Encerrando temporada do espetáculo Mato Grosso no Teatro Anhembi, o artista preparou-se para apresentar-se no estádio do Morumbi, para um público estimado em 70 mil pessoas, uma empreitada ousada na época para cantores da MPB. Tais eventos que envolviam grande contingente de pessoas, só eram viáveis para atrações
15Em São Paulo, Ney Matogrosso fica em cartaz de 13 a 28 de novembro de 1982, no Palácio das
Convenções do Anhembi, de quinta a sábado, às 21 horas e domingo às 20 horas, e é acompanhado por Pisca (guitarra); Ricardo Cristaldi e Paulo Esteves (teclados); Pedrão (baixo); Sérgio Della Mônica (bateria); Chacal e Sérgio Boré (percussão); Bangala e Lino Magrão, Nonó e Bocato (sopros). Ingressos a Cr$ 2.500,00. Os ingressos já estão praticamente esgotados para esse final de semana (COM A MAGIA, 1982).
internacionais, como foi a apresentação da banda inglesa Queen no estádio do Morumbi e do cantor norte americano Frank Sinatra no estádio do Maracanã.
No entanto, o cantor Ney Matogrosso declara que sua apresentação no Morumbi, foi um lento processo que se desenvolveu aos poucos, iniciado no Maracanãzinho em um espetáculo para um público estimado de 30 mil pessoas. Uma preparação segundo o cantor, para que dessa maneira pudesse vir a atingir um público maior, estimado em 80 mil pessoas no estádio do Morumbi. Ele explica:
Claro que a todo momento tento colocar um dado novo, mas sem agredir ninguém. Se hoje posso, ou até sou obrigado, a ficar diante de cinco ou até 30 mil pessoas, como aconteceu no Maracanãzinho, é que venho preparando eles para isso durante esse tempo todo. Hoje fico mais à vontade, posso brincar, posso convidar as pessoas a se divertirem comigo durante uma hora ou duas. Eu sei que exerço uma grande atração sexual, gosto disso, gosto de sentir a platéia respondendo. Mas não tenho controle sobre essa atração a ponto de poder manipular com ela, sei apenas que acontece e quando acontece. (PEREIRA, 1981).
A Folha de São Paulo anuncia o espetáculo do cantor Ney Matogrosso em 18 de dezembro 1982. A Folha apresenta a seguinte manchete: “Um show cercado de
cuidados”, onde é explorada a atitude ousada do artista juntamente com o investimento do empresário Manoel Poladian em apresentar-se em um estádio de futebol com capacidade para 120 mil pessoas. A Folha publica que só Frank Sinatra, cantando no Maracanã, foi tão bem produzido. Continua matéria afirmando que o público que for assistir ao espetáculo no Morumbi será tratado com o respeito que merece.
A matéria ainda chama atenção para o fato do empresário Manoel Poladian vinculado ao Studio Um ter sido o responsável pela formalização do projeto de levar um grande cantor brasileiro a um estádio de futebol. Esse projeto segundo o empresário foi pensado a partir do show realizado pela banda Queen no estádio do Morumbi, em São Paulo e concretizado com o artista Ney Matogrosso.
Sobre a concretização de seu projeto escolhendo o cantor Ney Matogrosso para iniciar uma série de outros espetáculos com atrações nacionais, o empresário Manoel Polidian declara ao jornal A Folha de São Paulo: “Comecei a pensar nisso logo depois que o grupo Queen cantou no Morumbi”. Quando indagado pela Folha porque Ney Matogrosso para dar início a tal empreitada o empresário responde: “Ele tem um público grande, muito fiel. Além disso, é um excelente profissional. Ele nasceu para ir a frente.” (TAIAR, 1982).
Acerca da apresentação do cantor no Estádio do Morumbi, o Jornal da Tarde em edição publicada no dia 20 de dezembro de 1982, um dia posterior a realização do show, anuncia a seguinte manchete: “Ney. Delírio no Morumbi16. O ídolo, numa festa
para 70 mil pessoas”. Segue matéria:
Quando Ney Matogrosso pisou no palco envolto por uma nuvem de gelo seco colorida pelos refletores e por sons melodiosos, seus 70.000 admiradores começaram a se sentir gratificados por estarem no estádio do Morumbi, sábado. Nesse clima de festa e de aplausos é que Ney Matogrosso fez sua entrada triunfal. Praticamente nu – vestido apenas com um cachesex e ornamentado por numerosos adereços indígenas do Amazonas – ele deu início ao espetáculo cantando Metamorfose Ambulante. Nas arquibancadas repletas, as pessoas se comprimiam para dançar com alguma liberdade. Na pista (ou seja no gramado do Morumbi), sem grande visual ao palco, o povo se acotovelava e de vez em quando alguém desmaiava. (PEREIRA, 1982b)
Fonte: Matogrosso site oficial (2006)
Figura 25 – Ney Matogrosso show Mato Grosso (1982), Estádio do Morumbi-SP
O Jornal da Tarde prossegue com a matéria chamando a atenção para a multiplicidade do público do artista, que percorre várias gerações, indo desde presença marcante de uma senhora de 74 anos de idade, acompanhada de netos, até a presença da cantora Wanderléia que expõe o desejo de ter tido dentro do movimento musical da
16“Mato Grosso” no Morumbi – o show começa às 19 horas, com apresentação da banda Rádio Táxi. Ney
Matogrosso entra em cena às 20 horas. Os portões do estádio serão abertos às 15 horas. Os ingressos custam: Cr$ 300,00 – geral; Cr$ 500,00 – arquibancada; Cr$ 1.000,00 – cadeira; Cr$ 1.500,00 pista. A CTMC colocou 500 ônibus para servir as pessoas que forem ao Morumbi, com saída do Anhangabaú. A passagem custa Cr$ 100,00 (TAIAR, 1982).
