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G ESTION DES COURS D ’ EAU U

Dans le document CONTRAT de RIVIERE du SEGRE en CERDAGNE (Page 35-0)

IV. FONCTIONNEMENT MORPHO-ECOLOGIQUE ET GESTION DES

IV.3. G ESTION DES COURS D ’ EAU U

A crônica é emblemática e o seu intuito parece sinalizar a ressignificação dos valores para a condição feminina na vida social. mulher e para o registro literário da configuração de um novo perfil de mulher. Configura ‑se, nas referidas páginas, uma mulher mais consciente e menos dependente dos ditames sociais e do um

status quo do “estado civil”.

Na crônica selecionada, por exemplo, Maria Archer empresta ‑nos o seu olhar para fazer observar, no âmbito da expressão literária, as gradativas mudanças que se verificam no comportamento da mulher divorciada que, premida pelas exigências que a vida social no meio urbano impõe, no que tange ao atendimento das exigências sociais do sistema capitalista.

A narrativa intitulada “Faça mal quem o fizer quem o paga é a mulher”, à partida verifica ‑se a elaboração estilística da linguagem, já que em sua estrutura comuni‑ cativa, nota ‑se que a esta pode ser separada em versos: “Faça o mal quem o fizer/ Quem o paga é a mulher”, sua estrutura constitui ‑se de uma de redondilha maior, com rima rica, pois a incidência da rima dá ‑se em palavras de diferentes classes gramaticais. A coincidência sonora no final reforça a facilidade de memorização. O conflito ficcional gira em torno da personagem Anica, que decidiu abdicar de sua estabilidade econômica e deixar o marido que considerava opressor e acompanhar o amante, torna ‑se “mal vista” aos olhos da sociedade. A protagonista, nesta narrativa, paradoxalmente, lança ‑se ao impulso de suas escolhas emocionais. Anica – um nome próprio no grau diminutivo já é sintomático – será guiada

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pelos impulsos passionais, ao invés da razão, não se importando com o futuro. A representação da controvertida personagem foi contemplada na ficção de Maria Archer e deriva para aquilo que Anatol Rosenfeld (2005) afirma:

A ficção é um lugar ontológico privilegiado: lugar em que o homem pode viver e contemplar, através de personagens variadas, a plenitude da sua condição, e em que se torna transparente a si mesmo: lugar em que, transformando ‑se imagina‑ riamente no outro, vivendo outros papéis e destacando ‑se de si mesmo, verifica, realiza e vive sua condição fundamental de ser autoconsciente e livre, capaz de desdobrar ‑se, distanciar ‑se de si mesmo e de objetivar a sua própria situação. (Rosenfeld, 2005, p. 17)

É neste sentido, pois, que, em seu percurso, ao longo da breve narrativa, Anica enquanto protagonista, será construída como personagem esférica. As “persona‑ gens esféricas” não são claramente definidas por Forster, contudo, considera ‑se que as suas características se reduzem essencialmente ao fato de terem três, e não duas dimensões; serão, portanto, organizadas com maior complexidade e, em consequência, capazes de nos surpreender, pois, conforme defende Candido, em A personagem de ficção (2007), o crítico define que “as personagens planas não constituem, em si, realizações tão altas quanto as esféricas, e que rendem mais quando cômicas. Uma personagem plana séria ou trágica arrisca tornar ‑se aborrecida” (Candido, 2007, p. 70). Em outras palavras, de maneira objetiva defende que:

A prova de uma personagem esférica é a sua capacidade de nos surpreender de maneira convincente. Se nunca surpreende, é plana. Se não convence, é plana com pretensão a esférica. Ela traz em si a imprevisibilidade da vida, – traz a vida dentro das páginas de um livro”. (Candido, 2007, p. 75)

Para Candido, portanto, a personagem esférica nos surpreende convincente‑ mente. A narrativa breve indica sumariamente que Anica, embora dispusesse de uma condição financeira estável, andava muito insatisfeita com a vida conjugal e, na ânsia de dar um novo rumo à sua existência, ao lado de um novo com‑ panheiro, desfaz o seu vínculo familiar, lança ‑se à nova experiência conjugal, sem, entretanto, assegurar ‑se, muito menos estudar melhor o caráter do novo pretendente. A protagonista, entretanto, em seu ímpeto, aposta tudo na nova relação com Ramiro, seu novo pretendente, sem ao menos cogita a possibilidade de ser abandonada.

A Anica, desvairada de amor, fruia com intensidade o momento presente e não pensava nas consequências temerosas dos seus passos de mulher banida da vida

das famílias nem no que poderia ser o seu futuro, um dia, se o Ramiro a amasse menos, a amasse pouco, ou a abandonasse. (Archer, 1950, p. 193)

A narração é feita por uma narradora testemunha, aquele que participou e vivenciou os fatos do enredo, que pode ser justificado com a fala dele,

[...] Lembro ‑me bem daquele dia, há anos, em que o escândalo da sua fuga com o Ramiro ribombou por Lisboa e deixou a sociedade – este meio de gente rica e janota e preconceituosa que a si mesmo se classifica de sociedade – deixou ‑a espantada e atordoada [...]. (Archer, 1950, p. 191)

Acerca dos acontecimentos narrados, tudo que vimos, a saber, nos é narrado sob a ótica da narradora testemunha, na definição de Oscar Tacca, narradora equisciente. Ela narra em 1.ª pessoa, mas é um “eu” já interno à narrativa, que vive os acontecimentos aí descritos como personagem secundaria que pode observar, por dentro, os acontecimentos, e, portanto, nos fornece de modo mais verossímil. Para Lígia Chiappini Leite (2002) seria o narrador testemunha. “Testemunha, não é à toa esse nome: apela ‑se para o testemunho de alguém, quando se está em busca da verdade ou querendo fazer algo parecer como tal” (Leite, 2002, p. 37).

