O Decreto-Lei n° 18 234 de 22 de Abril de 1930, no art.28° atribuía como tarefas do reitor(a) a responsabilidade de « Velar para que todas as festas
escolares se não desviem dos intuitos rigorosamente educativos que têm em vista, impedindo as que perturbem a boa organização e regularidade dos serviços lectivos». Deste modo as festas realizadas pelas alunas, tal como todas as outras realizadas no Liceu, deveriam obedecer a critérios educativos e a reitora não negligenciou as suas obrigações.
As referências a festas de alunas não têm expressividade, surgiram referidas pela primeira vez no Relatório Geral do ano lectivo de 1948/49. Tiveram como suporte educativo as representações teatrais, danças e canções inspiradas nos autores estudados, como Gil Vicente95, classificadas, pela
Reitora, como sessões culturais96. Repetiram-se no ano lectivo seguinte para
as alunas do 2o, 3o ano e 4o anos, tendo como motivo os recitativos de poesias
em Português para o 3o ano e em Francês para os outros dois anos.
No ano lectivo de 1954/55 apresentaram-se as festas, promovidas pelas alunas, «com o intuito altruísta de proteger os pobres da "Conferência de S. Vicente de Paula" do nosso Liceu e angariar meios de contribuir para a Obra do Padre Américo, o Liceu levou a efeito uma festa em 7 de Maio, repetida no dia 11 do mesmo mês.» (Relatório Geral de 1954/55). Foi a festa de despedida das alunas do 7o ano mas envolvendo as de outros anos.
Ainda neste ano lectivo de 1954/55, levadas pelo mesmo entusiasmo altruísta, segundo a reitora, as alunas do 2o ano organizaram a tarde cultural do
1o Ciclo, no Salão de Música, «uma pequenina festa, preparada quase
exclusivamente por elas» (Relatório Geral de 1954/55). A reitora legitimou-a, não só através da justificação dos seus fins mas, também, pelo destaque que deu à iniciativa das alunas. Terminou salientando o facto de se ter realizado no último dia e ter sido preparada sem prejuízo das aulas, já que para o efeito as alunas aproveitaram as faltas dadas por algumas professoras.
Finalmente no ano lectivo de 1955/56 a festa de despedida das alunas do 7° ano, no cinema Odeon, cujo programação merece ser destacada, porque não nos parece inocente a escolha do tema, apresenta todos os lugares- comuns sobre o ideal de educação feminina, veiculado no Estado Novo. Ou
"No dia 2 de Abril, uma sessão cultural promovida pelas alunas do 5o ano, em que foi
representado o "Auto da Alma" de Gil Vicente e várias recitações"; No dia 17 de Junho as alunas do 6o ano realizaram no Liceu uma Sessão Cultural, ao ar livre, em que foram
representados alguns números de dança e canções, o "Auto do Purgatório" de Gil Vicente e o auto de Mofina Mendes. No dia 29 de Abril as alunas do 7o ano realizaram no Teatro Vale
Formoso a sua Festa de despedida, sob a orientação da professora Maria Rafaela Medina (4o
Grupo) e Maria de Lourdes Taveira (Educação Física), que deve ter tido como suporte a representação de factos históricos e/ou danças, a avaliar pelos grupos disciplinares a que as professoras pertenciam.
96 Não confundir com as "Sessões Culturais" de carácter obrigatório e amplamente abordadas
seja uma mulher com uma formação global, preparada para assumir as suas funções no lar e para o serviço social:
«Programa da Festa escolar das Finalistas:
- Algumas palavras por uma aluna do 7o ano;
- Orfeão do Liceu em 1) Boina - Boina, 2) Casebres Doirados, 3) Ave Maria, 4) Jimbilo (sic) de Mozart.
- Tema da Festa - Páginas soltas sobre a mulher
I) A mulher no Lar; Fantasia ilustrada por alunas do 1o ano - 1) Haverá
Fadas? 2) Uma história da Carochinha - Dança das Flores.
II) A mulher na economia -1) Dança popular portuguesa - 2) Dança popular sueca - 3) Corridinho do Algarve
III) A mulher na Arte - Número de Dança
IV) A mulher na Política, com o 2o acto da peça de Almeida Garrett,
Filipa de Vilhena
V) A mulher na Ciência - Diálogo por alunas do 7o ano
VI) A mulher na Sociologia com a "Lenda das Rosas"
Quadro final - homenagem de gratidão ao Liceu das alunas do 7o ano. »
Estas comemorações e festas escolares tiveram um claro objectivo educativo, a formação nacionalista, moral e cristã das alunas, visaram estender a sua acção no tempo e espaço, educando a sociedade.
3.3.4.5 O orfeão
O canto coral, enquanto prática colectiva, necessita de um líder e da cooperação de todos os seus membros. Assumiu um lugar, muito importante, na formação da juventude, como anteriormente referimos. Esteve na génese da fundação do Orfeão na Secção, dirigido inicialmente pela professora Rosa Hália, reunia semanalmente e teve o maior impacto no período imediato à aprovação da Reforma de Carneiro Pacheco, exteriorizado, em termos de circum-escolar, na série de conferências subordinadas ao tema "O canto Coral" em 1936/37 e na actuação de todas as alunas do 1o ciclo, por duas vezes, em
Fora isso o Orfeão do Liceu não parece ter desempenhado um papel mobilizador. As suas actuações restringiram-se às que estavam determinadas na lei, ou seja, actuava por alturas do Natal, na Comunhão Pascal e em todas as festas educativas realizadas ou em que o Liceu participava97.
Dos cânticos faziam parte o Hino Nacional e as temáticas relacionadas com a quadra em que se inseriam ou, no caso das festas nacionalistas, com temas como os que a Dra. Maria Aurora evoca: «Lembro-me até, já não sei em que comemoração foi, que o orfeão do Rainha Santa Isabel se juntou com o orfeão do Carolina Michaelis e fomos orientadas pelo maestro Afonso Valentim, sei que foi para uma festa da cidade e que nós íamos cantar era o "Porto amado - terra amiga":
"E por quanto vales e por quanto és
quem nasceu portuense é duas vezes português"
Era a quatro vozes, mas já não me recordo quando foi, pode ser até que tivesse sido em 1947, no meu último ano» (Entrevista: Anexo V).