Um novo enquadramento epistemológico
Como pôr a falar quem se silenciou?
Estamos conscientes que esta task a nível metodológico é controversa e deveras exigente. De facto, fazendo nossas as palavras de Boaventura Sousa Santos, afirmamos que “há aqui realmente um elemento de incomensurabilidade ou de silêncio, de caos também, entre as diferentes formas de conhecimento. (Santos cit. in Nunes, 2005: 65)
A alternativa, porém, não se coloca pois é a continuação da situação de invisibilidade...
De facto a questão de “Como pôr a falar quem se silenciou?” (Nunes, 2005: 72), é “que é a grande questão.” (Santos cit. in Nunes, 2005: 72)
No seu artigo “Para uma sociologia das ausências e das emergências” o autor supracitado chama a atenção para o facto de “a experiência social em todo o mundo ser muito mais ampla e variada do que o que a tradição científica ou filosófica ocidental considera importante; e de, por essa razão, existir imensa riqueza social que está a ser desperdiçada.
Segundo o autor, para se combater este desperdício de experiência, para tornar visíveis as iniciativas e os movimentos alternativos e para lhes dar credibilidade, de pouco serve recorrer à experiência social tal como a conhecemos. (Santos, 2002b)
A sociologia das ausências proposta por Boaventura Sousa Santos “trata-se de uma investigação que visa mostrar que o que não-existe é, na verdade, activamente produzido como não existente, isto é, como uma alternativa não credível ao que existe. O objectivo da sociologia das ausências é transformar objectos impossíveis em possíveis e com base neles transformar as ausências em presenças.” (Santos, 2002b: 246)
Quando nos propomos a fazer entrevistas a surdos isolados esta afirmação funciona como música para os nossos ouvidos!
O autor aqui citado, seguindo a linha de Leibniz, considera que a produção das ausências se deve a uma razão indolente. Indolência essa, que se manifesta de 4 formas distintas:
- a razão impotente, a que nada faz contra uma necessidade exterior a ela própria;
- a razão arrogante, a que não sente necessidade de justificar-se porque se julga livre;
- a razão metonímica, a que se reivindica como sendo a única forma de racionalidade;
- a razão proléptica, que não se aplica a pensar no futuro como uma superação linear e infinita do presente.
(Santos, 2002b: 239 – 240)
Na sua linha de raciocínio a razão metonímica obcecada pela ideia de totalidade deixa muita de experiência de fora transformando-a em resíduo.
Esta transformação da experiência em resíduo assenta em cinco lógicas, identificadas pelo autor como as cinco lógicas ou modos de produção da não-
existência:
“A primeira lógica deriva da monocultura do saber e do rigor do saber. É o modo de produção da não-existência mais poderoso. Consiste na transformação da ciência moderna e da alta cultura em critérios únicos de saber e de qualidade estética respectivamente. (...) A não existência aqui assume a forma de ignorância ou de incultura.
A segunda lógica assenta na monocultura do tempo linear, a ideia de que a história tem sentido e direcção únicos e conhecidos. Esse sentido e essa direcção têm sido formulados de diversas formas nos últimos duzentos anos: progresso, revolução, modernização, desenvolvimento, crescimento, globalização. Comum a todas estas formulações é a ideia de o tempo é linear e de que na frente do tempo seguem os países centrais do sistema mundial e, com eles, os conhecimentos, as instituições e as formas de sociabilidade que neles dominam. Esta lógica produz não existência declarando atrasado tudo o que, segundo a norma temporal é asimétrico em relação ao que é considerado avançado. (...) neste caso a não-existência assume a forma de residualização que, (...) tem, ao longo dos últimos duzentos anos, adoptado várias significações, a primeira das quais foi primitivo, o pré-moderno, o simples, o obsoleto, o sub-desenvolvido.
A terceira lógica é a lógica da classificação social, que assenta na monocultura da naturalização as diferenças. Consiste na distribuição das populações por categorias que naturalizam as hierarquias. A classificação racial e a classificação sexual são as mais salientes manifestações desta lógica (...) A relação de dominação é a consequência e não a causa dessa hierarquia. (...) De acordo com esta lógica a não existência é produzida sob a forma de inferioridade insuperável porque natural. Quem é inferior, porque é insuperavelmente inferior, não pode ser uma alternativa credível a quem é superior.
A quarta lógica da produção de não-existência é a lógica da escala dominante. Nos termos desta lógica, a escala adoptada como primordial determina a irrelevância de todas as outras possíveis escalas. na modernidade ocidental, a escala dominante aparece sob duas formas principais: o universal e o global. (...) A globalização é a escala que nos últimos vinte anos adquiriu uma importância sem precedentes nos mais diversos campos sociais. (...) As entidades ou realidades definidas como particulares ou locais estão aprisionadas em escalas que as incapacitam de serem alternativas credíveis ao que existe de modo universal ou global.