Ao empregar o verbo “lembrar”, no pretérito, a narradora testemunha dá a perceber que conhecia, de perto, a protagonista e acompanhou o fato ocorrido. Segundo Ataíde (1941, p. 55) o ponto de vista da trama é visto de modo externo, ou seja, está sendo apresentado por alguém que sabe dos acontecimentos, mas não os vivenciou. Um olhar para a construção da ordem temporal veremos que esta obedece ao tempo cronológico, ou seja, o enredo corre de maneira sucessiva, desde que Anica saiu de casa, passou a viver com Ramiro, mudaram de cidade, e ao fim acaba sendo gradativamente abandonada pelo parceiro e ficando sozinha, isto pode ser percebido nos recortes: “[...] a Anica via ‑o partir dia após dia, noite após noite [...] Meses consecutivos, com muitos dias e muitas noites em cada mês [...] (Archer, 1950, p. 196). Para Ataíde (1941),

O tempo cronológico é aquele que se mede pelo relógio, pela sucessividade dos dias e das noites, pelo movimento da terra e da lua, pela alternância das estações. O tempo cronológico consiste num esforço do homem para opor uma barreira ao tumulto subjetivo, às presentificações da memória à duração interior que é imprevisível e incontrolável. (Ataíde, 1941, p. 47)

A construção narrativa apoia ‑se na sucessividade dos fatos e gradativamente nos coloca face a face com a experiência da protagonista. Vimos que esta vivencia a dupla condenação: o isolamento social por parte dos seus familiares e o afetivo, na medida em que estará exposta ao total abandono por parte do amado. Tal

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constatação deriva do que pode ser percebido na construção narrativa e nos dá a impressão de que os espaços utilizados articulam ‑se com as demais categorias da narrativa ao nível da história. Na obra são divididos em três sequências, no dizer de Abdala: “Num sentido mais abstrato, é importante que seja considerado o espaço social, a ambiência social pela qual circulam as personagens, e o espaço psicológico, as suas atmosferas interiores” (Abdala, 2004, p. 48).

Ao tomar o espaço social como matéria para a sua produção ficcional, Maria Archer volta ‑se para a vida social burguesia e a arena dos conflitos familiares. A narrativa breve possui claramente dois momentos que são percebidos no percurso gradativo da protagonista. Na cena inicial, a personagem central circula tacitamente pelas ruas de Lisboa e a frequenta a alta sociedade. No segundo momento, a perspectiva concentra ‑se nos episódios constrangedores porque passa Anica. A dispersão dos seus recursos econômicos, o gradativo desencanto afetivo, a mudança de nível social, o episódio no qual foi coagida a passar ‑se por sua irmã, até o seu total isolamento social, num país estrangeiro. A narrativa concentra a carga dramática, na qual a personagem central deprimida enclausura ‑se, e sua vida se restringirá aos limites da sua modesta morada. A partir de então, dará vazão à dimensão do espaço psicológico, pois a restrição dos deslocamentos funcionará como elemento propulsor para Anica na tomada de consciência da restrição que espaço social burguês impõe à condição feminina sob a vigência da dominação masculina no sistema patriarcal.

Assim, ao impacto das suas constatações, o desfecho da trama se dá quando Anica deixa Ramiro, e volta para Lisboa sem o parceiro e despojada dos seus bens materiais. Notamos a distinção existente entre os homens da trama, enquanto o primeiro faz questão de dizer que é casado com Teresa, Ramiro omite, ou seja, esconde o relacionamento com Anica, sob o pretexto de não perder o emprego, pois o que predomina para ele é a posição social, por não aceitarem homens casados com mulheres que fossem divorciadas:

A Anica, nesses anos de peregrinação pelo estrangeiro, desfalcara grandemente os seus haveres. Ao separar ‑se do Ramiro não dispunha de meios que lhe permitissem fixar residência em Paris. Foi ‑lhe forçoso regressar a Lisboa, limitar as despesas e viver de pouco. (Archer, 1950, p. 199)

As crônicas selecionadas são representativas de distintos perfis femininos e voltam ‑se para o núcleo familiar. Em ambas confrontamos duas visões de mundo: a primeira coloca em cena a mulher ambiciosa e racional que se arrisca a perder o pretendente a marido, a perder a confortável casa onde vive, e na segunda narrativa, temos a representação da mulher corajosa e inconsequente que, ao impulso de viver a segunda experiência conjugal na expectativa de ser

feliz, desfaz ‑se gradativamente dos seus bens materiais, deixa tudo para viver uma frustrada experiência amorosa.

Embora a solução estética nas histórias selecionadas seja diferente, a expressão da singularidade está no tratamento e na construção estilística, isto porque a narradora testemunha não se integra à perspectiva das protagonistas. Ou seja, a autora capta a matéria prima na vida em sociedade, labora estilisticamente sob a sua ótica e fornece espaço para o registro ficcional de aspetos que permeiam a condição feminina que, em certa medida, passíveis de dialogar com outras obras no âmbito do campo literário.

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