a partir des spectres d’absorption
V.4.2 D´ epˆ ot par Drop-casting
A agroindústria, no oeste de Santa Catarina, surge na década de 50, como resultado da acumulação de capital de alguns comerciantes que faziam a intermediação entre o comércio de suínos vivos criados na região e o mercado consumidor de outras partes do país. A região já se destacava como produtor e fornecedor de suínos para agroindústrias do Paraná e São Paulo, principalmente. Diante da disponibilidade abundante de matéria-prima, alguns comerciantes viram na industrialização das carnes na região como uma boa alternativa de desenvolvimento.
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Valor adicionado é o valor que se adiciona a cada etapa do processo produtivo, ou seja, é riqueza gerada pela empresa através de seu processo de produção ou serviços (www.mct.gov.br).
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A consolidação do setor avícola, ultrapassando o suíno, se deu a partir da década de 60, com a crise pós-expansão industrial do período JK (1956-1961) (Espíndola, 1996). Com a crise, o poder aquisitivo da população brasileira baixa consideravelmente, ficando inviável o consumo de carne bovina diariamente (até então preferência do brasileiro), por ser um produto mais caro. Aproveitando do momento econômico, as agroindústrias começam a investir massivamente na produção de aves, tradicionalmente mais barata que a carne bovina (40% menos), inserindo no mercado uma opção mais barata para consumo de carne, mudando os hábitos dos brasileiros. Segundo Nogueira (1998, p.56), em 1970, um brasileiro consumia, em média, 2,3 kg de frango por ano, enquanto que em 1995 aumentou para 23,2 kg. É nessa época que é instalada a filial da Sadia em Chapecó, a primeira unidade da empresa para o beneficiamento de perus.
Outro fator que determinou o sucesso e a primazia de Santa Catarina, mais especificamente da região oeste e de Chapecó foi o envolvimento político das empresas com o Estado angariando recursos e incentivos para a produção de suas empresas. Durante as décadas de 70 e 80, que coincide com os mandatos dos empresários, donos das empresas agroindustriais, em cargos políticos nos governos ou em instituições estatais, as indústrias se beneficiaram de diversos incentivos e financiamentos criados pelo Estado para esse fim (Giese, 1991).
Essa prática de ocupação de postos-chaves na administração pública através dos próprios empresários ou por intermédio de funcionários, segundo Giese, foi estratégica para garantir o sucesso agroindustrial em Santa Catarina.
A atuação política cotidiana dos empresários agroindustriais, ou de técnicos atuando nas instâncias estaduais vinculadas ao meio rural e ideologicamente ligados aos empresários, foi um fator importante para a expansão de seus empreendimentos. Este setor industrial manifestou-se, além da atuação de “lobbistas”, através da ocupação de espaços e cargos políticos de forma direta. Dos cinco maiores grupos agroindustriais [Sadia, Perdigão, Chapecó, Aurora e Ceval], sem contar as cooperativas, aparentemente apenas um, a Ceval, não foi representada diretamente no legislativo ou executivo estaduais. (Giese, 1991, p.62). [As agroindústrias catarinenses] souberam não somente aproveitar os espaços abertos pelo poder público, como os próprios empresários desenvolveram estratégias de ocupação de postos-chaves na administração estadual visando a consolidação, ampliação e expansão de seus empreendimentos. (Giese, 1991, p.65).
A atuação dos empresários agroindustriais na política estatal se dá em órgãos como a Secretaria da Agricultura do governo do Estado, Secretaria da Fazenda (50), Secretaria dos Negócios do Oeste, Banco do Estado de Santa Catarina (BESC), além de postos importantes nos governos locais, estatais e mesmo federais.
De 1965 a 1970, a Secretaria da Agricultura do governo do Estado teve como secretário o diretor e acionista do grupo Sadia, Luiz Gabriel. De 1975 a 1979 essa secretaria foi assumida por um dos proprietários também do grupo Sadia, Vitor Fontana, que, durante o seu mandato, implantou órgãos como o CEPA (Instituto de Planejamento e Economia Agrícola de Santa Catarina), EMPASC (Empresa Catarinense de Pesquisa Agropecuária) e EMATER (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Santa Catarina), todas instituições destinadas ao desenvolvimento econômico do Estado e que tiveram na sua presidência pessoas com ligação com as agroindústrias (Giese, 1991).
