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«Pela comunicação interpessoal vamos criando junto com outras pessoas novas realidades, vamos modificando nossa forma de ver e a delas, vamos ajudando-nos a perceber melhor um mesmo assunto, a modificar algum aspecto do nosso mundo. Modificamo-nos pessoalmente e modificamos os outros.» (Moran, 2000)

Como foi referido, os símbolos contidos na linguagem específica apresentam-se como imagens ou objectos que representam uma realidade visível, havendo “uma relação forte entre a sua realidade própria e a realidade

que designa” (Morin, 1996: 146). Portanto nesta lógica, os símbolos específicos

utilizados para comunicar, promovem inevitavelmente uma estimulação sensorial que será interpretada pelo receptor, o qual retira uma informação, um sentido, uma significação (Amado & Guittet,1982) – um conhecimento específico.

No futebol os conhecimentos específicos são: os conhecimentos tácticos, pois é a partir destes que se faz a análise da situação e se tem capacidade de encontrar uma solução para os problemas encontrados no jogo (Tavares, 1993; Garganta, 1997; Mesquita, 1998a); com os conhecimentos técnicos, uma vez que dá capacidade de executar essa solução (Garganta, 1997; Mesquita, 1998a); e, ainda, com as experiências e as vivências de cada jogador ao longo das suas vidas (Guiherme Oliveira, 2004).

Neste sentido, torna-se imperioso conhecer melhor quais os conhecimentos implicados no «jogar», segundo o entendimento que temos vindo a salientar. Guilherme Oliveira (2004: 90) considera “três formas de

manifestação distintas, que interagem permanentemente: (1) o conhecimento táctico-técnico específico; (2) o conhecimento específico relacionado com as habilidades técnicas; e (3) o conhecimento específico relacionado com uma auto e hetero-interpretação de um projecto colectivo de jogo8”.

Relativamente ao conhecimento táctico-técnico específico, está dependendente dos conhecimentos declarativos, uma vez assumem uma grande “influência nas decisões, no sentido em que permite ao jogador ter

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consciência da sua capacidade e respectiva possibilidade de êxito na escolha determinda de determinada solução” (Guilherme Oiveira, 2004: 92). Mas como

as decisões são influenciadas pelos estados emocionais no momento da aprendizagem (Jensen, 2002; Damásio, 2003a), se no momento da memorização, estão associados estados emocionais positivos os jogadores vão fomentar uma maior regularidade de respostas (Guilherme Oliveira, 2004). Se pelo contrário, associam estados emocionais negativos, as respostas relacionadas com a acção são rejeitadas (Guilherme Oliveira, 2004). Estes conhecimento são muito importantes, na perspectiva de Guilherme Oliveira (2004), pois quando memorizadas sob a forma de imagens mentais irão permitir a formação e o reconhecimentos dos padrões de jogo pretendidos na tomada de decisão.

Ao mesmo tempo, também são influenciados pelos conhecimentos processuais específicos, “os denominados hábitos ou automatismos, os quais

foram criados através das experiências, conscientes ou não conscientes, que ficam retidas nas memórias e são utilizadas para se poder decidir e reagir rapidamente perante as situações” (Guilherme Oliveira, 2004: 97). São criados

conscientemente quando há transformação dos conhecimentos declarativos em processuais (Guilherme Oliveira, 2004) e não conscientes quando associados estados emocionais (Guilherme Oliveira, 2004). Assim, se justifica a utilização de marcadores somáticos durante a “Intervenção Específica”, pois ao permitir tornar não conscientes as decisões e as acções propriamente ditas, estas serão realizadas, num tempo muio inferior ao tempo necessário pelos processos conscientes (Guilherme Oliveira, 2004). Este conhecimento é muito importante para o jogador quando se relaciona com o reconhecimento dos padrões de jogo pretendidos pelo treinador (Guilherme Oliveira, 2004).

Nesta perspectiva, é fundamental, que os conhecimentos táctico- técnicos específicos sejam desenvolvidos no treino, ao contemplar-se a interacção entre os conhecimentos declarativos, processuais, as respectivas emoções e memórias, permitem uma configuração sobre a forma de imagens mentais, dos princípios e sub-princípios do Modelo de Jogo.

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No que concerne ao conhecimento específico relacionado com as habilidades técnicas, este é o tipo de conhecimento específico que “garante a

exequabilidade da acção pretendida para operacionalizar a decisão tomada”

(Guilherme Oliveira, 2004: 103). Os conhecimentos declarativos, neste contexto, só se tornam relevantes para jogadores principantes, pois são uma ajuda preciosa na compreensão execução de acções complexas (Guilherme, 2004). Por isso, é um tipo de conhecimento fundamentalmente processual (Guilherme Oliveira, 2004). Formados de forma não consciente, através de uma repetição sistemática, e são configurados sob a forma de imagen mentais permitindo os jogadores adaptarem às circunstâncias das situações de jogo (Guilherme Oliveira, 2004). A influência das emoções também se verfica, porque quando os jogadores executam uma acção bem sucedida dá-se uma emoção positiva, que posteriormente, numa situação semelhante, faz com que seja novamente executada (Guilherme Oliveira, 2004).

