6.4 R´esultats des simulations
6.4.4 Essai MMT
Uma perspetiva crítica como a proposta pela ACD leva-nos de volta às questões de poder já discutidas no Capítulo 2. O discurso tem sido identificado como um locus de luta de poder, em que relações de poder social são construídas, mantidas, desafiadas e/ou contestadas. Segundo van Dijk, as relações entre poder e discurso são o foco principal do trabalho em ACD: “Critical Discourse Analysis (CDA) is a type of discourse analytical research that primarily studies the way social power abuse, dominance, and inequality are enacted, reproduced, and resisted by text and talk in the social and political context” (van Dijk 2001a: 352).
Um pressuposto teórico fundamental da ACD é o reconhecimento de que a linguagem não é neutra: o que dizemos não são ‘só palavras’, mas construções e criações de realidades extralinguísticas. O discurso não faz simplesmente referência a assimetrias de poder social, hierarquias e realidades de opressão pré-discursivas (Benwell & Stokoe 2006), mas efetivamente constrói-as. Uma forma de fazer isso – observada, por exemplo, por Michel Foucault (2005) – é recorrer ao potencial de categorização da linguagem. No Capítulo 2, foi já referido o potencial do discurso para construir as fronteiras entre categorias como ‘verdadeiro’ e ‘falso’, ‘normal’ e ‘louco’,
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para categorizar a realidade e a ação dos seus protagonistas em ‘correto’ e ‘errado’, em ‘desejável’ e ‘desviante’, e os próprios atores em ‘homens’ e ‘mulheres’, ‘bonitos’ e ‘feios’, etc. A produção discursiva de qualquer tipo de conhecimento assenta em processos poderosos de inclusão e exclusão, sendo que os processos de categorização atrás mencionados não constituem exceção. Nesta perspetiva, a aparente estabilidade e naturalidade das categorias ‘homem’ e ‘mulher’ cai por terra, tornando-se evidente que também a criação destas categorias envolveu decisões ideologicamente motivadas e historicamente situadas sobre quem incluir e quem excluir de cada uma delas. A inexistência de categorias intermédias ou alternativas que fossem socialmente reconhecidas torna muito difícil falarmos (e pensarmos, pressupondo uma ligação entre linguagem e cognição teorizadas, por exemplo, por Sapir & Whorf (Whorf 2008)) de indivíduos sem os classificarmos de uma ou de outra forma, ou como homem ou como mulher.
Com referi no início no Capítulo 2, é o próprio sistema da língua portuguesa, e não só, que exige a utilização destas categorias, porque dificulta ou até impossibilita a não identificação do participante do discurso como homem ou mulher. Deste modo, pode dizer-se que a linguagem não é neutra, mas condicionada por estruturas de poder social (Seier 2001). As categorias ‘homem’ e ‘mulher’, ‘masculino’ e ‘feminino’ são, por isso, o resultado do entrelaçamento da ideologia com o discurso, que é reconstruído cada vez que estas ou outras categorias são enunciadas, confirmando formas de organização social específicas que correspondem a interesses particulares. De acordo com o pensamento de Foucault, apresentado acima, não faz sentido procurarmos a origem destas assimetrias de poder, se são os homens, as empresas, as classes sociais altas, etc., uma vez que esta origem será sempre difusa. Será mais produtivo entendermos o seu funcionamento e as consequências da sua atuação. Quem beneficia da representação específica de uma realidade e quem sai prejudicado? Quais as alternativas a esta representação?
