• Aucun résultat trouvé

2.4 Processus multiples et ind´ ependants de m´ elanges ` a quatre ondes

3.1.2 G´ en´ eration de supercontinuum

O posterior trabalho do cantor, e último de nosso estudo, foi lançado oficialmente pelo selo da Ariola Discos Ltda., no final do mês de julho de 1982. O LP intitulado Mato Grosso11trazia em sua capa a figura do cantor seminu, apenas com um

tapa sexo e alguns adereços indígenas de posição frontal em baixo d’água, deitado sob o manguezal do pantanal mato-grossense, mas, segundo o artista, o título do LP não tinha nenhuma relação com o estado de Mato Grosso. Ney declara ao jornal O Globo:

11 Músicas: Alegria Carnaval (J. Aragão e N. Barros),Uai, Uai(Roberto De Carvalho e Rita Lee),Por

Debaixo dos Panos(Ceceu),Tanto Amar(Chico Buarque),Primeiro de Abril(A. Brasileiro e Roderiki),Não Faz Sentido(Pedrão, M. Sussekind e S. Araújo),Jonny Pirou (Johnny B. Good) Ch Berry (Vers: Leo Jaime e T. Paes),Promessas Demais(Z. Barreto, M. Moreira e Paulo Leminsky),Aquela Fera (Sá e Guarabira).Ficha Técnica: Direção Artística e Mixagem: Mazola,Técnico de Gravação:Andy P. Mills,Foto:Luis Fernando Borges da Fonseca,Coordenação Gráfica:J. C. Mello.

O Globo: O nome de seu novo disco é “Mato grosso”, mas as músicas não tem nenhuma relação aparente com seu Estado de origem. Por que o título, então?Ney Matogrosso: É “Mato grosso” no sentido literal do termo: mata espessa, mato grosso mesmo. Tinha na cabeça a imagem das florestas da minha terra, com grandes árvores, pássaros, flores. Só que a gente foi fotografar em plena estação das chuvas, o pantanal estava alagado, daí a gente – eu e o Luis Fernando, o fotógrafo - resolvemos curtir esse lado da água mesmo, as algas...quer dizer, no fim o que está na capa do disco é mato fino , e não o grosso. Mas não tem nenhuma relação com o Estado. (BAHIANA, 1982)

Fonte: Matogrosso site oficial (2006)

Figura 22 – Ney Matogrosso capa LP, 1982.

No encarte do LP em primeira página traz a foto do artista em foco

ampliada saindo de dentro d´água com adereços e pinturas indígenas. Em segunda página, figuras do cotidiano do pantanal-matogrossense são presentes nesse ensaio fotográfico, como a cachaça, a arara, cavalos, cachorros, meninos debulhando milho, rodas de fazendeiros conversando no alpendre de suas tradicionais casas. Somado a todo esse cenário existe a figura do avô paterno do cantor, montando em um cavalo saindo do manguezal, e a imagem do artista sentado em nu natural sem exibir suas genitálias com um cigarro acesso à beira rio. Dentro desse mesmo contexto em contraste com o cenário selvagem do pantanal, existe uma foto do cantor nos estúdios da gravadora Ariola entre seu produtor musical Mazola e o técnico de gravação.

Como em seu trabalho anterior intitulado Ney Matogrosso que tinha a música Homem com H de conotação ambígua, o LP Mato Grosso trouxe esse mesmo sentido dúbio como marca, porém estendido a outras canções. Ney comenta em O Globo: O repertório é o mais variado possível, exatamente como eu quis. Em comum com o título, talvez só mesmo esse bom humor, esse lado meio de duplo sentido, malicioso, porque mato grosso, assim, isolado, é um pouco malicioso, também (BAHIANA, 1982).

Esse caráter dúbio é encontrado em algumas músicas como nas canções Por

debaixo dos panos um forró de Cecéu que insinua em sua letra com uma certa malícia a

trama de interesses de nosso cenário político. Em Jonny Pirou uma versão da música Johnny B. Good de Chuck Berry que sugere em sua letra uma relação afetiva entre um executivo americano com um torcedor do Flamengo do Maracanã. Por último temos a canção Uai, Uai com melodia caipira composta por Rita Lee e Roberto de Carvalho. A letra insinua sutilmente a desordem e o caos político reinante em nosso país naquele momento.

