Analyse des fonctions d’usage
5.3 Etude de la rupture de la phase dispersée
Inerentes a todas estas perspectivas encontramos um conjunto de fios condutores: os autores parecem ocupados com a estrutura ontológica, defendendo que os indivíduos, ou as estruturas, ou ambos, são a unidade fundamental de análise; defendem que a cultura é um produto emergente desses agentes, uma estrutura relativamente congelada que evolui lentamente, ou inteiramente dependente de outras estruturas diferentes como a economia, que ela se encontra individualizada, exteriorizada, ou definida externamente; colocam a análise da cultura como uma análise da sua transformação, da sua manutenção, ou da influência que essas transformações têm para o resto da sociedade, ou ainda de papéis sociais, práticas ou valores na estrutura cultural.
Estes debates não são fáceis nem cremos que se possam resolver em poucas palavras, e muito menos no âmbito de uma dissertação como esta. Parece-nos que há
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algo de verdadeiro e consensual neles: o significado é intrínseco à cultura, é aquilo que a baseia e que a motiva. Mas para além desta relativa trivialidade, pouco consenso conseguimos obter.
Qualquer uma destas perspectivas seria útil para fundar uma concepção de cultura para os estudos urbanos, e de facto podemos ver que isso é, precisamente, o que aconteceu – olhando para Sassen (1991), Zukin (1995), Castells (1996), Smith (1986), Scott (2000), entre tantos outros, encontramos uma linhagem intelectual que parte ora das visões mais marxistas, ora bourdeusianas, ora realistas críticas. Contudo, somos tentados a tomar uma abordagem que bebe muito de Archer, e tentar expandi-la: o advento da complexidade abre-nos a possibilidade de hoje colocarmos o estudo da cultura ao nível de outros sistemas complexos, como algo que emerge de determinadas entidades ontologicamente definidas como o “micro”, e formando um padrão que Humeanamente podemos definir como “estrutura”.
Por que razão esta preocupação? A razão passa pelo facto de um sistema urbano cultural poder ser posto lado a lado de um sistema urbano económico (as transacções de propriedade, comunicações de valor, etc) e de um sistema urbano ecológico (significações do ambiente e de espécies variadas, fluxos de energia, recursos e desperdícios), de tal forma que possa ser gerido, intervencionado e estudado com um rigor próximo a qualquer um destes sistemas, e, nomeadamente, ver de que forma o sistema cultural pode ter importância em si e para outros sistemas. Poder dizer com um grau de certeza científica relativamente aproximado, num momento qualquer que “ao alterar a disposição do espaço estamos a potenciar a apreciação estética da igreja” ou “ao destruir aquele prédio a perda de valor cultural que ele comporta vai fazer com que o bairro desvalorize economicamente em 20% e as práticas de sustentabilidade vão aumentar em 10%” ou ainda “produzir um protesto para a devolução de salários dentro de um museu vai diminuir o valor cultural das obras em 10%” pode parecer hoje uma aspiração despropositada ou algo naif, mas é para esse nível de compreensão que devemos aspirar, ainda que epistemologicamente ele se encontre mais próximo, dado que sem ele o planeamento urbano manterá os seus vieses face à cultura, ignorando o ponto fundacional que esta tem face aos restantes sistemas.
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Um exemplo paradigmático disto encontra-se na noção de city branding (Lucarelli & Berg, 2011): aquilo que tradicionalmente se “vende” é uma construção cultural de uma cidade, mobilizando uma certa cultura restrita em certos domínios (aspecto, tipo, modo, propriedade); mas as críticas a este tipo de políticas notam que a forma como elas se fazem ignora uma grande parte da formulação das cidades, denota uma compreensão de “autenticidade” (Freire, 2011; Lucarelli & Berg, 2011; North, 2014) – que hipotetizamos na maior parte dos casos ser sinónimo de cultura-territorial-“Nome do Local”-classe-alta – muito restrita. Incluir outros tipos de culturas (ou outras propriedades de indivíduos) nas políticas de city branding garantiria assim outro tipo de recursos disponíveis para “city branding”. Mas, de forma generalizada, tais problemáticas encontram-se dispersas pela arquitectura, em termos das questões de como orientar o planeamento e como considerar a importância que os indivíduos conferem aos espaços (Fainstein, 2016; Marcuse, 2016); estudar a interacção que os indivíduos têm com determinados objectos e a influência que a sua experiência corporal e social traz para isso (Appadurai, 1986; Low, 2016); ou na geografia humana em termos da interacção que os indivíduos têm com espaços comuns (Garnett, 2011; Ostrom, Burger, Field, Norgaard, & Policansky, 1999).
