• Aucun résultat trouvé

Para os grandes fazendeiros da região do “Mato Grande”, a mão-de-obra barata era a garantia de sucesso em seus empreendimentos. Esses fazendeiros contavam com um exército de homens, mulheres e crianças, que trocavam sua força de trabalho por valores que lhes atendiam precariamente, ao mesmo tempo que os latifúndios prosperavam em seus empreendimentos locais.

Quanto aos trabalhadores, as dívidas se acumulavam através do sistema de “vales”, tendo muitos perdido sua pequena propriedade por não honrar os débitos contraídos. Assim, contam os Mendonça do “Amarelão” sobre o momento áureo da cotonicultura e das plantações de agave nas fazendas do “Mato Grande’, sobretudo nas fazendas de João Câmara.

É importante lembrar que este político chegou à região de “Baixa-Verde” por volta do ano de 1914, quando então, era um simples povoado, próximo à estação ferroviária da cidade, e onde parte da população estava empenhada na construção das ferrovias, além de engenheiros, técnicos agrônomos. Segundo Santos (1997, p.26), “foi nesse ambiente de engenheiros, técnicos, pequenos comerciantes, cassacos (trabalhadores na construção das linhas férreas) e Mendonça que João Câmara se instalou com sua pequena mercearia...”.

Cascudo se refere aos Mendonça, nessa época, como “importantes fornecedores da alimentação indígena de Baixa-Verde” (antiga João Câmara), oferecendo seus produtos “nas portas e nas feiras, diante da loja de João Câmara” (CASCUDO, 1991, p.38).

No início da década de 1930, João Câmara já exportava o algodão, computando o primeiro lugar nas exportações do Estado, durante os anos de 1933, 1937-39; 1946-48 (SANTOS, 1997).

Os Mendonça informam sobre o auge da produção do algodão e sobre o fato de que ainda constituíam boa parte da mão-de-obra de baixo-custo (semi-escrava, conforme eles se

referem), nas inúmeras fazendas de algodão de João Câmara. A Sra. Francisca Batista, professora comunitária do “Amarelão” informa:

João Câmara tratava bem os Mendonça porque precisava da mão-de-obra barata deles. Os mais antigos chamam o lugar de Baixa-Verde, não se conformam com a mudança do nome para João Câmara. Os grandes fazendeiros escravizavam os Mendonça que perderam as terras para eles.87

Conforme o depoimento da professora Francisca (Chiquinha), os Mendonça trabalhavam praticamente em regime de escravidão, porque, segundo ela as atividades eram muito árduas nas fazendas. Além do plantio, da colheita do algodão e agave, limpavam os terrenos e carregavam nas costas o fardo para a pesagem. Apenas aos sábados, conforme já foi referenciado, os Mendonça recebiam o pagamento na Firma de João Câmara e Irmãos, na cidade de Baixa-Verde, onde, estrategicamente, havia a única “venda” (mercearia) na cidade, onde o grupo gastava grande parte do que recebia, comprando variados artigos na loja do próprio empregador.

Dessa forma, os débitos passaram a ser contabilizados em desconto nos futuros vencimentos. Isso se tornou um processo rotineiro, que, posteriormente, se tornou cativo para muitos trabalhadores. É assim que eles se lembram dos trabalhos nas fazendas de algodão, no início do século passado.

Seu Pedro Justino, oitenta e cinco anos, comenta:

O pessoal que trabaiáva no Mato Grande comprava de tudo no comércio de João Câmara. Era açúcar, feijão, rapadura e tudo. Mas, quando o camarada não podia pagar as conta, tomavam as terras dele. Eu trabaiáva em Jacinto que era uma fazenda na região do Mato Grande e comprava lá no comércio de João Câmara. Meu pai entregava o algodão no armazém de João Câmara que desencaroçava o algodão na usina.88

87

Entrevista concedida pela Sra. Francisca Batista de Melo sobre o trabalho com algodão na região do Mato Grande. Gravada e transcrita pela autora, em junho de 2006 (Grifos da pesquisadora).

88

Entrevista concedida pelo Sr. Francisco Justino sobre o trabalho com algodão na região do Mato Grande. Gravada e transcrita pela autora, em maio de 2006 (Grifos da pesquisadora).

De acordo com este depoimento, percebe-se a dominação político-econômica sobre os Mendonça, que caracteriza as relações trabalhistas na época e que era marcada pela desigualdade e pela autoridade dos fazendeiros locais e do mau pagamento, inclusive do próprio João Câmara. Isso explica a razão porque alguns deles se referem àquele trabalho como escravo.

