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4.3 Influence des param`etres du mod`ele

4.3.4 Endommagement initial

Na ACD, o conceito do discurso é inseparável do conceito de contexto. É esta perceção do discurso como estando inserido em estruturas sociais que distingue a ACD da Linguística chamada “autónoma” (Pedro 1997). É precisamente a predominância de paradigmas não críticos em muitas disciplinas, incluindo a Linguística, nos anos sessenta e setenta do século passado, que faz surgir o projeto da ACD em simultâneo com outras abordagens críticas noutras disciplinas como a Psicologia, as Ciências Sociais, etc. As origens da ACD são múltiplas, podem ser encontradas na Teoria Marxista, na Filosofia da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, no pensamento de Louis Althusser, Michel Foucault e Michel Pêcheux, na Linguística Crítica, assim como nas abordagens feministas à linguagem e à comunicação. Todas estas influências contribuem para que a linguagem seja vista como inseparável do contexto da sua enunciação (Wodak 2011, Fairclough 1992).

Um dos desafios que a ACD enfrenta é o de ultrapassar a distância que aparentemente separa texto e contexto, teorizando de que forma o segundo se manifesta no primeiro e que influência o primeiro tem sobre o segundo. Como se relaciona um texto com estruturas sociais das quais surge, como hierarquias de poder, desigualdades sociais, etc. (Benwell & Stokoe 2006).

De seguida apresentarei duas propostas de teorização da relação entre texto e contexto que informaram a presente tese: a proposta de Fairclough da relação dialética entre dimensão social e discursiva e a proposta da LSF do contexto como um nível mais abstrato de significação que é realizado por meio da linguagem (por exemplo, Martin 2014; Gouveia 2014).

Relação dialética entre texto e contexto

Norman Fairclough (1992), no seu modelo tridimensional do discurso, propõe que um evento discursivo seja visto como sendo simultaneamente uma peça de texto,

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uma instanciação de prática discursiva e uma instanciação de prática social (Quadro 3.1).

Quadro 3.1

Modelo Tridimensional do discurso de Fairclough (1992)

Temos, assim, na primeira dimensão, o texto como material linguístico que é inserido em duas dimensões contextuais. A primeira dimensão de contexto inclui processos de produção, distribuição e receção, enquanto a segunda dá conta de estruturas sociais e políticas, relações de poder, ideologias e lutas hegemónicas. Estas duas dimensões de contexto influenciam o texto e são influenciadas por ele. Consequentemente, a análise de um texto sem ter em conta o contexto ignora elementos chave que fazem com que o texto se apresente da forma como se apresenta.

Na proposta teórica de N. Fairclough (2003), dimensão social e linguística estão assim intimamente ligadas, constituindo a linguagem um elemento social a todos os níveis. O quadro seguinte (Quadro 3.2) pretende exemplificar isso:

Quadro 3.2.

Relação entre estruturação social e discursiva

Assim, (1) o sistema linguístico encontra-se entre as estruturas sociais abstratas. Como as estruturas sociais podem ser entendidas como o potencial de estruturação do espaço social, o sistema linguístico representa aquilo que é possível dizer com palavras; (2) os eventos sociais, no sentido de acontecimentos em sociedade podem (ou não) ter uma componente discursiva mais ou menos forte; (3) entre estruturas e eventos sociais

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medeiam entidades organizacionais intermédias: as práticas sociais que podem ser entendidas como “formas de controlar a seleção de determinadas possibilidades estruturais e a exclusão de outras” e que, ao longo do tempo, ganham uma certa estabilidade (Fairclough 2003: 23-24)35. Uma componente importante destas práticas são as ordens do discurso que, por sua vez, medeiam entre o potencial linguístico abstrato e o evento discursivo concreto36. Segundo Fairclough (2003), estas ordens consistem em discursos, géneros (textuais) e estilos e representam formas recorrentes de estruturar um texto, associadas a domínios sociais específicos (Wodak 2011: 42).

