Local Area Networks (LANs)
4.4 Ethernet LAN datalink layer protocols — LLC and MAC
Na pesquisa aqui proposta, a argumentação é compreendida como parte do funcionamento discursivo, pois “mesmo a fala que não ambiciona convencer, busca ainda exercer alguma influência, orientando modos de ver e de pensar”. (AMOSSY, 2011, p. 129). Partindo desse pressuposto, entende-se que mesmo o discurso que não possui a pretensão declarada de persuadir o interlocutor compreende uma dimensão argumentativa. Isso se deve ao fato de que
todo discurso supõe o ato de fazer funcionar a linguagem num quadro figurativo (eu- tu); está imerso na trama dos discursos que precedem e o cercam; produz, de bom ou
mau grado, uma imagem do locutor e influencia as representações ou as opiniões de um alocutário. (AMOSSY, 2018, p. 16).
Trazendo a citação para o caso em estudo, pode-se dizer que o quadro figurativo por trás do discurso de Cristiane Cardoso representa a instituição religiosa Universal do Reino de Deus, de onde ela se expressa, ocupando o lugar de fala de conselheira, com vistas ao público de fiéis mulheres. A força argumentativa de sua fala é atravessada, ainda, como se verá, por uma “trama de discursos” contraditórios presentes nos contextos histórico e imediato, como vimos nos capítulos 1 e 2: desde o discurso patriarcal, que precede e atravessa o universo bíblico, até o discurso da Teologia Feminista e também o discurso da Teologia da Prosperidade, que prega sucesso financeiro inclusive para as mulheres.
Todo discurso, nos dizeres de Amossy (2018), possui um sujeito que rege sua relação com o outro a fim de influenciá-lo de alguma maneira, é atravessado pela fala desse outro e, ainda, pelas ideias preconcebidas que circulam no contexto. Logo, todo discurso possui uma dimensão argumentativa, a qual aparece, também, como uma consequência do dialogismo inerente à enunciação. Conforme aponta Amossy, citando Bakhtin:
Toda enunciação, mesmo na forma imobilizada da escrita, é uma resposta a alguma coisa e é construída como tal. Não passa de um elo na cadeia dos atos de fala. Toda inscrição prolonga aquelas que a precederam; trava uma polêmica com elas; conta com as reações ativas da compreensão, antecipa-as etc. (BAKHTIN, 1977, p. 105 apud AMOSSY, 2011, p. 131).
Nessa perspectiva dialógica, a argumentação está “[...] no discurso, na escala de um continuum que vai do confronto explícito de teses à co-construção de uma resposta a uma dada questão e à expressão espontânea de um ponto de vista pessoal”. (AMOSSY, 2011, p. 131). Dessa maneira, fica claro o pertencimento da análise argumentativa à AD. Passa-se, então, a uma concepção mais ampla de “argumentação”, que é compreendida como
os meios verbais que uma instância de locução utiliza para agir sobre seus alocutários, tentando fazê-los aderir a uma tese, modificar ou reforçar as representações e as opiniões que ela lhes oferece, ou simplesmente orientar suas maneiras de ver, ou de suscitar um questionamento sobre um dado problema. (AMOSSY, 2018, p 47).
Tal definição reafirma a argumentatividade inerente a todos os discursos que emergem em situações concretas de uso. Por isso, de acordo com Amossy (2011, 2018), faz-se necessário diferenciar a “dimensão argumentativa” da “intenção argumentativa”. No primeiro caso, a dimensão argumentativa refere-se a discursos que apresentam um ponto de vista sem que haja a intenção clara (ou assumida) de persuadir o outro, mas possui a tendência comum a todo discurso de orientar os modos de ver, agir e sentir dos parceiros. Esses discursos possuem
estratégia de persuasão indireta e muitas vezes não admitida. Nesse caso, direcionam sutilmente o olhar do outro para fazê-lo perceber algum elemento do mundo de determinada maneira, como é o caso de uma descrição jornalística ou literária, letras de música, discursos epidíticos de toda ordem etc. É assim que uma piada, por exemplo, ou ainda uma novela televisiva podem modificar nossa visão das coisas ou reforçar estereótipos/preconceitos sociais, ainda que o objetivo principal seja “fazer rir” e, respectivamente, “entreter”, ou seja, situações em que os interlocutores não estão em estado de debate ou discussão conflitual de teses contraditórias (pelo contrário, partem já de um acordo prévio). Aqui estamos diante de dimensões retóricas do discurso que se instauram de forma desapercebida ou inconsciente – muitas vezes, em situações descontraídas ou solenes.