Finalmente, a quinta lógica de não-existência é a lógica produtivista e assenta na monocultura dos critérios de produtividade capitalista. Nos termos desta lógica, o crescimento económico é um objectivo racional inquestionável e, como tal, inquestionável o critério de produtividade que mais bem serve esse objectivo. Esse critério aplica-se tanto à natureza como ao trabalho humano. (...) Segundo esta lógica, a não existência é produzida sobre a forma do improdutivo que, aplicada à natureza, é esterilidade e, aplicada ao trabalho, é preguiça ou desqualificação profissional.”
(Santos, 2002b: 247 - 248)
Para a consagração de uma razão cosmopolita o autor propõe três procedimentos sociológicos: a sociologia das ausências, a sociologia das emergências e o trabalho de tradução. (Santos, 2002b: 239)
O quadro seguinte, sintetiza e opõe as lógicas produtoras de ausência com as lógicas produtoras de presença.
Lógicas de Produção da não-existência Atitudes epistemológicas alternativas Lógica da monocultura do saber e do rigor
científico
Ecologia dos Saberes
A credibilidade contextual de outros saberes deve ser considerada suficiente para que estes possam participar nos debates epistemológicos, nomeadamente com o saber científico.
Lógica da monocultura do tempo linear
Trata-se da concepção adoptada pela modernidade ocidental a partir da secularização da escatologia judaico-cristã
Ecologia das temporalidades
A concepção de tempo linear deve ser considerada como uma entre muitas das outras concepções de temporalidade. As concepções do tempo circulares, como a doutrina do eterno retorno, ou mesmo outras que não se traduzem nem pela imagem de linha nem pela imagem de círculo, deverão ser consideradas.
Lógica da classificação social
A colonialidade do poder capitalista moderno e ocidental consiste em identificar diferença com desigualdade social ao mesmo tempo que se arroga o privilégio de determinar quem é diferente e quem é igual.
Ecologia dos Reconhecimentos
A sociologia das ausências confronta-se com a colonialidade procurando uma nova articulação entre o princípio da igualdade e princípio da diferença e abrindo espaço para a possibilidade de diferenças iguais.
Desconstrói a ideia de diferença e a ideia de hierarquia colocando as questões:
Em que medida a diferença é um produto da hierarquia?
Em que medida a hierarquia é um produto da diferença?
As diferenças que subsistem na ausência de hierarquia denunciam as diferenças produzidas para manter a hierarquia.
Lógica da escala global Ecologia das trans-escalas
Desglobalizar conceptualmente o local a fim de identificar o que nele não foi integrado na globalização hegemónica.
Ver em cada escala o que ela mostra e o que ela oculta.
Lógica produtivista Ecologia de produtividade
Recuperação e valorização dos sistemas alternativos de produção.
Aqui reside o domínio mais controverso da sociologia das ausências porque interferirá com o modelo de desenvolvimento e crescimento económico.
Quadro 5 – Lógicas Produtoras de Ausência Vs Lógicas Produtoras de Presença61
61 Este quadro não é da autoria de Boaventura Sousa Santos. Trata-se de uma espécie de mapa de
alternativas efectuado no sentido de visualizar melhor a sua proposta. Contudo, todo o texto que se encontra no mapa corresponde a ou a citações ou paráfrases do que o autor disse neste domínio desde a página 250 à página 253 do artigo que tem vindo a ser citado.
Para proceder à sociologia das ausências é necessário contrariar os modos de produção de não existência. “Em cada um dos cinco domínios o objectivo da sociologia das ausências é revelar a diversidade e multiplicidade das práticas sociais e credibilizar esse conjunto por contraposição à credibilidade exclusivista das práticas hegemónicas.” (Santos, 2002b:253).
Por outras palavras trata-se uma exposição das principais críticas do autor à razão metonímica e do lançamento das alternativas.
A ideia de ecologia encontra-se presente em todas as alternativas precisamente por remeter para a ideia de multiplicidade e de relação não destrutiva entre os agentes que compõem cada uma.
Praticando uma sociologia das ausências
Tomando como referência estas cinco lógicas ou modos de produção da não-
existência, sentimos automaticamente que o nosso objecto de estudo é vítima de
algumas delas, nomeadamente, as lógicas da classificação social e da escala global. Quando nos debruçamos sobre a constelação de relações sociais que atravessa a existência e produção de pessoas surdas isoladas, as questões que nos surgiram e as respostas que tentamos encontrar e que aqui têm sido expostas remetem para uma
ecologia dos reconhecimentos e para uma ecologia das trans-escalas.