A faixa Johnny B. Good de Chuck Berry com versão (Jonny Pirou) de Leo Jaime e Tavinho Paes foi censurada. A Folha de São Paulo notifica: “Houve problemas com a censura nessa faixa, que está proibida de tocar no rádio, na televisão ou em auto- falantes” (SOARES, 1982). A faixa Uai, Uai também foi censurada, sendo proibida sua execução em emissoras de rádio e TV. A Revista Veja notifica: “A melhor faixa disco, porém, é Uai Uai, de Rita Lee, proibida pela censura para execução em rádio e TV (SOUZA, 1982). Ney declara a Folha: “Esta música, por sinal, demorou muito a ser liberada pela censura.(...) Não faço militância política, não quero o poder de manipular as pessoas, eu quero apenas existir. (SOARES, 1982b)

A multiplicidade de ritmos e canções segue com Alegria Carnaval, um samba de Jorge Aragão e Nilton Barros, o som pop de Primeiro de Abril de Antônio Brasileiro e Antônio Hernandes, Não Faz Sentido de Pedro Baldanza, Promessas

Demais de Moraes Moreira, o ritmo rumbeiro de Aquela Fera da dupla Sá e Guarabira e a romântica canção intitulada Tanto Amar de Chico Buarque Holanda. A Folha de São Paulo, em manchete na coluna disco/crítica, afirma que o cantor chegou à perfeição há muito tempo perseguida. Segue texto: “ Nei chegou a perfeição em seus últimos discos, transformando-se num dos maiores cantores brasileiros.”(SOARES, 1982a)

Mesmo com o aumento de vendas após a entrada do cantor na Ariola Discos Ltda., o que lhe assegurou uma relativa independência frente as gravadoras e ao show

business, o artista ainda se mostra descontente em relação à sua autonomia perante os mesmos, sobretudo no que tange o número de elepês vendidos. O Jornal do Brasil publica:

A gravadora WEA, que Ney trocou pela atual, Ariola, exibe números que mostram, certo declínio do artista, em seus lançamentos de 78 (Feitiço 86 mil 245 Lps), 79 (Seu Tipo, 55 mil 346) e 80 (Sujeito Estranho, 42 mil 870). Mas, no ano passado, com o estouro da regravação de Homem com H, essa tendência modificou-se radicalmente. Foram vendidos 320 mil Lps e a

excursão mostro do cantor pelo país inteiro (90 shows) teve apoteoses temerárias. (SOUZA, 1982b)

Sobre esse episódio, em entrevista concedida ao jornalista Dirceu Soares da Folha de São Paulo, em 13 de novembro de 1982, Ney Matogrosso declara: “Sobre as gravadoras vou chiar sempre contra elas enquanto não for implantado o sistema de numeração de discos. Enquanto isso não for feito, não há como controlar a vendagem destes discos nas gravadoras” (SOARES, 1982b).

Acentuando essa questão da numeração dos elepês O Estado de São Paulo publica que apesar da aparente distância do mundo financeiro e político, o cantor Ney Matogrosso está atento à vendagem de seus discos. Ney declara ao Estado de São Paulo: “Não estou contente com o número apresentado para o meu LP anterior. Mas não há como provar o volume de vendas. Enquanto não houver lei que nos proteja, fica muito difícil. O ideal é que cada LP saído da fábrica fosse numerado”(COM A MAGIA, 1982). A insatisfação do artista com o sistema de vendas é reafirmada e estendida aos festivais de música, quando em entrevista ao jornalista Edmar Pereira Jornal da Tarde quando o cantor afirmou que não participava de festivais de música, porque segundo o artista não eram festivais de música, mas sim festivais promovidos pelas gravadoras. Ney declara: “Que graça tem participar de uma coisa quando se sabe desde o começo quais e quais gravadoras vão vencer, independente da qualidade das canções?” (PEREIRA, 1982).