Nesse sentido, cabe abrir um parêntese para explicitar que compreendemos o discurso, nos termos de Orlandi (2005), como um processo de mediação com o real, consigo mesmo e com os outros, o que torna possíveis tanto a permanência e a continuidade de certas visões do mundo, quanto o deslocamento e a transformação do homem da realidade em que vive. Tal noção vai ao encontro do que afirma Amossy (2018): a argumentatividade é inerente ao discurso, o que faz, podemos acrescentar, de toda mediação uma mediação retórica, ainda que inconsciente. Além disso, cabe ressaltar, ainda, que o discurso deve ser compreendido como um “efeito de sentido” (ORLANDI, 2005), pois, devido ao fato de a linguagem não ser transparente, isto é, marcada pelo equívoco, os seus impactos podem ser múltiplos e variados, já que o processo de significação é construído mutuamente pelos sujeitos participantes do discurso, os quais são afetados pela ideologia e pelo inconsciente. Como se sabe, o signo, a palavra, o significante, não nos revelam fidedignamente as coisas do mundo por eles referidas, mas um significado sobre essas mesmas coisas, variável segundo a perspectiva cultural, ideológica e humana. Desse modo, o discurso passa a ser compreendido não como uma verdade, mas como um efeito possível de sentido inerentemente argumentativo, se unimos os princípios das duas autoras citadas, pois todos os discursos são perpassados por diferentes ideologias que podem influenciar e direcionar, ainda que sem uma intenção declarada, o olhar do outro, as suas ações e emoções sobre diferentes assuntos.
Já a intenção argumentativa se refere a discursos que se constituem de “uma empreitada de persuasão sustentada por uma intenção consciente que oferece estratégias programadas para esse objetivo”. (AMOSSY, 2018, p. 44). Nesse aspecto, o locutor escolhe uma ou mais modalidades argumentativas que lhe permitam um bom desempenho da estratégia de persuasão, como é o caso de discursos eleitorais e peças publicitárias, por exemplo. Entre essas dimensões,
podemos citar: i) a modalidade demonstrativa, na qual uma tese é apresentada a um auditório do qual se deseja obter adesão através do uso de provas e argumentos baseados no raciocínio lógico; ii) a modalidade negociada, em que os interlocutores possuem pontos de vista divergentes e se esforçam para solucionar o conflito, chegando a um consenso; e iii) a modalidade polêmica, que se caracteriza por um conflito impetuoso em total desacordo, de sorte que as duas instâncias tentam superar a convicção oponente ou de uma terceira que as ouve, atacando os argumentos contrários.
Em todas as situações, ratifica Amossy (2011), a argumentação é indissociável do funcionamento do discurso e deve, portanto, ser estudada no quadro da AD. Para isso, a autora retoma da retórica antiga a tríade aristotélica pathos, ethos e logos. O pathos pode ser compreendido como a construção discursiva da emoção que o locutor pretende provocar em seu auditório. O ethos diz respeito à construção da imagem de si, oriunda do discurso. O logos, por sua vez, refere-se ao próprio discurso, tanto em sua dimensão mais racional (contemplando formas como o entimema e o exemplo, a dedução e a indução) quanto no que tange à estrutura linguística propriamente dita, em sua multiplicidade estrutural. A propósito do logos como estrutura, Amossy (2011) destaca que todas essas dimensões se manifestam na espessura da língua, por meio dos seus recursos diversos, tais como:modalizadores, implícitos, elementos de referenciação, dêiticos, conectivos, marcadores de polifonia, ambiguidade, escolha lexical e estilística. No presente trabalho, analisaremos apenas as dimensões do ethos e do logos nos aconselhamentos de Cristiane Cardoso, as quais serão explicadas mais detidamente à frente.