O Sr.José Honório também se lembra desses episódios, afirmando que “os Mendonça trabalhavam para João Câmara em Parazinho também” – uma localidade do Mato Grande onde João Câmara havia adquirido muitas propriedades de terras – e compravam tudo que precisavam em sua loja, por meio de “vales”, o que gerava dívidas e descontos em seus salários, já tão insuficientes, conforme anunciou. Ele lembra: “Era tudo de João Câmara. Os Mendonça ficavam debaixo do cabresto dele”.89

Ele e outros Mendonça, contemporâneos de João Câmara, também recordam sobre um levante que houve na década de trinta, em que um grupo de revoltosos esvaziou a loja daquele fazendeiro, sacudindo seus artigos e peças de tecidos nas ruas, para que as pessoas os pegassem. Este ato de vandalismo contra o patrimônio do empresário ocorrera no período da Intentona Comunista - a Revolução de 1935. Seu Pedro Justino lembra: “Muitos comunistas se esconderam pela região do Mato Grande”.

Todavia, apesar de alguns momentos de crise, os empreendimentos de João Câmara prosperaram de tal modo que ele também decidiu investir na cultura do agave. As primeiras mudas foram trazidas do “Brejo paraibano” (SANTOS,1997; p.49), onde “Bananeiras” também foi cidade próspera com o cultivo de algodão e, posteriormente, com o do agave, da cana, do café, do fumo e da mandioca (SILVA, 1997). O empresário chegou a plantar mais de dois milhões e quinhentos pés na região, sendo considerado o introdutor dessa cultura no Estado. Os Mendonça também foram a força humana propulsora desse novo empreendimento na região do “Mato Grande”.

A pecuária, por sua vez, espalhou o gado por diversas fazendas, sobretudo num lugar chamado “Buraco Seco”, ao qual os Mendonça se referem como o reduto da pecuária de João Câmara.

Após a morte desse empresário e político, os negócios faliram, caindo sensivelmente a produção de algodão e agave, e os Mendonça voltaram a trabalhar na agricultura, no corte de lenha nas fazendas da região.

89

Entrevista concedida pelo Sr. José Honório sobre o trabalho dos Mendonça nas fazendas de João Câmara. Gravada e transcrita pela autora, em maio de 2006 (Grifos da pesquisadora).

As antigas propriedades do fazendeiro foram tomadas pelos bancos que financiaram seus empreendimentos, sendo, depois, vendidas e assumidas por outros fazendeiros da região.

O Banco do Brasil S.A, por meio de carta de adjudicação, adquire toda “a massa falida de João Câmara Indústria e Comércio S.A” 90. Dessa forma, os Mendonça acabaram perdendo definitivamente suas terras, tornando-se “ilhados” no “Amarelão”, tendo à sua volta inúmeras propriedades particulares.

Posteriormente, o grupo familiar continuou trabalhando para outros fazendeiros com a cotonicultura, mas a praga do “bicudo”– espécie de inseto –, nos anos de 1980, acabaria definitivamente com esse empreendimento e com a fonte de trabalho dos Mendonça, que passaram por um período difícil de sobrevivência, até que eles próprios decidiram optar por uma atividade autônoma. A partir de então, eles se voltam para a produção da castanha.

No final da década de oitenta, eles decidem lutar pela recuperação das terras, tendo algum sucesso, como no caso do “Assentamento Santa Terezinha” (1994), antiga fazenda “Saramandaia” (cf. seção 4).

O quadro histórico desse grupo familiar, na primeira metade do século XX, se caracterizou, portanto, pela exploração da mão-de-obra barata dessa família que dinamizava os negócios e as plantações de algodão e agave dos fazendeiros locais, o que lhe custou também a expropriação de suas terras para ceder lugar ao gado, além das plantações dos produtos já referidos, fontes de lucro para os fazendeiros e políticos da antiga Baixa-Verde e motivos de prejuízos para os Mendonça, que, até os dias atuais, tentam recuperar as terras perdidas.

A castanha foi uma alternativa de sobrevivência e forma de garantia e de permanência da família no seu lugar de origem, sem recorrer a novas migrações forçadas pela escassez de recursos e pela fome, evitando, inclusive, o êxodo rural, que infla as cidades. Os Mendonça preferiram gerir seu próprio trabalho e seu próprio destino, apesar das dificuldades existentes e sem apoio institucional.

90

Conforme o Livro 3-A; páginas 1- 30(CARTÓRIO DE REGISTROS DE IMÓVEIS DA COMARCA DE JOÃO CÂMARA, 1961).

3.4.2 O trabalho com a castanha: o pão, o suor e o sangue dos Mendonça - segunda metade

Documents relatifs