III Les vésicules
NANOCAPSULE POLYMERSOME
III.4 Les vésicules catanioniques 1 Structure et propriétés
III.4.2 Pourquoi envisager ces systèmes dans le domaine de la vectorisation ?
“Na noite de 14 d’este mez, deu-se, em Bello Horizonte, um facto muito insignificante na apparencia, mas que póde ser origem de outros mais graves, e contra os quaes será diffícil redigir, sem o emprego violento da força; emprego muitas vezes legal, logico e inevitavel, mas que representa actos muito avêssos ao caracter brazileiro e á civilisação do nosso seculo”. Ocorrência: “Na rua dos Capões, deu-se o obito de uma mulher idosa e do povo e, como parece que é de praxe, reuniram-se, no seu quarto, varios homens e mulheres, para fazerem as honras de camara ardente á defunta, comendo, bebendo e cantando”.210
Incômodo, barulho, intolerância: “Cada qual deve entender a religião lá a seu modo e o processo de accompanhar o corpo do defunto, na noite do seu passamento, com comes e bebes, se bem que lembre um tanto as honras funebres dos ciganos, estaria comprehendido entre muitos outros, que merecem a mais absoluta e completa tolerancia”. Essa liberdade de expressão religiosa não deveria, contudo, às vistas do cronista, ser confundida com excessos, com a invasão do espaço público para a manifestação do luto. Os sons, ou barulhos da cantoria invadiam o arraial: “os cantos, porém, que echoam por portas afóra, já não podem ser classificados entre as liberdades religiosas de qualquer seita, porque constituem um attentado á liberdade dos outros, á que, a horas mortas da noite, tambem têm o incontestavel direito de repousar, na quietação do somno, pelo muito que mourejaram durante o dia”.211
Em um arraial, onde quase todos os habitantes são conhecidos entre si, compartilham as mesmas crenças, rituais e hábitos, passar a noite velando a “mulher idosa e do povo” é uma expressão de uma interdependência fortalecida.212 Esse ritual
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RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XVIII. Minas Geraes. Ano III, n.134, 20 de maio de 1894, p.3.
211 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XVIII. Minas Geraes. Ano III, n.134, 20 de
maio de 1894, p.3.
212 Nicolau Sevcenko (1998), ao analisar as mudanças e os impactos da tecnologia nos hábitos e costumes
da sociedade carioca nas primeiras décadas do século XX, observa como esse tempo de mudanças aceleradas favorece o “estiolamento das tradições e o afrouxamento das relações familiares,
não gera incômodos, intolerâncias. Porém, o arraial passaria a ser habitado por estrangeiros, estranhos àquela rede constituída. Nesse rearranjo social, novos comportamentos são exigidos, e, nesse bojo, a cisão entre espaço público e privado se consolida. Nada do que está no âmbito particular, como a expressão de uma crença, pode invadir a vida pública. O cronista, estrangeiro e estranho, incomodava-se com essa mescla presente no arraial: a ligação entre a vida pública e a vida privada ainda não havia sido rompida. Talvez nem houvesse essa diferenciação. O espaço da casa era público, assim como a rua permite comportamentos próprios do privado.
Alfredo Camarate, com sua crônica, nesse caso, com um tom jornalístico e pedagógico, queria intervir no espaço que se reordenava. Ele alertava sobre a necessidade de contenção de determinados comportamentos, principalmente daqueles que deveriam se restringir ao espaço privado, do íntimo. Camarate sugeria que, em uma grande cidade, o espaço público é alvo de constante vigilância, seja por uma pressão mútua entre os habitantes, seja devido à presença de uma força externa, legítima, que impede, ou tenta intermediar a relação dos sujeitos, tolhendo liberdades.
