SPICCTRRS D’ABSORPTION DANS L'IILTRA-VIOL’^'T
C. DISCUSSION DES RESULTATS ET CONCLUSIONS
I. ETUDE DE LA MONOAMINOLYSE DE LA 2, 4-DICHLORO--5- NITROPYRIMIDINE
Relatam os moradores de Tijuaçu que em Senhor do Bonfim, cidade-polo que agrega as outras cidades de pequeno porte da circunvizinhança, tais como Jaguarari, Ponto Novo, Filadélfia e outras. Em Senhor do Bonfim os habitantes de Tijuaçu iam às feiras, às festas populares e também utilizavam serviços médicos, porém registram que em todos esses espaços públicos eram discriminados, havendo casos de serem barrados em clubes e espaços festivos. Registram os informantes que os negros de Tijuaçu sofriam maus tratos
41
constantemente em feiras, comércios, hospitais, clínicas e em todo o espaço urbano de Senhor do Bonfim.
Descrevem que em geral eram humilhados pela cor da sua pele e por outras características físicas, ouvindo piadas e comentários maldosos em locais públicos. Um deles era a pergunta: “no Lagarto choveu?” em que as pessoas se referiam maldosamente à cor da pele dos quilombolas, completando sempre com outra pergunta: “se no Lagarto choveu, por que os negros não ficaram brancos?”
Essa é uma demonstração clara do que se refere Fanon (2008) em seu livro “Pele Negra, Máscaras Brancas” em que discute a partir do ponto de vista da psicologia o preconceito e o racismo que incute em brancos e negros a ideologia do branqueamento. Essa ideologia está marcada nas atitudes, crenças e modos de ser que colocam negros como sujeitos “naturalmente” inferiorizados cuja redenção se daria pela proximidade com o branco, para não dizer, pelo próprio branqueamento.
Os registros in loco revelam que os moradores de Tijuaçu não sofreram historicamente somente de discriminação e racismo. A comunidade teve que enfrentar o difícil acesso a água ou a negação do direito a ter água em condições de beber. Houve casos em que as fontes de água eram contaminadas com veneno pelos fazendeiros para os negros não beberem, sem medir as consequências para os seres humanos e os animais que só tinham essa fonte de água para consumir.
É importante registrar que os relatos de moradores de Tijuaçu informam de forma veemente a situação de espoliação a que foram submetidos os antigos moradores da comunidade por fazendeiros, que de toda forma buscavam se apropriar das terras dos quilombolas.
Além de invadir as áreas dos moradores, aproveitavam-se da situação de pobreza, de qual decorriam a fome, a mortalidade infantil, a mortalidade de animais e da seca que castigava aquela região por falta de políticas públicas adequadas, esses fazendeiros brancos usavam a pressão e as ameaças, inclusive cercando as águas de lagoas e nascentes para que os quilombolas não tivessem acesso.
Há relatos de que os fazendeiros forçavam os moradores de Tijuaçu e comunidades adjacentes a “trocaram” suas terras por comida, roupas, calçados, e até por “banda de bode”, deixando muitos quilombolas dispersos por causa da fome e da falta de condições provocadas pela pobreza e a longa estiagem.
42
Os quilombolas que resistiram no local tiveram que passar por diversos tipos de constrangimentos para viver ali, sendo constantemente retomado nas memórias dos remanescentes o difícil acesso à água, que para os quilombolas era quase sempre negado. De muitas formas os que se sentiam donos e senhores das terras dos quilombolas pela força, lhes impunham humilhações e afrontas à dignidade dos moradores.
As narrativas orais também dão conta da tirania de João Jambeira, o qual colocava sempre o seu gado dentro das plantações dos quilombolas para destruí-las, não permitia que os negros passassem por dentro de suas terras para chegar até suas roças de subsistência, sempre amedrontando os moradores e chegando até a destruir o cemitério local, colocando perversamente seu gado para pisotear e destruir os túmulos dos antepassados dos quilombolas.
Apesar dessas adversidades sofridas a cultura de Tijuaçu reinventa-se ao manter e ressignificar manifestações como o Samba de Lata (que remete ao movimento das negras ao buscar água em latas para o abastecimento das moradias) e a Latinha da Mamãe (o mesmo movimento rebatizado e direcionado às novas gerações), assim como a Roda do Arco Iris, e a Quadrilha do Parentesco.
A continuidade dessas manifestações culturais como festejos da comunidade que abarcam a identidade quilombola desses indivíduos representam formas de manutenção de valores que estão sendo mantidos e para, além disso, revelam também que a comunidade tem orgulho de apresentar seu cabedal cultural.
Ao reinventar as formas de se posicionar diante da realidade, que outrora foi mais hostil que hoje, a comunidade sai de uma posição de ex-escravizados para de quem está ocupando um lugar digno no cenário social a partir de quando assumem sua importância.
O valor simbólico dessas manifestações está relacionado à autoestima desse povo que por muito tempo teve por parte da sociedade e da escola motivos para se sentirem anulados e invisíveis, de acordo com a forma que foram vistos e lembrados. O fato de serem reconhecidos como quilombolas e a partir disso a comunidade ganhar um novo status, inclusive com a garantia de políticas afirmativas, que trouxe para Tijuaçu uma nova possibilidade de marcar seu lugar social, provocando na comunidade um sentimento renovado de autoestima.
Miranda (2009) fala da fronteira cultural vivenciada pela comunidade de Tijuaçu até o período em que se deu a efetivação do reconhecimento pelo Governo Federal. Segundo a autora, o ponto forte da mobilização dos tjuaçuenses para começarem a se engajar pela causa do reconhecimento como quilombola foi a participação de alguns moradores no I Encontro
43
Nacional das Comunidades Negras Remanescentes de Quilombo, que ocorreu em Salvador em 1994.
Tijuaçu passou por visitas técnicas da Fundação Cultural Palmares e do Ministério da Cultura para a certificação. De acordo com Miranda (2009) em fevereiro de 2000 foi publicado no Diário Oficial da União o reconhecimento de Tijuaçu como comunidade quilombola, após a elaboração de laudo antropológico realizado mediante o levantamento de dados sobre as comunidades adjacentes, que incluiu o mapeamento do espaço físico e da população, das atividades produtivas, da genealogia da comunidade, e descrição das manifestações culturais.
Somente a partir de uma rigorosa análise técnica, é que sua classificação como comunidade quilombola foi possível, e sendo promulgada, trouxe à comunidade de Tijuaçu o reconhecimento e a valorização que por tanto tempo esperavam.