Embora se tratando de um estudo em Comunicação será notória a existência de uma interdisciplinaridade com a Sociologia, neste trabalho. O conceito de classe surge- nos como uma extensão numa dinâmica inseparável à moda. Como conceito “classe” surge no uso quotidiano no início do século XIX e constitui uma variável importante nos estudos sociológicos, principalmente nos estudos sobre o trabalho. Encaramos a definição de classe como complexa, pela sua abrangência alargada e por ser mutável. Por outro lado, “classe é um dos mais usados e menos classificados conceitos na Sociologia” (Ribeiro, 2010, p.95). A autora assinala que os estudos que mais destaque conferiram a este conceito tenham partido da obra de Marx e os que trataram sobre status seguiram a orientação de Weber (1979). Contudo, existem comparações sobre o conceito de classe entre os trabalhos que tratam sobre a teoria marxista e os que falam das teorias feministas, que alegam haver “maior peso” no conceito de classe sugerido pelas teorias de inspirações feministas do que o da teoria marxista.
Como estratégia optamos pela análise crítica de Berger (2000) e Simmel [1971] (2008), para falarmos sobre o uso e o sentido problemático do conceito de classe, na moda. Partimos da concepção funcionalista em que, tal como diz o nome, tudo “funciona”, e por esta concepção “teorizar a não-existência de fronteiras entre classes” (Waters, cit in Ribeiro 2010, p.96) – estudam-se as relações, a mobilidade, e a acção, assentes na classe Ribeiro (2010), sem no entanto deixarmos de reconhecer a origem do conceito, em Marx.
Nas sociedades modernas onde se privilegia o look feminino (Cunha Silvestre, 2011), a moda tornou-se um símbolo que exprime os estratos sociais, diferenças de classe ou posições de poder, o que faz com que as revistas femininas sejam, cada vez mais, um produto social quase indispensável para a mulher que vive da moda. É aqui que se estabelece a extensão entre os conceitos classe e moda. Ora a que estrato social ou classe pertencerão as mulheres angolanas representadas nas revistas portuguesas?
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Como modelos profissionais, “o corpo seria a primeira fonte de preocupação (…) elas são muito auto conscientes do seu desenvolvimento e facilmente percebem as diferenças (…) sobretudo a nível de características físicas e não tanto sociais ou intelectuais” (Cunha Silvestre, 2011, p.194).
A moda faz parte de um dos núcleos fundamentais do pensamento de George Simmel, situando-se na crítica da modernidade, “época assinalada pela progressiva e dramática libertação do indivíduo de todas as dependências exclusivas se pessoais, que caracterizavam os tempos pré-modernos” (Morão, 2008, p.9). Ao estabelecer a relação entre a moda do vestuário e a estratificação social, Simmel [1971] (2008) assenta a sua argumentação sobre as funcionalidades da moda em dois parâmetros, nomeadamente como agente de distinção individual e como agrupadora de preferências de classes. Tal como refere o autor “as modas são sempre modas de classe e diferem entre as classes, porque as modas das classes superiores se destingem das da inferior e são abandonadas no instante em que esta última delas se começa a apropriar” (Simmel, 2008, p.24). É por isso que o autor afirma que a moda é nada mais do que “uma forma particular entre muitas formas de vida, graças à qual a tendência para a igualização social se une à tendência para a diferença e a diversidade individuais num agir unitário” (Idem). É a partir deste fenómeno que se formam os grupos sociais e respectivas classes que vão se diferenciando entre si, segregando-se e excluindo-se reciprocamente (Ribeiro, 2010). Além disso, constatamos que um dos maiores criadores destes públicos ou classes é o lugar onde se apresenta a moda: por um lado, o público frequentador assíduo dos desfiles de moda (classes superiores/lugares sociais de elite) e, por outro lado, o público consumidor, digamos, de loja (classe inferiores/lugares socias do ‘povo’). Fica clara a ligação existente entre os conceitos classe e moda. Podemos, aliás, também afirmar que tanto as classes superiores quanto as inferiores vestem a mesma moda; tendo em conta que neste processo existe o momento em que as classes inferiores ficam a olhar para “cima”, a espera que a moda “desça” (Simmel, 1971, 2008) da classe superior.
De uma maneira dominante, a moda é definida como um fenómeno inesgotável, fonte de novidades e estilos de vida, que impõe comportamentos, tendências e estimula desejos nas sociedades modernas. Enquanto vestuário, sempre existiu, com finalidades de cobrir o corpo da nudez, das temperaturas nas estações do ano e para o adorno (Feghali e Dwyer, 2001). Na perspectiva de Simmel [1971] (2008) a moda é um mero
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produto de satisfação de necessidades sociais, por mais que quem a crie represente uma necessidade individual (Simmel, 2008, p.26). Algumas concepções conferem ainda que este fenómeno deixou de ser apenas sinónimo de estilo e passou a ser um fenómeno social de grande importância económica (Feghali e Dwyer, 2001, p.6).
De um modo geral, podemos afirmar que as modas são importadas do exterior com particular estima, e é talvez por isso que elas são altamente mobilizadoras nas esferas interiores, sendo este o lugar onde elas são muito mais apreciadas e rapidamente adoptadas. A propósito da origem da moda, Simmel [1971] (2008) fala da origem exótica da moda, e refere que esta parece “favorecer com especial intensidade a fusão dos círculos em que ela se aplica e, justamente por vir de fora suscita aquela forma particular e significativa de socialização que se inicia através da comum referência a um ponto situado no exterior” (Simmel, 2008, p.28). O autor fala da existência de condicionalismos que fazem com que esta aparência individual se torne universal. Refere-se a duas tendências sociais que se reúnem para a formação da moda, por um lado, “a necessidade de união e, por outro lado, a necessidade de separação que, na perspectiva do autor, na ausência de uma das duas tendências a moda “não chegará a constituir-se, acabará o seu reino” (Simmel, 2008, p.29). Segundo o autor, é por esta razão que as classes inferiores têm muito poucas e raras modas específicas e as modas dos povos primitivos são, por isso, também muito mais estáveis do que as nossas (Idem), em virtude da sua estrutura social, caracterizada por assimetrias de poder e de estratos superiores e inferiores (Bourdieu, 1979) e em virtude do sentido e estilo de comportamento caracterizados por assimetrias de classe.