É na interação entre práticas sociais e ordens do discurso que a ACD concentra o seu interesse, uma vez que a este nível intermédio é possível ultrapassar a dicotomia estrutura-ação a nível social e discursivo (discutida no Capítulo 1), sem perder de vista as potencialidades de ambas, fazendo transitar a análise entre os dois ‘extremos’ (Ramalho & Resende 2011). Esta teorização mostra a dimensão da envolvência do discursivo no social, tornando evidente que a análise dos eventos discursivos não pode ser feita sem ter em conta, por um lado, que o evento discursivo é sempre parte integrante de um evento social e, por outro, que este está relacionado com estruturas mais amplas que vão para além do evento, nomeadamente estruturas de práticas sociais/ordens do discurso e estruturas sociais/linguísticas. Torna-se, assim, ainda mais evidente que um evento discursivo nunca constitui um ato individual, mas que, pelo contrário, falar ou escrever ou qualquer outra atividade semiótica é um ato social por natureza.

A mesma teorização também evidencia a relação dialética entre ação e estrutura. A última não só atua no sentido de limitar a primeira, mas torna-a, antes de mais, possível. O conhecimento do sistema linguístico permite atribuir significado àquilo que está a acontecer em termos sociais e discursivos: só utilizando palavras e estruturas gramaticais reconhecíveis para o interlocutor posso transmitir a minha mensagem. Ao mesmo tempo, as práticas discursivas transformam gradualmente as estruturas, adaptando léxico e gramática de uma língua às necessidades dos seus falantes. Este processo de transformação é muitas vezes impercetível e somente visível comparando o

35 Tradução minha do original inglês: “Social practices can be thought of as ways of controlling the

selection of certain structural possibilities and the exclusion of others, and the retention of these selections over time, in particular areas of social life.”

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Para além do discurso, as práticas sociais articulam ainda relações sociais, fenómenos mentais e atividade material (Resende 2009).

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sistema linguístico de uma mesma língua em dois momentos históricos separados, por exemplo, o português do século XV com o atual.

As ordens de género, como estruturas sociais, manifestam-se a todos os níveis do esquema apresentado acima, seja ao nível das estruturas, seja a nível das práticas, discursivas e sociais. Mediadas por práticas sociais e, em particular, pela componente discursiva destas práticas (as ordens do discurso), as ordens de género influenciam eventos concretos que, por sua vez, alimentam práticas e estruturas discursivas e não discursivas.

Uma abordagem diferente é proposta pelo quadro teórico linguístico mais influente na ACD, a Linguística sistémico-funcional (LSF). Neste quadro, a relação entre a dimensão social e a dimensão linguística é teorizada como ‘realização’. Assim, o linguístico realiza o social e o social está embutido no tecido gramatical da linguagem (Chouliaraki & Fairclough 1999: 140). A LSF, no seu modelo de estratificação dos significados, perspetiva o contexto como um nível extralinguístico, superior aos níveis linguísticos de significação, mas como sendo realizado nestes mesmos níveis linguísticos (Gouveia 2009, 2014; Martin 2014), como está ilustrado no quadro 3.3.:

Quadro 3.3.

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As variáveis contextuais e as relações entre elas provocam a construção de um texto na sua especificidade. Como fica também visível no esquema representado acima, a LSF distingue duas camadas de contexto: género e registo. O registo de um texto é a combinação particular de três componentes contextuais: (1) o campo de experiência humana do qual o texto fala, (2) os participantes e as relações que entre eles se estabelecem e (3) o modo como a experiência é comunicada. Estas três componentes realizam-se em escolhas ideacionais, interpessoais e textuais e distinguem um texto em concreto de outros possíveis que apresentariam uma configuração de registo diferente, o que se refletiria ao nível das escolhas linguísticas.

A segunda camada contextual, o género, diz respeito ao propósito sócio comunicativo do texto. O texto é produzido para um fim específico, numa determinada cultura, que prevê estruturas textuais específicas para atingir esse fim. Enquanto as configurações de registo são, teoricamente, infinitas, sendo assim o registo responsável pela diversificação dos textos, o número de géneros é finito, servindo esta camada contextual para tornar os textos parecidos uns com os outros (Gouveia 2014).

