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Environmental and social considerations in the World Bank safeguards for

Chapter I. Multilateral Development Banks’ Social and Environmental

2. Environmental and social conditionality in IBRD and IDA

2.1. Environmental and social considerations in the World Bank safeguards for

de índole terapêutica, “o mais curativo dos prazeres”. Como deixou registrado no seu Cânone Ocidental:

Sinto-me bastante só nestes dias ao defender a autonomia do estético, mas sua melhor defesa é a experiência de ler o Rei Lear e depois ver uma boa encenação da obra. O Rei Lear não deriva de uma crise na filosofia, nem seu poder pode ser reduzido a uma mistificação promovida de alguma maneira por instituições burguesas. É uma marca da degeneração do estudo literário que se considere alguém excêntrico por defender que a literatura não depende do filosófico, e que o estético é irredutível a uma ideologia ou metafísica. A crítica estética nos regressa à autonomia da literatura imaginativa e à soberania da alma solitária; o leitor não como uma pessoa em sociedade, mas como o “eu” profundo, nossa interioridade última (BLOOM, 1994, pág. 19).

Assim, o individualismo estético de Bloom é um convite à autorreflexão, ao ideal humanista de autoformação (Bildung) e uma forma de enfrentar a natureza contingente da existência humana com mais, digamos, sabedoria, para resgatar um termo de conotação humanista frequentemente utilizado por Bloom e que vinha sendo ironizado e desprezado por diversas correntes da teoria literária.

A “autonomia do estético” em Bloom não remete a uma simples volta ao ideal da arte pela arte, justamente por sua visão pragmatista, próxima da perspectiva rortyana: a dimensão estética se amplia e passa a abarcar também o âmbito da vida ética, pois a experiência artística não é algo que se possa compartimentar em categorias estanques.

6.4. Reflexões para uma crítica humanista em nosso

tempo

“Sem dúvida, há muitas outras maneiras de ler, mas prefiro o método de Emerson, que é retirar aquilo que nos pertence, onde quer que o achado se encontre” (Harold Bloom, Onde encontrar a sabedoria?)

Acredito que um estudo comparativo mais detalhado a respeito dos pensamentos de Richard Rorty e Harold Bloom poderia fornecer valiosas sugestões aos debates contemporâneos sobre a natureza e o papel da literatura e da crítica literária. Contudo, dentro dos objetivos desta tese, pretendi aqui somente apresentar algumas reflexões e analogias que relacionassem as perspectivas de ambos a certas características presentes na forma particular da tradição intelectual humanista que tenho apresentado neste estudo, enfatizando, nessas comparações analógicas, o caráter de atualidade dessa tradição.

Quando Rorty defende, a partir de sua concepção neopragmatista, uma forma de crítica literária e cultural que se conecte com as preocupações humanas, com a história e com os valores morais, ele assume uma visão que dialoga diretamente com a herança humanista, ainda que esteja, obviamente (em se tratando de um pensador pós-moderno), muito distante do humanismo essencialista tradicional. Em Harold Bloom, por outro lado, em sua defesa do personalismo crítico e do gozo estético individualista, baseados na formação individual do gosto, igualmente encontramos uma aproximação evidente a valores e formas humanísticos. Bloom e Rorty interessam também aos objetivos deste trabalho porque são pensadores contemporâneos que padeceram daquele fenômeno que poderia ser descrito como uma “ressaca teórica”, mencionado anteriormente, e que estabeleceram uma relação agônica com a tradição intelectual em que se formaram e na qual estavam inseridos. Numa época marcada pelo predomínio de formulações teóricas anti- humanistas, ambos buscaram, cada uma a seu modo, caminhos alternativos.

Segundo o próprio Harold Bloom, a maior “diferença” entre ele e Richard Rorty é que, enquanto que, para o filósofo, a formulação de que “todos os vocabulários descritivos são mortais” se deveria ao pensador pragmatista

William James, para o crítico literário a concepção provém do ensaísta e poeta Ralph Waldo Emerson. Em comum, pode-se dizer que os dois apresentam uma profunda desconfiança em relação ao alcance das elaborações teóricas: “Mas

Dom Quixote, à semelhança do que há de melhor em Shakespeare, resiste a

qualquer abordagem teórica, às melhores e às piores” (BLOOM, 2005, pág. 106). Uma das preocupações centrais de Bloom em suas últimas obras é justamente a de advertir o leitor comum a respeito da estreiteza e das limitações de abordagens críticas formalistas, desconstrucionistas ou as que priorizam aspectos ideológicos e políticos (como nos Estudos Culturais).

