à pesquisa de campo e nada planejado. Ainda durante a graduação no início da década de 1940 na Universidade de Princeton, o estudante de história Richard Morse passaria pela cidade que já começava a icar famosa pela intensidade e rapidez de seu crescimento. Nas férias de verão do ano de 1941, durante uma viagem que tinha como destino outros países da América Latina, Morse aproveitou a oportunidade para também conhecer a capital paulista:
Em Santos deixei o navio e fui conhecer São Paulo... A cidade logo me espantou porque era muito moderna, achei-a demasiadamente grande, interessante, mas não gostei muito: tinha tráfego demais, gente apressada correndo nas ruas...13.
É essa primeira impressão que seria posteriormente invocada como a centelha que lhe atiçou a curiosidade para o fenômeno da urbanização da cidade. Baseando-se “um pouco na intui- ção, outro tanto nas poucas leituras disponíveis na região de Nova York e na lembrança que tinha das horas passadas em São Paulo em 1941”, o historiador diria que o que o motivou a estudá-la foi a vontade de compreender a originalidade do processo urbano de uma cidade que “brotou do sol”
13 Depoimento de Morse a José Carlos Sebe Bom Mehy, A colônia brasilianista (História Oral de Vida Acadêmica), 1990, p.147.
mas que “era também muito velha”. Dupla perspectiva que o intrigava, levando-o a buscar “explicar se [São Paulo] era uma ‘Chicago da América do Sul’ ou um outro gênero urbano desconhecido”14.
O interesse de Richard Morse por uma cidade da América Latina na década de 1940, entretanto, não parece ter sido nenhuma excentricidade ou obra do acaso. Hobsbawn já mostrou como desde ins do século 19, com a modernização dos meios de transporte, as viagens se difun- diam, tornando-se comum entre as classes altas e em seguida incorporando os extratos médios15.
Para os universitários norte-americanos, a viagem às capitais europeias da cultura ocidental era a essa altura prática corrente, numa espécie de viagem de formação para jovens bem-nascidos e cul- tivados. Porém, com a Guerra no horizonte, isso se torna cada vez mais difícil e temerário, fazendo com que a ida a Paris, Londres ou Roma fosse substituída por outra, de natureza pouco diversa. Não mais o mergulho nas civilizações do Velho Mundo para reconhecer-se e tomar consciência
14 Id., p.150. Ou ainda, como diz em outra oportunidade: “Aquela coisa de São Paulo havia icado na minha mente: por que surgira aquela cidade enorme que todo o mundo dizia ser a Chicago da América do Sul, e que forças econômi- cas teriam eliminado de sua paisagem quase todos os sinais de uma tradição arquitetônica anterior?”, Helena Bomeny, “Uma Entrevista com Richard Morse”, Estudos Históricos, FGV, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989, p.77.
15 Eric Hobsbawn, “Homens a caminho”. In: A Era do Capital, São Paulo: Paz e Terra, 2002, p. 284-5. FIG.1 São Paulo em 1940: Praça da Sé com a nova catedral em constução (fotograia de Hildegard Rosenthal)
do seu próprio mundo cultural, mas o aprendizado e a construção da sua identidade a partir das diferenças e oposições em um mundo novo16. Devido a um conjunto de ações extremamente
objetivas levadas à frente pelo Estado norte-americano, a América Latina surgiu para aqueles es- tudantes como um continente a ser desbravado. Durante os anos em que estudou em Princeton, Morse viajaria para Cuba, Chile, Argentina e México, passando ainda por algumas cidades além de São Paulo, como Cidade do Panamá, Barranquila (Colômbia), Guayaquil (Equador), Lima-Callao (Peru), Antofagasta e Valparaíso (Chile), estas últimas em breves visitas durante as escalas das via- gens feitas de navio, margeando a costa da América17.
