5.5 Milieu humain
5.5.5 Etude de risque sanitaire
A burguesia industrial é acionada em Pernambuco para auxiliar no fomento e traçar metas capazes de negociar condutas desenvolvimentistas em meio à produção artística dentro de diversas escalas. Em 1952, o industrial Arthur Lundgren124 surpreende o campo das artes
124 Filho do sueco Herman Lundgren (1835-1907), industrial empreendedor da Fábrica de Tecidos Paulista–PE, localizada na zona metropolitana do Recife, transformando-se numa das mais importantes manufaturas de tecidos do país, graças à aquisição de um maquinário inglês moderno. Os Lundgren eram verdadeiros “coronéis” da indústria, a figura do Arthur Lundgren atuou enquanto político no município de Paulista–PE, quando em 1956, Rio Tinto–PB foi emancipada de Mamanguape–PB, e teve Arthur Lundgren como seu primeiro prefeito. A partir dos anos 1940, a companhia de tecidos começou a enfrentar dificuldades. Com a morte de Frederico Lundgren, em 1946, seu irmão Arthur Lundgren assumiu a direção e procurou mudar os mecanismos gerenciais, suprimindo muitos dos benefícios anteriormente concedidos aos operários, como a moradia e alimentação a custo baixíssimo. Os trabalhadores reagiram organizando greves e recorrendo à Justiça do Trabalho para exigir o cumprimento dos seus direitos. O maquinário também ficou ultrapassado. Em 1960, a maioria dos teares da fábrica datava do período entre 1890 e 1930, causando uma baixa produtividade, custo
de Pernambuco e São Paulo, ao doar uma grande quantia em dinheiro para aquisição de uma tela de Manet para o MASP.
Figura 21: Revista Nordeste, janeiro e fevereiro de 1952.
A matéria é noticiada pela Revista Nordeste (1952) que narra sobre as relações estabelecidas entre Assis Chateaubriand, magnata da impressa nacional, dono de indústrias e criador do Museu de Arte de São Paulo com o industrial pernambucano Arthur Lundgren. A revista ressaltava que São Paulo possuía mais de um terço das firmas de Lundgren em suas terras e que apesar do Estado de São Paulo ser um grande produtor têxtil, aquele Estado era o maior consumidor dos produtos das fábricas de tecidos do município de Paulista–PE.
Com o intuito de retribuir as iniciativas de industriais paulistanos em doar donativos para orfanatos no Nordeste brasileiro e desejando aproximar os laços entre os empresários de Pernambuco e os de São Paulo, o comendador Lundgren realizou a doação da quantia de um milhão e quinhentos mil cruzeiros ao MASP, a fim de que fosse adquirida uma tela do artista francês Edouard Manet: “Baigneuses en Seine”, cumprindo um desejo antigo dos diretores deste museu.
A respeito do donativo, o industrial articulou a propaganda do seu feito para disseminar as práticas pessoais de uma elite admiradora de arte engajada no projeto de desenvolvimento cultural da nação. Lundgren emitiu um telegrama comentando o feito para o Ministro da Fazenda na época, Horácio Lafer, ministro empenhado em levar avante o compromisso que Vargas assumira com a industrialização e a diversificação econômica do país, nos anos de 1950. Durante a gestão de Lafer, e por todo segundo governo Vargas, a ação do Ministro da Fazenda era concomitante à da Assessoria Econômica da Presidência da República, a qual exercia considerável influência na condução da política econômica do governo.
alto de produção e tecidos de menor qualidade. O reinado dos Lundgren estava com os dias contados. A fábrica foi sendo desativada aos poucos e fechou definitivamente no final da década de 1980. Entretanto, a presença dessa companhia de tecidos ainda se faz sentir em todos os cantos de Rio Tinto–PB. Ela está em seu traçado urbano, em sua arquitetura e na memória dos antigos trabalhadores. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/nada-de-preguica>. Acesso em: 11 maio 2016.