O pensamento pós-analítico e pós-filosófico de Richard Rorty pode assumir uma outra função preventiva muito interessante no âmbito dos estudos literários acadêmicos e na crítica literária em geral: suas reflexões críticas funcionam como uma advertência contra certas pretensões cientificistas da filosofia e, por consequência, das teorias literárias em geral. Os usos e objetivos humanos num ato interpretativo – como na crítica literária – extrapolam a noção moderna de verdade como correspondência; o objetivo da crítica não é, pois, "a verdade", mas simplesmente continuar e enriquecer a grande e interminável conversação que é a cultura humana. A crítica só pode dizer “verdades” se entendermos essa palavra numa acepção humanístico- pragmática e não, como faz a filosofia racionalista tradicional, entendendo a verdade como certeza e como correspondência – espelho da natureza, para usar o termo empregado por Richard Rorty. A tradição humanista a que nos referimos uma e outra vez neste estudo entende a verdade como uma analogia bem sucedida, uma metáfora criativa que, preservando uma concepção realista da linguagem e salvaguardando seu poder de referencialidade, abre uma nova compreensão para algo inaudito; uma nova forma de ver ou de valorar.

Para o neopragmatista, devemos abandonar de uma vez por todas a busca por uma teoria geral da representação ou por uma teoria geral da linguagem; da mesma forma, transladando essa concepção ao âmbito literário, também deveríamos desobrigar-nos das sucessivas tentativas de criar uma teoria geral exclusivista da interpretação e da crítica literárias, ou da busca de uma metodologia monista e definitiva: a crítica é uma atividade plural e que atende a diversas demandas e objetivos.

Umas das proposições centrais do Tratactus logicus-philosophicus de Wittgenstein é a de que “ainda quando todas as possíveis questões científicas tenham recebido respostas, nossos problemas vitais não teriam sido sequer minimamente tocados” (WITTGENSTEIN, 2009, pág. 137, prop. 6.52). Da mesma maneira, para Rorty, “A filosofia analítica, por razão de seu puro formalismo, não pode contribuir em nada à realização de nossa existência” (RORTY, 2009, pág. 191). Em resumo, “Quanto mais ‘científica’ e ‘rigorosa’ ficava a filosofia, menos ela se relacionava com o resto da cultura” (RORTY, 2009, pág. 14). Tal problemática pode ser relacionada claramente com a tensão que se estabeleceu no âmbito dos estudos literários entre a Teoria da Literatura, constituída como disciplina acadêmica altamente especializada, e a prática da crítica literária voltada para um público amplo e não especializado: as diversas teorias literárias, com seus métodos e jargões só compreendidos por “iniciados”, passaram cada vez mais a responder quase que exclusivamente às suas demandas internas, e se afastaram muitas vezes da noção de crítica como atividade pública, que deve oferecer respostas aos problemas que nos aparecem na existência concreta, ainda que sejam respostas provisórias, contingentes, imperfeitas...

Enfim, a literatura, para um crítico como Harold Bloom, assim como no pensamento de R. Rorty, revela uma função de caráter vital e pragmático, e assume um lugar privilegiado na criação de nossas visões de mundo e de nossos valores vitais: “Só leio Hume e Wittgenstein quando estou interessado em pesquisar aforismos interessantes, mas recorro, incessantemente, a Shakespeare, em busca de verdade, força, beleza e, principalmente, pessoas” (Ibidem, pág. 49). A noção de verdade que aparece na citação acima está claramente muito distante daquela concepção de verdade objetiva do conhecimento epistemológico: “Pensar para Hegel, é uma coisa; para Goethe, é outra, bem diferente. Hegel não é um escritor da sapiência; Goethe, sim” (BLOOM, 2005, pág. 121). Tal diferenciação remete à antiga querela entre poesia e filosofia, tema que nunca deixou de suscitar polêmica. Proponho agora uma analogia entre essa diferenciação proposta por Bloom e as definições rortyanas de poesia e de filosofia: poesia seria o “esforço para lograr autocriação mediante o reconhecimento da contingência”, enquanto que

filosofia, em sua concepção tradicional, seria “o esforço para alcançar a universalidade mediante a transcendência da contingência” (RORTY, 1990, pág. 10). Essa tensão entre duas formas de compreender o mundo – uma poética e outra filosófica – atravessa o pensamento ocidental e atinge um grau inaudito em Hegel e, particularmente, em Nietzsche; mas podemos encontrar um conflito intelectual da mesma natureza quando nos remetemos a Platão, em sua República, advertindo sobre o dano irreversível que o poeta traria à cidade perfeita e justa, de acordo com a universalidade das ideias: “E no momento que recebais nela as musas voluptuosas, sejam épicas, sejam líricas, o prazer e a dor reinarão no vosso Estado no lugar da lei e da razão” (PLATÃO, 1993, pág. 607).68

Rorty acredita que os pensadores mais relevantes de nossa época foram aqueles que seguiram o impulso poético dos românticos, rompendo com Platão e “vendo a liberdade como reconhecimento da contingencia”; e os pós- nietzscheanos como Wittgenstein e Heidegger, que fizeram filosofia para “fazer patente a universalidade e a necessidade do individual e do contingente” (RORTY, 1990, pág. 10).