Já em Cuba, seu primeiro destino fora dos Estados Unidos, o rapaz nascido num rico subúrbio próximo à Nova York e criado na Nova Inglaterra seria completamente isgado pelo exótico mundo não-saxão. A passagem pela ilha rendeu dois breves textos publicados na revista literária da universidade18 e uma peça escrita poucos anos depois, The Narrowest Street, na qual o
historiador recém-formado, em sua primeira incursão pela icção19, narrava a vida de uma família
que vivia numa pequena calle de Havana20. Chegando à ilha em junho de 1940, logo após a eleição
16 Sobre a viagem como “formação”, cf. Rosana Suarez, “Nota sobre o conceito de Bildung (formação cultural)” in Kriterium, revista de ilosoia, Belo Horizonte, v.46, n.112, dez., 2005. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0100-512X2005000200005#nt1. Acesso 05/09/2011. A autora explora, partindo do ensaio “Bildung et Bildungsroman” de Antoine Berman, o conceito “formação” em quatro vertentes: como trabalho, como viagem, como tradução, como viagem à Antiguidade e como prática ilológica. No nosso caso, o interesse está em perceber como a viagem em si traz os elementos de formação, na medida em que ela mesma é a própria experiência da alteridade. Ora, essa experiência podia ser levada ao limite na viagem à América Latina, mais ainda que ao Velho Mundo. 17 Heloisa Pontes – ao analisar os intelectuais da Partisan Review – nos lembra que a Europa em meados do século 20 deixava de ser o centro cultural do mundo, perdendo seu posto justamente para Nova York (Cf. Heloisa Pontes, Intérpretes da metrópole. São Paulo: Edusp, 2011, p. 51-85), o que também contribui para se relativizar a importância da viagem à Europa àquela altura
18 Um deles era “The Coup in Cuba” (The Nassau Literary, Princeton, v. 100, n. 2, pp.2-4, dez., 1941). Morse foi co- -editor da revista e este número saiu inteiramente dedicado à América Latina, contendo além desse, outro artigo sobre Cuba e um sobre o Chile, espécie de reportagens sobre aqueles países, cf. Enrique Krauze, “Richard M. Morse”, Letras Libres (http://www.letraslibres.com/revista/entrevista/richard-m-morse). Acesso 30/06/2012.
19 Morse publica ainda outro texto de não icção a partir da sua experiência latino-americana, o conto “Ride in Me- xico”, publicado em dezembro de 1946 na revista Esquire.
20 Peça em um ato, publicada em Theatre Arts (Sept.), 1945, pp.523-31. Escrita enquanto servia na Guerra, a peça foi prêmio de icção num concurso para os membros das Forças Armadas. Baseada na viagem a Cuba, mesclaria ainda as experiências do autor em Santiago do Chile e México. Sobre a peça ver Dain Borges, “O naturalismo e a cidade do século 20”. In: Beatriz Domingues e Peter Blasenheim (orgs.) Código Morse: ensaios em homenagem a Richard Morse. Belo Horizonte: Ed UFMG, 2010, pp. 99-118. Borges desenvolve a partir de uma comparação com o romance Suor de Jorge Amado uma leitura que busca encontrar temas comuns a uma geração de intelectuais que lidavam em seus trabalhos
de Fulgêncio Batista (1901-1973), Morse icou por dois meses hospedado na casa de uma família remediada que não falava inglês, pondo em prática o espanhol aprendido em seu primeiro ano de faculdade. A escolha não poderia ter sido mais contrastante: da América branca e puritana dos subúrbios para o Caribe negro e sincrético; da universidade de elite norte-americana para a calle cubana. O encontro de Morse com aquela população, marcada por tradições africanas ancestrais mescladas com a cultura católica ibérica, foi uma experiência que o marcou por toda a vida21. O
fascínio com a afetividade espontânea daquele povo e o exotismo da situação vivida na juventude transparece em suas lembranças posteriores, como se nota no depoimento que o historiador deu muitos anos depois, numa espécie de balanço da sua trajetória:
Cuba foi uma revolução na minha cabeça. Estar lá era como conhecer outro planeta! Tudo nes- sa viagem me afetou e foi uma experiência tão profunda que jamais esqueço o impacto causado pelas coisas... Havia cor, cheiros, barulhos. [...] Não havia lição na Universidade, livros ou cursos que
valessem aquela imersão cultural... Fiquei perplexo comparando Cuba com os Estados Unidos: lá
aquele calor humano, a expressão da vida e aqui a neutralidade, o formalismo, a distância das pessoas, sempre tão discretas e sóbrias... Em Cuba o exagero emocional, nos Estados Unidos a racionalidade premeditada.22
com cidades em crescimento, devido a leva de migrantes que aluem para as mesmas (nesse caso, Havana e Salvador), para mostrar como estes temas ou insights são repostos ao longo dos anos em outros trabalhos de Morse que lidam com literatura e cidade.
21 Borges ressalta como Morse pouco ou nada fala na peça da americanização dos modos de vida em Cuba – a essa época intensa –, para justamente ressaltar a diferença entre as culturas hispânica e anglo-saxã, buscando incorporar as falas corriqueiras numa tradução ao pé da letra de expressões idiomáticas cubanas para o inglês. Borges, op. cit., 2010, pp. 104 ss. Nota-se portanto a “necessidade” da alteridade que ressalta Berman na viagem entendida como formação (citado por Suarez, op. cit., 2006).