Em telegrama expedido em 07 de fevereiro de 1952 e publicado pela Revista Nordeste, Lundgren informa o seu feito:
Desejando colaborar com o Museu de Arte de São Paulo e com a aquisição de obras de grandes artistas de renome universal, comunico, eminente amigo, minha deliberação dotar daquela instituição que tanto eleva o nível cultural do nosso país, com um milhão e quinhentos mil cruzeiros para aquele fim, devendo citada importância ser empregada no sentido de enriquecer ainda mais as galerias de obras célebres que representam atualmente um grande patrimônio artístico de iniciativa nacional. Este gesto espontâneo corresponde esforços aquele, como vossência (sic.), tudo fazem elevar cultura artística brasileira. Autorizei nosso amigo José Miranda, juntamente com meu filho Milton Lundgren a entregarem o cheque pessoalmente vossência (sic.)125.
O ministro Lafer parabenizou o ato de doação e exaltou o “alto espírito de cooperação” para o enriquecimento do patrimônio artístico. O projeto de desenvolvimento da nação incorporava a dinâmica de acumular não só capital financeiro, mas um capital cultural capaz de legitimar o país enquanto nação civilizada e desenvolvida. A elite nacional se engajava neste projeto. Contudo, a ação de mecenato iria bem além do ato civilizado de doar obras em nome do desenvolvimento.
A biografia que Fernando Morais escreveu sobre o jornalista Assis Chateaubriand demonstrou como este empresário utilizava o poder da imprensa para ameaçar adversários ou aqueles que não se mostravam dispostos a participar dos projetos pessoais do magnata da imprensa. Na biografia, um artigo assinado pelo próprio Assis Chateaubriand, tratando exatamente desse ponto, naqueles efervescentes primeiros anos da instituição, versa:
Não há mais selvagem e mais errôneo julgamento do que dizer que aqueles que nos doaram tamanhas e tão maravilhosas obras-primas o fizeram com medo da pena dos escribas dos Diários Associados. Seria horrível montar um elenco baseado na chantagem ou na ameaça de chantagem (CHATEAUBRIAND apud MORAIS, 2005, p. 90)126.
Descontado o seu objetivo de autodefesa, visto como uma reação, como uma resposta para a acusação, que não sabemos de onde partiu, o tema da chantagem permanece como preocupação, tanto para o jornalista, quanto para os que o tomaram por objeto de análise. A obra de Fernando Morais está repleta de passagens em que é possível verificar o poder de coação de Assis Chateaubriand. No entanto, não nos parece sensato, ou prudente, acreditar
125 LUNDGREN, Arthur. Revista Nordeste, Recife, p. 18, jan./fev. 1952.
que toda a movimentação para criar e, principalmente, para consolidar o Museu de Arte de São Paulo, tenha se dado apenas em torno da prepotência de um só homem.
As obras de arte são pensadas como sistemas simbólicos, por meio dos quais os mecenas transmitem e recebem mensagens sobre o seu status e a sua posição na sociedade. Os quadros que fazem parte desta narrativa são catalisadores de processos sociais, institucionais e econômicos. Sendo assim, a prática de mecenato constituía uma racionalização do campo das artes que envolvia agentes em prol de articulações políticas, construindo o habitus cultural de interessado por artes e fomentador do desenvolvimento cultural. O diretor tesoureiro do Museu de Arte de São Paulo, Fúlvio Morganti (1952, p. 19), também publicou na mesma revista suas menções à prática do comendador intitulando de “alto testemunho de unidade nacional que identifica pernambucanos com paulistas”127
.
Oficialmente, o Museu de Arte de São Paulo foi inaugurado em outubro de 1947. Originalmente, porém, ele já existia enquanto ideia, que começou a ser concretizada a partir do encontro do jornalista e empresário Francisco de Assis Chateaubriand e o marchand, também jornalista, Pietro Maria Bardi. Esse será o início do recorte temporal desta pesquisa, interessada nas questões relativas às alianças entre as pessoas que participaram da formação do acervo deste museu.
Assis Chateaubriand dispunha de algumas telas, mas seu plano continha outros horizontes. “Para montar o MASP, ele começou usando os métodos quase iguais aos adotados para a campanha dos aviões: primeiro era preciso caçar um milionário (ou um grupo deles) para doar o dinheiro que pagaria uma determinada obra de arte a ser adquirida na Europa” (MORAIS, 2005, p. 481-2). Por isso, ele precisava de alguém que pudesse orientá-lo na compra dos quadros e dedicar-se, em tempo integral, à realização do projeto.
