O que seria de uma minoria anarquista armada, em confronto com o rolo compressor autoritário que é o Estado militar? E qual seria a imagem que o anarquismo passaria a possuir? A idéia anarquista já estava por demais deturpada, para a realização de qualquer ação desse tipo.
Sabe-se que durante a perseguição aos anarquistas do Rio de Janeiro e São Paulo, alguns militantes do movimento não cessaram suas atividades. Malgrado as perseguições, chantagens, prisões e torturas a que foram submetidos, e independente de sua pequena imprensa estar oficialmente impedida de circular, alguns militantes continuavam bem ativos, como o escritor Pedro Ferreira da Silva, o editor Roberto das Neves, José Romero, Pascoal Gravina, a família Germinal, Luís Saturnino, Diamantino Augusto, Angelina Soares, Amílcar dos Santos, Sebastião Batista, Seraphim Porto, Ideal Peres, Esther Redes, o médico Afonso Vieira, Raul Pereira dos santos, Enio Cardoso, João Peres, Manuel Peres, Manuel Matos, Fernando Neves, Manuel Ramos, Pietro Ferrua, Edgar Rodrigues, Jaime Cubero, Francisco Cuberos, Valdir Copesque, e outros que se uniram aos anarquistas, em pleno governo militar. Um exemplo desses novos militantes que se uniriam aos anarquistas é o caso do escritor, terapeuta e dramaturgo Roberto Freire. Freire, a princípio, antes de conhecer o anarquismo, teve acesso a literaturas e a grupos marxistas, mas jamais conseguiu se filiar a qualquer partido, tanto por não suportar as normas internas, quanto por não ter sido aceito. Meses após o golpe de 1964, ele foi preso por determinação da marinha, e logo depois, seqüestrado, ambas as vezes por ação do DEOPS. Estando preso, respondeu por textos “subversivos” que havia publicado no jornal Brasil, Urgente, que fundara em 1962, junto a padres dominicanos e intelectuais católicos, que seguiam a encíclica Mater et Magister, escrita pelo Papa João XIU, através da qual os fiéis eram conclamados a agir verdadeiramente em prol dos trabalhadores do campo e da cidade dos países subdesenvolvidos; por haver oferecido abrigo a fugitivos políticos; por se negar a dizer nomes e paradeiros de amigos; por um Plano de Popularização do Teatro, que elaborara em 1962, quando era diretor do Serviço Nacional de
Teatro; por trabalhos realizados com Paulo Freire; pela construção do Teatro da UNE; e por outras práticas “perigosas” (FREIRE, 1977, p. 334-335). Roberto seria preso e torturado algumas outras vezes. Em consequência de tantas torturas, chegou a perder a visão de um de seus olhos.
4.4.1 Notícias de encontros e contatos clandestinos
Após o fechamento do CEP30, no Rio, e do encerramento provisório das atividades do CCS, em São Paulo, em 1969, as reuniões anarquistas ficaram bastante difíceis de serem realizadas. Principalmente durante o violento governo do general Emílio Garrastazu Médici (25 de outubro de 1969 a 15 de março de 1974) - época em que o crescimento da execução de pessoas foi contrabalançado com a ficção do “milagre econômico brasileiro”, apresentado à população pelo ministro Delfim Neto através de falsos e elevados índices de crescimento econômico, que em pouco tempo cairiam por terra - , o clima negativo pesava nos ares brasileiros. As notícias de subversivos presos eram sempre mais freqüentes, e o medo de estar sendo perseguido a todo instante envolveu os militantes libertários que, aos poucos, se afastavam do movimento. No Rio de Janeiro, as reuniões ocorriam sempre em lugares alternados - o escritório de Edgar Rodrigues ou a casa de Ideal Peres e Esther Redes, por exemplo. Ideal e Esther, durante a década de 1970 “criaram um grupo de estudos do anarquismo em sua própria casa, recebendo jovens e velhos militantes” (LIBERA... AMORE MIO, julho/agosto de 2003, p. 02).
O anarquista José Carlos Orsi Morei, que a partir de 1972 conheceu e conviveu com Jaime Cubero, aprendendo com ele muito sobre anarquismo, escreveu, em uma matéria que tratava da morte de Jaime, encontrada no informativo Libera... Amore Mio de junho de 1998, que
Durante os tempos duros da década de 70, a sua sapataria servia de ponto de encontro para os militantes paulistas, brasileiros e, até mesmo, internacionais. Grande parte do
ressurgir do interesse pelas idéias libertárias, a partir de 1975, deveu-se a este seu desprendimento, que era também o de sua família próxima (sua companheira, seu irmão Francisco e sua cunhada). [...] Não conheço muitas pessoas que naqueles tempos soturnos arriscassem com tanta simplicidade seu ganha-pão e o bem-estar de seus familiares em prol de um ideal político. Tal coragem manifestava-se sem os ouropéis da empáfia, sem buscar fama ou reconhecimento - fazia-se o que deveria ser feito e ponto final: simples, modesta, monolítica é tal grandeza anônima de anarquistas, que jamais se tomarão nomes de ruas ou terão estátuas em praça pública, que me fez persistir no movimento, que me fez acreditar que a anarquia é possível e viável, desde que as pessoas realmente se empenhem par construí-la (LIBERA... AMORE MIO, junho de 1998, p. 03).
A sapataria em que se reuniam os anarquistas ficava na Avenida Celso Garcia, em São Paulo, e não pertencia a Jaime Cubero — pertencia a seu irmão, sendo Jaime apenas seu sócio. Durante toda a ditadura, estando o CCS fechado, os anarquistas, às vezes em número de 30 ou 40, se encontravam na loja de sapatos, que era um ponto de referência para os militantes de outros estados. Na sapataria ocorreram inclusive encontros com militantes de outros países, como o secretário geral da Associação Internacional dos Trabalhadores (RODRIGUES, CUBERO, MORENO, [s. d.], p. 136). Encontros com até duzentas pessoas foram realizados em “Nossa Chácara”, e outras reuniões ocorreram “na casa de um companheiro, do clube do Morumbi. Nós íamos um por cada quarteirão, descíamos dois ou três pontos antes, sempre olhando, driblando, para podermos nos reunir” (RODRIGUES, CUBERO, MORENO, [s. d.], p. 143-144). Em 1974, mediante toda a dificuldade de contato interno e externo, os anarquistas brasileiros, durante o processo revolucionário português que ficou conhecido como a Revolução dos Cravos , procuravam contribuir com o fim das necessidades ideológicas dos anarquistas portugueses, que 4
4 Em Portugal, entre o fim de 1973 e início de 1974, a luta contra o fascismo deu formas a um grande movimento social, no