A relatividade dessa autonomia faz-se notória ainda quando o artista demonstra que ainda tem um contrato a cumprir com as gravadoras, apesar de sua liberdade de repertório gravando músicas de seu agrado e não impostas pelo mercado. Dessa forma o artista declara ao Jornal da Tarde:

A única coisa que me dá prazer é o ato de cantar. O resto, as atribuições que cercam o cantor não me dão prazer algum. Eu não quero depender disso o resto da vida. Não quero ficar velho dependendo de um cachê da TV Globo, por exemplo. No próximo ano, não darei nenhum novo show e só gravarei um disco novo porque tenho um contrato estabelecido com a gravadora. E mesmo assim, só farei o disco depois de esgotar, todas as possibilidades desse show, para impedir que aconteça o que aconteceu no ano passado – no auge do espetáculo, fui obrigado a parar com o show, porque tinha que gravar um disco. (NEY VOLTA, 1982)

Entre o período de lançamento do LP Mato Grosso e a montagem do espetáculo que viria a levar o mesmo nome, o artista foi convidado a participar do

Festival de Montreux12, naSuíça. Como estava em período de montagem do show Mato

Grosso, não tendo ainda nada definido a ser apresentado, o cantor desembarcou na Suíça para participar do espetáculo apenas como espectador. Fato esse que não ocorreu, pois, convidado a participar, cantou duas músicas improvisadas. O Jornal da Tarde publica: “Esteve em Moutreux como espectador e acabou no palco, em noite muito brasileira, pra cantar duas músicas”. Ney declara: “Tinha brasileiro demais na platéia, não deu pra sacar como seria a reação dos suíços, eu me senti exatamente como num show aqui. Mas eles não me viram direito, eu nem estava vestido ou maquiado”.

A matéria continua insinuando que a ida do cantor ao Festival com suas indumentárias, poderia levar ao público a associar sua performance a imagem dos travestis brasileiros, devido os figurinos usados pelo cantor em cena. O jornal publica: “Vai com essas roupas a Moutreaux e Paris. Sabe que o lado exótico é sempre uma atração no estrangeiro. Um alerta (ou alarma?) poderão associar sua imagem, especialmente em Paris, à exportação do homossexualismo brasileiro (vide travestis no Bois de Boulogne)”. O cantor responde:

Vou fazer o que eu faço, sem nenhuma outra preocupação. Eles que entendam como quiserem. Fui de rumbeira a Buenos Aires em 1980, na época da mais sangrenta repressão. Acho que só me deixaram fazer o show porque o Figueiredo iria lá na semana seguinte e uma proibição pegaria mal. Mas meu trabalho foi muitíssimo bem recebido e entendido, os argentinos sacaram coisas sutis que muitos críticos brasileiros não percebiam. (NEY, 1982 apud PEREIRA, 1982)

Ao retornar da Suíça o artista empenhou-se na montagem do espetáculo

Mato Grosso afirmando que na próxima ida a Montreux iria participar efetivamente do

12 Montreux, Suíça: cidade com cerca de 22 mil habitantes, vista para os Alpes e banhada pelo lago

Leman, um lago que margeia, de um lado, a França, e de outro, a Suíça. A vista da chegada a Montreux é a vasta plantação de vinhedos, em toda a sua extensão. Em julho, época do Festival de Montreux, a cidade se veste de flores de todas as cores e os muitos patos e gansos do lago Leman, finalmente, respiram o verão depois de um rigoroso inverno. No início do mês de Julho, ainda podemos ver o fim da neve, em cima das montanhas. Mas no verão tudo é festa nessa cidade: esportes aquáticos, mochileiros dormindo nos imensos gramados bem cuidados, pequenas bandas de jazz por todas as praças e acontecimentos musicais no meio da rua. A cidade respira música. Pode acontecer de você entrar num bar de hotel e ter a grata surpresa de ver Hancock com Etta James. A primeira edição do Montreux Jazz Festival aconteceu em 1967, inspirado pelo suíço Claude Nobs, um cara que era filho de padeiro e gaitista amador de blues. Inicialmente, era um pequeno evento de três dias focado no jazz, mas, posteriormente, no início da década de 1970, abriu o leque incluindo soul, blues, gospel, rock, música africana, e passou a durar 15 dias. Somente em 1978 foi criada a noite brasileira e a MPB passou a ter uma noite específica, geralmente com lotação esgotada – tanto que a apresentação acabou sendo ampliada. Nessas suas décadas de existência, artistas de todo o mundo e de todos os estilos já se apresentavam na cidade suíça. (MAZZOLA, 2007, p. 119-20).

espetáculo e não mais como espectador fazendo uma pequena demonstração de seu trabalho. O cantor declara: “Que me aguardem próximo ano porque vou participar mesmo” (PEREIRA, 1982).