Esta concepção dos espaços urbanos como sistemas complexos traça uma história particular na geografia e aos domínios de modelação baseada em agentes, onde ela se assume como tendo tido uma importância particular. A ideia que perspassa em muitas destas interpretações é que os sistemas de organização das cidades – os padrões de formação e utilização dos solos e a forma como os indivíduos selecionam determinados padrões de localização sendo dos primeiros fenómenos a serem sujeitos a uma análise integrativa rigorosa (Aiken, Newton, Friedland, & Martinotti, 1987). Em anos subsequentes, a concepção de que as cidades, e os sistemas de cidades inclusive, constituem formas complexas que surgem dos comportamentos dos indivíduos, com determinadas lógicas de funcionamento que podem partir da própria incorporação cognitiva das cidades (Portugali, 2004, 2011), e que as teses da morfologia urbana podiam ser vindicadas por estas abordagens (Goh, Choi, Lee, & Kim, 2016), juntou-se a teorias sobre o “metabolismo urbano”, como o consumo energético, alimentício e de espaço bruto de uma cidade, bem como à noção da existência de novas economias
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urbanas (Lash & Urry, 2002; McNeil & White, 2000; Scott, 2014), e novas dinâmicas globais em termos de mobilidade e migração (Schiller & Çaglar, 2009) para completar uma figura que poderia tentativamente denominar-se como um paradigma de complexidade no estudos dos espaços urbanos.
A posição que cremos poder trazer os estudos culturais para dentro destes debates – diferentemente exposta como relacionalismo, emergentismo ou morfogénese – elucida que é necessário ver o que é que aparece da relação entre indivíduos que torna possível a emergência de fenómenos como a cultura. Tal discussão não nos pode levar longe demais, mas exige que a análise se foque em indivíduos – e, mais do que isso, temos de procurar entender os indivíduos como seres complexos, sobre os quais devemos presumir o mínimo possível, optando, em vez disso, por tomar a sua própria interpretação como definidora do significado que atribuem (um compromisso fenomenológico que traçámos em Almeida, 2018).
Aqui encontramos também um compromisso epistemológico ao qual voltaremos. Tais princípios de emergência não podem ser dados a priori; por essa razão defenderemos metodologica e analiticamente o uso de ferramentas de modelação e simulação como Agent-Based Modelling, no qual se procura, a partir de acções de agentes (que temos de definir) perceber comportamentos agregados, e defendemos igualmente o reconhecimento de que a emergência não implica, de forma nenhuma, uma redução (i.e não temos, só por defender condicionantes psicológicas para os comportamentos sociais, uma ciência psicologística).
Paralelamente, em termos dos campos empíricos em que tal abordagem opera dentro das ciências sociais, é também fácil de ver paralelismos micro-fundacionais: quando falamos de “teorias de médio alcance” em termos dos domínios sobre os quais predicam, é fácil de ver que teorias que descrevam as interacções de populações em países inteiros terão mais dificuldade em justificar a sua fundação, do que teorias que prediquem sobre conjuntos mais limitados de indivíduos. Por essa razão, tendo como guia e objectivo a formulação de teorias de médio alcance, os estudos urbanos parecem deparar-se com a sua própria relevância bastante cedo: estes permitem estudar conjuntos de indivíduos complexos, como estes interagem num contexto real, e a um nível ainda suficientemente simples para que seja possível falar de um território sem
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prejuízo de demasiados aspectos deixados fora. Essencialmente, parece-nos, pois, que ao falarmos de questões sociais, a fixação dos indivíduos no território apresenta-nos o nível meso que pode ajudar a mediar e a guiar os estudos sobre a emergência micro- fundacional de aspectos, ao apresentar-nos um contexto empírico rico para o estudo (Ilustração 2).