Outra forma de o poder atuar através da linguagem é através da naturalização de determinadas realidades, dando-lhes um carácter de inevitabilidade, de naturalidade e normalidade, quando na verdade se trata somente de uma entre várias representações possíveis da mesma realidade. No auge da crise financeira que atingiu Portugal a partir de 2008, o anunciar de novas medidas de austeridade foi frequentemente acompanhado de enunciados do tipo “não temos outra alternativa”, quando havia grupos de pessoas que claramente viam alternativas. De forma mais subtil, por exemplo, um enunciado
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como “a menor força física das mulheres em relação aos homens é fonte da sua discriminação” estabelece uma série de ‘realidades’ como naturais que poderiam perfeitamente ser questionadas. Para mencionar só dois aspetos: em primeiro lugar, a frase afirmativa pretende não deixar espaço para dúvidas de que a relação de causalidade entre força física e discriminação assim se confirma. Ainda podemos, porém, imaginar um questionamento desta construção do tipo “Não concordo com isso!”. Em segundo, a oração também normaliza uma outra afirmação mais difícil de questionar: “As mulheres têm menor força física do que os homens”. Esta afirmação aparece nominalizada no início da oração, o que não a torna imediatamente acessível a qualquer questionamento. Em vez disso, assume carácter de pressuposição, sublinhado pela utilização do artigo definido “a”. Um dos objetivos principais, comum a todas as diferentes abordagens em ACD, é o de desvendar e tornar visível a forma como o poder atua através do discurso, como grupos poderosos abusam do seu poder e como realidades são (re)construídas não só por quem beneficia delas, mas também pelos grupos vítimas dessas realidades e das situações de opressão e desvantagem que elas criam (Gramsci 1994). Em ACD, pretende-se assim desconstruir estruturas ‘naturalizadas’ e processos de legitimação de desigualdades sociais.
Idealmente, uma vez identificadas os processos de atuações do poder no discurso, bem como as desigualdades daí resultantes, a ACD também visa contribuir de facto para a transformação social, no sentido da promoção de uma maior justiça e igualdade (Kress 1996). Um passo fundamental no caminho para este objetivo é a criação de uma consciência crítica da parte dos falantes (Fairclough 2001). É necessário consciencializá-los do potencial que o discurso tem para produzir e reproduzir estruturas de poder e desigualdades sociais. Em particular no que diz respeito às identidades femininas, as mulheres necessitam de tomar consciência de que as suas identidades como mulheres são – pelo menos em parte – construídas pela forma como falam delas próprias e que o facto de a mulher ocupar um lugar específico na sociedade portuguesa, diferente do lugar do homem, tem – também pelo menos em parte – a sua origem na forma como homens e mulheres falam sobre homens e mulheres. Qualquer mudança do papel da mulher (e do homem) tem forçosamente de passar também pela mudança das formas de se falar das mulheres (e dos homens). Esta mudança é lenta, é certo, mas é possível. Como explicam Eckert & McConnell-Ginet (2003: 53):
Change does not happen in individual actions, but in the accumulation of action throughout the social fabric. (…) Language has its effect on society through repeated use, through
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sequences of use, through the laying down of a history of use. (…) An individual act, therefore, enters into a broader discourse – and its ultimate effect will be the result of its life in that discourse: how it gets picked up, and by whom, and how it mixes with what other people are doing and thinking.
Mudanças na forma de usar a linguagem e, consequentemente, na forma como vemos o mundo são possíveis, porque – ao contrário da vontade dos guardiões da língua que a querem cristalizar num estado supostamente puro – os significados não são fixos e porque a necessidade dos utilizadores também muda. As mudanças podem ocorrer de forma ‘orgânica’ ou de forma ‘forçada’. No primeiro caso, existe uma necessidade social de novas formas de dizer – por exemplo, devido à tomada de consciência da representação desigual de diferentes tipos de pessoas no discurso. O limite para estas mudanças é obviamente imposto pela inteligibilidade. Certas normas têm de ser seguidas quando uma pessoa quer ser entendida. Estando esta condição assegurada, significados genderificados podem ser ironizados, contrariados, substituidos e/ou abandonados. Novas formas de referência mais democrática podem surgir e fixar-se no discurso dos falantes. Não é por serem novas que estas formas estão livres de fundamento ideológico. A língua e a sua utilização nunca perderão o seu carácter ideológico, o que muda é somente o tipo de ideologia.
O mesmo vale para o segundo tipo de mudança, a mudança linguística imposta ‘por cima’, isto é, por instituições ou organismos oficiais. Como os falantes não sentem necessidade das mudanças propostas por estes organismos, elas são muitas vezes contestadas. No caso das questões de género, assiste-se a uma certa ridicularização das reivindicações feministas que exigiram a visibilidade das mulheres nas designações de profissões, etc., pressupondo que estas mudanças linguísticas iriam mudar progressivamente a maneira das pessoas pensarem a realidade.