Um dos fatores que fizeram com que a ciência fosse tomada como o campo que “organiza” a vida social, foi a construção do seu ideário em contraponto à ideia de senso comum. A noção de senso comum foi desenvolvida a partir do entendimento de que um conhecimento seria tão mais respeitado se ele trouxesse no seu arcabouço algo que não se misturasse com o conhecimento comum, das pessoas comuns. E o fato de pensarmos que
existem conhecimentos e pessoas que estão acima da média, já faz a ideia parecer contraproducente e possuidora de um forte cunho político-ideológico.
Ao responder o que é o senso comum, Alves (2015, p.13) ensina que a expressão foi criada a partir de uma posição de superioridade social “como uma forma de se diferenciarem de outras que, segundo seu critério, são intelectualmente inferiores. Quando um cientista se refere ao senso comum, ele está, obviamente, pensando nas pessoas que não passaram por um treinamento científico”.
Sendo assim, o discurso de autoridade da ciência só se sustenta por conta da construção ideológica do senso comum. Caso entendêssemos a ciência como apenas o desenvolvimento, refinamento através de treinamento de conhecimentos que já estão postos em várias áreas do conhecimento popular, esse poder do discurso científico seria amenizado.
Como exemplificado no capítulo de análise dos dados coletados, temos demonstrado que a ciência também se desenvolve apoiando-se de forma frequente nos conhecimentos não científicos e os traz para seu âmbito com nova roupagem a fim de dar-lhes legitimidade e usufruir de sua tradição. Exemplo disso são os conhecimentos médicos em torno de áreas como a acupuntura, aromaterapia, homeopatia, fitoterapia, hipnose etc.
De forma que, delineando bem a área de concentração de cada profissão, é possível que todas tenham sua sobrevivência garantida através do loteamento do mercado econômico financeiro. Trazendo como consequência o fato de que nenhuma área seja potencialmente detentora de um conhecimento global, mas que detenha apenas parte do necessário para produzir algum tipo de bem de consumo. A respeito desse fato, afirma Alves:
Imagine as várias divisões da ciência – física, química, biologia, psicologia, sociologia – como técnicas especializadas. No início pensava-se que tais especializações produziriam, miraculosamente, uma sinfonia. Isso não ocorreu. O que ocorre, frequentemente, é que cada músico é surdo para o que os outros estão tocando. Físicos não entendem os sociólogos, que não sabem traduzir as afirmações dos biólogos, que por sua vez, não compreendem a linguagem da economia. E assim por diante (ALVES, 2015, p. 11).
Desse ponto de vista, a especialização exagerada pode provocar distúrbios no fazer científico. Nesse sentido, a própria ciência vai, aos poucos, se tornando ignorante de suas próprias práticas e afastando-se do paradigma que a desenhou como repositório de toda a experiência humana.
Contudo, há, de fato, um distanciamento exacerbado entre aquilo a que Snow (1959) chamou de duas culturas. O autor refere-se ao afastamento entre a cultura humanística e a
cultura científica. Segundo o autor, “parece, então, que não há lugar algum onde as culturas se encontrem” (1959, p.24).
Por isso, são muitas e diversas as razões que levaram ao desenvolvimento de duas culturas distintas. Essas razões passam invariavelmente por questões históricas e outras pela dinâmica interna desses sistemas de pensamento. A dinâmica particular da ciência é operada em torno de abstrações e uma simbologia própria que afasta a cultura humanística ou da experiência comum dos cidadãos.
Segundo Sánchez-Mora (2003, p. 14), “esse simbolismo, mesmo ajudando os cientistas a se exprimirem com maior clareza e concisão, tem a desvantagem de criar uma série de linguagens particulares, ou dialetos, que afastam a ciência do homem comum”. Contudo, a especialização da linguagem da ciência não difere muito de outras áreas do conhecimento humano, a exemplo da literatura, da música, entre outras. O que temos, de fato, é a falta de uma forma geral de comunicação que supra as especialidades específicas de cada área.
Temos, na verdade, uma grande diferença de linguagem nas áreas científicas, entre elas e com outras áreas de conhecimento e, principalmente, a cultura geral. Contudo, há uma tentativa, por parte das redes de divulgação da ciência de reforçar esse estereótipo da linguagem inacessível a fim de que as revistas de divulgação sejam o principal canal de difusão das “descobertas” científicas, reforçando a especialização da ciência, reforça-se o poder social das redes editoriais com o público cativo.
O público também não é homogêneo. Os leitores que são tomados pelas revistas como público leigo são leitores ratificados para leitura de diversas áreas, inclusive, científicas. Alguém que não conheça a linguagem da biologia pode, por sua vez, estar ratificado para discutir a engenharia civil ou a economia. De forma que o estabelecimento de um conceito que cristaliza o público da divulgação científica como um público leigo, curioso por entender “a ciência” (como vimos que a ciência não é uma), é um conceito vazio que não dialoga com a realidade que temos hoje.
Para Snow (1959), alguém que não leu William Shakespeare é tão inculto quanto aquele que ignora a segunda lei da termodinâmica. Por isso, e antes de mais nada, é preciso acabar com a ideia de que existem pessoas (cientistas) que pensam melhor do que outras. Entre aquilo que chamamos de público, não há uma única categoria de pessoas, mas uma variedade de saberes e de conhecimentos técnicos. Para se falar em público leigo, precisamos delimitar a área de conhecimento.
Para Alves (2015, p.12), “a ciência não é um órgão novo de conhecimento. Ela é a hipertrofia de capacidades que todos tem. Isso pode ser bom, mas pode ser muito perigoso”, já que temos uma tendência, nesse sentido, de conhecer cada vez mais de cada vez menos. Para o autor, o aprendizado da ciência é um processo contínuo de desenvolvimento dos conhecimentos do senso comum.
Entre a ciência e o senso comum há tão somente um continuum de especialização, refinamento de uma capacidade que possui o ser humano em sua experiência cultural. “Tome essa pessoa comum e hipertrofie um de seus órgãos, atrofiando os outros. Olhos enormes, nariz e ouvidos diminuídos. A ciência é uma metamorfose do senso comum” (ALVES, 2015, p. 15). Para o autor, a ciência não sobrevive sem o senso comum.
Há no campo da filosofia da ciência um entendimento cada vez maior de que não somente é possível que os cidadãos fiscalizem e participem de decisões de cunho científico que impactam toda a sociedade, como essa atitude de “controle externo” é necessária. Não se trata de apenas controlar, mas de trazer o campo científico para perto da sociedade que o financia.
O conceito de Accountability (CORBARI, 2004), diz respeito ao controle social que é necessário nos dias atuais. O estado e as instituições em geral que trabalham para o em coletivo e com recursos públicos devem estar organizados no sentido de prestar informações tem com agilidade e presteza, a fim de que o público possa acompanhar suas ações. O processo de construção da cidadania e da própria democracia exige essa atitude dos gestores na atualidade.
Para o autor, “o conceito de informação vai se transformando de publicidade à transparência na medida em que a sociedade não se satisfaz apenas com a informação dos episódios ocorridos na gestão pública, mas quer que lhe conceda as razões de tais acontecimentos e que se justifique o relacionamento destes” (CORBARI, 2004, p.4). Nesse sentido dar transparência ao processo de comunicação social, pressupõe dar as condições de acesso a essas informações.