22 Mehy, op. cit, p. 141, grifo meu.
FIG.2 Anúncios norte-americanos sobre Cuba nos anos 1940: imagem exotizada de apelo tropical, sol, mulheres e bebi- da oferecidos em viagens de baixo custo
Se foi nesse momento que Morse “elegeu” a América Latina como tema de estudos, não há como saber. No entanto, o que se sabe é que havia naqueles anos uma intensa política norte-americana para estreitar os laços entre os países do continente, incentivando a aproximação dos Estados Unidos aos seus vizinhos do sul, e isso não deve ser visto como uma componente me- nor nas decisões do futuro historiador acerca de seus temas de estudo. Coordenada em parte por Nelson Rockefeller (1908-1979)23, essa política teve desdobramentos importantes na Academia, na
medida em que a partir dali foram criados programas para fomentar os estudos latino-americanos por meio de amplos inanciamentos e numerosas concessões de bolsas de estudo, entre as quais a do próprio Morse para São Paulo, pelo Departamento de Estado norte-americano. Entender de modo mais preciso a forma de aproximação dos Estados Unidos em relação àqueles países mostra como o desejo de compreender a América Latina, seu povo e sua cultura por parte daqueles jovens estudantes – buscando se aproximar daquela gente em tudo distinta para compreendê-la e valorizá- -la – não surge apenas das predisposições e paixões individuais. Essa intenção se inscreve em um processo maior que extrapolou os muros das universidades e que vale a pena ser aqui recuperado.
Após a eleição de Roosevelt (1881-1945) para a presidência dos Estados Unidos em 1933, a relação daquele país com a América Latina entraria em uma nova fase, a partir do estabe- lecimento da chamada Política de Boa Vizinhança, na qual o interesse acadêmico pelo continente se inseria24. Numa espécie de declaração de conduta unilateral, tal política propunha basicamente a não intervenção direta dos Estados Unidos nos assuntos internos de cada país, sem entretanto abrir mão de uma aproximação e um domínio cultural e econômico dos seus vizinhos. Uma es-
23 Cf. James Desmond, Nelson Rockefeller. A political Biography. New York: The Macmillan Co., 1964 (sobretudo os capítulos “A Man of our Times”, pp.6-14 e “The War Years”, pp.92-113) e Elizabeth Cobbs, The Rich Neighbor Policy. Rockefeller and Kaiser in Brazil. New Haven and London: Yale University Press, 1992. Segundo esses autores, o interesse da família Rockefeller no México e em outras partes da América Latina se justiicaria pelos seus investimentos na re- gião, o que a fez por exemplo doar recursos para a Hispanic American Historical Review desde a sua fundação na década de 1910 (e é a partir de doações dos Rockefeller que a Universidade de Chicago é fundada, valeria lembrar).
24 A bibliograia norte-americana sobre o tema é extensa, cf. entre outros, Donald M. Dozer, “Partners in Wartime”. In: Are you good neighbors? Three decades of Inter-American relations 1930-1960. Gainsville: University of Florida Press, 1959, pp.109-51; Jan Knippers Black, United States penetration of Brazil. Filadelia: University of Pennsylvanya Press, 1977; Ge- rald Haines, The Americanization of Brazil. A Study of US Cold War Diplomacy in the Third World, 1945-1954. Washington: S. R. Books, 1984; David Rock, “War and postwar intersections: Latin America and United States”. In: Latin America in the forties. War and Post War Transitions. Berkeley: University of California Press, 1994, pp.15-40. Para uma visão geral sobre as ações de aproximação dentro da PBV de um ponto de vista local, cf. Gerson Moura, Estados Unidos e América Latina. São Paulo: Contexto, 1990 e Antonio Pedro Tota, Imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da Segunda
pécie de “doutrina de boas maneiras” em oposição à antiga Política do Big Stick que presidira as
ações americanas até então, que tinha como objetivo declarado divulgar a cultura norte-americana e lidar com as possíveis reações desencadeadas em cada país e, como intenção implícita, ampliar mercados mantendo sob sua tutela os demais países do continente25. Durante a Guerra, devido
ao fechamento dos mercados europeus e à necessidade dos Estados Unidos ixarem bases mi- litares no próprio continente, essa política se intensiicou notavelmente para, num movimento duplo, além de buscar “americanizar” os países vizinhos por meio de seus produtos (inclusive os culturais), criar uma imagem favorável da América Latina para os seus próprios cidadãos. Ambas as intenções congregavam-se na perspectiva de países amigos e portanto parceiros, desdobrando- -se em missões diplomáticas, comerciais e acadêmicas espalhadas por todo o continente26. Ao
identiicar o nazi-fascismo como o inimigo comum que deveria ser combatido por todos, os Estados Unidos buscavam garantir para si o abastecimento de produtos primários estratégicos, ampliando as possibilidades de intercâmbio comercial. Não apenas missões mas também convites particulares a pesquisadores e intelectuais latino-americanos para conhecerem as universidades americanas foram então feitos. É nessa perspectiva que se inserem as viagens de Erico Verissimo (1905-1975), Sergio Buarque de Holanda (1902-1982) ou Vilanova Artigas (1915-1985), exemplos da ação acadêmico-diplomática27. Mesmo Mario de Andrade, declinando do convite, dedicaria um
25 Cf. a respeito “Cultural Relations and Projecting a Favorable American Image” e “The American Way”. In: Haines, op. cit., 1984, pp.159-194.
