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Espinosa não admitia a separação entre ciência e filosofia, considerando que a física
43 Ressalto que não proponho analisar os fenômenos a respeito das remoções com base nas ideias originais desses autores, mas na leitura que a Psicologia Social – a partir de autores como Sílvia Lane, Bader Sawaia, Zulmira Bomfim, etc. – faz desses autores para a construção da categoria afetividade. Desse modo, não é meu intuito aprofundar teoricamente o desenvolvimento das teorias de Espinosa, Vigotski e Heller, mas localizar as contribuições indiretas dos autores para o estudo da afetividade na Psicologia Social.
tinha por base a metafísica. Considerado como racionalista, embora numa perspectiva diferente de Renée Descartes, Espinosa postulava que a razão – e não os experimentos dos empiristas – era capaz de nos mostrar a realidade suprema (SCRUTON, 2000; GLEIZER, 2005). A partir do método geométrico, de modo racional e objetivo, postulou que “[...] todas as verdades da razão ou são auto-evidentes ou são derivadas de verdades auto-evidentes, por meio das cadeias de argumentos dedutivos” (SCRUTON, 2000). Com o desenvolvimento de seu pensamento, Espinosa demonstrou como os afetos, outrora vistos como câncer da razão, faz parte do modo como os indivíduos pensam, julgam e agem no mundo, desenvolvendo, a partir disso, uma teoria de relações humanas ética com base na afetividade (GLEIZER, 2005).
Em sua obra Ética, Espinosa substitui a postura moralista pela do cientista natural, construindo uma ciência a partir da afetividade humana (GLEIZER, 2005). O filósofo concebe os afetos como aquilo que colore nossa existência, tendo suas causas e efeitos tão dignos de atenção que qualquer outra coisa natural. Gleizer (2005, p.10) afirma que a concepção de Espinosa nos traz que “[...] só o conhecimento verdadeiro das causas dos mecanismos afetivos, aos quais estamos submetidos, permite elaborar uma técnica realista para moderar as paixões e reduzir os efeitos naturalmente obsessivos, ambivalentes e alienantes”.
Para desenvolver seus pressupostos, Espinosa parte de que se deve conhecer as coisas verdadeiramente a partir de suas causas. Neste ponto, vemos a expressão de seu método sintético, em “[...] que progride do conhecimento da causa em direção ao conhecimento do efeito, é o verdadeiro método de invenção” (GLEIZER, 2005, p.15), demarcando uma diferenciação com o método analítico cartesiano. Com essa premissa, busca-se, então, compreender a causa primeira de todas as coisas, cuja compreensão nos levará a entender por que as coisas existem e como se compõe o mundo (SCRUTON, 2000). Ou seja, apreende-se que “[...] a realidade se divide entre as coisas que dependem de outras coisas, ou são explicadas por estas, e aquelas que não dependem de nada senão de si mesmas” (SCRUTON, 2000, p.12). Para Espinosa, o universo não teria uma explicação, a não ser que houvesse uma coisa cuja natureza fosse simplesmente existir, como causa de si mesma – tendo sua explicação encontrada em si mesma. Essa coisa seria Deus44, concebido como substância. Por substância,
Espinosa compreende aquilo “[...] que existe em si mesmo e que por si mesmo é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não exige o conceito de outra coisa do qual deva ser formado”
44 Scruton (2000) aponta que grande parte da dificuldade de compreender a visão de mundo de Espinosa decorre da não compreensão das primeiras oito definições da primeira parte de Ética, referente a constituição de Deus. Deus em Espinosa não é o mesmo Deus transcendente da tradição judaico-cristã, mas um Deus imanente (GLEIZER, 2005).
(ESPINOSA, 2010, p.13). Deus não é transcendente, mas “[..] causa imanente, e não transitiva, de todas as coisas” (ESPINOSA, 2010, p.43), de modo que Deus e Natureza são uma única coisa.
Desse Deus, enquanto Natureza Naturante de todas as coisas, se extrai todas as outras coisas que existe no mundo, como Natureza Naturada45. Com isso, tem-se que Deus,
enquanto a primeira coisa que existiu e de que coisa alguma depende, é livre, ou seja, “[...] existe exclusivamente pela necessidade de sua natureza e que por si só é determinada a agir”, em quanto a coisas que existe em Deus, e dele depende, “[...] é determinada por outra a existir e a operar de maneira definida e determinada” (ESPINOSA, 2010, p.13).