No caso da atuação de empresários agroindustriais em postos governamentais, destaca-se o caso dos empresários Plínio Arlindo de Nes, proprietário da Chapecó Alimentos, e Attílio Fontana, proprietário da Sadia S/A. Plínio de Nes foi vereador do município de Chapecó de 1946 a 1955, prefeito de 1956 a 1961 e Secretário da Secretaria de Negócios do Oeste de 1969 a 1975. Attílio Fontana foi vereador da cidade de Concórdia (onde estava localizada sua empresa) de 1951 a 1954, deputado estadual de 1955 a 1958, deputado federal de 1959 a 1962, Secretário da Agricultura de 1961 a 1962, e senador de 1963-1971. Além dos dois empresários, ainda destaca-se o empresário Vitor Fontana, também um dos proprietários da Sadia, que foi secretário da Agricultura de 1975 a 1979, deputado estadual de 1979-1983, além de vice-governador de 1983-1986.
O envolvimento dos empresários em cargos governamentais possibilitou a criação de inúmeros programas de financiamento que foram decisivos para o desenvolvimento agroindustrial no Estado. É o caso, por exemplo, da criação do Sistema Nacional de Crédito Rural em 1965, do Fundo Geral para a Indústria e Agricultura (Funagri), Programa Agroindústria (Pagri) e PROCAPE (Programa Especial de Apoio à Capitalização de Empresas) em 1975, do PROFASC (Programa para o Desenvolvimento da Indústria de Suínos e Aves em Santa Catarina), em 1976, além de outros programas estaduais e federais que direcionavam a maior parte dos recursos dessas instâncias para as empresas agroindustriais de Santa Catarina em detrimento de outros setores (Nogueira, 1998, p.81- 86). Além disso, órgãos como o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul) acabava beneficiando o setor duplamente através de recursos destinados à indústria do setor privado e também ao setor rural (via programa de extensão rural). Segundo o Plano de Ação de 1976 a 1979 do BRDE (citado por Giese, 1991, p.72), 62% de todas as aplicações no setor primário destinaram-se à região oeste entre 1963 e 1980.
Este grupo [agroindustrial] conseguiu [...] manter um privilegiamento em termos econômicos face o poder estadual. Durante todo este período [década de 70], este setor manteve-se na liderança quanto à concessão de recursos [...]. (Giese, 1991, p.101).
Através destes financiamentos, muitas indústrias como a unidade Sadia em Chapecó, em 1973, foram montadas, assim como permitiu o reequipamento das fábricas que já existiam, garantindo a expansão e consolidação do setor em Santa Catarina (Ben, 2005, p.73). Muitas empresas também usaram dos investimentos públicos disponibilizados para criar ou comprar agroindústrias em todo o país, ampliando, assim, seu domínio também sobre outros mercados consumidores nacionais.
Além do direcionamento dos incentivos estatais para o setor agroindustrial citado, outro fator que foi essencial para o sucesso da produção agroindustrial na região e, principalmente, da indústria Sadia, em Chapecó, foi a organização do processo produtivo que essa empresa formou desde o início do seu funcionamento, na década de 50, envolvendo pequenos produtores rurais e a indústria em um sistema de parceria. É o chamado sistema de integração, que hoje, assim como em todo o período agroindustrial na região, é o grande responsável pelo êxito da produção agroindustrial. Nesse sistema ocorre um esquema normativo de parceria entre o pequeno produtor rural independente e a empresa, na qual o primeiro produz para a indústria e esta se compromete com o fornecimento de assistência técnica e de insumos para a produção (animais novos, vacinas, ração e outros). Ao agricultor cabe a responsabilidade de acompanhar a evolução tecnológica da empresa para alcançar o padrão de aceite do produto pela indústria para exportação. Com isso, a indústria nunca precisou ter áreas de criação e de produção da matéria-prima, mas construiu, devido à magnitude de sua produção, um monopólio e o controle sobre os pequenos produtores familiares, onde, só permanece no sistema de integração quem se associa à empresa e consegue manter os níveis de exigência da produção ditados por essa. Os demais são removidos do sistema, já que não tem para quem vender seus produtos. Os que não conseguem acompanhar o nível de normas e de investimentos exigidos pela indústria são obrigados a abandonar essa atividade produtiva e, muitas vezes, migram para a área urbana para tentar a sobrevivência que no campo não foi possível.
Com o sistema de integração, o prejuízo devido a qualquer variação na política econômica, ou uma crise cambial ou ocorrência de peste na criação acabam recaindo sobre o pequeno produtor rural familiar, e não sobre a empresa, já que esta se exime da responsabilidade de compra da matéria-prima em momentos de crise do consumo. A dificuldade em manter os níveis de investimentos tecnológicos na produção rural exigidos pelas agroindústrias também contribui para o êxodo rural-urbano que, se reduziu os custos de reprodução da força de trabalho e de produção industrial, gerou também o rebaixamento das condições de vida do trabalhador e a formação dos espaços de pobreza que se desenvolveram nas últimas décadas ao redor das indústrias e nas periferias de Chapecó.