A criação de gado sempre foi a principal atividade econômica em todo o Vão do Paranã, desde o século XVIII. A região apresenta vocação natural para esse tipo de atividade e faz parte do contexto histórico da expansão da pecuária no Brasil. É a atividade, portanto, que tem forte repercussão sob o ponto de vista ambiental, cultural, social, político e econômico.
A criação de bovinos no contexto do grupo social em estudo possui significação distinta da pecuária típica das grandes propriedades voltadas à exportação. O gado é criado em pequena escala e é visto localmente como “poupança”, seja para auxílio em emergências como também para complementar a renda de um período mais escasso ou para comemorar alguma data festiva, com o tradicional churrasquinho. Um dos depoimentos mostra claramente essa relação mantida pelos pequenos agricultores com o gado:
O trem mais abençoado que Deus deixou foi o gado. Porque o gado é o seguinte: cria ele, aí pra uma hora de precisão, adoeceu, vende uma dessas [vacas] aí o dinheiro é na hora, né. O dinheiro na hora aqui pra nós é o gado. Se tem precisão de quinhentos reais, mil contos, tendo ele pra vender, já vai saindo, vai vendendo e pegando os cobre. Compra na hora, paga na hora [...] quem não tem pra vender, meu amigo, pra cuidar da vida é difícil, não tem dinheiro. Se você tem uma terra, não acha quem compra, se você tem uma casa pra vender, não acha quem compra na hora, se você tem um lote pra vender, não acha quem compra na hora. E o gado não, se eu resolver vender ele agorinha, hoje mesmo, já põe dinheiro no bolso. Se o caboclo boiadeiro não tiver dinheiro pra me dar na hora, aposta mais emprestado no banco, toma emprestado de um amigo, vem o dinheiro do gado e compra. Por isso que esse povo pobre daqui é incutido de criar duas vaquinha. Todo mundo aqui cria umas duas vaca, é pouquinha, mas cria. O dinheiro que tem guardado é esse ó (Sr. Nelson).
A criação de animais de pequeno porte, principalmente suínos e aves, mas também incluindo ovinos e caprinos, parece ter uma ocorrência mais generalizada entre os vários segmentos da população tradicional na região. Entre esses se destacam a criação de suínos, antigamente muito mais expressiva, já que o toucinho era apreciado como óleo para temperar a comida.
buriti, trazia porco pra cá. Quando você pega o porco aqui, tá gordo no ponto de matar, comendo só o buriti dentro desses brejo aí [...] solto. Eles não fugia não, às vezes nós vinha aqui trazer ração pra eles né, pra eles não mal acostumar, tinha a casinha lá, então nós trazia a ração, jogava pra eles, tinha o chiqueiro, ficava lá, dava bastante comida e tornava a sair por aí, passava o dia todinho aqui dentro desse buritizal (Du) (grifos meus). Embora a pecuária – principalmente de gado, mas também de porco, sempre tenha sido a principal atividade econômica na região, surpreendentemente o consumo de carne era raro entre a maioria da população sertaneja de Terra Ronca: “O gado aqui era pouca gente que criava, não era todo mundo que podia estar tomando leite não, era alguns”. Antigamente a alimentação consistia basicamente dos produtos plantados na roça: arroz, feijão, mandioca, milho e como fonte principal de proteína animal, a caça:
Pessoal quase não comia carne, pessoal comia era mais carne de caça, veado. Povo vivia nos galhos dos pau esperando, os pobre, né. O cara matava uma ou duas vacas por ano, quem tinha condições [...] aí matava, secava as carnes deles lá e guardava [...] alguns que tinham condições matava um porquinho no ano, dois porquinho só [...] tinha muita caça também, muito tatu, veado (Sr. Gustavo).
Provavelmente, os grandes fazendeiros criadores de gado, excluíam a carne de boi e de outros produtos derivados animal da dieta dos vaqueiros e agregados, ainda que se alimentassem de carne com mais freqüência. Darcy Ribeiro (2006), ao caracterizar o sistema de pastoreio no Centro-Oeste, aponta a ocorrência dessa situação: “Nesse sistema pastoril mais avançado, torna-se mais vantajoso para os criadores excluir a carne vacum da dieta dos vaqueiros. O homem, por isso, não cresce nem ganha vigor como o gado, permanecendo seco e mirrado como nas áreas mais pobres” (RIBEIRO, Darcy, 2006, p. 318). Talvez venha daí o prestígio, sob o ponto de vista sociocultural, que a posse de algumas cabeças de gado tem para a maioria dos pequenos agricultores.
Boa parte dos participantes da pesquisa já foram vaqueiros um dia, trabalhando na lida com o gado - próprio e/ou com o das fazendas da região - seja como parceiros, agregados e nos últimos anos como assalariados. O trabalho com gado “na solta”, como se viu, exigia grandes esforços, já que o vaqueiro tinha que encontrar as reses soltas pelos sertões dos gerais e da caatinga:
Era nesse mundo aqui Mauro, você montava a cavalo de manhã cedo e tocava no rumo, apanhar uma res, aí campeava hoje, amanhã e depois, tinha vez que ia a semana pra apanhar um gado sozinho, no meio do mundo [...] ia companheiro, ia dois, outra hora ia três, conforme for a carga né Mauro [...] suava o dia todo. Lá pro mato passava uma fome brava,
em pelo eu já campeei o dia todinho (Sr. Raimundo) (grifo meu).
Interessante notar que o sertanejo quando ia campear ou viajar provavelmente utilizava-se dos recursos que a natureza disponibilizava para matar sua fome, seja por meio da caça ou então na coleta dos frutos nativos do Cerrado. Isso indica que não havia descontinuidades entre as atividades tradicionais: campear, caçar e colher os vários frutos oferecidos pela natureza podia ser tudo uma coisa só. Além disso, como são atividades que exigiam mobilidade constante do grupo, o sertanejo tinha que ter um conhecimento profundo do território, do comportamento e das características das plantas e dos bichos. Essa constatação será importante mais pra frente quando discutirmos a relação do sertanejo de Terra Ronca com o buriti.