Jovem Guarda, do qual participou, a presença de Ney Matogrosso. O Jornal da Tarde publica:
A partir do momento em que o telão parou definitivamente de transmitir as imagens do palco a multidão impaciente deu início ao empurra-empurra na pista. Quem agüentou bem esse tipo de pressão física foi Ana Vendramelli, 74 anos, 16 netos, uma senhora baixa que se agarrava com força às grades que dividiam a pista da área reservada para o palco. Tão animada quanto Dona Ana, só que com mais espaço pra dançar o tempo todo, a cantora Wanderléa cantou várias músicas de Ney Matogrosso. Wanderléa diz: Eu só fico imaginando se a nossa geração da (Jovem Guarda) tivesse tido um Ney também. O Ney é um revolucionário maravilhoso e eu o amo de paixão. (PEREIRA, 1982)
Em matéria publicada na Folha de São Paulo, em 20 de dezembro de 1982, com a manchete: “Publico menor para as vozes de Ney Matogrosso” é anunciada, em contrapartida ao Jornal da Tarde, uma platéia menor que a esperada para o show do artista no Morumbi. O Jornal da Tarde apontou para um público de 70 mil pessoas, a Folha estimou um público de um pouco mais de 40 mil pessoas.
Reforçando as controvérsias entre os dois meios de comunicação, a matéria veiculada por A Folha de São Paulo, continua apontando para a quebra de expectativas gerada em torno do espetáculo, quando são mencionados problemas de natureza técnica no transcorrer do mesmo. Foram indicados vários fatores como: o som que não atingiu a todos os locais, o telão com falhas da transmissão da imagem e, sobretudo o excesso de luz lançado pelos refletores do estádio sobre o público. A Folha ressalta que todos esses problemas foram minimizados, em função do profissionalismo do artista Ney Matogrosso. O jornal notifica:
Não foi propriamente um show à Frank Sinatra, como pretendia o empresário Manoel Polidian. Houve falhas, uma delas (o excesso de luz sobre o público, na hora mais quente) detectada pelo próprio Ney Matogrosso. Ney ressaltou ao microfone “a luz corta o barato”. O som que chegava à geral, onde se acomodava a maior parte do público, mais parecia uma emissão de rádio. E essas pessoas estavam privadas inclusive de acompanhar a performance do cantor. A derradeira falha da produção felizmente se revelou depois de ele ter deixado o palco: um conjunto de belíssimos fogos de artifício brilhou no céu, ainda com os holofotes acesos. Aí sim o barato foi cortado. Ainda assim, quem foi ao estádio do Morumbi no sábado à noite para ver “Mato Grosso” não se arrependeu do esforço: Ney esteve exuberante, soltou-se inteiro no palco e em nenhum momento deu mostras de temor diante da multidão de mais de 40 mil pessoas. (TAIAR, 1982)
Independente das contradições existentes dentro da mídia, o espetáculo realizado no Morumbi consolida o artista enquanto fenômeno de massa, sendo, nesse
sentido, a crítica unânime em seus comentários e manchetes. No entanto, mesmo estando no ápice de seu trajeto artístico, prevalecendo seu auto-empresariado pela Mato
Grosso Produções Artísticas, recebendo diversos prêmios da indústria fonográfica (disco de ouro), congratulações de melhor “show do ano”, recorde de público entre artistas da MPB e internacionais, projeção de sua imagem no exterior, entre outros atributos que o afastaram de sua condição de liminaridade perante o público e à mídia, a autonomia artística do canto faz-se notória, porém, essa permanece relativizada perante os poderes instituídos.
Para melhor situar essa questão da relatividade da autonomia artística do cantor perante tais poderes, atente-se, em especial, para a questão da continuidade dos problemas entre o artista e as gravadoras, quando esse teve que interromper a turnê, para gravar o disco seguinte, em função das imposições contratuais, bem como a problemática surgida pela numeração dos discos, ambas já analisadas no início desse item.