O silêncio, apesar de não fazer parte da vida citadina, composta por ruídos, gritos, palavras e sons diversos, é muitas vezes almejado, tido como valor. O silêncio se torna uma condição, principalmente na noite, momento de descanso daqueles que trabalham ao longo do dia. O barulho pode denunciar a desordem, a falta de regras, os comportamentos pouco civilizados e indesejados. Tanto é que a voz tênue, baixa é associada a uma boa educação, à urbanidade.
Essa condição do silêncio noturno é apresentada com o tom recriminador da crônica que não se baseia no incômodo sentido pelo próprio cronista, mas toma como exemplo o aborrecimento de outro morador assim definido: “Um visinho da casa mortuaria, moço trabalhador, zeloso cumpridor dos deveres e que tem por norma entrar cêdo na repartição, depois de muito bem banhado, escovado e almoçado, começou, por volta de meia noite, a embirrar com o eterno e atroador cantico de defuntos; levantou-se, vestiu-se e curtindo um frio de lavar couro e cabelo, foi-se pela rua em fora, á cata da auctoridade, representada por um capitão da policia de Sabará
do isolamento, da configuração de papéis sociais em substituição às relações afetivas e a relevância das mercadorias e objetos nas relações sociais. Queremos com essa interpretação sinalizar “o modo pelo qual
a experiência de viver nas grandes cidades modernas, planejadas em função de novos fluxos energéticos e marcadas pela onipresença das novas técnicas, influencia e altera drasticamente a sensibilidade e os estados de disposição dos seus habitantes” (p.522). A partir desse interesse, pensamos sobre o processo
de urbanização de um arraial e como a introdução da tecnologia pode interferir nas relações estabelecidas, nos modos de vida, no “estado de espírito”, mediados por novos meios de comunicação, de transporte e que fazem da modernidade uma “experiência existencial e íntima”.
e que, em Bello Horizonte, exerce as funcções de delegado”.213 É interessante que a qualificação do vizinho da defunta carregue também vestígios de uma qualificação dos moradores do arraial. O moço trabalhador, zeloso e cumpridor de seus deveres não poderia ser incomodado pelos sons provenientes de uma casa onde se reuniam outros habitantes. Alfredo Camarate reclama uma civilidade e um respeito ao outro que escolheu não estar naquele lugar, velando a defunta.
A autoridade foi reclamada para intermediar o incomodado e os incomodantes: “A auctoridade policial attendeu á queixa do moço, com toda a attenção e cortezia foi logo ao local indicado, acompanhando-se de duas praças e, por meios brandos, ordenou que cessasse a cantoria, allegando que as rézas já devam ter feito mais do que o necessario, pela alma da pobre velha, que não constava estar assoberbada pela carga de grandes pecados mortaes ou mesmo veniaes!”. O objetivo da patrulha policial era por fim no barulho incômodo que invadia a janela alheia: “O côro funebre pôz, portanto, ponto final na sua elegia, representada por uma melodia mais ou menos plangente, cantada em intervallos de terceiras, sextas e algumas quintas á mistura; quintas, que arripiariam um severo mestre de contra-ponto, mas que tinham, como attenuante, o facto de não serem commettidas com premeditação”. Cessados os ruídos, tudo voltava à normalidade: “o capitão-delegado foi para sua estação e o moço foi ver se assignava o ponto do somno, a horas de não levar falta e desconto no ordenado”.214
O que essa crônica expressa e nos ajuda a perceber é a constituição de padrões de comportamentos considerados legítimos pelo grupo social quando a sociedade se complexifica com o embrenhamento de estrangeiros na rede de relações com a crescente urbanização. Como ressalta Revel (1991), “(...) os procedimentos de controle social tornam-se mais severos, através das formas educativas, da gestão das almas e dos corpos, encerram o indivíduo numa rede de vigilância cada vez mais compacta” (p.170). Dessa coerção sobre o espaço público também se constituem, à margem da vida coletiva, espaços protegidos da vigilância exercida pelo outro, como o doméstico ou o familiar. Esses dois movimentos, apesar de opostos, compõem duas faces inseparáveis do processo de divórcio entre público e privado. Apesar de soar contraditório, o processo de publicização das vidas e o movimento da exposição pública são
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RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XVIII. Minas Geraes. Ano III, n.134, 20 de maio de 1894, p.3.