26 Como foi o caso da Missão Cooke no Brasil, voltada para o levantamento do potencial econômico brasileiro e che- iada por especialistas da universidade (cf. Paulo Roberto de Almeida, “Os estudos sobre o Brasil nos Estados Unidos: a produção brasilianista no pós-Segunda Guerra”, Estudos Históricos, Rio de Janeiro, FGV, n. 27, 2001, pp. 31-61; p.38. (bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/download/2138/ 1277). Acesso 23/08/2011). Um bom exemplo de como se apresentava o país como parceiro comercial importante, lugar de investimento seguro para a indústria nor- te-americana, é o ilme “São Paulo, 1943”, executado pelo US Ofice of the Coordinator of Inter-American Affaires em 1944, documento importante desse esforço de aproximação e de criação de mercado para os EUA (http://www. youtube.com/watch?v=InWifglIkQ. Acesso 05/05/2009).
27 Além de divulgar o Brasil para os americanos, esses intelectuais formulariam uma imagem dos americanos para os brasileiros: Veríssimo publicou na volta um livro que relatava suas andanças pela América (Gato preto em campo de neve. Porto Alegre: Editora Globo, 1941). Sergio Buarque dedicaria à “questão americana” alguns artigos nos jornais, como “Conside- rações sobre o Americanismo” (publicado no Jornal do Comercio do Rio em 28/09/1941) e segundo Wegner, como vimos, sua obra sofre depois dessa viagem uma importante inlexão (Cf. Richard Wegner, A conquista do oeste: a fronteira na obra de Sergio Buarque de Holanda. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000). Artigas, que obtivera uma bolsa da fundação Guggenheim em 1946, entra em contato com a arquitetura moderna norte-americana e com suas experiências de ensino, visitando diversas instituições pouco anos antes da criação da própria FAU (Cf. Adriana Irigoyen, Wright e Artigas, duas viagens. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002). Intelectuais estrangeiros, mas radicados no Brasil, também gozaram destas facilidades, como por exemplo
poema – “Nova Canção Dixie” – aos bons vizinhos do norte (não sem lembrar o corte racial que
caracterizava aquela sociedade)28.
Outros episódios mais conhecidos também merecem ser mencionados de modo a se aquilatar a abrangência da ação norte-americana. Carmem Miranda (1909-1955), levada para Hollywood em 1939 e logo se tornando a artista mais bem paga do show business americano, pro-
movia naqueles anos uma espécie de popularização, e para alguns pasteurização, da música sul- -americana, “conquist[ando entretanto] a América branca como nenhum sul-americano tinha feito ou viria a fazer”29. O próprio Morse assistiu em 1939 um show da Brazilian singer em Nova York –
naquele que foi seu primeiro contato com “o Brasil” e com a “cultura brasileira”, airmando poste- riormente que “era mesmo um espetáculo deslumbrante, vivaz, alegre” que ele pudera presenciar30.
o alemão Herbert Baldus, que “convidado pelo governo norte-americano, [...] excursionou a diversas tribos de índios dos Estados do Arizona e Novo México, nos Estados Unidos, onde também visitou bibliotecas e museus” (Orlando Sampaio Silva, “O antropólogo Herbert Baldus”, Revista de Antropologia [online]. v.43, n.2, 2000, pp. 23-79. http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid =S0034-77012000000200004#4n. Acesso 04/06/2012).