O espetáculo no Morumbi representa não somente a concretização do artista enquanto fenômeno de massa, tal evento aponta também para o limite imposto pela indústria do show bussiness à autonomia do artista, devido a impossibilidade da Mato
Grosso Produções poder empresariar sozinha tal evento. A firma do cantor não pôde à época empreender o evento, devido aos elevados encargos financeiros que um espetáculo de tal porte demandava. Dessa maneira teve de recorrer a outros setores do amplo e disputado mercado do show business. Em referência a essa grande produção envolvendo um investimento financeiro de alto valor, em que não pode ser bancado exclusivamente pelo cantor, a Folha de São Paulo publica:
O estádio do Morumbi se transformou desde a última segunda-feira, num verdadeiro acampamento. Quase 130 pessoas trabalham ali em tempo integral, revezando-se em equipes: 45 montadores de palco, 25 carpinteiros, 15 técnicos de som e 32 técnicos de eletricidade. Doze caminhões servem de transporte de material. E mais dez homens aplicam um impermeabilizante no gramado, que acomodará cerca de 15 por cento dos 120 mil espectadores previstos. (TAIAR, 1982)
Sobre esse grande investimento dentro do mercado de show business, o empresário Manoel Poladian, diretor da empresa de eventos Studio Um e responsável pela realização do espetáculo, declara ao jornal A Folha de São Paulo que no momento ainda não pode fazer uma avaliação dos valores gastos. Segundo o empresário esses
números só poderão ser avaliados alguns dias após o espetáculo, mas declara à Folha os valores já investidos em tal evento:
É impossível pensar em custos agora, só daqui a alguns dias. Foram gastos CR$ 500 mil com refeições, CR$ 2,5 milhões com a impressão de ingressos na Casa da Moeda e CR$ 5 milhões no revestimento do gramado. Os 800 seguranças custaram à Studio Um cerca de 4 milhões. O São Paulo Futebol Clube, proprietário do estádio, deverá ficar com 10% da renda. (TAIAR, 1982)
Dessa maneira podemos observar as entrelinhas da produção de grandes espetáculos, envolvendo trabalhadores, técnicos de som, músicos e todo um aparato tecnológico para realização de tal evento. Isso nos mostra que a autonomia artística do cantor é exercida dentro de algumas circunstâncias. A matéria continua mencionando os encargos econômicos e os aparatos tecnológicos que um grande evento requer dentro do universo do show business. A Folha de São Paulo publica:
O palco coberto onde Ney se apresentará tem dois elevadores, utilizados para acomodar nas duas laterais (equivalentes em altura a um prédio de seis andares cada uma) as 480 caixas de som e os 400 amplificadores de 400 watts por canal, o que equivale a um total de 160 mil watts. Do palco, que tem 500 metros quadrados, saem três passarelas, em frente às quais ficaram os jornalistas. Para a iluminação, serão utilizados 15 holofotes “Supertrouper”, 800 spots, além dos holofotes do Morumbi e um anti-aéreo, cedido pelo exército. Acima do palco um telão de 35 metros exibirá teipes sobre os momentos que antecedem a entrada de Ney: ele saindo do hotel, chegando ao estádio e preparando-se para cantar. (TAIAR, 1982)
Embora já patrocinando seus próprios espetáculos com recursos da
MatoGrosso Produções Artísticas, em alguns momentos da carreira do cantor ainda se fez necessária a figura do empresário, em especial no espetáculo do Morumbi, em que recorreu-se à produtora de eventos Studio Um, presidida, à época, pelo empresário Manoel Poladian. Fica assim demonstrada a não totalidade dessa autonomia artística do cantor, frente às imposições da indústria fonográfica e do show business.
Esse momento dentro do percurso artístico do cantor projetou-o em nível internacional na mídia e frente ao público em alguns países como Suíça, Portugal, França, Alemanha, Israel, Dinamarca. A Folha de São Paulo publica:
A caminho de Lisboa, onde tem contrato para quatro shows, Ney vê as possibilidades se ampliarem. Ainda não decidiu nada, mas é possível que um dia more seis meses no Brasil, seis fora. Tem convites para a Alemanha, Dinamarca, França; e também para voltar à Suíça e à Israel, onde agradou público e imprensa cantando em português.Uma semana antes da apresentação em Israel eu já era capa de revistas, coisa que não acontece aqui. Sei que agradei, e talvez a atração venha da estranheza. Nu, cheio de penas no corpo, sou aquela coisa exótica que eles imaginaram. Mas destacaram também a minha voz, trataram o trabalho com seriedade. Fora do Brasil isso acontece em todo lugar. Aqui parece existir uma determinada faixa da imprensa que não quer que dê certo. São uns três ou quatro veículos – e falo do Rio porque é lá que vivo – sempre dispostos a menosprezar o trabalho do artista e a dizer que ele não presta.”(NEY MATOGROSSO, 1983)
A conquista desse público no exterior, entretanto, não será objeto de análise no presente estudo. Examinaremos, sim, nos capítulos subseqüentes a multiplicidade do público do artista no Brasil. Estudo centrado nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Fortaleza, vislumbrando a relação estabelecida entre o artista Ney Matogrosso e seu público no período de 1975 a 1982.