214 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XVIII. Minas Geraes. Ano III, n.134, 20 de
acompanhados pela crescente individualização. Contudo, ambos os processos se encontram ou mesmo são forças motrizes para o realce do controle sobre corpos e comportamentos.
No arraial, essa cisão ainda é superficial, e a resistência a tal processo se expressa com a continuidade do ritual fúnebre: “Mas, um quarto de hora depois, recomeçou o côro de carpideiros, e o moço que já estava dormindo apenas com um dos olhos fechados, como dizem que dormem as lebres, atirou com os lençóes por ares e ventos, enfiou-se de novo na roupa e nas botas e foi elle de novo para a estação, que já lhe ia parecendo uma verdadeira estação de Calvario”. A força policial foi mais uma vez solicitada: “O delegado ficou furioso com a reincidencia dos cultores do de profundis, chamou uma praça e ordenou-lhe que fosse immediatamente a casa da defunta, para intimar de novo os cantores que se calassem; se não, que os metia na estação ou em cacête!”.215 A força policial, no entanto, não conseguiu tolher a manifestação religiosa, que permaneceu por toda noite ainda mais eloquente, mais sonora. Essa resistência às determinações policiais poderia denotar uma solidariedade e uma coesão entre os habitantes do arraial? E os próprios praças estavam certos da necessidade de coibir a cantoria? Para Alfredo Camarate,
Neste ponto, divergem os auctores. A praça foi e o côro calou-se... Mas recomeçou outra vez.
E então é que choveram ave-marias, bemditos, padre-nossos,
ladainhas, orações especiais para allivio e conchêgo das almas dos mortos em peccado, etc., etc, e tudo por musica; ave-marias, bemditos, padre-nossos, ladainhas, orações especiais e até os etc., etc.!
Foi um desengaçar de nénias lacrimosas, por sopranos, contraltos, tenores, barytonos e baixos, que se prolongou até as horas frescas e orvalhadas da rouxa e tremula aurora!
E a auctoridade?
Dormiu ou cedeu; o que, para o caso vertente, deu como resultante um exemplo pernicioso, para a futura ordem e disciplina na nova capital.216
Alfredo Camarate elaborou uma metáfora para mostrar a necessidade de conter os excessos cometidos pelos habitantes. Ele apontou para uma exigência imposta pela grande cidade e pela convivência entre estranhos. Se no arraial, de poucas ruas, poucos moradores, poucos espaços de convivência, todos eram conhecidos, e a convivência era
215 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XVIII. Minas Geraes. Ano III, n.134, 20 de
maio de 1894, p.3.