Por um lado, o jogo lúdico para a formação do Museu de Arte de São Paulo incluía brindes, conversas e arranjos com finalidades em si mesmo; por outro, a campanha para motivar doações eram incorporadas pelos agentes e concretizadas por meio de suas tomadas de posições. Quer dizer que, mesmo disfarçado por um ambiente de sociabilidade, o objetivo concreto foi atingido. Por isso, acreditamos que a busca das fontes que viabilizaram a composição de um acervo artístico deve ter início no entendimento da vivência, da experiência dos indivíduos que foram atraídos e sensibilizados por essa ideia.
Sendo assim, dentro dos trâmites das relações políticas empreendidas por Assis Chateaubriand em suas revistas e jornais, a Revista Nordeste, ao lado da matéria sobre a
doação feita pelo empresário Lundgren noticia a homenagem realizada pela Associação Comercial da Paraíba ao magnata da imprensa nacional. Homenagem realizada ao aproveitar a viagem do jornalista ao Estado da Paraíba para participar da convenção política do PSD que homologou naquele ano de 1952, a escolha do seu nome a uma vaga de Senador pela Paraíba.
A reunião decorreu com a presença de autoridades locais, industriais, comerciantes e jornalistas. Chateaubriand (1952, p. 473) aproveitou o ensejo para fazer um apelo aos que estavam na reunião que “não enviassem dinheiro aos ricaços do Rio de Janeiro, precisamos reter os nossos capitais, no próprio local em que vivemos”128
.
Ele relembrou a figura de Frederico Lundgren, enaltecendo sua capacidade em prol do desenvolvimento da Paraíba, afirmando que a região precisava de “duzentos Fredericos Lundgrens”, sendo este um homem que deixou na grandeza de sua obra “um pouco de redenção do Nordeste”, e ainda exclamou para ilustrar sua fala: “Só há igreja grande quando as paróquias são ricas”.
Sua fala continua em tom político ao discorrer sobre aquilo que chamou de “socialismo avançado”:
Precisamos ter a coragem de incentivar a criação e o progresso das classes médias, porque essas classes detêm o comunismo, a exemplo da Itália, França e da própria Inglaterra. Concitou aos ricos, para ajudarem aos que sabem trabalhar e tenham capacidade de trabalhar, citando vários exemplos dos resultados surpreendentes da cooperação econômica em diversos setores inclusive o da sua propriedade particular, onde há trabalhadores que lhes emprestam dinheiro (CHATEAUBRIAND, 1952, p. 18)129.
Essa fala do jornalista Chateaubriand torna-se proeminente para entendermos como o projeto de desenvolvimentista do país tinha como meta acionar o capital, os ideais, os discursos e o gosto das elites para produzir um avanço nos segmentos da indústria, economia, trabalho, cultura e arte. A capital pernambucana passa a estabelecer fortes vínculos com os espaços mais importantes de fomento e exposição de artes da segunda metade do século XX no Brasil, a Bienal de São Paulo e o Museu de Arte de São Paulo, sendo os intelectuais ligados a este espaço, articuladores de vínculos pessoais com diversos artistas locais, como o caso de Abelardo da Hora, que arrumava empregos no Sudeste a partir do apadrinhamento dos diretores do Museu de São Paulo.
Ademais, no fim de seu discurso, Chateaubriand (1952, p. 18) reafirmou: “Os ricos devem diminuir seus capitais no emprego das iniciativas populares”130
, para finalmente
128 CHATEAUBRIAND, Assis. Revista Nordeste, Recife, p. 473, 1952. 129 CHATEAUBRIAND, Assis. Revista Nordeste, Recife, p. 18, jan./fev. 1952. 130 CHATEAUBRIAND, Assis. Revista Nordeste, Recife, p. 18, jan./fev. 1952.
confessar que não era socialista, mas conservador. Sendo assim, o projeto conservador de desenvolvimento do capital nacional contava com setores da imprensa, da indústria, da construção civil, etc. Em que o artista, em busca dos seus espaços profissionais, iria atuar. Os ideais desenvolvimentistas também passavam a ser formadores de um habitus profissional nas artes de Pernambuco, sendo um projeto que operacionalizava indústria e cultura em diversos setores sociais do Nordeste.