Sujeitos participantes do discurso

O reconhecimento do discurso como prática social deve-se muito à noção de dialogismo de Bakhtin (1986)/ Voloshinov (1986). Enquanto, numa visão monológica, o texto é visto como fenómeno isolado, como uma única voz sem ligação a nada fora dele, numa visão dialógica dá-se conta do facto de o texto ser constituído sob influências externas a si, assim como da presença de outras vozes que nele ecoam. Assumir que qualquer texto é dialógico também significa assumir que ele é sempre construído por alguém para alguém, ideia já presente no modelo tridimensional de Fairclough. Isto tem, naturalmente, consequências para a conceptualização das identidades nele construídas: elas também são construídas para alguém. Como refere Taylor (1989: 36): “Sou um EU em relação a determinados interlocutores (…) um EU existe somente dentro do que chamo redes de interlocução”37.

Um outro aspeto fundamental relacionado com os sujeitos que participam de um evento comunicativo é o facto de, em ACD e LSF, estes serem conceptualizados não como agentes neutros, mas como atores ideológicos. Nas palavras de Josênia Vieira

37 Tradução minha do inglês: “I am a self only in relation to certain interlocutors (…) a self exists only

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(2002: 148): “Na concepção crítica, o sujeito não é apenas um agente do processo, mas um sujeito que é construído e que constrói os processos discursivos com base em seu carácter de ator ideológico”. Os agentes humanos, participantes de um evento discursivo, são seres sociais, isto é, estão enquadrados em processos e estruturas sociais, são fruto de uma socialização numa cultura específica ou em várias, orientados por ideologias e relações de poder. Estruturas linguísticas e práticas discursivas – como parte de processos sociais – propõem aos sujeitos posições ideologicamente mais ou menos marcadas que estes podem ou não assumir, condicionando assim a sua ação discursiva. Mas, ao mesmo tempo, os sujeitos desempenham um papel ativo na constituição destes mesmos processos, tendo o potencial para, com a sua ação discursiva, construir, desafiar ou manter as mesmas estruturas que condicionam a sua ação.

O contexto – em sentido lato – também inclui o próprio investigador. O papel do investigador na ACD difere, em grande medida, da sua posição noutros tipos de investigação não crítica. Ele torna-se um participante ativo (Edley & Litosseliti 2010), cujas vivências, experiências, expectativas e posicionamento ideológico influenciam a investigação em todas as suas etapas, da identificação de um problema social, através da escolha/formulação do quadro teórico e da constituição do corpus para análise, até à análise propriamente dita. Voltarei ao papel do investigador no âmbito do Capítulo 5.

Um projeto de carácter ideológico

Sendo a ACD frequentemente criticada pelo seu carácter abertamente posicionado, convém fazer notar que os analistas críticos não veem neste posicionamento um problema, mas sim uma inevitabilidade. A ACD reconhece que a muitas vezes aspirada neutralidade e objetividade científica é uma ilusão, porque todo o conhecimento é socialmente, historicamente e culturalmente construído e baseado em valores específicos de uma sociedade, cultura ou um momento histórico (Lazar 2005). Outra crítica possível de se fazer à ACD, que se relaciona com o posicionamento ideológico do investigador, é uma certa postura de superioridade assumida desse mesmo posicionamento. Se definirmos que o objetivo último da análise crítica das relações de género é uma sociedade justa e livre de opressão com base no género (Lazar 2005) – o que à partida é um objetivo louvável –, este objetivo é válido a partir de uma perspetiva ideológica específica, tendencialmente democrática e de esquerda, que tende a

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menosprezar outras perspetivas possíveis, nomeadamente aquelas associadas a valores tradicionais. Não vejo nenhum problema nesta posição ideológica, uma vez que a liberdade das pessoas em relação à escolha dos seus percursos de vida e respetivas identidades me parece um objetivo claramente mais válido do que manter as pessoas em estruturas que servem os interesses de alguns e não dão ao indivíduo liberdade para o desenvolvimento da sua individualidade. Se, após tomarem consciência das suas opções, os indivíduos escolherem caminhos de vida e identidades tradicionais, esta é claramente uma opção válida. Ela tem é de ter como fundamento o conhecimento de um maior leque possível de opções de construção das identidades.

Resumindo, em ACD o contexto em todas as suas dimensões não é encarado como neutro, ao contrário, por exemplo, do que se passa numa visão sociolinguística do problema, antes é reconhecido o seu carácter ideológico (Pedro 1997). Uma vez que todo o texto surge num contexto específico e é influenciado por este, todo o texto é inerentemente ideológico.

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