216 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XVIII. Minas Geraes. Ano III, n.134, 20 de
facilitada, a chegada de “elementos estranhos” e a multiplicação da população traziam novas exigências. Se a vigília do olho, posta entre aqueles conhecidos, diminuía a possibilidade de excessos e contravenções, agora era necessário outro olhar, externo, estranho, para regular a vida, como observa o viajante: “Outra cousa supponho desde já necessaria, e essa supposição deriva exclusivamente da minha impressão pessoal: é haver aqui uma força policial, não para manter a ordem na povoação, porque, aqui, a gente é boa, ordeira e cortez para com todos; mas para manter em respeito os que, pela sizania e intriga, com fins inconfessaveis, pretendam inimisar os que estavam com os que chegaram”.217
Para governar a cidade nascente e torná-la habitável, eram necessárias regras; era preciso prescrever comportamentos, mediar relações com o outro e com o espaço da cidade. Era, enfim, necessário pedagogizar a cidade, educar seus cidadãos, ou melhor, o povo, tal como escreveu o cronista: “Ninguem mais do que respeita o povo, essa volumosa massa, que as liberdades modernas ampliaram por tal modo, que todos atualmente são povo ou pretendem sê-lo e assim se formou, real ou aparentemente, a democracia, que repousa, real ou aparentemente também na igualdade e fraternidade. Mas, eu, apesar de me considerar homem do povo, em toda a acepção da palavra, nem por isso desconheço os pecados e defeitos do povo, que são também defeitos e pecados meus”.218 A metáfora, elaborada pelo cronista, expressava a necessidade dessa educação para o público:
O povo é o barro mais plástico, que tem produzido a terra; é dúctil a todas as exigências da modelação, é obediente a todos os caprichos do escultor; mas, como barro que é, precisa ser desde o começo comprimido na sua estrutura interna; por que balofa que ela fique, todas as demais camadas sobrepostas repousam em falso e a estátua derroca, amais pequena oscilação da temperatura; porque assenta no vácuo ou num espaço que não resiste aos empuxos, que se originam da sua própria plasticidade. Se, ao núcleo de habitantes que vai formar essa futura capital, se aplicasse, desde logo a ação prudente e enérgica da autoridade, a futura capital, essa colossal estátua de barro, dúctil, e maleável, porque será feita de elemento mais maleável e dúctil, o homem, ficaria desde princípio, assente em sólido miolo e as deslocações e movimentos das suas futuras camadas externas já não fariam perigar a sua geram solidez; porque tinha, pór esteio resistente, o seu bem conformado e disciplinado centro.219
217 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles VII. Minas Geraes. Ano III, n.91, 5 de abril
de 1894, p.2.
218 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XVIII. Minas Geraes. Ano III, n.134, 20 de
maio de 1894, p.3.
219 RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XVIII. Minas Geraes. Ano III, n.134, 20 de
A disciplina, imposta desde o nascedouro da cidade e mesmo no período de sua gestação, seria, para Alfredo Camarate, a receita para uma cidade civilizada, controlada. Contrariando essa concepção, segundo a qual o povo poderia ser moldado, assim como o barro pode ganhar uma forma por meio de um trabalho de uma mão “externa”, o que se viu, no “caso da defunta”, foi o povo assumir a dita “liberdade” e resistir à imposição da força policial e à reprovação de um co-cidadão. Falando disso, Alfredo Camarate expressou sua insatisfação: “Mas deu-se exatamente o caso oposto; o povo é quem venceu e nestas surtidas contra a disciplina, como em todas as coisas deste mundo, iln’y a que Le premier pás qui coúte o amanha, a autoridade será novamente desobedecida, depois de amanha desrespeitada, no dia seguinte vaiada, se não apedrejada!”.220 Sobre a cidade ideal, o viajante comentou: “sempre entendi, como melhores locais para viver ou as cidade mais completas e perfeitamente policiadas, ou então, aquelas em que se encontra o mais pequeno agente armado”. Saindo desse padrão: “uma cidade, com polícia sem força ou sem prestígio, é um ninho de desordens e conflitos e na qual apanham, entre as duas partes beligerantes, aqueles que ficam no meio!”.221
Essa diferenciação entre espaço público e privado na vigília e no disciplinamento do povo por forças “externas” pode ser vista como parte de um processo de constituição de um autocontrole que implica a implantação e a reprodução de normas sociais, a interiorização individual das regras e, finalmente, a mudança de comportamentos. Para Revel, “A disciplina coletiva torna-se, assim, objeto de uma gestão pessoal e privada” (1991, p.170). Só há incômodo com o comportamento do outro quando esta cisão entre público e privado se consolida. Incutir uma atitude sociável, tarefa de múltiplas instituições, como a escola, a polícia, o estado e a família, passa por uma dimensão coercitiva, mas que tem, por fim, implantar um trabalho sobre si, em relação ao outro.