Enxergamos, logo no início de seu pensamento, que não há separação entre corpo e ideia46, pois tudo que no mundo existe é como parte da mesma substância. Assim, a matéria
física e a ideia metafísica são manifestações de uma única substância, constituída por diversos atributos47. Dentre esses atributos, encontramos o pensamento, enquanto aquilo que chamamos
de mente ou ideia; e a extensão, que denominamos de corpo, originados dos modos, que são “[...] as afecções de uma substância, ou seja, aquilo que existe em outra coisa, por meio da qual é também concebido” (ESPINOSA, 2010, p.13). Com efeito, reafirmamos que corpo e mente são manifestação diferentes de uma mesma coisa.
Para Espinosa (2010), as coisas que estão sempre em movimento, seguindo a sua força, a sua potência de ação. Essas coisas transitam continuamente produzindo existência, buscando a sua expansão. A partir do encontro dos corpos, ocorrem as afecções que os transformam, podendo esses corpos serem afetados de muitas maneiras48 (ESPINOSA, 2010).
Nesse processo, a mente percebe tudo o que acontece no corpo, considerando presentes, ainda que não estejam, os corpos pelos quais o homem já foi afetado uma vez. Dá-se, então, que “[...] a mente humana percebe não apenas as afecções do corpo, mas também as ideias dessas afecções” (ESPINOSA, 2010, p.115), não havendo vontade absoluta ou livre na mente, mas desejos determinados por uma causa infinitamente determinada.
45 Espinosa (2010, p.41) compreende por Natureza Naturante a existência da própria substância, que é causa de si mesma e só dela mesma depende, ou seja “o que existe em si e é concebido por si, ou, por outras palavras, aqueles atributos da substância que exprimem uma essência eterna e infinita, isto é, Deus, considerado como causa livre”. Já Natureza Naturada é compreendida pelo filósofo como “tudo aquilo que resulta da necessidade da natureza de Deus, ou por outras palavras, de qualquer dos atributos de Deus, [...] coisas que existem em Deus e não poderiam existir nem ser concebidos sem Deus” (ESPINOSA, 2010, P.42).
46 Espinosa (2010, p.79) concebe o corpo como uma expressão extensa do modo, definida e determinada de Deus. Já as ideias são um conceito da mente formulado porque a “mente é uma coisa pensante”.
47 “Por atributo compreendo aquilo que, de uma substância, o intelecto percebe como constituindo a sua essência” (ESPINOSA, 2010, p.13).
48 Conforme Espinosa (2010, p.107) “[...] o corpo humano, com efeito, é afetado, de muitas maneiras, pelos corpos exteriores, e está arranjado de modo tal que afeta os corpos exteriores de muitas maneiras”.
Essas afecções nos corpos levam à origem dos afetos, pelos quais a “[...] potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas
afecções” (ESPINOSA, 2010, p.163). Quando compreendemos como causa adequada o feito percebido em nós nesse encontro, compreendemo-lo indistintamente pela própria causa; por outro lado, quando esse efeito não é compreendido por ele mesmo, há uma causa inadequada ou parcial49. Nesse sentido,
Digo que agimos quando, em nós ou fora de nós, sucede algo de que somos a causa adequada, isto é, quando de nossa natureza se segue, em nós ou fora de nós, algo que pode ser compreendido clara e distintamente por ela só. Digo, ao contrário, que padecemos quando, em nós, sucede algo, ou quando de nossa natureza se segue algo de que não somos causa senão parcial. (ESPINOSA, 2010, p.163).
Desse modo, vemos que nossa mente, conforme o corpo é afetado, tanto pode agir como pode padecer50. Quando não agimos com base em nossa própria razão e consciência, mas
a partir da compreensão de ideias exteriores, imaginativas, confusas e distorcidas, somos, então, causa inadequada da ação, o que diminui nossa potência de ação, levando-nos à passividade. Por outro lado, quando nos guiamos por ideias a partir de uma compreensão clara e distinta das afecções, agimos de modo mais autônomo e com mais controle sobre a ação, assim, nossa potência de ação é aumentada, tornando-nos mais livres e ativos (ESPINOSA, 2010). É importante destacar que a mente, quer com ideias claras e distintas ou quer com ideias, confusas, continuará a “[...] esforça-se por perseverar em seu ser por uma duração indefinida, e está consciente desse seu esforço” (ESPINOSA, 2010, p.173).
Os afetos tanto podem aumentar nossa potência para ação como também a refrear. Com base nisso, o filósofo concebe três tipos elementares, ou primários, de afetos dos quais os demais derivam, a saber, desejo, alegria e tristeza. Espinosa (2010, p.173) firma que “[...] cada coisa esforça-se, tanto quanto está em si, por perseverar em seu ser”, compreendo que esse esforço, nosso conatus, somente pode ser destruído por uma causa exterior. Há formas distintas de compreender esse esforço: quando está relacionado apenas à mente, denominamos de
vontade; quando se refere tanto à mente quanto ao corpo, é chamado de apetite. Já o “[...] desejo é o apetite ao lado da consciência desse fato, configurando como a “[...] verdadeira essência do homem” (SCRUTON, 2000 p.36). Scruton (2000) aponta que, quanto mais conatus uma coisa
49 “Chamo de causa adequada aquela cujo efeito pode ser percebido clara e distintamente por ela mesma. Chamo de causa inadequada ou parcial, por outro lado, aquela cujo efeito não pode ser compreendido por ela só” (ESPINOSA, 2010, p.163).