Quanto ao conhecimento específico relacionado com a auto e hetero- interpretação de um projecto colectivo de jogo, de acordo com Guilherme Oliveira (2004: 106) “decorre da interpretação que os jogadores fazem das

ideias que o treinador pretende transmitir.” Neste sentido, está dependendente

dos conhecimentos declarativos do treinador, na medida em que precisa de ser consciencializado (Guilherme Oliveira, 2004). Mas também, dos conhecimentos declarativos e processuais dos diferentes jogadores, provenientes das experiências, conhecimentos, memórias e emoções de cada um adquiridas ao longo da sua vida (Guilherme Oliveira, 2004). Um facto, que na opinião de Guilherme Oliveira (2004: 108), é muito importante para o desenvolvimento do projecto colectivo de jogo, na medida em que a “diferença

de conhecimentos específicos dos jogadores vai funcionar como catalisador positivo de novos conhecimentos específicos tanto colectivos como individuais.” Todavia, torna-se relevante é que o jogador interprete e vivencie

de de tal forma o projecto colectivo que lhe cause um sentimento de prazer. Ou seja, que acrecente aos processos de emoção a consciência (Damásio, 2000; In Guilherme Oliveira, 2004). Aliás parece ser essa a opinião de Frade (2005; In Dias, 2005: ILVI) quando afirma que: “o prazer emana da consciência do que

queremos com o que fazemos para lá chegar, ou seja, é o prazer da minha evolução no processo, da capacidade de fazer melhor isto e aquilo.” Portanto,

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um prazer que surge do desenvolvimento de sentimentos individuais em função de um colectivo, uma das premissas fundamentais, de acordo com Guilherme Oliveira (2004), para que se possa desenvolver o projecto colectivo de jogo.

Pelo referido, vemos que é essencial o desenvolvimento do Conhecimento Específico para que os jogadores comuniquem entre eles. Pois, segundo o nosso entendimento, representado pelas palavras de Frade (2005; In Dias, 2005: XIV), “são eles [jogadores] que, sobre um tema, constroem (...)

para que a evolução se faça e ao fazer-se, dado que está perante condicionantes de ordem colectiva, faz com que ao crescer o “eu” [jogador], cresça em função da necessidade de se articular [comunicar] com os outros

[equipa]”. Por conseguinte, o importante será “crescer o saber fazer9, a

disponibilidade de jogar, em concomitância com um saber sobre um saber fazer” (Frade, 2005; In Dias, 2005: XIV), para que a interacção entre treinador-

jogadores em treino, e consequentemente entre jogador(es)-jogador(es)/equipa em jogo, se constitua uma verdadeira comunicação.

É que sendo o jogo de Futebol algo construído, porque conjuga os conhecimentos do treinador e dos jogadores e dos processos de ensino- aprendizagem/treino do jogo, “o saber sobre um saber fazer” surge como o melhor meio para essa construção. Isto, porque são “saberes” que implicam

“por um lado, um conhecimento táctico-técnico abrangente, que funciona como uma cultura táctica de jogo, permitindo entender, perceber e expor a sua opinião acerca do que pode ser feito” (Guilherme Oliveira, 2004: 41). Quer

dizer, então, que o objectivo é que jogadores e treinadores passam a partilhar a mesma “língua10”.

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9O “saber fazer” implica ter conhecimentos e capacidade de executar com êxito determinada acção,

independentemente de ser realizada de uma forma consciente ou não e da possibilidade ou não de ser explicada por quem a vivencia (Guilherme Oliveira, 2004: 42).

10Língua: é um sistema de signos e conjunto de regras de combinação que funciona como um instrumento de

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“Por outro lado, um conhecimento que está relacionado com uma auto e hetero-interpretação de um projecto de jogo colectivo e que permite a evolução, colectiva e individual, através da cumplicidade e a divergência das interpretações e acções dos jogadores” (Guilherme Oliveira, 2004: 41). Ou

seja, durante treino e jogo a capacidade de usar a “língua” de modo particular – a “fala11” - é um aspecto fundamental.

Assim sendo, o “saber sobre um saber fazer” fomenta o lado normativo e criativo da comunicação, ou seja, atende às características do próprio «Jogo».

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11Falar: é adaptar e transformar a língua de acordo com as necessidades próprias. Implicando duas operações

fundamentais: uma selecção de certas unidades da língua; e uma combinação dessas unidades em conjunto cada vez mais complexos, cada nível integrando os precedentes num conjunto hierarquicamente superior (Amado e Guittet, 1982:51)

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3. MATERIAL E MÉTODOS

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