Ilustração 2 - Esquema sobre a relação de emergência de Disciplinas Sociais Empíricas
Fonte: Elaboração Própria
Impõe-se, portanto, que tentemos encontrar um conjunto de aspectos relevantes para a cultura de uma maneira geral, traçando uma conceptualização que possa ser mobilizada tanto para o caso concreto que nos move – o património – como para outros domínios dos estudos da cultura, e que permita alguma comparabilidade analítica, de forma a perceber como podemos pensar a emergência de comportamentos sociais a partir de aspectos individuais como as acções e as interpretações. Devemos muita da estrutura analítica que desenhamos em baixo ao trabalho de Jon Elster e do seu projecto e constitutividade da emergência (Elster, 1989), bem como à forma de
Micro
Meso
Macro
Macrossociologia Macroeconomia Estudos de Globalização Estudos Urbanos e Territoriais Psicologia Social/Cognitiva (Epi)Genética Comportamental Antropologia Filosófica Domínios micro de disciplinas sociais (economia, sociologia, antropologia)34
raciocínio da sociologia analítica: trata-se de começar abaixo das ciências sociais, no comportamento, a cognição e nos princípios que a psicologia, a biologia, a genética, a sociologia e a economia individualistas, e a antropologia filosófica conseguem imputar aos agentes; e depois de “construídas” as formas agregadas e complexas desses princípios, gerando grupos a partir de desejos de integração social (Tajfel, 1981) ou categorizações em termos de estruturas abstractas de necessidade de atribuição de sentido, partir dessas estruturas para processos de descrição e eventual explicação dos processos, assumindo a sua dinâmica, e aceitando a pluralidade de formas de descrição possíveis.
Tal não implica, como Bourdieu (1986) ou Archer (1988) criticam, admitir que apenas a significação existe, e que relações como as que Archer chama de “objectivas” não se desenvolvam entre indivíduos – mas diz, sim, que antes de qualquer objectividade estão processos de atribuição de significado – quer atribuição de significado a uma acção familiar, quer atribuição de significado a uma ida a um supermercado, ao dinheiro para produzir aquisições, ou aos objectos categorizados dentro de uma dada cultura nacional.
Uma nota importante é que para nós, tendo em conta a nossa preocupação emergentista, os sistemas são apenas estruturas analíticas, como Parsons definira. Mais ainda, ao considerarmos os indivíduos eles-mesmos, tomamos uma posição que requer acesso aos estados mentais dos indivíduos, tornando nesse sentido as suas acções dependentes e intimamente ligadas às intenções e interpretações (especialmente estas últimas).
Apesar de muitos Luhmannianos certamente verem esta inversão como um abandono do radicalismo Luhmanniano (Luhmann, 2012; Seidl, 2004), consegui-lo é, em grande medida, abrir a porta para a semiótica (Brier, 2008), bem como para a integração de perspectivas darwinistas (Richerson & Boyd, 1985), e permite ainda complexificarmos o nosso entendimento dos agentes humanos, operando uma potencial ligação entre diversas disciplinas que têm permanecido separadas: a economia, com o seu homo economicus, a sua racionalidade limitada, a sua teoria da localização, a arquitectura, com os seu modelos de circulação sintáctica e padrões de determinismo, a antropologia com a sua ênfase na formação imaginária da cultura, a
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psicologia social e os seus complexos entendimentos da cognição humana. Essa união disciplinar tenta assim operar a ambição interdisciplinar dos estudos urbanos, mostrando como esta pluralidade na realidade se conjuga de forma coesa numa concepção (incompleta e longe de exaustiva) da cultura.
Antes de prosseguirmos, valerá a pena brevemente descrever a nossa ontologia, que utilizaremos extensivamente no curso do resto do trabalho. Agente1 tem o sentido que
lhe atribuímos em Almeida2 (2018) – é um ser no mundo que estrutura interpretações
dos estados de coisas, na base das quais produz acções, estruturas temporalmente estendidas, com determinadas intenções, com um início definido que desencadeia um evento – uma unidade temporalmente definível segundo o qual o estado de coisas muda. Um sistema é uma articulação de acções e interpretações, com uma dinâmica específica, uma génese histórica e biológica, um território, e uma interacção contínua com outros sistemas, em vários níveis.
1 Remetemo-nos para a noção de agente, e não de actor, à luz dos pressupostos que apresentaremos em
seguida: apesar de considerarmos que as restrições à acção social, na forma de papéis e influências grupais, retiram formas de agência aos indivíduos, existe tanto uma margem de arbitrariedade como uma margem de individualidade que permite aos indivíduos executarem mesmo que mínimas alterações a um nível sistémico. Ter uma noção de actor parece-nos análogo a querer encontrar uma determinante puramente estrutural, na qual os ‘actores’ reproduzem e executam o comportamento, algo que seria integralmente contrário à ideia emergentista de uma eventual padronização estrutural decorrer das suas acções de forma integrada, e poder ser sujeita a alteração nessa base.
2 Artigo submetido no contexto desta dissertação à revista Cidades, Comunidades e Território, pendendo
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