50 “A nossa mente, algumas vezes, age; outras. na verdade, padece. Mais especificamente, à medida que tem ideias adequadas, ela necessariamente age; à medida que tem ideias inadequadas. Ela necessariamente padece”. (ESPINOSA, 2010, p.165).
tem, tanto mais ela é autodependente, tanto mais ela é “em si” mesma. Quanto aos afetos de alegria e tristeza
Vemos, assim, que a mente pode padecer grandes mudanças, passando ora a uma perfeição maior, ora a uma menor, paixões essas que nos explicam os afetos da alegria e da tristeza. Assim, por alegria compreenderei, daqui por diante, uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição maior. Por tristeza, em troca, compreenderei uma paixão pela qual a mente passa a uma perfeição menor (ESPINOSA, 2010, p.177). Desse modo, compreendemos a alegria como tudo aquilo que aumenta a nossa potência de ação, que nos mobiliza para agirmos mais autônomos. Já a tristeza nos faz padecer, diminuindo nossa potência de ação, levando-nos à passividade. Cabe destacar que os afetos não são concebidos de modo moralizantes, dados como “bons” ou “maus” em si mesmos, mas a partir da forma como o indivíduo o percebe como útil a si. Como nos adverte Espinosa
Quanto ao bem e ao mal, também não designam nada de positivo a respeito das coisas, consideradas em si mesmas, e nada mais são do que modos do pensar ou de noções, que formamos por compararmos as coisas entre si. Com efeito, uma única e mesma coisa pode ser boa e má ao mesmo tempo e ainda indiferente.
1. Por bem compreenderei aquilo que sabemos, com certeza, nos ser útil.
2. Por mal compreenderei, por sua vez, aquilo que sabemos, com certeza, nos impedir que desfrutemos de algum bem. (ESPINOSA, 2010, p.267)
Com base nisso, temos que as pessoas podem ser afetadas de muitas formas possíveis no contato uns com os outros, assim como as coisas que no mundo existem, por suas relações com os afetos humanos, também podem afetar no encontro com as pessoas. Nisso, temos que amamos as causas daquilo que nos alegra, que nos é útil, portanto bem; enquanto odiamos as causas daquilo que nos entristece, que nos impede de algum bem (ESPINOSA, 2010). Com base nisso, passamos a compreender como adequadas ou inadequadas as causas no nosso modo de pensar e agir.
Espinosa (2010) nos diz que “[...] entre as coisas singulares, nada que seja mais útil ao homem do que um homem”, sendo a conquista da felicidade o bem que se faz ao outro. Essa felicidade só é alcançada a partir do conhecimento verdadeiro das coisas, quando, por meio da razão, somos conscientes das causas de nossas alegrias e de nossas tristezas, conscientes daquilo que diminui e aquilo que aumenta nossa potência de ação. Somente o conhecimento racional pode nos levar a passar por tal caminho, uma vez que o avanço desse conhecimento substitui as nossas percepções distorcidas e inadequadas por ideias adequadas (ESPINOSA, 2010), até que, “[...] no limite, tudo o que pensarmos provirá de uma ideia adequada da essência de Deus” (SCRUTON, 2000, p.26).
se o conhecimento intelectual pode interagir com as paixões, moderando-as e transformando nossa vida afetiva, é exatamente porque ele tem a mesma raiz que as paixões, a saber, o desejo” (GLEIZER, 2005, p. 51). Vemos, então, um amor intelectual por meio do qual compreendemos as coisas como necessárias por meio das ideias adequadas, aumentando nosso poder sobre elas de modo a sermos mais livres51 – “[...] o homem livre é consciente das necessidades que o
compelem” (SCRUTON, 2000, p.46). Desse modo, a afetividade humana nos dá a matéria- prima para a compreensão de uma vida ética, desvelando o que nos escraviza e o que nos liberta (GEIZER, 2005).
Sawaia (2009) afirma que Espinosa dá três contribuições importantes à Psicologia, a saber, I) a integração indissociável entre a mente e o corpo (perspectiva monista); II) a junção indissociável entre a razão e a emoção; e III) a compreensão inseparável entre afeto e ética. Tais contribuição são, principalmente, apreendidas por Lev Vigotski, com as quais estrutura sua Psicologia Histórico-Cultural.