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II

“PÁJAROS INTERIORES”

O humanismo de Ortega y Gasset e suas

7. NOTA PRELIMINAR

Nesta parte do estudo, pretendo me deter mais especificamente na figura do filósofo espanhol José Ortega y Gasset e em suas possíveis contribuições práticas e teóricas à crítica literária do nosso tempo. Diversos autores já trataram da centralidade que a literatura assume no pensamento e no estilo orteguiano; outros estudiosos, inclusive, já investigaram especificamente seu labor como crítico literário e suas concepções a respeito da crítica;69 assim, minha proposta aqui não é simplesmente a de repetir os caminhos de trabalhos já muito bem realizados, senão apresentar, a partir de uma leitura crítica das obras de Ortega, uma visão particular a respeito de três pontos fundamentais: (1) as concepções que o filósofo desenvolveu sobre a crítica literária em diferentes períodos de sua vida; (2) a possibilidade de localizar o pensamento do filósofo dentro da tradição humanista e relacioná-lo com questões de crítica e teoria literária; e (3) a compreensão de que um novo olhar lançado ao ideário e à prática crítica de Ortega y Gasset poderia contribuir para uma revalorização do papel da crítica literária na atualidade, especialmente aquela destinada à publicação na grande imprensa e dirigida a um público geral e não especializado70, que não está necessariamente interessado em filigranas teóricas.

Uma última advertência ainda se faz necessária: não faz parte dos objetivos destas reflexões negar a importância e as contribuições da Teoria Literária e, muito menos, da crítica universitária (o que seria, estupidamente,

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O mais recente trabalho específico sobre o tema está em: BLANCO ALFONSO, I.: El

periodismo de José Ortega y Gasset, Madrid, Biblioteca Nueva – Fundación José Ortega y

Gasset, 2005. Nessa obra há um capítulo em que se analisa de forma muito esquemática e detalhada os modelos, formas e estilos da crítica literária de Ortega nas diversas fases de sua vida intelectual. Para outros estudos diretamente relacionados ao tema da crítica literária em Ortega y Gasset, ver: AYALA, F.: “Ortega y Gasset, crítico literario”, Revista de Occidente, 2º época, Nº140, noviembre de 1974, págs. 214-235; MORILLAS, J. L.: “Ortega y Gasset y la crítica literaria”, Cuadernos Americanos (México), XVI, mayo-junio de 1957, págs. 97-106; GULLÓN, R.: “Ortega, crítico literario”, Sur, Nº241, julio-agosto de 1956; y INMAN FOX, E.: “Ortega como crítico: literatura y la crisis de la cultura”, en: VV. AA., Ortega y Gasset

Centennial. Ediciones José Porrúa Turanzas, Madrid, 1985, págs. 139-148.

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A descentralização e a nova configuração da crítica literária promovida pelos novos meios virtuais de comunicação não parece haver decretado o fim da figura do crítico de literatura como mediador cultural. Essa opinião pessoal, para ser mais bem embasada e defendida, demandaria um trabalho de investigação específico.

um tiro no próprio pé): o objetivo é, antes, o de mostrar, através do exemplo orteguiano, que o humanismo crítico, o impressionismo e o personalismo, tão menosprezados pelos teóricos da literatura,71 são caminhos e abordagens alternativas que ainda podem ser muito proveitosas, principalmente para a chamada crítica militante, quer dizer, para a crítica que se ocupa do presente, das obras atuais e que, por sua própria natureza e objetivos particulares, cumpre uma função bastante distinta daquela exercida pela crítica acadêmica, que costuma se dedicar a obras cujos valores (sejam negativos ou positivos) de alguma forma já foram previamente discutidos e estabelecidos socialmente. As concepções e práticas críticas de Ortega y Gasset se conectam perfeitamente com a afirmação de que qualquer crítica tende à autobiografia – à manifestação da personalidade e da visão de mundo do crítico –, no sentido de que, subjacentes a todos os seus argumentos e interpretações, estão suas opções estéticas, políticas e éticas. Isto, claro, não significa que a subjetividade fosse seu critério único, senão que a visão pessoal do crítico se colocava sempre dramaticamente entre os elementos circunstanciais: a sutileza e profundidade do pensamento orteguiano se revelavam, creio, a partir da disposição constante de rediscutir repetidamente suas próprias crenças e pressupostos teóricos, mas sem abandonar nunca sua perspectiva individual, todas as vezes em que a realidade – sempre mais complexa do que nossos preconceitos e teorias – o colocava em conflito consigo mesmo e com suas circunstâncias.

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Para o tema da contraposição entre crítica humanista e as principais correntes de teoria literária, ver FREADMAN, R. y MILLER, S.: Re-pensando a teoria. São Paulo: Unesp, 1994; COMPAGNON, A.: O demonio da teoria. Belo Horizonte: UFMG, 1999; y ALBORG, J. L.: Sobre

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