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MISE EN VALEUR DES COURS D’EAU ET DES MILIEUX AQUATIQUES . 42

Dans le document CONTRAT de RIVIERE du SEGRE en CERDAGNE (Page 42-0)

A coletânea Filosofia duma mulher moderna, em seu conjunto aborda temas como os vistos nas narrativas selecionadas, exibindo o desafio vivenciado pelas mulheres na luta pela libertação de sua condição de subalternidade, entre outros. As mulheres dos meados do século XX, época em que vigora o austero regime salazarista, estavam sujeitas a um sistema regido pela hegemonia masculina, com raríssimas exceções, não lhes era facultado atingir algum tipo de independência financeira. A ausência de perspectiva no campo profissional dominado pela hegemonia masculina reduz as suas possibilidades de realização pessoal. Em sua maioria, as mulheres são coagidas a se firmar no restrito âmbito do seu núcleo de convivência e se ocupar com os serviços domésticos e a educação dos filhos. A mulher encontrava ‑se sob um intenso domínio familiar, antes do casamento submissa ao pai e, após o casamento, ao marido:

Historicamente, a mulher foi sempre mantida como uma figura emudecida e marginalizada em diversos aspectos. O fato de ter sido tomada por sua suposta fragilidade e incapacidade de viver fora do domínio patriarcal implicou, não raro, o sacrifício de sua própria identidade. A tradição sócio histórica relegou à mulher um papel secundário na sociedade. Na esfera doméstica restavam ‑lhe as atividades de administração dos afazeres do lar e de educação dos filhos de forma que repro‑ duzissem e perpetuassem os papeis sociais preestabelecidos. (Araújo, 2012, p. 14)

O registro literário na coletânea aponta, tendo como referência as narrativas selecionadas, para a forma diferenciada de realização do gênero. Ao privilegiar a perspectiva da mulher, surpreendemos na cena literária, duas personagens centrais que se lançam à vida, que se arriscam, que investem nas mudanças de vida, que correm riscos e arcam com as consequências de suas escolhas. Dessa forma, a literatura de Maria Archer desprende ‑se do usual, instaura um estilo próprio com seu distinto jeito de escrever, fará aquilo que defende Teixeira: “buscando, por meio de seus personagens, estabelecerem representações que questionam e

P E LO S M A R E S DA L Í N G U A P O R T U G U E S A 3

93 ENTRE O ÍNDICO E O ATLÂNTICO: NAS TRILHAS DA “FILOSOFIA DE UMA MULHER MODERNA”

contestam as posições ocupadas por homens e mulheres na sociedade” (Teixeira, 2008, p. 33 apud Moura, 2012, p. 3).

A representação literária de Archer recria o mundo a partir da sua ótica e fala por aquelas que não dispõem de meios para falar por si, com voz própria. Como se sabe, eram poucas as mulheres que assumiam a profissão de escritoras naquela altura. O papel e a função da escrita literária que várias autoras tomavam para si era o de expor o comportamento, por meio do registro dos gestos e atitudes assumidos pelos perfis femininos, ligados ao período em que viviam. Assim, nas publicações o engajamento parece ser a nota dominante das páginas de autoria de mulher.

Ao recriar na literatura os diferentes grupos sociais é importante um posicio‑ namento condizente com as vivências de tais indivíduos. Compreender o meio social a partir de um único viés não torna possível representar de modo eficaz os grupos que o compõem, já que, mesmo mostrando ‑se sensíveis e solidários a seus problemas, ainda assim estes não terão as mesmas experiências de vida. (Araújo, 2012, p. 34)

A literatura pode ser considerada como uma instituição social, que utiliza como expressão a linguagem, ela pode representar a vida, esta é uma realidade social. O artista se apropria da literatura para através dela fazer uma utilidade social, ou seja, apoia ‑se em suas vivências para se dirigir ao público. Conforme exprimem Wellek & Warren, (1955), ao discutirem a relação entre literatura e a sociedade, é costume começar ‑se pela frase – derivada de De Bonald ‑ que afirma que “a literatura é uma expressão da sociedade”:

[...] Afirmar que a literatura é o espelho ou a expressão da vida será ainda mais ambíguo. Um escritor não pode deixar de exprimir a sua experiência e a sua concepção total da vida; mas seria manifestamente falso dizer que ele exprime a vida total – ou até mesmo a vida total de uma certa época ‑ por forma completa e exaustiva. [...] (Wellek & Warren, 1955, p. 114)

Desta forma, o artista não é obrigado a escrever sobre aspectos que ocorreram em toda a sua vida, mas sim de determinada época, descrevendo as implicações e relações sociais deste período. Dizer que a literatura exprime a sociedade constitui hoje verdadeiro truísmo; no dizer de Antonio Candido, mas houve tempo em que “foi novidade e representou algo historicamente considerável”. Na atualidade não é necessário enunciar que a literatura representa a sociedade, conforme defende Candido:

No que toca mais particularmente à literatura, isto se esboçou no século XVIII, quando filósofos como Vico sentiram a sua correlação com as civilizações, Voltaire,

com as instituições, Herder, com os povos. Talvez tenha sido Madame de Staél, na França, quem primeiro formulou e esboçou sistematicamente a verdade que a literatura é também um produto social, exprimindo condições de cada civilização em que ocorre. (Candido, 2006, p. 29)

Assim, com base na sua produção e seu legado literário será possível afirmar que Maria Archer recusava enclausurar ‑se como intelectual e como mulher nos modelos impostos pelos ditames sociais. Essa atitude pode ser colhida nas suas produções criativas, uma vez que a autora alinha ‑se a um sistema de pensamento e de comportamento não previsto para a condição feminina determinado pela história. Muito pelo contrário, sua atuação revela que a condição feminina deveria se voltar para novas vias de ação, de argumentação e de reflexão que não as mesmas trabalhadas pelos homens na história da cultura do seu tempo.

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