e Manuel Ramos se reúnem na casa do companheiro Matos. Naquela reunião, lavram uma ata encerrando as atividades do CEPJO, que foi publicada no Diário Oficial do Estado. Rodrigues procurou o Dr. Décio Gama para reparar os estragos da sala em que o Centro funcionava, dar prosseguimento ao
destrato da mesma, e acertar as despesas pendentes com o proprietário.
Estando a diretoria do CEPJO em liberdade, a estratégia seguida foi realizar reuniões em locais alternados. As caixas de correio da Editora Mundo Livre e as do presidente do Centro, Pietro Ferrua, foram bloqueadas pelos militares, e uma das primeiras medidas que os anarquistas tomaram foi avisar aos companheiros do exterior que não lhes enviassem imprensa libertária. Semanas depois, o sargento Durval Queiroz passou a procurar Rodrigues para vender-lhe algumas informações e livros que estavam retidos no processo - assim, enquanto os anarquistas do Rio ficavam atualizados do andamento do inquérito, a carga contra o CEPJO era aliviada.
Na noite de Natal de 1969, Edgar Rodrigues recebia do tenente Osvaldo Lobo, o original de seu livro Nacionalismo e Cultura Social, todos os fiimes dos Congressos Anarquistas realizados em “Nossa Chácara”, os filmes dos piqueniques, e o livro de presença do CEPJO, no qual constavam centenas de nomes de visitantes e frequentadores. Os filmes, o oficial obrigou-o a queimar, e realmente eram bastante comprometedores, visto que apresentavam militantes de várias partes do Brasil, nos Congressos realizados em 1959,1962 e 1963.
Dias depois, convidados por um homem que se auto-intitulava “Dr. Lucas”, e auxiliar do promotor José Manes Leitão - encarregado de formalizar as acusações contra os anarquistas do CEPJO - , Edgar Rodrigues e Ideal Peres foram à Avenida Paulo de Erontim, ao escritório do dito Doutor. No escritório, o Dr. Lucas afirmou que, se o Doutor Lino Machado Filho (antigo deputado do Partido Trabalhista Brasileiro) fosse contratado como advogado, as acusações contra os anarquistas seriam aliviadas. Segundo Lucas, todos os anarquistas deveríam ser defendidos pelo mesmo advogado. O preço para a defesa seria de Cr$ 32.500,00. Além disso, conversando com Rodrigues, Dr. Lucas reclama das dificuldades para reformar um banheiro em sua casa, surgindo de tal conversa uma nova negociação - Esther Redes ficaria fora do processo, e Edgar Rodrigues podería lê-lo e copiar alguns depoimentos. A inerente corrupção dos homens do Estado acabou facilitando as coisas para o lado dos anarquistas, quando um novo problema aparece, os jovens do MEL não possuíam condições de pagar suas cotas do valor exigido para o advogado, ficando apenas cinco anarquistas comprometidos em conseguir todo o dinheiro. Com muito esforço, e graças à solidariedade de outros companheiros libertários, do Rio e de São Paulo, as cotas foram pagas (os Cr$ 32.500,00 foram divididos em um primeiro pagamento de Cr$ 6.500,00, pago na assinatura do contrato, seguido de doze pagamentos de Cr$ 2.170,00).
Dentre os nomes que Edgar Rodrigues e Ideal Peres selecionaram para testemunhar a favor dos envolvidos, estava o do Dr. Aladyr Ramos Braga, delegado do DOPS, que ffeqüentava
as aulas de psicologia do CEPJO. Surpreendentemente, Aladyr aceitou defender o CEPJO e seus diretores - o que constituiu mais um ponto positivo a favor dos anarquistas. O próximo ponto favorável estaria prestes a acontecer: entre a segunda e a terceira audiência do processo n.° 58/69, Rodrigues resolve visitar o escritório de contabilidade de um amigo, J. B. de Souza, que trabalhava em Cascadura. Ao chegar ao escritório, Rodrigues foi apresentado por seu amigo - que não sabia de nada do que estava acontecendo com Rodrigues e os anarquistas do Rio - a um outro amigo seu que, para sorte dos anarquistas, era exatamente o juiz que os estava julgando. “Lamento ter-nos conhecido em circunstâncias tão adversas”, teria dito Rodrigues, enquanto estendia sua mão para apertar a do juiz. Após terem travado uma conversa, marcaram um encontro secreto para o dia seguinte.
Segundo Rodrigues, no encontro, na casa do Doutor juiz João Nunes das Neves, Rodrigues foi questionado pelo mesmo sobre o que se fazia no CEPJO e qual a finalidade de seus cursos, além de exigir um resumo verbal da idéia anarquista. Após as explicações exigidas terem sido dadas, o Dr. Nunes das Neves prometeu absolver os anarquistas, porém, ninguém, além de Edgar Rodrigues, J. B. de Souza e o próprio juiz deveriam saber que aquela conversa havia sido realizada. Assim, no dia 30 de novembro de 1971, os anarquistas do CEPJO foram absolvidos. Suas absolvições foram confirmadas pelo Superior Tribunal Militar, de Brasília, em 12 de junho de 1972. Conforme nos explica o próprio Rodrigues, os anarquistas se safaram graças aos seguintes fatores: o esvaziamento dos motivos da detenção e retirada de “peças” do processo; ao seu encontro com o juiz auditor; ao depoimento do delegado do DOPS, Aladyr Ramos Braga; e a defesa do advogado Lino Machado Filho (RODRIGUES, CUBERO, MORENO, [s. d.], p. 56-66). A conseqüência de tal processo foi o fim do CEPJO e do Movimento Estudantil Libertário, no Rio de Janeiro. Os anarquistas contam que, em outras partes do Brasil, sempre que era preso
um estudante que aparentemente não pertencia a algum partido, o s policiais o indiciavam com o membro do M EL.2
4.4 Sobre a resistência anarquista no Brasil, durante o regime militar
A resistência se dá quando não se cede a pressões - quando a idéia de “morte certa” não é aceita pelo moribundo que agoniza em seu leito de morte. Resistir é defender-se, assim como contra-atacar, fazendo oposição ao estabelecido — ao que nos é imposto e forçado. Resistência é, também, a luta que se trava em defesa de um ideal.
O movimento anarquista, sem sombra de dúvidas, foi o movimento revolucionário mais perseguido da história brasileira. Desde o final do século XIX, tendo sobrevivido ao autoritarismo contínuo de governos patriotas e de aspirantes a governo; tendo tido amigos, companheiros e irmãos, presos, deportados, torturados, assassinados ou desaparecidos; assim como seu trabalho manual e intelectual de anos - que ergueu e deu vida a escolas, sindicatos, grupos de teatro, tipografias e editoras, que alfabetizou e educou, mobilizou, combateu os preconceitos, uniu e conquistou espaços vitais à melhoria existencial de trabalhadores semi-escravizados - , invadido, saqueado, pilhado e destruído; os libertários permaneceram, e o ideal anarquista sobreviveu. A contragosto de sociólogos e intelectuais, de marxistas - que acreditavam que o anarquismo não passava de uma doutrina social obsoleta ou primitiva - , a bandeira negra da Revolução Social, do luto e da luta de trabalhadores que ainda permanecem explorados, que continuam vitimados pelo capitalismo e pelo autoritarismo, está erguida.
2 No livro Perfil dos Atingidos (Tomo Dl do projeto “Brasil: Nunca mais”), publicado pela Editora V ozes, em 1988, há