28 “É a terra maravilhosa/ [...]/Onde tudo que é bom dava./Onde tudo que é rico tinha.../[...]/É a terra dos plutocra- tas,/ Palácios de cem andares,/ Você sai se faz questão,/ Mas pode icar nos ares,/ É só apertar o botão,/Que recebe tudo em latas/Pela quarta dimensão./No. I’ll never be/ In Colour Line Land/Mas por que tanta esquivança!/Lá tem boa vizinhança,/Com prisões de ouro maciço/Lá te darão bem bom lanche/E também muito bom linche,/Mas se você não é negro,/O que você tem com isso!/No. I’ll never be/In Colour Line Land/[...]”, Mario de Andrade, “Nova canção dixie” (publicado no ani versário de um ano da morte do poeta) no Correio Paulistano, 26/11/1946 (citado por Tele Ancona Lopez, Mário de Andrade: Ramais e Caminhos. São Paulo: Duas Cidades, 1972, pp. 229-30). Para Telê, Mario apresenta a América como “esperança e renovação”, porém vale-se do refrão da canção dixie (“expressão característica do povo norte-americano”) como contraponto que de forma irônica funciona como a “negação popular” delas. Devo o alerta à tese de Thiago Nicodemo.
29 Caetano Veloso, “Caricature and conqueror, pride and shame” (Trad. Robert Myers), The New York Times, 20/10/1991. Caetano airma no artigo que para aqueles que cresceram nos anos 1950, como ele, Carmem Miranda “era nossa caricatura e nossa radiograia”, apontando a ambiguidade do papel da artista para os brasileiros da sua gera- ção, entre o “orgulho” e a “vergonha”.
30 Mehy, op. cit., 1990, pp.140-1. Não deixa de ser curioso o “impacto” que Carmem Miranda tem num país que in- ventara o jazz e que nestes anos lotava as casas de shows novaiorquinas (e de outras cidades) para escutar e dançar com Louis Armstrong, Benny Goodman, e outros que “sacudiam” as plateias, das boates brancas da Broadway aos clubes negros do Harlem. O texto de Caetano acima citado, entretanto, dá pistas para compreender o papel que Carmem (ou a cultura não anglo-saxã) desempenhava naquela América, e num certo sentido colocam questões que nos fazem pensar sobre o próprio Morse nesse mundo. O compositor airma que Carmem teria se tornado “uma das personalidades formadoras da vida americana do pós-guerra, inluindo a moda e mesmo o gestual de uma geração”, e propõe a inter- pretação de que a artista conseguisse “simbolizar” de modo extremamente “competente” essa cultura outra para os americanos (ainda que sem escapar da paródia) exercendo um fascínio demasiado e duradouro cujos desdobramentos ele liga a David Byrne/Tom Zé. O ponto aqui é menos a teoria de Caetano, e mais a localização da gênese de um
No mesmo período, sob os auspícios de Nelson Rockfeller, Walt Disney (1901-1966) visitava o Brasil (além do México e da Argentina) em busca de um personagem “brasileiro” para contracenar com o Pato Donald em localidades “exóticas” como o Rio ou a Bahia31, e Orson Welles (1915-
1985) chegava ao país para ilmar o carnaval e o samba, ilme jamais completado justamente por Welles contrariar a imagem exotizada e pacíica dos brasileiros que se buscava construir por meio daquelas ações32.
Como se sabe, foi ainda nesse contexto que a arquitetura moderna brasileira teve a sua primeira “consagração” internacional, na famosa exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York em 1943. Sob a direção de Phillip Goodwin (1885-1958), curador de arquitetura da institui- ção, a mostra Brazil Builds lançaria um Brazilian Style, de certa forma contraposto ao International
Style consagrado anos antes no próprio MoMA – e posto em xeque no segundo pós-Guerra – co-
locando a arquitetura moderna brasileira em evidência33. Talvez tenha sido essa repercussão da
arquitetura brasileira nos Estados Unidos o que tenha contribuído para aproximar Morse dos ar- quitetos modernos no Brasil, levando-o a citar em seu trabalho sobre São Paulo artigos de críticos norte-americanos sobre a arquitetura brasileira. Ainda que Morse siga de perto as ideias de Lourival Gomes Machado (1917-1967) em seu ensaio “A renovação da arquitetura brasileira” publicado em 1947, deve-se notar que os textos de Kidder Smith, “The Architects and the Modern Scene” (1944); de Sachereverell Sitewll, “The Brazilian Style” (1944) e de Phillip Goodwin e Kidder Smith, “Architecture of Brazil” (1943) (curador e fotógrafo da mostra no MoMA) aparecem ao lado do texto de Lourival
para apoiar as suas impressões sobre a arquitetura moderna brasileira entrevista àqueles anos na