É necessário destacar, ainda, a noção de “doxa”, ou “opinião comum”. Amossy (2018), citando Perelman (1977), afirma que o discurso argumentativo se constrói sobre pontos de acordo: é apoiando-se em um conjunto de lugares comuns que o orador desenvolve seu discurso para fazer com que seus interlocutores adotem as teses que ele apresenta. Em suma, o saber compartilhado e as representações sociais constituem, então, o fundamento de toda argumentação.
A análise da argumentação no discurso, alimentada pelas teorias retóricas, pragmáticas e lógicas, opta por uma abordagem linguageira, comunicacional, dialógica, genérica, figural e textual. Linguageira pois a argumentação se manifesta na espessura da língua; comunicacional já que o desenvolvimento do discurso não pode ser compreendido fora de uma relação de interlocução; dialógica na medida em que todo discurso é uma reação aos discursos anteriores, além da troca comunicativa que ocorre entre os parceiros de fala; genérica em razão da inscrição obrigatória dos discursos em um gênero do discurso que se relaciona com a sociedade que o
institucionaliza; figural uma vez que a argumentação recorre aos efeitos e às figuras de estilo; e textual porque a argumentação deve ser estudada no nível de sua construção textual.
Diante disso, é possível perceber que a AAD possibilita, então, uma análise que leve em conta tanto a materialidade discursiva quanto aquilo que está fora dela. Nessa perspectiva, cabe ressaltar o conceito de “condições de produção”, de Michel Pêcheux. Para ele, a concepção de “condições de produção” possui lugar de destaque, uma vez que se torna impossível conferir ao sujeito a elaboração de suas falas, já que o sujeito não pode ser considerado a origem do discurso. Isso porque, para Pêcheux, o sujeito é um efeito ideológico elementar, resultado da interpelação que recebe da ideologia na qual está inserido. Sendo assim, o desenvolvimento da produção do discurso é definido pelo autor como “o conjunto de mecanismos formais que produzem um discurso de tipo dado em ‘circunstâncias’ dadas”. (PÊCHEUX, 1997, p. 54). As “circunstâncias” de um discurso são suas condições de produção. Logo, o processo de produção do discurso é o conjunto de mecanismos formais que formam um discurso de um tipo dado em condições de produção dadas.
Isto é, as condições de produção do discurso combinam o jogo de imagens no qual o sujeito está inserido, as formações imaginárias a respeito de sua própria posição e da posição do outro e a situação concreta historicamente determinada. O pertencimento do sujeito a um espaço socioideológico o coloca em um campo de posições que lhe dá determinadas possibilidades de fala que podem variar de acordo com seu posicionamento em relação às formações ideológicas. Somadas a isso, a tramitação e a transição do sujeito por diferentes formações discursivas o colocam em um campo enunciativo daquilo que, na prática, pode ser dito. Dessa forma, as condições de produção envolvem o sujeito e suas contradições, que se impõem nos esquecimentos e em seu lugar social, que depende da ideologia, de sua posição em relação ao modo de produção e de sua posição na esfera específica em que o discurso é praticado. Por isso, foi preciso que desenvolvêssemos, nos capítulos anteriores, as condições de produção do discurso de Cristiane Cardoso. Neles, mesmo sem usar as terminologias mais técnicas da AD, buscamos contextualizar as formações imaginárias (sobre a religião, sobre a mulher, sobre os usos e costumes e sobre a Bíblia) em jogo na conjuntura socioideológica de Cristiane Cardoso. Já podemos adiantar, assim, que a sua fala se insere (e brota) em condições de produção permeadas por discursividades em conflito (Teologia Feminista x patriarcado, discurso conservador x discurso liberal, etc.) que, de certa forma, funcionam como elementos conjunturais estruturantes do seu texto, ainda que de forma não totalmente consciente.
Dito isso, antes de adentrarmos as análises propriamente ditas, é importante recuperar os conceitos de logos e ethos na AAD.