Todas estas reflexões constituem exercícios que se enquadram na sociologia das ausências. Desde a desconstrução da escala dominante, à forma de definir o diferente e finalmente à verificação da necessidade de transgressão quando construímos a nossa forma epistemológica de abordagem.
De facto, ao considerarmos todas as opções que têm vindo a ser feitas e a reflexão que tem vindo a ser elaborada em torno delas vemos como, desde a escolha do objecto de estudo à metodologia de investigação, estamos perante uma prática enquadrada na sociologia das ausências.
Ao considerarmos a simples realização de uma entrevista biográfica junto de
pessoas surdas isoladas, e quando nos confrontamos com todas as questões que se
levantam creio que sentimos o que acontece quando se pratica efectivamente investigação com um objecto ausente.
Neste projecto, de um modo inconsciente e depois intuitivo começamos a praticar alguma sociologia das ausências.
As barreiras de comunicação e a toda a parafernália necessária para as ultrapassar coloca muitas dúvidas relativamente ao rigor e objectividade na recolha de dados. A alternativa porém, será qual?
Ao realizarmos um projecto de investigação desta natureza estamos a produzir discurso sobre o outro. Algo que tem que ser efectuado, acima de tudo, com rigor acima de tudo ético. Rigor ético esse, magistralmente traduzido na frase “Nada sobre sem nós”. (Nunes, 2005)
As questões não desaparecem porque não sabemos tratá-las.
Estão aqui perante nós com todas as suas possibilidades e potencialidades. E a crítica que Boaventura Sousa Santos faz à razão proléptica mostra-se bem aqui na questão da possibilidade e de quando experimentar a possibilidade. A razão proléptica leva-nos a acreditar no progresso natural que o infinito futuro nos oferece e com isso descuidamos o presente.
A crítica da razão proléptica proposta pelo autor leva-nos a substituir a axiologia do progresso, pela axiologia do cuidado.
Centrando-nos na sociologia das ausências esta axiologia do cuidado é exercida em relação à alternativas. Centrando-nos na sociologia das emergências a axiologia do cuidado será exercida em relação às alternativas possíveis. (Santos, 2002b).
“Enquanto a sociologia das ausências se move no campo das experiências sociais, a sociologia das emergências move-se no campo das expectativas sociais.” (Santos, 2002b: 257).
Quais os campos da sociologia das ausências e da sociologia das emergências?
“Enquanto a sociologia das ausências expande o domínio das experiências sociais já disponíveis, a sociologia das emergências expande o domínio das experiências sociais possíveis.” (Santos, 2002b: 258)
E quais os domínios das experiências sociais abrangidos por esta alternativa epistemológica?
Boaventura Sousa Santos define 5: as experiências de conhecimento; as
reconhecimento, as experiências de democracia e as experiências de comunicação e de informação. (Santos, 2002b, 259 – 260)
Mais uma vez se pensarmos no nosso projecto de investigação conseguimos sentimos alguma identificação com esta proposta epistemológica alternativa.
Se tivéssemos que situar o nosso objecto de estudo nestas novas sociologias propostas por Boaventura Sousa Santos, situa-lo-íamos no campo da sociologia das ausências. Se tivéssemos de caracterizar as experiências ausentes – residuais – que são abordadas através deste projecto de investigação situa-las-iamos no domínio das experiências de reconhecimento.
Consideramos interessante a coincidência de, na tentativa de abordar a realidade da experiência das pessoas surdas isoladas, nos tenhamos detido tanto na questão da tradução. De facto, o confronto com esta questão foi fundamental na forma como nos definimos politicamente na abordagem ao nosso objecto de estudo.
O confronto com a possibilidade de impronunciabilidade levou-nos a ir ao encontro, tal como Boaventura Sousa Santos, da questão da tradução como um desafio de hermenêutica diatópica.
Este exercício da hermenêutica diatópica está intimamente relacionado com a axiologia do cuidado e esta axiologia nada tem de neutra.
Bourdieu alerta para o facto de “neutralidade axiológica” ser erradamente identificada com a objectividade cientifica (Bourdieu, 2001: ix). Bourdieu apela ao
commitment da ciência:
“A tarefa mais urgente parece-me ser descobrir os meios materiais, económicos e, sobretudo organizacionais de incitar todos os investigadores competentes a unirem os seus esforços aos dos responsáveis militantes para a discussão e elaboração colectivas de um conjunto de análises e de propostas de progresso que hoje existem apenas no estado virtual de pensamentos privados e isolados” (Bourdieu, 2001: x)
E Boaventura Sousa Santos parece responder-lhe com a proposta de sociologia das ausências e das emergências.